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Tuesday, November 15, 2005

Sampaiadas

Há vários meses que se tornou impossível ouvir este homem. Se se ouve com atenção o que ele vai dizendo, pelo meio de tanta retórica sem sentido, surgem sempre umas pérolas de sabedoria política. Mas não são umas pérolas de sabedoria realista, são antes uns comentários a la posta de pescada portuguesa que são ditos só porque fica bem ou porque a maioria vai concordar. No último discurso de que tenho conhecimento, através do PD, há preciosidades magníficas de conhecimento que deixam qualquer indivíduo minimamente familiarizado com a realidade completamente estupefacto.

"Para o Presidente da República, Portugal «precisa de mais licenciados para estimularem, eles próprios, mais emprego»."

Jorge Sampaio parece não ler nada de nada. Talvez leia aquelas notícias que lhe interessam acerca da globalização ou sobre a injustiça social no Le Monde Diplomatique. O certo é que parece não andar a ler nada acerca do que acontece no Portugal Real. Nem sequer uma notícia, datada de 28 de Outubro, que diz que 20% dos licenciados portugueses fogem do país. O artigo do DN chama-lhe fuga de cérebros e afirma que é um fenómeno típico de países pobres. Diz também a notícia que «Portugal é o país europeu de média/grande dimensão mais afectado pela saída de licenciados e quadros técnicos.» o que não é assim tão estranho, já que Portugal é um dos países mais pobres da Europa (não contando com a Europa de Leste que nem sequer fez parte da estatística). O número de 20% confirma intuitivamente que isto não poderia andar muito longe da verdade. 1/5 dos habilitados com formação superior decide sair.

Há uma razão muito forte para que isto aconteça. Independentemente da área a que nos referimos, há uma verdade dada pelo mercado à qual é impossível fugir - a procura. Se em Portugal existe pouca procura, é natural que as perspectivas de emprego de uma determinada saída profissional sejam baixas. Tanto no ensino, como na investigação e na aplicação directa dos conhecimentos adquiridos através dos cursos.

Existem muitos cursos em Portugal que não têm utilidade alguma. Noutras situações, são inúmeros os casos de estudantes que tiram um curso de matemática para depois trabalhar em informática ou estudam física para depois estarem empregues em consultadoria. Muitos outros estudam história para depois serem empregados de instituições bancárias. Muitos engenheiros ensinam matemática e muitos químicos ensinam física. No ensino básico e secundário nunca tive um professor de física que tivesse formação em física nem um de matemática que não fosse engenheiro. A conclusão? Existem demasiados químicos e engenheiros, ainda que estas coisas não sejam ditas. Ninguém fala delas. Pelo contrário, dizem precisamente o oposto - que um curso de engenharia é importante porque é uma "garantia de emprego". Garantia de nada, digo eu. Existem cursos de engenharia para os quais há procura, outros para os quais há demasiada oferta.

Este facto é encarado por muitos professores e universidades como algo natural. Mais do que isso - é considerado algo extraordinário já que, dizem eles, transmite uma maior abrangência às qualificações, havendo uma maior flexibilidade para o estudante, que assim se pode adaptar melhor às condições do mercado. Nada mais utópico pois centenas de pessoas são deixadas na situação de não poderem aplicar directamente aquilo que aprenderam nem trabalhar naquilo que desejam. Mesmo que tenham essa possibilidade, o mercado português não é assim tão grande que permita grandes ambições de carreira quer a nível empresarial, quer académico. Há uns anos atrás, o sonho do vulgar engenheiro de telecomunicações era ser empregado da Portugal Telecom. Que outra coisa poderia desejar? Nem todos os licenciados são talhados para a investigação (na verdade, apenas uma percentagem mínima o é) de modo que os sectores da indústria e dos serviços são a mais provável fonte de emprego. Num país onde o mercado de telecomunicações era tão fechado, em que outra empresa se poderia ambicionar vingar e formar carreira?

Por estas e tantas outras razões, o mercado de licenciados em Portugal é uma coisa quase artificial. Muitos professores universitários já nem lhe prestam muita atenção porque não sentem verdadeira preocupação com os alunos. A estes, apenas lhes podem acontecer duas coisas: ou entram no curso que desejam, podendo posteriormente ter os tais problemas devido à falta de procura ou, tomados pela ânsia de encontrar uma vaga no mercado de trabalho, conformam-se com a situação e entram num curso qualquer que lhes dizem oferecer uma oportunidade de trabalho. O resultado disto, entre aqueles que conseguem emprego relacionado com o seu curso, são trabalhadores sem empenho ou frustrados.

Em ambos os casos, num, devido à falta de procura que é desvalorizada, e no outro, devido à inflação artificial do número de estudantes, acabarão por existir licenciados que necessitam de sair do país porque não podem exercer a sua profissão em Portugal ou porque, simplesmente, não existe um mercado específico que permita a sua progressão profissional.

Voltando ao tópico de abertura, Sampaio lança o seu comentário que mais parece completamente descontextualizado. Então, Portugal, país que tanto parece odiar e temer a cultura do privado, anda há anos a subsidiar empresas estrangeiras, formando estudantes que depois encontram enormes dificuldades em fazer parte do mercado nacional? Isto levanta uma questão - a do financiamento do ensino superior público. Então se o Estado tem dezenas de cursos por todo o país em que não existem alunos, porque são os contribuintes forçados a financiá-los? Qual é, assumindo o pragmatismo da função estatal, a utilidade destes cursos? É verdade. Nenhuma. Se não há alunos, não há oferta. Se existisse procura, esta tornaria os formandos destes cursos em verdadeiros cofres de dinheiro uma vez que existira uma escassez de recursos humanos. Pois é. O natural é que estes cursos começassem a ter mais gente por serem os seus licenciados tão bem pagos, acabando assim por aumentar a oferta. Com isto se mostra, em termos básicos, que um curso onde há vários anos não entra ninguém, quer por falta de procura, quer por falta de competitividade da universidade em causa, não faz sentido. Se isto acontecer numa universidade privada, é natural que o curso seja abolido ou fundido com outro de forma a não efectuar gastos completamente desnecessários com algo aparentemente supérfluo.

A resposta de Sampaio a estas evidências e leis básicas da vida é simples. Diz ele que devemos produzir mais licenciados. Digo-lhe eu que "produzir mais licenciados", assim sem mais nem menos, é uma idiotice. É criar qualificações para um mercado que não existe e, ao mesmo tempo, convidar à emigração como necessidade básica. É criar ilusões nas pessoas, é dar-lhes a sensação de que podem fazer algo que, na verdade, não podem. A tudo isto Sampaio debita, de sua justiça, o chavão socialista:

O Presidente da República, Jorge Sampaio, considerou hoje que o ensino superior em Portugal está «desregulado», com uma rede «que não faz qualquer sentido».

Caro Jorge Sampaio, o ensino superior em Portugal precisa precisamente do contrário. Precisa de desregulação. Regulação já existe e, essa sim, é demasiada. É imperativo deixar que as necessidades da sociedade civil se regulam a si mesmas sem imposição governamental. É a forma mais eficiente de obter resultados satisfatórios.
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