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Thursday, December 24, 2009

Uma lição de simbologia natalícia

O bacalhau não tem qualquer paladar especialmente agradável. Apesar de os portugueses tipicamente reclamarem que existem mais de mil maneiras de cozinhar bacalhau, a fracção de pessoas que consome bacalhau durante o ano, nas suas variadas formas, é extremamente reduzida. Se o bacalhau é assim tão extraordinário, como geralmente os defensores da tradição sugerem que é, por forma a racionalizar a prática do seu consumo na consoada, por que razão não se come mais vezes durante o ano? Claro que se fosse este o caso, o bacalhau faria efectivamente parte do leque de pratos que constituem a dieta alimentar de muitos portugueses ao longo do ano, como, por exemplo, o famoso bitoque ou o frango assado. Isto levantaria um problema grave. Se a refeição da consoada é tão banal que é consumida com uma elevada frequência durante o resto do ano, o seu significado reduz-se significativamente. Como a maior parte das festividades humanas está geralmente ligada ao convívio social das refeições, não haveria uma sensação de Natal porque se não estaria a comer algo fora do comum. Seria apenas mais uma reunião de família, mas com decorações diferentes.

O que este raciocínio implica é que a manutenção de tradições como a consoada em países onde os agregados populacionais sejam particularmente vulneráveis aos efeitos da simbologia e a escassez alimentar não seja um problema (em cujos casos, as festividades, pelo contrário, envolvem refeições mais apetecíveis, mas também mais caras, e, portanto, impossíveis de sustentar com muita frequência ao longo do ano), qualquer comemoração muito relevante envolverá o consumo de um alimento não particularmente desejável do ponto de vista gastronómico, algo relativamente neutro que deixe a maior parte destas pessoas indiferentes. Um outro vector em que esta diferenciação ocorre é o sacrifício envolvido na preparação da refeição, o qual sinaliza, por via do esforço individual ou colectivo, a importância que se atribui ao festejo em causa. À luz desta proposição, mesmo que esse esforço não se traduza necessariamente numa melhoria significativa na qualidade da refeição (que provavelmente se encontra já comprometida à partida pela escolha do alimento a usar), não é particularmente estranho observar que preparação do bacalhau, no caso português, implica um esforço que se estende ao longo de várias horas, ou dias, devido ao processo de demolha. A aquisição de bacalhau ultracongelado, previamente demolhado e cortado é culturalmente punida. É possível observar um processo semelhante no caso da utilização de peru recheado para o dia de Acção de Graças no Estados Unidos, que, ironicamente, começou por ser um "festival da colheita", um aspecto que está relacionado com os antecedentes pagãos da actual comemoração do Natal nos países de maioria cristã.

Por tudo isto e algumas outras razões (como o facto de o consumo de bacalhau ter sido subsidiado durante o Estado Novo), hoje à noite, muitos de nós estarão a comer o fiel amigo sem grande entusiasmo. A propósito, os meus desejos de um feliz Natal para todos.
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