Costuma existir um consenso generalizado de que a matemática é a rainha das ciências. Toda a minha vida me tenho oposto a essa ideia, afirmando, com grande certeza, que a física é, por sua vez, a rainha entre estas. Isto não se deve à minha relação profissional com física mas precisamente ao contrário. O meu interesse fundamental em física nasce da explicação (ou da tentativa de explicação) que dá sobre a realidade. Desde o vácuo e dos blocos que constituem o universo aos agrupamentos de galáxias.
O leitor mais interrogador perguntar-se-á: mas afinal isso não é tudo uma forma de querer colocar a física sobre um altar menosprezando as outras ciências? Pois bem, não se trata disso. A física, como todas as outras ciências exactas, nasceram do que era antigamente chamado de filosofia natural. Em termos de vocabulário actual, atrever-me-ia a dizer que, para além de terem saído do âmbito da filosofia, as ciências se afastaram efectivamente das humanidades para ser cada vez menos filosóficas e mais fundamentais na sua explicação concreta do que nos rodeia.
Na sua essência, todas as ciências exactas são parte da física, aparte da taxinomia que lhes desejemos aplicar. A biologia estuda a física dos corpos, a química a física dos componentes, a astronomia a física dos astros, a engenharia a aplicação directa de sistemas físicos, etc. Esta divisão leva a que se criem conceitos que em parte não necessitam directamente da física para ser explicados. Ninguém pensa em átomos e moléculas quando diz que a pepsina do estômago fragmenta os péptidos nem quando afirma que um ácido adicionado a uma base origina água e um sal. No entanto, quando analisados os conceitos de forma aprofundada, é necessário recorrer aos princípios básicos – dados pela física – para os explicar e daí o nascimento de ramos de ciências como a biofísica, astrofísica, biofísica, geofísica, etc.
Quanto à física em si, é indissociável da matemática, que serve de seu suporte. A matemática está presente em todas as ciências precisamente porque é a linguagem na qual está escrito o Universo, algo previamente dito por Galileu. A ciência que o sabe ler é a física, estando isso patente em todas as outras ciências como referi anteriormente. Enquanto que as outras ciências se encontram restritas a modelos tangíveis específicos, a física é indispensável para explicar o mais pequeno – mecânica quântica e flutuações do vácuo, por exemplo – e o maior, como a cosmologia e a sua relação com a teoria da relatividade geral. Um pouco como a microeconomia e a macroeconomia, o que é uma analogia ilustrativa.
Também as ciências como a economia e a sociologia são, no seu âmago, física. Afinal de contas são acerca de humanos e esses mesmos humanos são sistemas físicos. Penso que isso seja indiscutível. Embora a física da neurologia não esteja ainda desenvolvida a tal ponto que permita a matematização das teorias (razão pela qual grande parte das teorias psicológicas não utilizam “quantidades mensuráveis” – coisa que irrita muito os psicólogos quando se lhes diz) é função da física investigar esses campos e, a longo prazo, compreendê-los. Dos sistemas dinâmicos aos comportamentos estocásticos tentam-se aproximações àquilo que ainda é difícil explicar devido à complexidade inerente ao número de variáveis existentes.
No blogue Pura Economia surge agora um artigo de bastante interesse (e importância) relacionado precisamente com a interacção entre a física e economia. J.A. dá algumas ligações de outros artigos que focam precisamente o assunto da chamada econofísica. A ler, em pormenor e com grande atenção. O blogue, em geral, é igualmente recomendado.

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