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Monday, February 20, 2006

Querem tirar-nos os sapatos

UE vai impor taxas de 20% sobre calçado chinês e vietnamita

"A União Europeia vai impor, a partir de Abril, taxas de importação no valor de 20% sobre algum calçado de pele proveniente da China e Vietname, de forma a evitar que aquele tipo calçado seja vendido abaixo do custo nos mercados comunitários.

A UE, no que ano passado importou 120 milhões de pares de sapatos do Vietname e 95 milhões de pares da China, no montante de 5 mil milhões de euros, referiu que vai impor tarifas crescentes durante seis meses, para um máximo de cerca de 20% do seu valor. A China ameaçou retaliar se o comissário europeu do Comércio, Peter Mandelson, impuser estas taxas adicionais.

«Esta é uma medida muito hostil para o consumidor e será um encargo especialmente pesado para famílias com baixos rendimentos, bem como para ‘traders’, importadores e retalhistas», disse Ralph Kamphoener, conselheiro comercial na EuroCommerce, que representa as empresas europeias que empregam mais de 22 milhões de pessoas na UE.

Ao fasear estas taxas a partir de 7 de Abril, a UE espera assim evitar o tipo de bloqueios à distribuição que ocorreu quando a União Europeia limitou as importações de têxteis chineses, no ano passado"
(via Causa Liberal)

Diz-se que a intenção da UE é evitar os bloqueios à distribuição como o que sucedeu no ano passado. Isto não deixa de ser extremamente interessante já que é o limite imposto pela própria UE que causa tais problemas. Se não existisse uma imposição de um limite de importações, não existiria bloqueio nenhum.

As verdadeiras razões por trás desta decisão são óbvias. Apesar de a taxa adicional a ser cobrada proavelmente reduzir as vendas, continuará a existir uma quantidade de produtos a "implorar" para ser taxada e nós já sabemos como os governos gostam de encontrar formas de financiamento. Um imposto de 20% adicionado ao IVA certamente servirá para mais uns Rolls Royce, requisito básico de qualquer elite administrativa que se preze.

A medida agradará também aos sindicatos, aos produtores e trabalhadores da indústria de calçado que julgam pertencer a uma economia estática em que apenas existe a relação entre eles e os seus potenciais consumidores. Estes serão, portanto, forçados por vias económicas, a consumir preferencialmente os seus produtos quando necessário. Em toda esta situação se vislumbram duas tendências constantes, prejudiciais e, infelizmente, de interesse mútuo coordenável.

Os empregados da indústria na Europa exercem um trabalho cujo valor está claramente acima do do mercado global. Como é um trabalho que exige pouca qualificação profissional, a mão-de-obra disponível é muito maior. Uma vez que a Europa é um dos locais onde a especialização técnica atingiu um nível mais elevado, estes empregos tornaram-se cada vez menos comuns ao longo do tempo, comparando, por exemplo, com os séculos anteriores em que existia uma percentagem muito maior da população a partir de onde se escolhiam os operários. O que acontece aqui é que os actuais trabalhadores desta indústria desejam preservar o seu status quo, impedindo outros - chineses e vietnamitas, no caso - de o adquirir. Estas pessoas não desejam obter um emprego que lhes exija maiores qualificações porque isso implica um maior esforço do que aquele a que elas estão dispostas a fazer e não desejam adaptar-se a um mundo (e, logo, uma economia) dinâmico.

Os processos económicos não funcionam assim, para qualquer dos efeitos. Seria bom que pudéssemos ter o nosso emprego eternamente garantido quando existe mais gente que também o pode e/ou deseja obter. A situação assemelha-se a um advogado que exige que as universidades da sua cidade deixem de licenciar novos estudantes em advocacia porque ele pensa que o mercado já está saturado e isso reduz as suas possibilidades de ser bem sucedido, ainda para mais quando os novos candidatos têm menos 20 anos do que ele. Infelizmente para as suas intenções, as outras pessoas também têm o direito de exercer advocacia.

A outra tendência é a dos empresários já instalados que esquecem o âmbito geral da economia em que estão embebidos. Desejam manter o seu lucro, através do mercado que possuem actualmente e evitando a competição externa. Não querem inovar porque isso requer investimento e outras adversidades, preferindo manter-se numa redoma fechada em que podem ter as suas vendas garantidas sem qualquer influência externa. Daqui se entende a reacção de quase todos os empresários ao saber que há um novo player no seu sector.

Por culpa da legislação e dos sindicatos, estas reacções são também particularmente fomentadas já que um empregador não pode pagar um salário ou benefícios extra que representem o seu verdadeiro valor de mercado. As conquências resultantes acabam por ser sempre as mesmas em todos os países. Socialismo gera mais socialismo. Como não há liberdade a nível da contratação laboral, instalam-se interesses sindicais. Como o mercado é protegido, instalam-se interesses empresariais. Como as pessoas já estão habituadas, o Estado não se coibe em sugerir outro imposto de forma a satisfazer os interesses organizados e até a lucrar com isso.

E quem defende os interesses pessoais de cada um de nós nesta questão da indústria do calçado?
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