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Sunday, September 10, 2006

As FARC e o PCP

A última semana tem sido rica em manifestos de indignação, surpresa, recriminação e, sobretudo, apelos ao esclarecimento, por parte do PCP, quanto à presença das FARC na festa do Avante!, uma sublevação que foi liderada e bem por blogues como o Kontratempos e o Tugir (ver a análise do Bruno Ribeiro publicada há dias no PubAddict). A questão que praticamente implora ser colocada é: terá todo este sobressalto algum resultado palpável, tal como está elaborado?

Por várias razões, seria mais importante e frutífero direccionar também estes pedidos de esclarecimento por via de uma generalização das perguntas implícitas, de uma forma mais conceptual e abrangente. Digo isto porque as duvidosas posições do PCP (em política externa e não só) são bastante claras e, nesse sentido, as suas declarações de defesa são tudo menos imprevisíveis. O problema não está numa incoerência ou na existência de dualidade de critérios mas sim no facto de que o PCP usa definições que não estão em concordância com as normas da língua portuguesa, que é a estrutura que utilizamos para tentar compreender as afirmações dos seus líderes e criticar as atitudes dos seus elementos. Alguns exemplos clássicos:
1) Os comunistas só falam da protecção dos direitos humanos quando estes jogam a favor do comunismo, ou seja, quando a infracção é praticada por nações que reconhecem ferozmente a legalidade e legitimidade da propriedade privada e outros direitos essenciais, por governos inimigos da facção comunista que os órgãos oficiais nacionais ou internacionais decidem apoiar ou simplesmente pelo Grande Satã do momento (neste ponto da história, os EUA). No caso de se tratarem de nações ou grupos aliados, tal acção é geralmente abafada;

2) O terrorismo só existe quando não é declaradamente a favor da destruição dos pilares das democracias liberais como o estado de direito, a maximização da independência e separação de poderes e/ou o reconhecimento das liberdades e direitos individuais. Caso contrário, é sempre uma reacção ao imperialismo ou à opressão capitalista. Alternadamente, também pode ser usado para designar uma forma de retaliação a um grupo que os comunistas decidiram apoiar (por exemplo, as "denúncias" do Estado de Israel como entidade terrorista), não necessariamente por mero uso propagandístico, mas muitas vezes também por parcerias políticas profundas;

3) A liberdade de expressão praticamente só é defendida quando está em causa a difusão da ideologia comunista e nunca quando ideologias antagónicas ou que fujam à ortodoxia dos mestres são perseguidas, menosprezadas ou pouco agraciadas com a devido abertura no espaço de discussão pública. Nos países comunistas que tipicamente o PCP defende, os dissidentes da ideologia do regime geralmente não acabam bem e o PCP deprecia a existência desses problemas. A mesma argumentação pode ser usada se estiverem em causa, novamente, aliados políticos;

4) A vitimização de minorias étnicas/políticas só é útil quando a minoria em causa é uma que é apoiada pelos movimentos comunistas ou quando essa mesma minoria sente alguma simpatia pelos movimentos em questão (como na dicotomia entre judeus e muçulmanos);

5) A globalização e o imperialismo só são maus quando são expressões de um capitalismo transfronteiriço. Quando estes dois fenómenos são propícios à propagação de um comunismo à escala global, tanto ideologicamente como pela via da "revolução permanente" e do financiamento de guerras em todo o globo não existem muitas queixas. Ainda hoje o PCP sente nostalgia pela antiga União Soviética e até Estaline foi reabilitado. Paralelamente, a guerra é sempre má, excepto quando é uma guerrilha de resistência que se insurge contra a exploração do homem pelo homem, contra a injustiça social trazida pelo capitalismo, etc., etc.;

6) Os direitos sociais dos trabalhadores ou da função pública só são defendidos quando os direitos que estes trabalhadores desejam coincidem com a ideologia da extorsão socialista. Nunca o PCP irá defender a economia de mercado, maiores flexibilidades laborais, nem que sejam esses os direitos a que os trabalhadadores queiram ter acesso;

7) A democracia para os membros do PCP é algo que só existe quando está sob controlo das políticas que o partido deseja. Os exemplos mais típicos são as críticas gerais aos EUA (ignorando o sistema de checks and balances e os poucos poderes do presidente quando comparados com os de outros países) sobre a suposta forma anti-democrática como são feitas as escolhas ou as decisões políticas, dizendo em simultâneo que Cuba é uma democracia, Chavez e Morales são grandes libertadores (democratas também) e que não sabem se a Coreia do Norte não será uma democracia (autoria de Bernardino Soares).

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O que deve ser feito? A única forma de pressionar o PCP é pedir que esclareça de vez o eleitorado sobre as suas definições de terrorismo, imperialismo, direitos humanos, medidas anti-sociais, democracia, etc., em vez de usar os seus clássicos slogans vazios de qualquer significado lógico. É de duvidar que consiga elaborar uma resposta consistente porque, se usar os termos tais como se apresentam na língua portuguesa, será possível mostrar por todos os meios que não existe coisa mais antidemocrática, anti-social, imperialista, militarista e terrorista do que o comunismo, como se pôde testemunhar ao longo da história do séc. XX e como, pelos vistos, o PCP continua a demonstrar através das suas companhias. Se, por outro lado, usar as suas próprias definições, será fácil mostrar a qualquer pessoa bem intencioanda que o que o PCP diz defender, afinal, é uma deturpação dos significados distintos que se assumem a priori.

O PCP ficará assim dividido entre duas opções que lhe são prejudiciais e tenderá a evitar a resposta, dando continuidade à sua política oficial de usar newspeak para baralhar as pessoas. No entanto, desta vez será visivelmente ilusivo, uma vez que o PCP não poderá continuar a usar os chavões tradicionais sem justificar o que significam verdadeiramente. As verdadeiras intenções serão totalmente transparantes. Não interrogar sobre este ponto essencial é permitir que grupos deste género, para os quais todos os meios são válidos para atingir o fim desejado, continue a propagar eternamente o seu culto de ódio, pobreza e guerra. A necessidade fulcral, para além de saber o que faziam as FARC e outros grupos terroristas na festa, é combater e desmantelar ideologicamente um núcleo político que se escuda por trás de milhares de eleitores, situação única na UE em termos percentuais, e que permite que este género de promiscuidade infeliz com grupos terroristas (neste caso, definidos até como tal pela própria UE) aconteça num país democrático e relativamente livre como Portugal.
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