Pages

Saturday, August 27, 2005

Xenofobias económicas

A quantidade de contradições ideológicas vigentes (e sobrepostas) na sociedade portuguesa continua a deixar-me confuso. Mais uma notícia interessante na SIC, acerca da queda de investimento estrangeiro em Portugal.

Portugal perde para o Leste

Portugal saiu da lista dos países mais atractivos para o investimento estrangeiro. Um estudo internacional coloca a Polónia como o mais aliciante da Europa.

(...)

São muitas as empresas com vontade de mudar os negócios para Leste. Para sobreviver, Portugal e vários países da Europa ocidental terão de apostar mais na qualidade do que se produz e em áreas, por exemplo, como as novas tecnologias e serviços.


---

Parece que agora o investimento estrangeiro, afinal, já é bom e que Portugal terá que mudar para poder sobreviver. Para sobreviver! Não são estes senhores os mesmos que estão constantemente a queixar-se de que as empresas estrangeiras vêm roubar o lugar às portuguesas?

Há umas semanas via um profissional do ramo de hotelaria, indignado com o aumento do IVA. Ele não estava indignado com o imposto em si mas com a fuga de clientes para Espanha que esse mesmo aumento representava. Defendia ele que o Estado devia fazer mais por defender as empresas nacionais. Chamam a isto liberdade de mercado? Afinal quem são os proteccionistas? Já é tradição, por exemplo, ouvir a desculpa do proteccionismo espanhol que se pode ver neste artigo:

PME espanholas fogem do mercado nacional


As acusações de proteccionismo, negadas por Espanha, são antigas em Portugal. Ainda em Abril, o primeiro-ministro José Sócrates afirmava que «Portugal não tem nenhum complexo. Queremos é que o mercado espanhol se abra da mesma maneira». Nos dois países «persistem sentimentos retrógrados e proteccionistas que os Governos devem evitar», acusava Sócrates



Curioso que seja também o mesmo artigo a denunciar a queda do investimento espanhol em Portugal no ano de 2004.

A crise económica está a afastar de Portugal muitas empresas espanholas. Em dois anos, meio milhar de firmas oriundas de Espanha abandonaram o mercado nacional, sobretudo pequenas e médias.

Então não era Portugal um país de mercado aberto, contrariamente a Espanha? Em que ficamos? Se Portugal fosse mesmo um país de mercado livre não choveriam críticas cada vez que um estrangeiro compra uma empresa de grandes dimensões. Não existiriam comentários anti-espanhóis, anti-americanos ou anti-britânicos de cada vez que há um investimento importante (não fossem estes os principais investidores actuais) em Portugal. Nem sequer saltariam do banco os sindicatos tentando proteger os direitos dos trabalhadores faces aos "interesses dos capitalistas estrangeiros sem escrúpulos”. Se Espanha é um pais que se fecha assim tanto o que explica que o maior parceiro comercial português seja Espanha? Misterioso, não? Segundo os dados do CIA Factbook relativamente a Portugal, Espanha absorveu 24.8% das exportações portuguesas enquanto que 29.3% do que foi importado por Portugal veio de Espanha. Se Espanha protege o mercado como é que ¼ das exportações portuguesas vão parar a Espanha?! Isto sem contar com as empresas portugueses sedeadas em Espanha.

Outro exemplo flagrante é o do MIBEL – veja-se o seguinte artigo do Publico:

Atraso no Mibel "vai fazer bem a toda a gente"

"Ainda bem que as eleições espanholas baralharam os prazos do mercado ibério de electricidade [Mibel]." Esta não é uma frase frequentemente ouvida em Espanha, como seria de esperar, mas em Portugal.

Lurdes Ferreira esperava que o comentário viesse de Espanha mas – que surpresa (ou talvez não) – o comentário vem de Portugal. Um mercado ibérico é desejado, não surpreendentemente, por Espanha mas desdenhado por Portugal, que continua a encontrar mais razões para o proteccionismo económico. E ainda há coragem de referir Espanha?

Portugal atrai cada vez menos investimento estrangeiro devido ao seu intervencionismo estatal e à sua burocracia interna. Há umas semanas via uma outra notícia na televisão acerca de um grupo britânico que pretendia comprar uma empresa em Portugal (que até estava em processo de falência). Estes ingleses acabaram por desistir da compra devido à burocracia evidente do sistema português que só os fazia perder tempo e dinheiro. Lá se foi um potencial investimento, demonstrando, mais uma vez, que há aqui um problema de fundo extremamente grave.

E ainda há quem tenha coragem de dizer que, contrariamente a Espanha, Portugal não protege o seu mercado? Como se atrevem? O investimento cai porque as estruturas financeiras impedem as acções estrangeiras e, adicionalmente, existe uma resistência popular a tudo o que é estrangeiro. Depois admiram-se que aconteçam cenas tristes deste género.

Irlanda do Norte está a ser pesadelo para portugueses

Duas famílias de emigrantes foram atacadas em casa e tiveram de ser realojadas pela Polícia Agressões e crimes raciais na região têm vindo a crescer de dia para dia

Governo português contra «escalada de violência»

O Governo português protestou, esta sexta-feira, junto das autoridades inglesas sobre aquilo que considera ser a «escalada de violência» contra os emigrantes portugueses em Inglaterra.



Ou que a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas aconselhe os portugueses a ter cuidado quando se desloquem à Alemanha.

Condições de segurança
Propícias.
Ocorrência muito esporádica de agressões a estrangeiros, sobretudo na área da antiga República Democrática Alemã


Não é estranho ler outras situações em França, na Irlanda ou no Luxemburgo. Os exemplos são certamente condenáveis mas que autoridade moral podem ter os portugueses para se queixar do que fazem os estrangeiros se por territórios lusitanos se pensa da mesma forma?

Basta de socialismos baratos de carácter nacionalista. Queremos prosperidade e, acima de tudo, liberdade de escolha, coisa que é difícil com monopólios e cartéis a actuar sob a alçada da lei.

Post a Comment