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Friday, June 23, 2006

No comunismo não há voluntários

Ao contrário do que afirma o Miguel, que julga ter encontrado a refutação derradeira (ainda por cima vinda de um economista austríaco) para as minhas afirmações sobre a absurdidade das formas de anarco-socialismo, não se vislumbra grande razão para surpresa. Diz Peter Leeson, numa citação de Efficient Anarchy:

"[i]ndividuals in primitive societies often have very similar endowments. Because they are frequently egalitarian and do not often recognize private ownership beyond the level of direct consumables..."

Utilizar isto para refutar qualquer das ideias e factos anteriormente aqui expostos é semelhante a falar sobre as teorias do "comunismo primitivo". Há milhares de anos atrás, as tribos nómadas - e Leeson refere que era generalizado à pequena escala, o que não é estranho - tinham pouca margem de manobra (e intenção, sequer) para fazer valer os seus direitos de propriedade sobre coisas que representavam menos valor para eles do que o bem-estar dos seus companheiros de tribo. E isto não acontece por acaso: os recursos eram extremamente limitados e era mais importante saber que os companheiros de grupo estavam bem alimentados e fortes do que brincar com o assunto. Baixas importantes significariam atrasos nas caçadas, o que poderia significar a morte, não só dos que buscavam alimento como também dos que aguardavam por ele e não iam caçar. A morte de um elemento poderia ser fatal para todo o grupo, que subsistia à custa do trabalho árduo dos caçadores. A prova mais viva desta realidade é que se um grupo de caçadores de uma tribo vizinha - na verdade, rival, já que competia pelos mesmos recursos escassos - tentasse obter pela força o produto da caçada seria muito provavelmente corrido à pedrada por tentar saquear uma propriedade conquistada com muita dificuldade, na mira de conseguir um almoço grátis.

Usar a mesma fasquia para falar de supostas pseudo-anarquias, seria o mesmo que dizer que um casal que partilhe a mesma casa e a mesma conta bancária apenas pode ser anarco-socialista porque não faz valer os seus direitos de propriedade um sobre o outro. Estes direitos são livres de ser definidos desde que não se interfiram com o que os implicados também decidem definir livremente. Assim como não é comunista partilhar uma caneta ou um livro.

É esta a diferença entre o que é uma sociedade livre e uma sociedade comunista (ou anarco-comunista, para o efeito...). Numa sociedade livre, as pessoas podem fazer valer os seus direitos quando bem entenderem enquanto numa sociedade anarco-comunista ninguém pode fazer nada porque é forçado a "partilhar" por defeito. Deixa de ser uma sociedade livre onde as coisas são partilhadas por necessidade ou vontade própria para se tornar numa em que nem se pode dizer que haja realmente partilha, mas sim uma obrigação de manter a sua propriedade como colectiva ou comunitária. Não tem outro nome senão o de totalitarismo.

Preocupante mesmo é que os exemplos com que o Miguel tenta refutar a necessidade da propriedade privada sejam de sociedades classificadas como primitivas. Talvez fosse boa ideia ter-se isso em consideração.

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Nota importante:

Não creio ter dito que o anarco-comunismo era "impossível". Seria o mesmo que dizer que o estalinismo era impossível. Claro que é possível. É tudo uma questão de ter valas comuns prontas e suficientes e uma boa dose de intelectuais de ideologia em punho que convençam as massas de que, na verdade, estão a lutar pela sua libertação individual. Depois, quando já não forem necessários para as tarefas sofistas, são eliminados pelos que sempre souberam desde início que a coisa ia dar assim. A receita foi aplicada com sucesso ao longo do século passado em vários países. E, incrivelmente, continuou a funcionar.
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