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Thursday, March 23, 2006

iPortugal

Portugal é definitivamente um país de timoneiros iluminados. Há tempos atrás, Jorge Sampaio dizia que eram necessários mais licenciados para incentivar a economia e o emprego (ficámos a saber que a atribuição de um diploma académico tem uma correlação directa e é uma causa do crescimento real do PIB), José Sócrates está sempre a falar da inovação tecnológica que estimulará a economia - daí a justificação do Plano - e, há dias, o ministro da agricultura Jaime Silva afirmou que Portugal devia apostar na floresta.

Há um padrão interessante em toda esta balbuciação colectiva. Se perguntarmos ao Zé do café, ele dirá que Portugal precisa de investir no Brasil. O Carlos da mercearia acha que Portugal devia investir mais em vinicultura, o Manel na indústria automóvel e a Maria, num acesso mercantilista, pensa que Portugal devia era estimular a indústria para aumentar as exportações. O Victor, por sua vez, crê que se apoiarmos mais a investigação científica estaremos no melhor caminho para o desenvolvimento.

Todos eles têm uma opinião mas nenhum deles está a discutir o destino do seu próprio dinheiro. De forma semelhante a todos os governantes de bancada que Portugal tem, os verdadeiros governantes sentem-se à vontade para falar das áreas em que deve ser aplicado o dinheiro que é extraído coercivamente aos cidadãos. E porque acontece isto? Simplesmente porque não é um produto do seu trabalho mas sim do dos outros.

Não existe lógica alguma associada a estas afirmações já que os sectores mencionados são quase sempre escolhidos aleatoriamente ou citados com base em falácias económicas. Se estes investimentos fossem realmente importantes, não seria necessário recorrer a fundos recolhidos pelo Estado para criar um mercado mais activo. Se estes investimentos fossem realmente relevantes, todas estas pessoas estariam - em vez de sugerir aos outros o que deveriam fazer ou gerir irresponsavelmente as aplicações dos impostos dos contribuintes - a esconder muito bem as suas intenções e a aproveitar a tal oportunidade indiscutivelmente benéfica para si mesmas.

Como a actividade não é assim tão imprescindível e indispensável como a querem fazer passar - porque não oferece ou adiciona qualquer vantagem significativa ao público-alvo a que é dirigida ou os eventuais riscos são demasiado elevados (o que, por si, denota a fragilidade e incerteza associada ao investimento) - limitam-se a gastar o dinheiro dos outros para causar ainda mais estragos ou a tentar especular e indicar aos outros o que fazer.

Jogar aos planos quinquenais pode ser muito divertido mas a realidade não é um jogo de computador. Existem bens que são mais ou menos valorizados por cada um dos indivíduos consoante as suas necessidades pessoais. Subsidiar a produção de um determinado bem de consumo ou serviço como se fosse algo de extrema importância é, para além de queimar dinheiro e usá-lo para pegar fogo à casa, dar uma noção errada a toda a sociedade e ao mercado de quais as prioridades que estão a ser definidas pelos consumidores, naquele dado instante, como mais essenciais (um discurso em muito semelhante ao da "confiança").
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