Quinta-feira, Agosto 03, 2006

Disclaimer



O meu artigo tem feito chover bastantes críticas. Por um lado isso é bom, por outro é mau.

Primeiro, é bom, porque significa que as pessoas o leram. O facto de não o criticarem positivamente não significa que não concordem ou que não tenham ficado a pensar no que foi analisado. Muitas vezes é apenas um fenómeno psicológico de reacção que as faz defender aquilo que está mais enraizado nas suas crenças (está-se a lidar com uma religião) ou uma forma de se tentarem convencer a si próprias do que pensam, à medida que contestam o que foi afirmado, esperando ser provocadas novamente para testar as suas próprias convicções.

Por outro lado, é mau, uma vez que a maior parte das pessoas em Portugal julga que as discussões ideológicas ou académicas são uma espécie de toca e foge. A reacção típica é um refúgio sobre um qualquer lugar-comum ou frase feita já inventada há décadas atrás. O problema surge quando se questiona sobre o fundamento dessa ideia. Aí os argumentos, se existirem, começam a escassear. Muitos desistem de imediato da discussão, avançando que não discutem política, como se se tratasse de uma questão de equipas de futebol. Outros, ficam com um ar muito intrigado e não esboçam nenhuma resposta, acabando por se calar ou chegar a um ponto em que insultam o mensageiro. A versão blogosférica deste fenómeno são os apontamentos fugazes feitos nas caixas de comentários e que, depois de questionados sobre a sua base argumentativa, ficam sempre sem resposta. Passam-se semanas e o contador de estatísticas diz que essas pessoas voltaram mas a pergunta ficou para sempre sozinha no meio de tanta asneirada política e/ou económica.

Outros ainda, ficarão perdidos num "talvez tenha razão", sem assumir que a outra parte efectivamente a tem e recusando-se, mesmo perante a sua incapacidade de argumentar, a dar o braço a torcer e aceitar uma realidade que se forma diante dos seus olhos, mas a qual têm uma dificuldade enorme em interiorizar.

Vem isto a propósito da crítica que mais tenho notado; a versão complementar, mas implícita, da mentira que exponho no artigo. Lado a lado com a ideia de que o capitalismo explora os pobres (isto já vem da revolução industrial), caminha a de que apenas os ricos podem defender o capitalismo. Ou seja, consequentemente, eu sou rico e devo estar a nadar em dinheiro.

Vamos lá pensar juntos um bocadinho. Se eu fosse rico, estaria aqui durante as minhas horas livres a escrever (a custo zero) para umas poucas dezenas de gatos-pingados cuja maioria não conheço de lado nenhum, quando a classe média e alta está praticamente toda de férias, em pleno Agosto? Incomodava-me em comentar assuntos que julgo serem relevantes, não só para mim, como também para os outros? Qual seria o estímulo para os poucos - mas perseverantes - liberais da blogosfera portuguesa manterem os seus blogues em actividade durante todo o ano, incluindo o Verão em muitos casos, quando poderiam estar a usar o seu dinheiro numa qualquer estância de luxo?

Ganhem juízo. E em vez de me pedirem para "pensar nos mais pobres" ou qualquer outro chavão zen, pensem vocês na pobreza intelectual que vai dentro dessas cabecinhas e se há alguma forma de alterar isso. Já agora, nada de benefícios burgueses por aqui, como essa coisa a que chamam de férias. Terão de me aturar durante o resto do Verão. Passem por cá se desejarem ou não tiverem nada melhor que fazer. Cá estarei, com qualquer coisa escrita recentemente sobre um tópico que julgue relevante.

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