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Tuesday, September 06, 2005

Katrina e o anti-americanismo III

Em virtude dos últimos acontecimentos nos EUA denota-se um problema muito grande no resto do mundo. Percebe-se que as pessoas que não são americanas continuam a ver os EUA como se fossem um deus imbatível, intangível e intocável. Acabam depois por se surpreender pela força das imagens e pelos números da tragédia porque viam a “América” como um colosso inabalável.

O principal erro reside nessa crença. O segundo erro mais importante demonstra-se na inveja e no contentamento com o sofrimento dos outros. Por toda a Europa se observaram reacções de regozijo com o sucedido. Para justificar a sua alegria com a catástrofe utilizaram-se argumentações falaciosos baseados na raiva ideológica.

“Os americanos invadiram o Iraque, logo é bem feito”

“Os americanos não cumpriram o Protocolo de Quioto, é bem feito”

“Eles têm a mania que são os maiores, é bem feito que é para aprenderem”

“Têm a mania que são os polícias do mundo e isto acontece-lhes lá, é bem feito”

Estas justificações, típicas de um activista palestiniano, são repugnantes. Já todos percebemos que o Katrina foi devastador. Os estados do sul dos EUA costumam ter vários furacões por mês, o que explica a aparente passividade com que as coisas foram tomadas. Contudo, dias antes, avisaram-se as pessoas de que deviam retirar porque existia risco de inundação. Quem ficou para trás – dizem os sabichões, porque eram todos pobres e não tinham forma de sair – caem na contradição de depois dizer que é bem feito porque os EUA são um país rico. Se os EUA são um país rico e é bem feito então o que explica que haja pobres? Se os mesmos sabichões intelectuais da política assumirem que afinal há pobres então dirão que a disparidade económica nos EUA é muito superior à dos países europeus, afirmando que nos EUA só há estados ricos e depois há os estados pobres, o que é puramente falso. Segundo este estudo publicado pela Timbro em 2004 (obrigado ao Jorge Valín pela ligação) qualquer país europeu – à excepção do Luxemburgo – estaria entre os estados americanos mais pobres. É curioso ver a posição de Portugal que no estudo se encontra mesmo em último lugar, atrás de TODOS os estados americanos e europeus. Louisiana encontra-se a meio da tabela, quase ao nível médio nos EUA. Segundo esta notícia publicada no DN, NO tem 67% de população negra e 33% de pobreza. Logo, à partida, pelo menos metade da população negra não é pobre, assumindo que não existem outras “raças” pobres. A verdade é que toda a gente também viu imagens de “brancos” afectadas pelo desastre mas as cadeias televisivas preferiram, evidentemente, usar a imagem dos negros para oferecer mais impacto, não fossem este um tema de constante debate (histórico) nos EUA.

Outro dos aspectos relevantes é a definição de pobreza nos EUA, que pode ser consultada aqui.

Os números para 2004 podem ser visto aqui.

Como se pode ver a pobreza começa a ser delineada com um salário quase duas vezes superior ai salário mínimo em Portugal.

O outro factor que se torna extremamente importante – mencionada pelo estudo da Timbro – é o seguinte: os pobres dos países mais ricos vivem melhor do que os pobres dos países mais pobres, como pode ser verificado na página 21.

3.4 It is better being poor in a rich country than in a poor one


Poverty is a highly relative concept. As we saw in the preceding section, for example, 40 per cent of all Swedish households would rank among low-income households in the USA, and an even greater number in the poorer European countries would be classed as low income earnings by the American definition. In an affluent economy, in other words, it is not unlikely that those perceived as poor in an international perspective are relatively well off. The media image of the American poor is that they have great difficulties to contend with, that they are dossers, junkies and in various ways marginalised. There are of course such groups in the USA, and they are relatively large, but – and this is an important “but” – such groups exist in European countries too. There is also another image of poverty in the USA, namely that the great majority of those considered to be poor have a relatively good material standard of living. Examples are given below.


First of all, the percentage of poor people in the USA has diminished over time, concurrently with the growth of the American economy; see Table 3:1. In 1959, for example, 22 per cent of all Americans were living below the then poverty line. Today only 12 per cent are living below the present-day poverty line. Things have also improved for the black population of the USA, whereas for Hispanics the poverty percentage has changed little since 1972.


What does it mean to be poor in the USA? Major living standard surveys carried out in the USA at regular intervals show the poor to have a surprisingly high standard of living; see Table 3:2. A large proportion own their homes and have one or more cars. Domestic appliances of different kinds are also relatively common, as are one or more TV sets complete with video or DVD. Material prosperity, in other words, is high and not associated with the material standard of living which many people in Europe probably associate with poverty. Good economic development, in other words, results in even poor people being relatively well off. Quite simply, it is better to be poor in a rich country than in a poor one.

O mais vergonhoso nem sequer é que se debatam argumentos relativamente ao racismo e à questão da pobreza. Nem sequer que se discutam as falhas do sistema – que obviamente se deram (haveria, no entanto, algum outro local do mundo preparado para tal catástrofe?) mas sim que se limite a um sensacionalismo arrogante que permite que se façam perguntar completamente descabidas como a que se via há dias no portal do Sapo:

Votação
O que se passa em Nova Orleães é humilhante para os EUA?

Qual é o interesse repentino e descabido dos meios de comunicação social portugueses pelas questões politicas norte-americanas – como a responsabilização do governo federal? As declarações do Mayor (democrata) têm sido utilizadas ad nauseam pelos canais de televisão para demonstrar “inquestionavelmente” que a culpa é do governo federal. Mas talvez isso engane apenas os europeus em geral, e os portugueses em particular? Ao contrário de Portugal, os EUA são um país descentralizado. Se há alguém que culpar inicialmente é o governo estadual por não ter prevenido a situação anteriormente (como se um Estado alguma vez o conseguisse). O Brainstormz d’O Insurgente apontava, há já vários dias, um estudo publicado no von Mises Institute cuja leitura também recomendo. O João Miranda do Blasfémias afirmou uma coisa que também me passou pela cabeça enquanto lia as notícias da catástrofe:

“Se os portugueses fossem tão exigentes com os políticos portugueses como com os políticos americanos, Portugal seria um país bem mais desenvolvido.”


Estendo o comentário de JM aos meios de imprensa, que dificilmente criticam o estilo político português (aliás, apoiam todas as formas de estatismo) mas que se tornam incrivelmente lancinantes aquando de assuntos relativos às políticas externas e internas americanas. Então e que tal começar a pedir responsabilidades políticas pelos incêndios que devastam o país? E que tal pedirem responsabilidade pela quantidade de gastos inúteis do governo? E pelos investimentos públicos sem qualquer resultado visível? E pela falta de qualidade do ensino, nomeadamente o superior? O aumento constante dos impostos? As bases de dados que o governo deseja criar para controlar os cidadãos? E, embora seja pedir muito, pelo proteccionismo estatal que a todos prejudica?

Não. A imprensa portuguesa prefere o sensacionalismo. Prefere o jogo das emoções e a propagação da cultura de destruição. Mas acobarda-se. Aponta o dedo aos americanos (ou ao governo americano? Ainda não se compreendeu, se calhar os canais de televisão até são todos liberais) e gera discussões em torno das responsabilidades, etc. Já lhes ocorreu por acaso que também há assuntos de extrema relevância que deviam ser discutidos, além da telenovela das presidenciais? Irónico que sejam estes mesmos pioneiros do estatismo nacionalista os primeiros a dar uma prova tão ridícula de “globalização” desnecessária e absurda.

A blogosfera assume cada vez mais o papel de imprensa do futuro.
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