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Thursday, October 27, 2005

CDS e a crise

O LAS aponta aqui a sua avaliação da situação actual e do possível papel do CDS em tudo isto. É para muitos evidente que na verdade não existe grande diferença entre o PS e o PSD. Para dizer a verdade, com a campanha que Marques Mendes tem feito (e o consequente apoio do aparelho partidário embora este não gire muito em torna da sua figura) demonstra-se a ideologia crua da social-democracia. Qualquer coisa serve para reclamar "direitos" para os cidadãos quando estes nem sequer são justificáveis.


É óbvio que a grande maioria das críticas tem a intenção única de fazer oposição cerrada ao governo em quaisquer medidas tomadas mas, embora já nos devêssemos ter habituado, é sempre algo deprimente ver o PSD a defender constantemente a continuidade inviável do regime. E é deprimente ver que se dizem ser de direita. Mas se se dizem de direita, ao menos que digam que o capitalismo é um sistema que não consta do eixo “esquerda-direita” para que não confundam as pessoas e propiciem ainda mais distorções ideológicas.


O PS não foge a esta regra, exagerando ainda mais nas críticas quando se dá a situação contrária. Talvez essa seja a maior diferença até porque já pensei que, por uma razão de lógica, Sócrates deveria ser do PSD e Marques Mendes do PS. Por todas estas razões, chamar-lhes “bloco central”, na maior parte das vezes, não constitui um erro mas sim uma constatação dos factos. A única diferença para além disto é que o PS se diz de esquerda e é menos socialmente conservador. De resto, economicamente, um governo PS/PSD entender-se-ia quase na perfeição se não estivessem cegos pela competição entre os dois partidos. As críticas que estes lançam mutuamente não se devem geralmente a guerras ideológicas mas a conflitos de poder. Cada um tenta à sua maneira alcançar o troféu oferecido pelo regime democrático utilizando o welfare state e tácticas populistas como argumento.


Como diz o LAS de forma implícita, provavelmente o CDS teria aqui a sua oportunidade de ouro para sair como triunfador, vencendo o marasmo económico que cada vez mais se avizinha, não só em Portugal como na Europa, gerado pela implosão do Estado social. O Estado tem criado todas estas expectativas e continua a alimentá-las indefinidamente. Observámos o que aconteceu na Alemanha, que enfrenta uma situação de crise e, ainda assim, esta mostrou os eleitores a refugiar-se na crença do decadente Estado de bem-estar, apesar de que seja evidente que a situação apenas os arrasta para algo ainda mais negro.


A escolha é entre uma quebra rápida nos direitos adquiridos, subsídios estatais, etc. - para que se melhore a ritmo relativamente crescente e constante - e uma política de manutenção das condições actuais piorando, muito provavelmente, aquilo que já se sente de momento, sem perspectivas de uma melhoria futura e prolongando a crise.


Este último processo é o mais penoso e parece ser aquele que as pessoas preferem maioritariamente escolher, na minha opinião, por falta de informação. É necessário combater este problema e, neste ponto, concordo inteiramente com o André Abrantes Amaral.


Por essa mesma razão acredito que é preciso levar a informação às pessoas. Não se trata de uma mudança de mentalidades como alguns dizem erradamente mas sim uma consciencialização da realidade. Falar em mudança de mentalidades é quase sugerir uma engenharia social que “modifique” as pessoas e cair no mesmo erro dos marxistas quando estes afirmam que as revoluções comunistas não funcionaram porque as “mentalidades não estavam preparadas”. Não há que preparar mentalidades nenhumas. Há, sim, que fazer com que as pessoas entendam a insustentabilidade do sistema corrente e da violação dos direitos que este mesmo representa. Há que fazê-las entender que apenas os próprios indivíduos podem ser responsáveis pelas suas acções, de forma a que a generalidade recuse a necessidade de um estatismo que constantemente interfere na esfera privada e restringe os direitos mais básicos. Há que fazê-las compreender a necessidade, não de um governo liberal, mas de uma sociedade civil liberal em si mesma, uma sociedade em que as pessoas não coloquem os seus problemas nos ombros dos restantes. Não há fórmula mágica para a resolução dos problemas e o liberalismo não salva ninguém. O mundo não é perfeito, o liberalismo também não. Mas, certamente, é a forma mais justa e eficiente de uma sociedade se gerir a si mesma sem que seja a própria sociedade a gerir os indivíduos e sem que uma preponderância socialista persista no ideal dos cidadãos. Apelar ao socialismo para resolver os nossos problemas é como dar uma dose ainda mais letal de veneno a alguém que já está envenenado, para além de catalisar ainda mais a competência desleal entre os indivíduos, por mais estranho que isso pareça a um anti-capitalista.

Relativamente ao que diz o António Amaral, infelizmente, também concordo e até acredito que quanto mais tempo se tomar até que a desmontagem do Estado social se efectue, pior e mais doloroso será para todos (pelas razões que acima apresentei relativamente ao prolongamento do género de políticas em vigor) embora não concorde com a permanência das safety nets.

Durante a "queda aparatosa", honestamente, não sei se não seriam também um factor prejudicial já que é imperativo (atenção: *linguagem estatal*) mantê-las com o dinheiro dos contribuintes. Curiosamente, é a própria estrutura do regime social-democrata que condiciona o que aconteceria de forma natural numa sociedade mais liberal (social e economicamente) e faz com que talvez muitos de nós passem a acreditar precisamente que elas são necessárias durante a “queda do Estado social”, de forma a garantir uma certa estabilidade durante o período menos bom pelo qual passamos. O liberalismo não é a ideologia da desmontagem do Estado de bem-estar como todos sabemos mas, desafortunadamente, somos forçados a pensar qual será a melhor forma de recomeçar os pilares da sociedade utilizando medidas liberais. Os resultados actuais são frutos da social-democracia razão pela qual aquilo a que chamamos de “esforços dolorosos” deveria ter outro nome. Também há que fazer compreender as pessoas que estas consequências são resultados das suas escolhas políticas e não das medidas liberais que serão necessárias. É precisamente este argumento que ganham os socialistas quando reclamam os “direitos adquiridos”. Estes ditos direitos (que são crimes praticados graças à repressão económica) nunca deveriam ter existido em primeiro lugar, tendo sido eles os grandes causadores dos problemas. Há que apontar isso às pessoas para que elas não culpem os sistemas errados, como é da praxe.

Voltando ao assunto, concordo com o texto do LAS em geral, embora veja de forma alguma céptica a esperança no CDS, que se vai tornando um partido cada vez mais reduzido e dependente do PSD para se tornar visível. Temo que quando chegar a necessidade iminente de tomar medidas drásticas, já o CDS tenha perdido o comboio dos que as sugerem. Ironicamente, e ao contrário do que alguns dizem (porque certamente não sabem o que penso nem lêem o que escrevo, o que posteriormente os deixa sem resposta…) gostaria de ver o CDS nessa posição. O problema é que nos parágrafos

“Pelas razões expostas, depreende-se que o CDS é o único partido constitucional que poderia assumir a defesa da redução da despesa pública e a representação dos que não pertencem ao "Partido do Estado". O CDS, não tendo vocação maioritária nem um largo eleitorado sociologicamente consolidado, poderia arriscar a assunção de posições que não colhem o apoio desses 55% de portugueses dependentes do OGE. O CDS não teria ainda as dificuldades ideológicas que, para isso, impedem os partidos de orientação socialista de assumir essa dupla função política.

O CDS dever-se-ia assumir como o partido da sociedade civil (por oposição ao "partido do Estado"), da redução da despesa pública e da "safety net" (por oposição ao "welfare state"). O CDS dirigir-se-ia, assumidamente, aos 45% da sociedade portuguesa que não pertence ao "Partido do Estado" e que será a mais prejudicada pela crise nacional que se avizinha.

E o CDS encontraria assim a causa distintiva e identificadora capaz de o tornar indispensável à vida política do País e de fazer crescer substancialmente a sua base eleitoral de apoio.”

se denota precisamente um uso extensivo do tempo condicional. Ficamos todos à espera de que o CDS decida tornar, portanto, essa hipotética realidade em factos concretos. Decerto que todos nós a veríamos com muito agrado.

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P.S. -- O RAF diz hoje no Blasfémias que o liberalismo está subtilmente a virar mainstream. Eu recomendo ao RAF que deixe de ler tanto a blogosfera liberal e de ouvir debates políticos na tentativa de descortinar ideais liberais por ali escondidos. É que tanta expectativa, muitas vezes, faz-nos ouvir coisas que, infelizmente, eles não disseram....

P.P.S. -- Peço desculpa pelo tom pessimista mas temo não ver mudança alguma no quotidiano. É que para que haja uma mudança significativa, esta tem de começar na cabeça das pessoas, não na dos políticos.
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