Pages

Saturday, February 11, 2012

Qual deles?

[Martin Schulz] referiu-se ao contraste entre os modelos de desenvolvimento europeu e chinês, afirmando que este assenta numa “sociedade esclavagista, sem direitos, numa ditadura que oprime implacavelmente o ser humano”. [Público]

Saturday, December 24, 2011

ex nihilo

Dilma aumenta salário mínimo para 257 euros

O novo salário mínimo deverá colocar 64 mil milhões de reais (26,4 mil milhões de euros) na economia brasileira no próximo ano, segundo cálculos da LCA Consultores, citados pelo jornal O Estado de São Paulo.

Monday, November 14, 2011

panem et circenses

Interventionism in Everything: Football Edition (Jonathan M.F. Catalán)
Marca, a Madrid-based sports newspaper, published a story on Neymar, a Brazilian football player who had been tied to Real Madrid for quite some time. The piece goes into quite a bit of detail concerning why exactly Neymar never trasferred, and why Real Madrid has lost interest in signing this prodigy (...)

It turns out that the major incentive to move to Real Madrid would have been the much higher wages the Spanish club were offering Neymar. Because Santos, the relatively poorer football club that Neymar currently plays for, could not afford to match these wages, his transfer was seen as a real possibility. The threat of his movement to Spain is not just Santos’ problem, apparently. (...) Neymar is a celebrity and an icon. (...). Thus, the maintenance of his Brazilian identity has been deemed a priority.

It is such a priority that Dilma Rousseff, current president of Brazil, personally intervened in the transfer by securing Santos a €40 million loan from the Bank of Brazil. This loan will help the Brazilian football club raise Neymar’s wages to €7.2 million per year. In terms of gross income, this is still 15% lower than Real Madrid’s offer. But, considering differences in the tax codes, it allows Santos to offer Neymar a roughly equal wage in terms of net income earned.

Sunday, September 18, 2011

a/c "indignados"

The incredible shrinking Portuguese firm (Serguey Braguinsky, Lee Branstetter, André Regateiro)
(...) There is a link between Portugal's unusually poor productivity performance and another distinctive feature of its economic landscape – a firm size distribution that has been shifting to the left for almost 30 years.

Our analysis using Portugal's matched employer-employee database demonstrates the surprising extent and persistence of this shift (Braguinsky et al 2011). It is not found in other advanced industrial economies, such as the US or Denmark. Theoretically this could be an artefact of expanding data coverage – a reflection of the shift from manufacturing to services, or a response to the efforts of Portuguese governments in the 1980s and 1990s to de-monopolise sectors. However, even generous allowances for all of these factors leaves most of the shift unexplained. To explain the residual, we need to resort to Portugal's uniquely restrictive labour-market practices and their implications for the allocation of labour across firms:
  • Even after the partial labour-market reforms of the late 1980s, it remains very difficult for enterprises to fire workers for cause or to lay off workers even in difficult economic circumstances.
  • It remains all but impossible for firms to reduce employees' nominal wages, even when the firms face very adverse circumstances.
  • Legally mandated severance payments are high, even by European standards, and Portuguese courts have been consistently characterised by a pro-worker orientation.
  • Portuguese firms are required to provide a range of services to employees. OECD rankings of member states on the basis of labour-market protections consistently placed Portugal at the very top through the mid-1990s. (...)
There are ample reasons to believe that government interventions in the labour market distort the allocation of labour across firms. (...)

As many of the labour-market regulations are waived for sufficiently small firms, the literature has often found a “bulge” at a certain firm size just where extra regulations kick in (see for example Garicano et al 2011). But there is no such bulge around one particular firm size in the firm size distribution in Portugal because there are many different size thresholds at which restrictions apply and no single one is referenced often enough to matter on its own. Instead, labour protection is observed throughout the economy and the whole firm size distribution is shifted to the left. Another dimension of labour-market distortion revolves around the increasing extent to which the Portuguese legal, tax, and administrative regime discriminates against larger enterprises. As Portuguese enterprises grow in size, they confront a steadily growing set of rules, regulations, and mandates that increasingly drive a wedge between the value of employees to the firm and the cost of employing workers while maintaining compliance with all relevant laws. (..)

By driving a wedge between the costs firms must pay for employees and their value to the firm, these protections lead firms to reduce their employment, lowering the demand for workers in the aggregate. Somewhat unexpectedly, labour protection also forces some workers out of the employed workforce and into creating their own firms. These newly created “marginal” firms are particularly unproductive as their managers and employees would be better off working for more skilled managers. In effect, these protections distort and degrade the distribution of employees across managers of different quality. Not only is the entire firm size distribution shifted to the left, but productivity in terms of national per capita output falls. (...) Our results strongly suggest that Portugal could achieve first-order productivity gains by moving to a less distorted labour market.

Sunday, September 11, 2011

Comércio local é...

...perder três dias às voltas a tentar encontrar, sem sucesso, um cabo absolutamente vulgar em quatro lojas de electrónica diferentes para, no final, o encontrar numa quinta loja onde é vendido pelo triplo do preço ao qual se poderia obter online (em dezenas de versões diferentes), mas sem a possibilidade de pagar com cartão multibanco ou, claro, a comodidade de o receber em casa sem ter de se deslocar à loja.

Saturday, August 13, 2011

Citação do dia

J'espère que dans ce moment Votre Excellence aura eu le temps de prendre une connaissance suffisante de la nouvelle constitution de la Pologne. On m'assure qu'elle est en partie calquée sur la fameuse de 1791; mais comme je n'ai pu les comparer, je n'affirme rien. Celle-ci parlait, dit-on, dans l'article 1er, de la souveraineté du peuple comme d'un point fondamental explicitement déclaré: la nouvelle ne parle pas aussi solennellement, néanmoins elle reconnaît incontestablement la souveraineté du peuple dans l'article 31, où il est dit que le peuple est représenté par le Roi. J'ai dit pourquoi cette constitution est odieuse aux Russes; je n'y reviens plus. Au reste, monsieur le comte, toutes ces constitutions, considérées en elles-mêmes et dans leur but avoué, ne sont que de vains essais; car c'est un axiome capital aussi sur qu'un axiome de mathématique, que toute nation a le gouvernement quelle mérite; ainsi, tout ce que l'on peut faire pour une nation avant de l'avoir améliorée ne signifie rien et n'a point d'effet, ou ne produit que du mal; mais si l'on considère ces constitutions comme des mesures politiques propres à calmer, à diriger, à satisfaire, à distraire, à tromper même (car souvent il le faut) l'imagination des peuples, ce sont des pièces qui peuvent mériter toute sorte de louanges.
Correspondance diplomatique (1860), Joseph de Maistre (1753-1821)

Saturday, August 06, 2011

Os estados querem agências de notação independentes?

Desde o início da crise da dívida soberana que as acusações sobre a falta de independência das agências de notação financeira têm sido um tema de discussão um pouco por toda a Europa. As elites políticas não só acusam as maiores agências (Moody's, Fitch e Standard & Poor's) de monopolizarem o mercado, como vêem nas suas decisões uma defesa dos supostos interesses financeiros americanos e chegam ao ponto de propor uma agência de notação europeia. Este grupo inclui o alegado falcão liberal que se encontra à frente das contas públicas em Portugal. Claro que, quando os políticos propõem uma agência europeia, não se referem a agências privadas (até existe pelo menos uma portuguesa e a Fitch, apesar de ter sede nos EUA, é, na verdade, subsidiária de uma empresa francesa), mas sim a uma agência criada - e, naturalmente, controlada - pela UE.

O argumento sobre a falta de independência das agências, ou seja, a possibilidade de que os agentes políticos, financeiros, etc. possam influenciar as decisões que estas tomam e os resultados das avaliações que fazem, é particularmente interessante, especialmente se analisarmos algumas das acções que têm sido tomadas em Portugal nos últimos meses, onde tanta tinta corre sobre as pressões que pairam sobre as agências e tantas indagações surgem sobre a sua transparência:

1. No início de Julho deste ano, as câmaras municipais de Lisboa, Sintra e Porto suspenderam os contratos que tinham com a Moody's. As regiões autónomas da Madeira e dos Açores seguiram o mesmo caminho. A justificação? «[A agência] aplicou a Lisboa, aos outros municípios e às regiões autónomas uma queda automática [do rating] em função da queda da República» (...) «Em vez de nos avaliarem, simplesmente aplicam-nos o efeito automático.» Num país onde as finanças locais estão dependentes praticamente por inteiro do governo central, não se entende muito bem como poderiam existir expectativas distintas.

2. Na mesma semana, a ANA, a entidade do estado português que controla todos os aeroportos civis nacionais, também decidiu cancelar o seu contrato com a Moody's «por não se rever na qualidade do serviço prestado” (...) "A Moody's fundamenta a irracionalidade da sua decisão exclusivamente pelo 'downgrade' do 'rating' da dívida pública portuguesa e aplicação da sua metodologia de atribuição de 'rating'"». Dado que se trata de uma instituição controlada pelo estado português, também é difícil de imaginar que saíssem incólumes da decisão tomada pela Moody's de descer a classificação da dívida pública para Ba2 - e já se poderão dar por gratos ao terem caído somente para Baa3, dois níveis acima de Ba2.

3. O Bloco de Esquerda tem defendido (mais do que uma vez) que se cancelem todos os contratos do estado com as agências de notação: «Os bloquistas apresentam cinco propostas para combater a especulação e defender o país das agências de notação, a começar pelo rompimento de "todos os contratos com todas as agências de notação", porque não aceitam "que o Estado submeta a dívida soberana a interesses e organizações particulares".»

Efectivamente, este género de retaliação sobre as agências não é exclusivo a Portugal. Por exemplo, ainda esta semana a polícia italiana invadiu os escritórios da Moody's e da S&P. Entre outras acusações, cita-se que «la Fiscalía investigará dos informes más emitidos por S&P, los informes difundidos el 20 y 23 de mayo, que expresaban un juicio negativo sobre la deuda pública italiana. El fiscal Capristo ha precisado que en este informe "la agencia ha cambiado su opinión sobre la deuda pública del positivo al negativo"».

É difícil negar que todas estas acções só podem influenciar de uma forma as agências. Seja através de quebras de contratos ou investigações judiciais, estes eventos criam um incentivo muito claro para que agências atribuam classificações vastamente superiores àquelas que na realidade atribuiriam na ausência de represálias. Para um país tão preocupado com a dita falta de independência das Big Three (já agora, como é que o malvado mercado de especuladores criou uma concentração de poder tão grande? Dica.), confesso que ainda não vi ninguém muito incomodado com esta questão. A razão, que também explica a proposta para uma nova agência da UE, não é muito complicada de adivinhar. Nenhum dos que critica a suposta falta de indepedência destas agências está particularmente preocupado com essa possibilidade. Na verdade, eles não pretendem que as agências sejam verdadeiramente independentes - a única coisa que os preocupa é garantir que estas digam o que eles querem ouvir.

Adenda (12 de Agosto): Bem, isto certamente não demorou muito: Government to Punish S&P for DowngradeS&P Is Facing a Bipartisan Backlash in Washington

Thursday, July 21, 2011

Wednesday, July 13, 2011

As críticas à Moody's são rigorosas e imparciais

Dívida estatal portuguesa em % do PIB (1850-2010) [Fonte]
Despesa estatal portuguesa em % do PIB (1977-2010) [Fonte]
Até porque, no passado, quando as classificações que a Moody's atribuía à dívida soberana de diversos estados europeus claramente demonstravam um excesso de optimismo* em comparação com as suas capacidades reais em cumprir as obrigações perante os investidores, toda a gente se mostrou indignada e apontou esta óbvia falta de independência e objectividade por parte desta agência.

* Por exemplo, até ao último trimestre de 2009, a notação atribuída pela Moody's à divida soberana da república portuguesa era Aa2 ("Obligations rated Aa are judged to be of high quality and are subject to very low credit risk." [pdf]). No entanto, ver o crucial ponto 1 desta entrada.

Adenda (16/07): Para além da entrada recomendada na frase anterior, vale a pena ler também estas do Bz e do Gabriel Silva.

Friday, July 01, 2011

O homem do saco III

Para terminar esta séria de entradas (I, II), pelo menos de momento, destaco mais um notável artigo publicado no i e intitulado «O programa do governo ao milímetro. Vem aí o choque liberal». Embora seja certo que o artigo foi publicado antes da divulgação das últimas medidas do governo na Assembleia da República, não deixa de ser admirável a dissonância cognitiva que transparece a certo ponto do texto (sublinhados meus):
Assim, paralelamente às medidas de austeridade financeira e económica – da penalizante antecipação do agravamento do IVA à simples mudança dos feriados – junta-se um recuo generalizado do Estado e uma maior responsabilização das pessoas. Para os portugueses isto significará uma pressão inédita no curto prazo sobre os seus orçamentos familiares, com aumento de impostos, agravamento dos preços (no supermercado, nos transportes, na saúde) e restrições nos serviços públicos.
Que radical que me saiu este choque liberal do governo mais ultraliberal de que há memória. Suponho que se à antecipação dos aumentos do IVA adicionarmos os cortes de 50% no subsídio de Natal, os aumentos efectivos de IRS, IRC, IMT, IMI e os novos impostos sobre mais-valias (e mais alguma coisa de que eu me tenha esquecido) descobrimos que o novo governo está infiltrado por perigosos anarcocapitalistas.

Adenda (12 de Agosto): Mais uma medida a adicionar ao grande choque liberal.

Thursday, June 30, 2011

«livre circulação de mercadorias»


«A livre circulação de mercadorias representa uma das liberdades do mercado único da União Europeia. Desde Janeiro de 1993, foram suprimidos os controlos relativos ao tráfego de mercadorias no mercado interno tendo, desde então, a União Europeia passado a constituir um território único, sem fronteiras.

A eliminação dos direitos aduaneiros promove as trocas comerciais intracomunitárias, que representam uma grande fatia do total das importações e exportações dos Estados-Membros.

Os artigos 28.º e 29.º do Tratado que institui a Comunidade Europeia proíbem as restrições à importação e à exportação entre Estados-Membros

Something is rotten in the state of Denmark

Marmite: Denmark says spread could be illegal
British savoury spread Marmite could be illegal in Denmark if it fails to meet safety requirements, officials say.

By law, the Danish authorities must give their approval for food fortified by vitamins or minerals before sale. Products with such additives need to be assessed for any potential dangers, the Danish Food and Veterinary Administration says.

Denmark has previously banned several popular items, including the drink Ovaltine and some breakfast cereals. A shop in Copenhagen was recently asked to remove its supplies of Marmite following a phone call from Danish authorities, the owner says.

A spokesman for the Danish Food and Veterinary Administration said: "We have no record of an application for the sale of the product, so we have neither forbidden or accepted it." The procedural checks needed before a final decision is reached could take up to six months.
Tudo o que não seja previamente aprovado pelas autoridades dinamarquesas é, na prática, ilegal e impossível de ser comercializado porque pode ser inseguro e perigoso. Quem é que terá aprovado as autoridades dinamarquesas?

Tuesday, June 21, 2011

O homem do saco II

Em adição à última entrada que publiquei, confesso que li mais alguns artigos recentes na imprensa portuguesa que me deixaram intrigado. Um deles, publicado igualmente pelo i, reza assim:
[Álvaro Santos Pereira (ASP)] é também um economista típico da direita liberal, ainda que a sua capacidade política seja uma incógnita, sobretudo no que diz respeito à forma como vai ter de fazer frente aos fortíssimos lóbis para conseguir "inverter a política incompetente que tivemos nos últimos anos", como disse recentemente numa entrevista à Etv.
Um "economista típico da direita liberal"? Seria possível ao autor do artigo mostrar o seu profundo desprezo pelo direito dos indivíduos a reter o fruto do seu trabalho de uma forma ainda mais clara? Mais curioso ainda é que, no início do artigo, surgia este parágrafo:
Álvaro Santos Pereira, que vai assumir a superpasta da Economia (que reúne Emprego, Transportes, Obras Públicas e Telecomunicações), corta a direito: menos 15 pontos percentuais nas contribuições do patronato para a Segurança Social e subida do IVA como forma de contrair o consumo interno e fomentar as exportações.
Não sei que economistas liberais é que o autor do artigo anda a ler, mas todos os que eu conheço falam da necessidade de reduzir drasticamente a despesa estatal, não de aumentar impostos. Longe de mim menosprezar o urgente problema de acertar as contas públicas, mas fazê-lo com noções de inspiração mercantilista - para tentar manter a neutralidade fiscal de reduções selectivas de impostos - dificilmente pode ser considerada a coisa mais liberal do mundo. Basílio Horta, presidente da AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal), membro de um partido socialista e ex-membro de outro, também deixou a sua opinião:
"Pela primeira vez vamos ter em Portugal um governo liberal, pelo que vai ser interessante conhecer os resultados dessa experiência", disse Basílio Horta ao Dinheiro Vivo. O presidente da AICEP sublinha que nunca tinha acontecido haver ministros da Economia e das Finanças completamente alinhados com o liberalismo, como acontece com Vítor Gaspar e Álvaro Santos Pereira.

Ressalvando que não concorda com essa visão liberal, o deputado do PS manifestou-se preocupado com os efeitos que um excessivo liberalismo poderão trazer às empresas. "O apoio do Estado aos sectores exportadores foi absolutamente crucial para que a situação da economia portuguesa não fosse ainda pior," disse.
Um governo liberal? Completamente alinhados com o liberalismo? Epá, isto é coisa séria! Continuo a pensar que há gente que não distingue o que é a investigação científica da opinião política - em especial, no caso de Vítor Gaspar (VG), parece que há muita gente que eventualmente não terá entendido bem algumas daquelas referências a Milton Friedman nos seus artigos [ex., 1, 2]. É importante relembrar que Milton Friedman, para além de ter sido um liberal de relevo, era uma autoridade académica no campo de economia monetária, o ramo em que VG precisamente se especializou, e que as suas teorias são independentes da sua opinião política, o que faz com que até um keynesiano entusiasta do projecto político europeu possa estar de acordo com os seus possíveis contributos para o avanço da ciência económica sem necessariamente partilhar quaisquer dos seus ideais políticos. É a tradicional distinção entre economia positiva e normativa.

Apesar de tudo, é notável e comovente a preocupação exibida por Basílio Horta quando explica a alegada importância dos "apoios" aos membros da associação que ele próprio representa. Como se não tivessem sido precisamente todos os "apoios" a este amigo e àquele grupo de pressão a conduzir a dívida do estado a níveis de tal forma insustentáveis que trouxeram o país à situação corrente. O antigo ministro da cultura Manuel Maria Carrilho (MMC) também não resistiu a meter a colher:
«Álvaro Santos Pereira é curioso porque é um académico, é um técnico, uma opção que também foi feita para as Finanças com Vítor Gaspar, mas é alguém sem qualquer experiência política. Temos pela primeira vez, na história da política portuguesa, na Economia, um liberal puro e duro na versão anglo-saxónica», disse, lamentando ainda que não hajam mais mulheres no novo Executivo.
"Liberal puro e duro"? Relativamente a esta afirmação de MMC e ao supracitado artigo do i, vou aproveitar a ocasião para citar uma entrada que ASP, o novo ministro da economia, publicou no seu próprio blogue em 2008:
Nas últimas décadas, assistimos a uma desregulação generalizada dos mercados (financeiros, de capitais, etc). A crise financeira actual é em parte devida aos excessos cometidos pela ausência de regulações eficazes nos mercados imobiliários e financeiros dos Estados Unidos. Por isso, certamente que nos próximos tempos veremos o retorno do Estado e da regulamentação da economia. Quase todos concordam com esta proposição. (...)

Claro que as crises acontecem. Esporadicamente, mas acontecem. Porém, o importante é assegurar que o impacto da crise seja o menor possível. E é aqui que entra o papel do Estado. Voltando à sua questão, mais e melhor regulamentação é certamente necessária. Porém, mais do que regulamentação, o importante é que o Estado proteja e auxilie aqueles que são afectados negativamente por fenómenos como a globalização ou pela recessão de uma economia, quer através de programas sociais, quer através da introdução de programas de formação profissional. A economia de mercado não é incompatível com a protecção social, como certamente veremos nos próximos tempos (que se adivinham recessivos).(...)

Eu não discordo da intervenção. Bem pelo contrário. E também acho que não havia grande alterantiva à intervenção.
Não sei exactamente o que será isso de um "liberal puro e duro", mas não me parece sequer que um liberal dissesse nada disto, muito menos um economista típico da direita liberal - ou completamente alinhado com o liberalismo como sugeria Basílio Horta. Aliás, estas afirmações são bastante indistinguíveis das de um economista anglo-saxónico médio (que, apesar ter opiniões genericamente favoráveis à liberdade de comércio, não deixa de ser um social-democrata). O grande problema de Portugal é que qualquer pessoa minimamente competente e mais sensata do que a média dos seus pares nacionais nas respectivas áreas profissionais - representando, de alguma forma, o consenso internacional nas suas áreas de investigação - está condenada a ser vista como ultraliberal num país que não conhece outra coisa que não o socialismo. Suponho que a Economist demonstrou ter um conhecimento algo apurado sobre o país quando decidiu escolher a seguinte citação de Sarsfield Cabral para terminar o seu mais recente artigo sobre a situação nacional:
But some economists question how much the new government can change the political culture that has dominated Portugal for the past 30 years. “In economic terms, Portugal is the least liberal country imaginable,” says Francisco Sarsfield Cabral, an economic analyst. “The economy has depended on a paternalistic state throughout most of our history, previous PSD governments included.”
Indeed.