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Wednesday, August 24, 2005

Ignis Fatuus


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Há certas notícias que deviam ser uma surpresa mas, na verdade, não são. Muita gente dirá, como os jornalistas gostam de frisar, “é o país que temos”, contribuindo ainda mais para uma depressão generalizada que já por si é característica.

Noticias dos últimos dias acerca dos incêndios deixam de fazer sentido. Continuam a lavrar por todo o território. Mais preocupante do que tudo isto parece ser o contentamento dos meios de comunicação nacionais (e das pessoas) ao ver que os internacionais põem os olhos no que está a acontecer. Ainda hoje a minha família me dizia que “os estrangeiros mandaram jornalistas para cá”, com uma espécie de nostalgia nos olhos. É deprimente ver o complexo de inferioridade de toda esta gente. Até os incêndios servem como remédio para a baixa auto-estima, de certa forma. Veja-se o PortugalDiário:

A imprensa internacional tem estado a dar ampla cobertura aos incêndios em Portugal, que mereceram destaque de primeiras páginas em vários jornais e levaram o canal britânico BBC a enviar uma equipa para reportar o drama dos fogos florestais.

Na imprensa britânica, os incêndios que grassam em Portugal são hoje o destaque do dia, com as imagens das chamas a serem constantemente transmitidas pelos três canais de televisão nacionais.

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Na imprensa, todos os títulos já fizeram referência aos fogos em Portugal, tendo o diário Times, um dos jornais de referência com mais audiência do país, suplantado a concorrência com uma reportagem de página inteira publicada segunda-feira com o título "Uma Nação em chamas pede por ajuda para combater as chamas".

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À semelhança do que aconteceu nos últimos dias, o tema dos incêndios em Portugal merece hoje destaque de primeira página em vários jornais nacionais, incluindo o El Pais, que nota em título que "o fogo avança em Portugal", e que afirma, em editorial sobre o tema, que continua a haver muitos fogos em Portugal e Espanha porque "há muitos incendiários soltos".

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O La Razon, por seu lado, marca os fogos com uma imagem de um homem com uma mangueira a combater as chamas, afirmando que Portugal está "preso dos incêndios", tendo sido "forçado a solicitar apoio europeu".

O drama dos fogos em Portugal tem estado a merecer também a atenção dos meios de comunicação social alemães. Os telejornais transmitem frequentemente imagens dos incêndios mais graves, e alguns jornais chamaram o assunto à primeira página.
É o caso do Tagesspiegel, matutino de Berlim, que na sua edição de hoje abre com uma foto de um helicóptero a tentar combater as chamas em Abrantes, sob o título "Portugal está a arder".
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Os telejornais dos diversos canais públicos e privados alemães têm referido sempre a catástrofe dos fogos em Portugal, nos últimos dias, e só as graves inundações na Baviera fizeram o tema passar para um plano mais secundário, desde o fim-de-semana.
Os fogos que castigam Portugal têm sido destacados igualmente nos meios de comunicação social do Brasil, que estão a divulgar a luta travada pelos bombeiros e pela população contra as dezenas de incêndios.
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Que macabro orgulho subliminar é este, presente em todo o texto? É comum ver-se disto. Não é só o PortugalDiário, são os jornais em geral e os canais de televisão que já fazem o mesmo cada vez que Espanha refere assuntos políticos portugueses. De cada vez que Inglaterra fala da Casa Pia ou de cada vez que a Alemanha se digna (diriam eles) a comentar a economia portuguesa. Diziam-me há uns tempos que a NASA tinha publicado fotos de satélite sobre os incêndios em Portugal e depois, sublinhavam – “a NASA!”. Portugal arde de lés a lés mas o facto mais relevante (que serve de consolo para muitos) é o de que o nome de Portugal aparece nas manchetes internacionais. “Falam de nós no El País, hoje!”, “Hoje falaram de nós no Der Spiegel!”, “estava a ver a CNN, acreditas que falaram em nós? Eles disseram Portugal!”. A esta necessidade (e aparente surpresa) adiciona-se a outra necessidade de obter figuras ou ídolos sobre os quais projectar a heroicidade (inconscientemente inexistente) lusitana. Veja-se por exemplo o destaque que o PortugalDiário deu às fotos dos bombeiros que eram usadas pelos outros jornais. Veja-se ainda, como outro exemplo, a festa que se fez em torno de Tiago Monteiro que se transformou num autêntico herói nacional após ficar em 3º lugar numa corrida em que apenas participaram 6 carros. Este tema – da sociologia portuguesa no contexto internacional – é muito longo e ficará, também, para outra ocasião.

Com toda esta atitude surrealista perante os problemas, as notícias quase parecem ser produzidas para criar esse efeito. Os telejornais sensacionalistas da RTP, SIC e TVI que se têm visto desde 2003, o ano em que arderam quase 500 mil hectares, são de deixar uma pessoa revoltada, frustrada e impressionada. Contudo, parece que isto não é só um método de divulgação mas sim um sedativo para a crise (não económica mas) sociológica portuguesa. Em que mórbido país se observaria mais este comportamento? Costuma dizer-se dos franceses, que são chauvinistas e arrogantes mas sinceramente é de duvidar que o Le Monde Diplomatique e o Le Figaro dediquem as suas páginas a falar das referências internacionais que lhes são feitas. Isto é um pouco uma manifestação da síndrome Technorati dos blogues – quando as pessoas já não falam de assuntos que lhes interessam mas sim dos assuntos que comentam aqueles que lhe deram uma ligação – o que revela, na imprensa portuguesa, uma falta de capacidade para dar a conhecer os tópicos que realmente importam. As verdadeiras notícias do que acontece por aí fora nunca chegam a tornar-se bombas sensacionalistas porque já há uma outra síndrome – a de Mitrídates – que permite que as imagens dos incêndios se observem com relativa aceitação e indiferença. Definitivamente, não. O caso português não tem paralelo com o francês. Os franceses falam de si próprios o tempo inteiro porque se consideram os melhores. Se falam dos outros é para criticar (veja-se o caso do sentimento anglo-saxónico, anti-espanhol e, em muitos casos, anti-português) enquanto que os portugueses neste campo são mais paradoxais. Os portugueses falam de si mesmos, através das palavras dos outros, para se convencerem, com muita dificuldade, de que não são inferiores. No caso das referências jornalísticas, de que são dignos de ser mencionados por estrangeiros.

O grande resultado de tudo isto é que as coisas importantes ficam dentro da gaveta, sem se mexer, sem se tocar, dando lugar à continuidade do sistema. Esta incapacidade de mudar transforma-se na própria dinâmica que origina o aspecto kafkiano dos paraísos institucionais em Portugal. São estas incapacidades, aliadas ao tal efeito de Mitrídates, que explicam a continuidade das situações inaceitáveis.

Bombeiros à espera nos quartéis enquanto o país está a arder

Associação afirma que «há bombeiros disponíveis à espera de serem chamados». MAI responsabiliza as autarquias «que devem disponibilizar os efectivos». Bombeiros acusam Protecção Civil de «má coordenação» porque há corporações do Norte a combater fogos no Centro e vice-versa

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O responsável explica que «os sapadores e os bombeiros municipais são da responsabilidade das câmaras, e só podem sair dos quartéis quando chamados pela Protecção Civil e depois de terem autorização dos presidentes de câmara»

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Este domingo, em declarações aos jornalistas, António Costa, ministro da Administração interna afirmou que «a maior carência actualmente no combate aos fogos são os meios humanos», e disse que «o efectivo está esticado até ao limite».

Contactado pelo PortugalDiário, o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC) não quis comentar esta disparidade de posições, afirmou apenas que o ministro da Administração Interna já se tem pronunciado sobre a questão. Ao PortugalDiário, o Ministério da Administração Interna remeteu a responsabilidade para as autarquias, afirmando que «devem ser as câmaras a dizer se há bombeiros nos quartéis, e porquê, já que são elas as responsáveis por estas corporações».
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Outro comentário escandaloso é apontado pelo programa Nós por cá da SIC:

21 de Julho foi um dos piores dias de incêndios em Portugal. Sobretudo no centro do país. Esse foi também o dia escolhido pelo ministro da Administração Interna para sobrevoar os locais mais atingidos e reunir com os comandantes distritais envolvidos no combate aos fogos.
A meio da tarde, desceu em Ferreira do Zêzere, onde lavrava um grande incêndio.

Foi nessa altura que António Costa disse que os meios áereos [sic] não chegavam para as encomendas.
Acontece que o ministro viajou num dos dois helicópteros do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil. Um Bell 212, um dos dois únicos aparelhos que estão ao serviço dos Bombeiros 24 horas por dia, 365 dias por ano, com capacidade para combater fogos.

Ou seja, enquanto era anunciado que o Estado já iria ter de pagar horas extraordinárias para conseguir ter no ar mais meios áereos [sic], o helicóptero dos Serviço Nacional de Bombeiros andava às voltas com o ministro.

Mas tanto o gabinete do ministro como o Serviço Nacional de Bombeiros alegam que se assim foi é porque o helicóptero não fez falta.

É difícil entender que um helicóptero preparado para apagar fogos e que está sempre ao dispor dos bombeiros não tenha feito falta nesse dia. Nesse dia em que, só como exemplo, estava longe de ser controlado o incêndio que começou em Seia e durante seis dias se alastrou a cinco concelhos até ao Fundão.
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Mas entre reis e rainhas da comunicação social, tudo isto passa despercebido. Assim como todas as noticias importantes. Não só passam despercebidas aos meios mas também às pessoas. Aliás, que importa tudo isto se os britânicos, os franceses, os espanhóis, os alemães e até os americanos (!) falam de Portugal? Isso sim, obviamente, é a verdadeira notícia.
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