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Friday, August 04, 2006

A leste, nada de novo III

A resposta às últimas afirmações (relevantes) feitas pelo Saboteur antes das suas férias. Por uma questão de clareza, esclarecimentos meus sobre insinuações ou outras provocações não serão encontrados aqui. Quem entendeu o que disse na segunda parte não precisará de muito mais.

A única coisa que me deixa curioso é o facto de ainda nenhum de vocês ter tomado a iniciativa de rejeitar claramente o regime norte-coreano, apesar de a Joystick se ter picado com a ironia e o Saboteur dizer que eu sou um cretino no que toca ao conhecimento sobre socialismo e comunismo. Não sei se desejam iluminar-nos, a mim e aos restantes leitores. Também não sei se devo presumir que estou a tocar num assunto delicado e que aceitam o modelo de Pyongyang. Caso contrário, que aplicação da luta de classes têm exactamente em mente? URSS, China, Camboja, Albânia, Bielorrússia, Vietname, Cuba, Roménia, Angola, facções da guerra civil espanhola ou algo assim? Faço votos para que não seja uma coisa nova e refrescante do género "nenhum deles, porque não foi bem aplicado", "a revolução desvirtuou-se" ou "é preciso mudar as mentalidades primeiro".

Os comentários às opiniões lançadas sobre o artigo, a quem possa interessar:

1. A sua crítica baseia-se na típica confrontação da teoria com a realidade experimental. Nem eu disse que a concorrência era perfeita, nem que os mercados se equilibravam automaticamente, nem que os agentes faziam escolhas racionais, no sentido de percepção objectiva por um agente externo. Nenhuma destas coisas está implícita no artigo. Portanto, não faz sentido dizer que não sou heterodoxo, quando não penso nem ando com modelos marxistas, keynesianos ou sequer neo-clássicos no bolso à espera de ser sacados na devida altura. Assim, talvez seja boa ideia criticar o que está escrito em vez de se recorrer ao manual de instruções sobre o que criticar, para dar a ideia de uma qualquer falha epistemológica e ganhar mais uns adeptos.

2. O Saboteur diz que a pobreza é um problema de distribuição para depois embarcar no tradicional lugar-comum de que as pessoas estão desesperadas com a fome e, sem alternativas para sobreviver, trabalham para comer, embora não o tenham escolhido livremente. Aqui há o problema típico da abstracção total da realidade. Não existe quem consiga sobreviver sem ter de despender energia (sob forma mecânica ou de calor), ou seja, trabalhar para se alimentar. A comida não surge de forma automática a ser consumida: é produzida, transformada e transportada. Certamente que podemos dizer que o Homem não é livre porque é obrigado a fazer alguma coisa para sobreviver. No entanto, é necessário ter em mente que isso é uma crítica às leis físicas do Universo e à génese da espécie humana, o que torna a discussão em algo absurdo.

Quanto mais a riqueza for distribuída, mais se desincentiva a sua produção porque, ao não poder ser usada para a intenção de quem a gera, deixa de haver razão para produzir tanto, o que inibe o processo de crescimento. A torneira do dinheiro para subsídios, ordenados da função pública, etc. vai fechando aos poucos, até que o Estado abre falência ou aceita a liberalização na esperança de salvar a sua estrutura. Se se decidir que ter de trabalhar significa não ser livre, então o Homem nunca será livre nem alguma vez o foi. E infinitamente menos sob regimes socialistas (de toda a espécie), onde está obrigado a que o seu trabalho seja roubado sem ter direito de escolha sobre o seu destino. É esta uma das razões pelas quais muitos dos países mais pobres a nível mundial continuam a ser os mais pobres [ver ligações do ponto 5].

4. O bem-comum é um conceito propositadamente vago e desprovido de sentido porque não se pode definir algo que é subjectivo de uma forma colectiva. E o planeamento central já deu as provas da sua "ineficácia" (eufemismo) do ponto de vista económico e devastação do ponto de vista humano e social. Vários milhões tiveram de morrer para implementar essa forma de direcção espectacular que foi a autêntica praga do século XX e matou mais gente do que qualquer outra ideologia na história. Uma coisa é certa: é, de facto, a melhor forma de literalmente acabar com a pobreza e com a fome. Não havendo procura, não há necessidade de existência de oferta. Já vimos suficientes vezes esse exemplo aplicado à realidade, que tanto tem sido defendida no Spectrum, comparativamente aos alegados modelos de "sala de aula".

5. O comentário sobre a Irlanda não tinha directamente a ver com o sistema educativo. No entanto, ainda bem que é reconhecido que a Irlanda é um país evoluído e com um bem-estar cada vez maior. Agora, consulte-se aqui o índice de liberdade económica da Heritage Foundation, e onde se situa a Irlanda, ou se preferível, o índice do Fraser Institute [pdf] (outros parâmetros). Agora recorde-se o nível de riqueza média por pessoa da Irlanda (~$41.000), o ritmo a que continua a crescer (~5% ao ano) e a sua taxa de desemprego (~4%). [CIA Factbook] Alguma relação com o que eu afirmei no artigo? A Irlanda sempre foi um país tradicionalmente pobre. Outro bom exemplo é a Estónia, embora tenha referido a Irlanda precisamente pela semelhança que apresenta com Portugal, tendo em conta a condição descrita na frase anterior.
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