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Tuesday, June 06, 2006

Maximização da utilidade

Os calendários dizem que hoje terá sido o Dia D, data do desembarque das tropas aliadas na Normandia. Diz-se também nas ruas que hoje é o Dia D, mas do juízo final. Bem, sobre isto nada posso adiantar. Contudo, segundo o sitemeter, parece que o meu Dia D foi ontem e aqui está o artigo:

Os mais recentes dados estimados pelo Banco Mundial apontam para que a dimensão da economia informal em Portugal tenha atingido valores em torno dos 20-25% do PIB, percentagem que tem vindo a aumentar progressivamente desde a década de 90.

Ao analisar friamente os dados referentes a estes indicadores, quem desconhecer por completo o contexto político português terá tendência a concluir que Portugal é um país severamente oprimido, já que as estimativas são superiores à média calculada para a OCDE em vários pontos percentuais. Mas podem ser os portugueses, de facto, oprimidos quando partilham precisamente as mesmas noções políticas e económicas surrealistas dos líderes que seleccionam democraticamente?

A que se devem, então, tais comportamentos tão díspares? A principal razão que justifica estes aparentemente inconjugáveis aspectos é a errada e perigosa noção, presente numa vasta fatia da população, de que a prática de políticas económicas socialistas recairá essencialmente sobre os outros elementos da sociedade e não sobre si mesma. Contrariamente à fachada da propaganda tradicional, a maioria dos eleitores de partidos tendencialmente movidos pela lógica da redistribuição social e do intervencionismo estatal cede o seu voto na esperança de melhorar as suas condições pessoais e não propriamente com a intenção de suportar despesas alheias. Não deixa, portanto, de ser irónico que o grande sucesso do socialismo no mercado das ideias políticas se deva à defesa que os eleitores fazem dos seus próprios interesses individuais, precisamente o oposto a que se propõe a sua retórica, cuja cartilha incide de forma persistente na pouca importância que estes representam face ao colectivo e aos enigmáticos desígnios comuns. A constatação deste facto é facilmente confirmada pela ideia bastante popular de que devem ser os ricos a pagar impostos e os pobres a receber subsídios. O cerne do problema origina-se, inevitavelmente, na dificuldade de encontrar alguém que, de acordo com o seu próprio referencial relativo, não se considere pobre. Na generalidade, a maioria julga-se no direito indiscutível de ser subsidiada mas quase ninguém (se alguém de todo) deseja contribuir vivamente para que tais projectos sociais sejam exequíveis.

Este fenómeno sociológico é particularmente extraordinário e preocupante, visto que se tratam exactamente das mesmas pessoas que se sentem molestadas por todas as estruturas burocráticas criadas para satisfazer os seus desejos de regulação incessante sobre as actividades económicas (incluindo as legislações laborais) e também as mesmas que demonstram ser ardentes defensoras do investimento público e da lógica do subsídio, ainda que pratiquem a fuga fiscal sempre que possível e evitem ao máximo fornecer ao Estado informação que de outra forma lhes seria claramente desfavorável.

Obviamente, sempre existirão os que preferem o método de funcionamento deste esquema, por hipocrisia própria ou, simplesmente, pelo desejo de viver num regime de socialismo selvagem em que todos dizem contribuir solenemente para uma hipotética causa comum e, em simultâneo, batalham entre si por extrair dessa mesma causa o máximo possível à custa dos que estão impossibilitados de o fazer. Escondida sobre a pretensa promoção da igualdade social, a naturalidade das suas consequências é absolutamente previsível, sendo a única forma de pôr fim a esta espiral destrutiva uma consciencialização dos mais honestos sobre a incoerência que representam todas estas práticas ideológicas quando aplicadas à sociedade e à natureza humana tal como a conhecemos.

Se se deseja, efectivamente, o melhor, tanto para nós mesmos como para os outros, a forma mais natural, justa e moral de o fazer é através do respeito por princípios basilares de qualquer sociedade próspera como a propriedade privada e a iniciativa individual.

[Agradecem-se, desde já, as simpáticas referências feitas no Blue Lounge, O Insurgente, O Observador, A Arte da Fuga, docontra e Bodegas]
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