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Thursday, January 05, 2006

Grunhidos na bruma III

(cont.)

7.

* O direito de propriedade é um direito natural. Se um desconhecido entrar em minha casa, certamente pensarei que é um ladrão porque ele estará em minha propriedade sem a minha permissão ou consentimento, não o conhecendo eu de lado nenhum. A menos que ele esclareça rapidamente a situação, não terei outras razões para não considerar que se trata de uma invasão de propriedade. Se eu lhe pedir a si que me adicione como administrador do seu blogue qual será a sua reacção? [Recorde que sendo administrador do blogue o poderia retirar da lista de colaboradores]


* Essa teoria do comunismo primitivo é muito interessante mas confunde colectivização com cooperação. O facto de que os bens fossem escassos, forçando as pessoas a colaborar com maior proximidade, não significa que a noção de propriedade privada não existisse. À semelhança de qualquer outra sociedade, estas tribos, provavelmente, funcionavam como uma família em que cada membro tenta fazer a sua parte para manter a sua subsistência e a do grupo, recebendo em troca o fruto do trabalho produzido pelos outros. Não passam de meros contratos. Todavia, dificilmente podemos esperar que se a tribo B tentasse roubar o stock de carne (assumindo que há um) da tribo A, esta não o defendesse com unhas e dentes. Extrapolar das difíceis condições de sobrevivência dos humanos primitivos que o direito de propriedade não existe é obra. Só que fazê-lo de uma forma tão simplista deixa que aspectos como a impossibilidade de ter um pensamento uniforme em todos os seres, a escassez de recursos, e a própria necessidade e vontade em estabelecer contratos de mútua cooperação com os restantes indivíduos não sejam tomados em devida conta.


* A maior prova de que a social-democracia não respeita o direito de propriedade é o facto de que o não-pagamento de impostos constitui um crime legal. Se eu decidir não pagar IRS, IRC ou me recusar a pagar a taxa de IVA que acresce ao valor de cada produto, arrisco-me a passar a ver o sol aos quadradinhos. Os impostos funcionam, sim. Mas com uma pistola apontada à cabeça.


* Quanto à minarquia, eu não disse que ela respeitava inteiramente os direitos de propriedade. A outra questão, relativa aos neoliberais, terá de lhes ser feita a eles. Ainda assim, não compreendo como é que conclui tão habilmente que forças policiais e militares não podem coexistir com um total respeito pela propriedade privada.


8.

* Sim, numa sociedade liberal está. Volta a confundir novamente liberalismo com autoritarismo. O liberalismo é precisamente acerca da ausência de controlo, nomeadamente dos meios de comunicação. Cada cidadão é perfeitamente livre de emitir a sua opinião. Cada cidadão ou grupo de cidadãos é perfeitamente livre para criar uma entidade de imprensa que divulgue as suas opiniões. Essa coisa de "tudo controlado por [inserir grupo social aqui]" apenas faz sentido em locais onde a liberdade de imprensa é restrita, ou seja, em países de tendências não-liberais. O mesmo se aplica à crítica relacionada com o monocromatismo e uniformidade da sociedade. Esse nunca pode existir. Incrivelmente, a igualdade (completamente aberta a interpretações) é uma das grandes bandeiras da esquerda por isso, acho que está a criticar as posições políticas erradas.

* O espírito economicista, que parece ser criticado com essa afirmação do "lucro e propriedade", é fruto daqueles que vêem o ser humano como um número. Ora, muitos liberais não vêem o ser humano como um número nem são eficientistas e/ou economicistas. Se o fossem, provavelmente defendiam a clonagem ilimitada de seres humanos para ter mão-de-obra apta para a escravatura a troco de pão e água. Não há forma mais fácil de aumentar a produtividade.

* Criticar a idealização de um hipotético regime liberal para depois falar em poder absoluto de forma a concluir que se trata de uma utopia muito arduamente pode constituir uma argumentação válida. Poder absoluto e liberal não quadram nada bem.

9.

* Trocar 90% por 98% a meio de uma piada é como começar a contar uma anedota de loiras, acabando por dizer a meio que ela era morena. E no fim que era ruiva.

* Essa teoria sua de que os media portugueses são liberais é interessante. Devo confessar que nunca vi liberais tão estatistas na minha vida.

* Não sei se o Rui é grunho mas ao menos o seu blogue é. O contexto da minha outra resposta foi precisamente esse. O Rui também não citou o meu nome ao longo da sua crítica mas sim o nome do meu blogue. De qualquer modo, se se assumir definitivamente como grunho, diga-me. Esta discussão revelar-se-á completamente inútil.

10.

* Se as multinacionais praticam métodos de dumping, isso não é benéfico para os consumidores que passam a dispor indirectamente de maior poder de compra, devido aos preços mais baixos? Tendo mais dinheiro disponível, há maior facilidade em adquirir outros bens (o que representa um investimento directo) provenientes de outras companhias. A concorrência destas multinacionais poderá sempre baixar os seus preços de forma a conseguir competir com as suas maiores rivais. A única razão para que este mecanismo não funcione é a existência, como eu dizia, por exemplo, de um salário mínimo ou de leis laborais rígidas. Num determinado local, mesmo que os custos empresariais necessitassem de ser reduzidos, o ordenado recebido por cada um dos trabalhadores da empresa apenas representaria quão valorizada é a sua actividade no mercado de trabalho. Um género de mecanismo que não tome isto por natural, acabará por dar origem à falência de diversas empresas, já que é impossível manter os custos quando há mais despesa do que lucro. O que a mim me parece é que o B. (adopto a mesma nomenclatura) não é um país nada liberal.

* A transferência destes serviços para a China/Índia/Cabo Verde/Inglaterra (interessante colocar a Inglaterra neste grupo) parece-me perfeitamente natural e aceitável. Fala-me de exemplos relativamente à IBM, Microsoft, BMW, PT, etc. Agora imagine os custos de tudo isto se estes componentes de hardware, software, etc. fossem produzidos em mercados europeus, por exemplo, com todo o custo socialista que isso acarreta. Os computadores e todos os outros produtos de tecnologia estariam acessíveis apenas a um grupo muito restrito. Não sei se já reparou mas todo este avanço tecnológico aumenta as possibilidades de emprego. A redução de todos estes custos de produção beneficia o consumidor que, a um preço extremamente baixo, pode actualmente fornecer-se com componentes electrónicos que há 5 anos atrás nem sequer existiam. As sociedades evoluem. Na sua teoria megalómana da redução do poder de compra, esquece-se de que há trabalhos que são sempre necessários localmente e que uma sociedade evolui no sentido da especialização da mão-de-obra à medida que os seus cidadãos possuem cada vez mais qualificações, o que gera muito mais oportunidades de emprego.

* A deslocalização das empresas para solo estrangeiro tem como efeito primário a redução dos custos produtivos e a diminuição dos níveis de pobreza do local onde a multinacional se decidiu instalar. Muita gente acha condenável que se ponham crianças a trabalhar nos países subdesenvolvidos. Isso pode facilmente ser resolvido. Retiramos todas estas companhias dos países que estão a ser "explorados" e passamos a ter produtos 100 vezes mais caros (a grade maioria de nós não poderia trabalhar sequer) e os empregados destas empresas passariam a sobreviver novamente da agricultura de subsistência, como nos bons tempos neolíticos. Fica resolvido o problema das deslocalizações, a custo de recessão económica e continuação da pobreza extrema. Que importa isso?

* Ainda assim, imaginando, como diz o Rui, que as pessoas deixavam de ter dinheiro para suportar tais produtos, a empresa passaria a não ter grande razão de existir porque a produção em massa tem precisamente como objectivo chegar a um maior número de gente. Observar-se-ia a uma queda brusca dos preços ou então, à extinção de uma empresa que se tinha tornado desnecessária e inapta a competir no mercado. No entanto, se nesses taís países onde agora só haveria desemprego (Europa e EUA, presumo), talvez as pessoas devessem reconsiderar o valor pelo qual estão dispostas a trabalhar. A grande falha do seu raciocínio é considerar que a deslocalização cria desemprego mas esquecer de colocar na equação o facto de que a importação de bens que valorizamos mais, a um custo menor, gera uma maior acumulação de capital e, a partir daí, novas e melhores possibilidades de investimento, o que, a seu tempo, se transformará em oferta de emprego.

* Se, na sua teoria, há cada vez mais desempregados na Europa e nos EUA, o que os impossibilita de comprar os produtos gerados pelas multinacionais, que razão o leva a dizer que as multinacionais ficarão cada vez mais prósperas?

11.

* Uma resposta satírica a uma crónica satírica teria ficado mal. Logo, optei, como é possível ver, por optar pela via do menor sarcasmo possível.

* Eu até acho que teve mais piada ter dito metros quadrados. Eu, ao menos, sorri ao imaginar uma área de gás. Se não queria ter usado unidade de capacidade, podia ter usado de volume. São igualmente válidas. 1 litro (l) = 1 decímetro cúbico (dm^3).

* Não se exceda com os orgulhos pessoais, eu sou apenas um leitor atento aos detalhes.

12.

* Isso significa que, por analogia, a minha resposta se encontra ao nível de uma tese de mestrado/doutoramento? Obrigado pelo elogio.

* Os blasfemos costumam usar argumentação lógica, que é coisa que normalmente escasseia bastante. Não sei onde é que o Rui a viu como insulto e reveladora de intolerância. Espero que o facto de que tenham uma "opinião" diferente da sua não o leve a dizer isso, como o fez comigo. Em particular, o João Miranda tem uma paciência infinita.

* Não entendi se a segunda parte era dirigida a mim ou aos blasfemos.

* Alguém lhe disse que não tinha o seu direito a expressar-se livremente? O facto de que o critique(mos) impede-o de escrever ou opinar? Tentei apoderar-me (ou tentaram apoderar-se) do seu blogue para impedir a possibilidade de liberdade de expressão que lhe é fornecida pelo Blogger? Porque se preocupa tanto como o seu direito de expressão se acha que o direito de propriedade não é natural?

Já agora, caro Rui. É liberal, mesmo, sem aspas. Não é "liberal".
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