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Thursday, November 04, 2010

Porque me canso do futebol

Quando os adeptos de alguns clubes portugueses, nomeadamente do Benfica e do Sporting, se queixam da parcialidade das arbitragens em Portugal, há geralmente uma suposição implícita de que o mesmo não seria possível em competições estrangeiras, como as ligas europeias ou as competições internacionais da UEFA e da FIFA. Em parte devido à falta de atenção com que estas pessoas seguem outros campeonatos de destaque e as competições da UEFA (provavelmente por ser infrequente ver equipas portuguesas nas fases finais destas mesmas), esta ideia sobrevive, mesmo quando uma observação mais detalhada demonstraria o contrário.

Aqui bem perto, a liga espanhola é um dos melhores exemplos. Nas mais recentes temporadas, é difícil que não haja um jogo do Barcelona onde um jogador da equipa adversária não é indevidamente expulso, onde não há um golo (vital) do Barcelona que é marcado em fora-de-jogo, um golo válido da equipa contrária anulado, um penalti inventado/rebuscado a favor do Barcelona, uma grande penalidade a favor do adversário que fica por marcar ou mesmo uma adversário que alinha de início com a equipa de reservas. Aliás, o próprio percurso do Barcelona das últimas temporadas nas competições europeias é mais do que meramente estranho. Só nesta temporada, já se conta a patada monumental (não sancionada) de Valdés a N'Doye e a simulação de apito de Pinto no jogo contra o Copenhaga (levemente sancionado a posteriori com dois jogos de suspensão -- Pinto é o guarda-redes suplente). Se recuarmos no tempo podemos ver, por exemplo, os teatros de Sergio Busquets na semi-final contra o Inter em 09/10, que levaram à expulsão de Motta, os três ou quatro penaltis que ficaram por marcar a favor do Chelsea na semi-final da temporada 08/09 ou a bizarra história da equipa de arbitragem da final de 2006 que usava camisolas do Barcelona, quando estes venceram a liga dos campeões.

Todavia, esta entrada é sobre a partida de ontem do grupo G que opôs o AC Milan ao Real Madrid, que terminou com um empate a duas bolas, e que foi um excelente exemplo de tudo isto. O segundo golo do Milan foi claramente marcado em fora-de-jogo. Gattuso deveria ter sido expulso por acumulação de amarelos. Abate agrediu Cristiano Ronaldo e não recebeu sequer um amarelo. O mesmo se passou com a entrada por trás de Ibrahimović a Sergio Ramos, sem qualquer intenção de jogar a bola. O clima do jogo é ilustrado pela substituição de Ronaldinho por Inzaghi, após a qual este último se sentiu perfeitamente à vontade para empurrar Xabi Alonso pelas costas ao chegar atrasado a um lance. O Milan podia facilmente ter acabado o jogo com oito jogadores, mas terminou com onze. Enquanto o árbitro ia poupando no uso de cartões para as sucessivas entradas duras dos milaneses, em contraste, praticamente toda a defesa do Real Madrid (Sergio Ramos, Pepe e Ricardo Carvalho) ficou amarelada sem piedade, à excepção de Marcelo, à primeira falta merecedora de disciplina. O árbitro deste encontro não é um novato, mas sim o famoso Howard Webb que apitou a final do campeonato do mundo deste ano, na qual a selecção holandesa decidiu jogar artes marciais em vez de futebol, e que, mesmo assim, graças à complacência de Webb, conseguiu o feito notável de acabar com dez (Heitinga foi expulso).

Momento alto da final: De Jong decide fazer uma massagem peitoral a Xabi Alonso e recebe um severíssimo amarelo

Este Milan parece ser uma sombra daquilo que era há umas temporadas atrás, e isso ficou bastante claro na última jornada no Santiago Bernabéu. No entanto, como jogar uma Liga dos Campeões sem o Milan, que é o segundo clube com mais troféus em toda a história da competição, perde grande parte do interesse, seria de esperar que a organização tentasse encontrar uma forma de prolongar a estadia do Milan na competição. Em adição ao que se passou na partida com o Real Madrid, no outro jogo do grupo G, o Auxerre, último classificado do grupo, venceu o Ajax com um golo que parece ter sido marcado também em fora-de-jogo, ao minuto 83. A vitória do Auxerre complica bastante as contas para o Ajax, que ainda tem de jogar em San Siro e com o Real Madrid em casa, e continua a deixar tudo em aberto para o Milan.

Mourinho disse na conferência de imprensa após o jogo que este tinha sido bom para aprender e entender o que era jogar na Liga dos Campeões - e isso é certo. Enquanto dirigentes como Joseph Blatter e Michel Platini continuarem a insistir que o erro humano se deve sobrepor à tecnologia simplesmente para manter os interesses instalados, seja para continuar a empregar árbitros e fiscais de linha, comentadores desportivos que vivem o dia seguinte a discutir os lances mal arbitrados, vendedores de aspirinas, ou representantes dos clubes que podem comprar as suas influências junto dos árbitros, nunca será possível ter um jogo de futebol onde aquilo que mais importa é efectivamente o futebol. As únicas pessoas que podem ser, por princípio, contra uma tecnologia, seja ela qual for, que facilite o processo de decisão de foras-de-jogo, golos sobre as linhas, marcação de grandes penalidades, etc. de forma transparente e inequívoca são aquelas que estão interessadas em ver um futebol em que as regras de jogo podem ser ocasionalmente contorcidas para servir interesses secundários que não têm absolutamente nada que ver com o espectáculo que se deve jogar dentro do campo. Isto não é futebol. É simplesmente uma trafulhice que faz com que qualquer partida possa ser sistematicamente dominada por trapaceiros e leve as equipas contrárias a serem prejudicadas caso não optem por se comportar da mesma forma.

Tuesday, November 02, 2010

I want everyone to remember *why they need us*

Strategic defence review published
The government's Strategic Defence and Security Review was published this afternoon following a statement by the Prime Minister to Parliament. Read on for a summary and to download the review.

The Strategic Defence and Security Review, which sets out how the government will go about securing Britain in an age of uncertainty, has been published today. In the review, the government has taken decisions on its defence, security, intelligence, resilience, development and foreign affairs capabilities.
Uma era de incerteza, claramente em oposição a outras eras, em que tudo era inteiramente seguro e certo.

Tuesday, October 05, 2010

centenário da república

Yay.

There and Back Again

Good news, everyone!

Em Junho comentei aqui uma projecção da Ernst & Young que estimava que o crescimento da economia portuguesa se situaria em -1,5% em 2011 e apenas voltaria a mostrar um valor positivo, 1,1%, em 2012. Uma nova projecção, desta vez da Standard & Poor's, aponta para uma recessão de 1.8% em 2011 e uma estagnação em 2012. Isto significa que, a verificarem-se estas estimativas mais recentes, o português médio vai ter uma qualidade de vida substancialmente pior em 2012 do que as projecções independentes (por razões que deveriam ser evidentes, as previsões do governo não têm credibilidade alguma) anteriores anteviam e, escusado será dizer, muito pior do que em 2008, quando começou a crise financeira. Estes números não são particularmente animadores quando conjugados com as expectativas do Comité das Autoridades Europeias de Supervisão Bancária para o desemprego em caso de recessão em 2011, a qual, neste cenário, poderia elevar a taxa até quase 13% em 2012. Actualmente, a taxa de desemprego em Portugal é a quarta mais elevada da OCDE.

No meio de tudo isto, Portugal, que está essencialmente estagnado há uma década, tem a honra dúbia de ser o nono país mais pobre da União Europeia (ou, provavelmente, já o oitavo) e uma carga fiscal que, tal como o desemprego, atinge máximos históricos [este artigo do i é do mês de Julho, por isso não inclui cálculos relativos o novo máximo histórico trazido pela última vaga de aumentos tributários anunciados em Setembro] e deverá andar, por esta altura, no topo da tabela, a seguir aos países escandinavos, França e Bélgica. Talvez seja um bom momento para recordar que ainda em Julho deste ano, José Sócrates dava demonstrações do universo paralelo em que ele e o seu governo vivem, dizendo que "a economia portuguesa foi a que melhor resistiu à crise. Basta olhar para os números" e que a ideia de que Portugal se encontra em crise profunda era "infantil e politiqueira". Para deitar água na fervura, de acordo com as últimas estatísticas disponíveis, a taxa de homicídio em Portugal é a maior da Europa ocidental.

Em Portugal, as pessoas não gostam de ter de pensar nestas coisas, preferindo imaginar que tudo se irá resolver de alguma forma, e rapidamente confundem uma exposição de meros factos negativos acerca do estado do país com falta de espírito patriota. Contudo, talvez devesse começar a ser óbvio, por esta altura, que manter um regime socialista no poder décadas a fio, enfiar sistematicamente a cabeça na areia e acreditar ingenuamente que bastam optimismo irrealista e confiança para obter bons resultados não será grande estratégia. Um país de dimensões regulares que suporta uma população de milhões, mas que tem um terço dos seus nacionais a residir no estrangeiro e praticamente só consegue atrair emigrantes activos vindos dos PALOPs, Brasil e Europa de Leste não está a fazer qualquer coisa como deve ser.

Adenda: O FMI está agora a projectar uma contracção de 1.4% para 2011.

Friday, October 01, 2010

manco de Lepanto

Don Quixote de Gustave Doré (1863)

"La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos; con ella no pueden igualarse los tesoros que encierra la tierra ni el mar encubre; por la libertad, así como por la honra, se puede y debe aventurar la vida, y, por el contrario, el cautiverio es el mayor mal que puede venir a los hombres." [segunda parte, capítulo LVIII]

Tuesday, September 14, 2010

Sunday, September 05, 2010

hierarquia de culturas

Descoberto numa ficha informativa de português do 9º ano (negritos meus):

"Cerca do século V d.C., os povos bárbaros invadem a Península Ibérica. Dentre eles predominaram os Visigodos e os Suevos. De cultura inferior à dos povos dominados, aceitaram a língua destes que, pouco a pouco, se vai fraccionando conforme a evolução que cada povo invasor, em contacto com o autóctone, vai imprimindo ao latim vulgar. (...)

Em 711 produz-se a invasão árabe. Em muito pouco tempo os Árabes ocupam quase toda a Península Ibérica. A sua cultura é superior à dos Visigodos e, porventura por isso, a sua língua deixou marcas maiores na nossa ao nível do vocabulário relacionado com a agricultura (...), a guerra (...), as ciências (...), a construção (...), jardinagem, etc."

Mais abaixo, outra pérola interessante, especialmente tendo em conta que ao longo da ficha há várias referências à "nossa língua" e à "conquista da nossa independência nacional":

"D. João I e os seus filhos continuam uma política cultural de consolidação da língua portuguesa no caminho do aprofundamento da sua autonomia, tendo já consciência que a segurança da independência nacional passava também por aí"

Se um país precisa de "aprofundar a autonomia" da língua que utiliza com o propósito especifico de solidificar a independência nacional, será que esse país é assim tão diferente daqueles de que se pretende diferenciar? Este processo artificial de alteração da língua para criar um afastamento em relação a outras comunidades indistinguíveis que, por obra do acaso, ficaram noutra jurisdição política é precisamente o oposto do que o governo actual está agora a tentar - um processo artificial de alteração da língua para fingir que o português de Portugal e o português do Brasil não estão a divergir naturalmente.

Thursday, September 02, 2010

É polémico não querer ser roubado II

Alguém da TSF deve ter lido esta minha entrada. Hoje foi publicada esta outra notícia:

Estado perdeu mais de mil milhões de euros em impostos

Uma auditoria da IGF revela que o Estado deixou escapar mais de mil milhões de euros em dinheiro de impostos por causa de milhares de processos que prescreveram o ano passado.

O relatório da Inspecção-geral de Finanças (IGF) avança algumas explicações para a dificuldade em despachar os processos a tempo e horas.

"Perdeu"? "Deixou escapar"? Quanto dinheiro é que esta gente recebe do Komintern?

Wednesday, August 25, 2010

Revenge of the Nerds II

Depois das inovações relativas ao Teraflops Research Chip, a Intel continua a fazer das suas:

An Experimental Chip From Intel that Can Move 50Gbps

"Intel Corporation announced an important advance in the quest to use light beams to replace the use of electrons to carry data in and around computers. The company has developed a research prototype representing the world's first silicon-based optical data connection with integrated lasers. The link can move data over longer distances and many times faster than today's copper technology; up to 50 gigabits of data per second. This is the equivalent of an entire HD movie being transmitted each second."

Thought-controlled computers on the way: Intel

Computers controlled by the mind are going a step further with Intel's development of mind-controlled computers. Existing computers operated by brain power require the user to mentally move a cursor on the screen, but the new computers will be designed to directly read the words thought by the user.

Intel scientists are currently mapping out brain activity produced when people think of particular words, by measuring activity at about 20,000 locations in the brain. The devices being used to do the mapping at the moment are expensive and bulky MRI scanners, similar to those used in hospitals, but senior researcher at Intel, Dean Pomerlau, said smaller gadgets that could be worn on the head are being developed. Once the brain activity is mapped out the computer will be able to determine what words are being thought by identifying similar brain patterns and differences between them. (...)

If the plans are successful users will be able to surf the Internet, write emails and carry out a host of other activities on the computer simply by thinking about them. Director of Intel Laboratories, Justin Ratner, said it is clear humans are no longer restricted to using a keyboard and mouse, and mind reading is the "ultimate user interface." He said he is confident any concerns about privacy will be overcome.

While many able-bodied computer users may hesitate to adopt a technology that operates a computer by reading their minds, people who are unable to use a keyboard or a mouse through disability should find the new technology gives them much more freedom and opportunities for communicating.

Agora só falta esperar pelo ódio/inveja prémio que a União Europeia lhes vai dirigir dar na forma de "patrocínio do contribuinte europeu".

Monday, August 23, 2010

É polémico não querer ser roubado

Empresas alemãs desviaram 800 milhões para bancos na Suíça
Um CD com o nome de 250 empresas alemãs que terão depositado cerca de 800 milhões em bancos na Suíça para fugirem aos impostos está a provocar polémica na Alemanha.

O CD com o nome das 250 empresas que terão depositado dinheiro na Suíça para fugir aos impostos foi entregue por e-mail ao ministro das Finanças de uma região no sul da Alemanha.
Não é a primeira vez que o governo federal alemão (ou os regionais) se dispõe(m) a comprar informação roubada para combater a evasão fiscal, o que não deixa ser macabramente irónico - gastar dinheiro dos contribuintes para sacar mais dinheiro aos contribuintes. Na última hiperligação, gosto em particular da frase "A DSTG [Deutsche Steuer-Gewerkschaft] reclama que todos os anos se perdem 30 mil milhões de euros devido à evasão fiscal". Engraçado, eu também acho que perdi uns belos milhões de euros só no ano passado quando decidi não assaltar aquela sucursal do BCP que está ali ao fundo da rua.

Sunday, August 08, 2010

Sugestões para a próxima versão do Magalhães II

Uma actualização desta notícia:

Second Student Sues School District Over Webcam Spying
A webcam scandal at a suburban Philadelphia school district expanded Tuesday to include a second student alleging his school-issued laptop secretly snapped images of him.

The brouhaha commenced in February, when a student of Lower Merion School District was called into an administrator’s office. Sophomore Blake Robbins was shown a picture of himself that officials suggested was him popping pills. The family claimed it was candy.

An invasion-of-privacy lawsuit followed, alleging the district had snapped thousands of pictures of its students using webcams affixed to the 2,300 Apple laptops the district issued. Some of the images included pictures of youths at home, in bed or even “partially dressed,” (.pdf) according to a filing in the case. Students’ online chats were also captured, as well as a record of the websites they visited. (...)

The tracking software on Hasan’s computer wasn’t turned off until February 18, when Robbins filed suit, the suit alleges, claiming that at least 469 photographs and 543 screenshots were taken by Hasan’s computer without his knowledge. Hasan’s suit said the images “were taken without Jalil’s knowledge, without his authorization and to his utter shock, dismay, panic, embarrassment and disgust.” (...)

The district said the cameras were activated only when a laptop was reported stolen or missing — assertions lawyers suing the district dispute.
Federal prosecutors will not file charges against a school district or its employees over the use of software to remotely monitor students.

U.S. Attorney Zane David Memeger says investigators have found no evidence of criminal intent by Lower Merion School District employees who activated tracking software that took thousands of webcam and screenshot images on school-provided laptops.

Saturday, August 07, 2010

"But all was not lost, for from the ash rose a great bird"

Mozilla Firefox (Response from Microsoft)
Microsoft's head of Australian operations, Steve Vamos, stated in late 2004 that he did not see Firefox as a threat and that there was not significant demand for the feature set of Firefox among Microsoft's users. Former Microsoft Chairman Bill Gates has used Firefox, but has commented that "it's just another browser, and IE [Microsoft's Internet Explorer] is better."
Firefox To Make History, About To Surpass IE in Europe
Firefox is nearly as popular as IE in Europe now, Chrome and Opera are vastly more popular than in the U.S, while Europeans could care less about Safari. IE is listed with 40.89%, Firefox with 39.47% (the trend indicates that Firefox may jump past IE next month), Chrome with 10.82%, Opera with 4.6% and Safari with 3.3%. By the way, Chrome is most popular in Africa, where it stands at 10.99%.

Firefox’ popularity in Europe is based on an obscenely high market share in Germany where the browser holds 60.88% of the market, according to StatCounter. IE has only 25.0% in Germany and Chrome only 5.48%, Opera 4.6% and Safari 2.9%. (...)

So why would we care about Europe? Because the browser developers have to care: North America has an estimated Internet population of 259 million users, while Europe is at about 426 million users. Conceivably, the European market is much more interesting and important to Microsoft, Mozilla and Google than North America.
Embora não afecte muito significativamente as conclusões, o StatCounter corrigiu ligeiramente as quotas de mercado para a Europa - o Firefox teve aproximadamente 38% em vez de 39%, e o IE 43% em vez de 41%. É relevante notar que o IE a que Steve Vamos e Bill Gates se referem na citação anterior é o famoso (pelas piores razões) Internet Explorer 6, que não tinha separadores, apoio para feeds, bloqueador de pop-ups, filtro de phishing ou barra de pesquisa, mas, para compensar, estava (e ainda está) recheado de buracos de segurança, era incrivelmente lento e tinha uma interpretação muito sui generis dos padrões da Web.

Thursday, July 29, 2010

O cão comeu o meu TPC


Num país onde até os casos de elevado mediatismo, como o da Casa Pia, que se arrasta pela Justiça há praticamente oito anos, demoram anos até que se chegue a um veredicto final, não deixa de ser curioso que a justificação dada pelos procuradores do Ministério Público para não interrogarem José Sócrates no âmbito do caso Freeport tenha sido a de "falta de tempo". Alguns comentadores poderão afirmar que isto é ilustrativo do grau de imunidade que qualquer político português bem posicionado possui, mas a verdade é que me parece bem mais indicativo do tipo de elite que há décadas povoa as altas esferas do Estado português, a qual parece preferir negligenciar as suas devidas funções a colocar em risco o seu estatuto na hierarquia actual. E isso é infinitamente mais preocupante para o futuro do país do que a impunidade de que um qualquer primeiro-ministro temporário possa usufruir.

Saturday, July 17, 2010

Homossexualidade em Cuba

Descobri recentemente que o regime cubano, um dos regularmente citados faróis da tolerância e igualdade para muitos progressistas, define explicitamente a palavra matrimonio como (artigo 36):
la unión voluntariamente concertada de un hombre y una mujer con aptitud legal para ello, a fin de hacer vida en común.
É relevante frisar que não só está a exclusão de um contrato com a denominação de casamento imbuída na constituição, como Cuba não proporciona, presentemente, qualquer reconhecimento de uniões civis entre parceiros homossexuais. Na verdade, como as próprias pessoas mais ingénuas e apoiantes do regime comunista noutros aspectos reconhecem, o governo cubano já tem um longo historial de perseguição aos homossexuais:
Mas isso não é desculpa para apagar a perseguição sofrida pelos gays cubanos. Estima-se que mais de 10 mil deles foram expulsos do país. Além disso, 22 anos após a revolução, em 1971, a homossexualidade foi declarada ilegal por Fidel, que chegou a chamá-la de "patologia anti-social".

Antes disso, Fidel disse em 1965: "Não acredito que algum homossexual tenha a envergadura ou a conduta moral necessária para ser considerado um bom revolucionário. Homossexuais não devem ocupar posições em que possam influenciar a nova geração".
Outros, que não tiveram a sorte de ser expulsos do país, eram simplesmente enviados para campos de trabalhos forçados:
In the name of the new socialist morality, homosexuality was declared illegal in Cuba and typically punishable by four years’ imprisonment. Parents were required to prevent their children from engaging in homosexual activities and to report those who did to the authorities. Failure to inform on a gay child was a crime against the revolution.

Official homophobia led, in the mid-1960s, to the mass round-up of gay people, without charge or trial. Many were seized in night-time swoops and incarcerated in forced-labour camps for “re-education” and “rehabilitation”. A few disappeared and never returned.

One gay man recalls: “We were taken to Camagüey, at the other end of the island. It was a camp surrounded with barbed wire, with watchtowers manned by guards with machine guns.” (...) The gay prisoners were often beaten, and occasionally raped, by criminal gangs in the camps. Some gays were killed; others committed suicide.

At the First National Congress on Education and Culture in 1971, the cultural repression of homosexuality intensified. It was decreed that homosexuals were “pathological”, “antisocial” and “not to be tolerated” in any job where they might “influence youth”. Widespread anti-gay purges followed in schools, universities, theatres and the media. Gay professors, dancers, actors and editors ended up sweeping roads and digging graves. (...) Today, the legal status of lesbian and gay people in Cuba is still ambiguous. Amnesty International regards the lack of clear, categorical civil rights for homosexuals as being tantamount to illegalisation.

While the 1979 penal code formally decriminalised homosexuality, gay behaviour causing a “public scandal” can be punished by up to twelve months’ jail. This vague law, which is open to wide interpretation, has often been used to arrest gay men merely because they happen to be effeminate and flamboyant.
Nada disto deveria constituir uma surpresa porque, apesar da propaganda corrente na maior parte dos países ocidentais, em nenhum dos países comunistas há  sequer um reconhecimento de qualquer tipo de união civil entre pessoas do mesmo sexo. Na União soviética, o primeiro país que se classificava a si mesmo como comunista, ser homossexual (ou a simples acusação de o ser) era motivo para ser condenado a uma pena de cinco anos em campos de trabalhos forçados. Na China, o pico da repressão deu-se precisamente durante a Revolução Cultural.

Da próxima vez que o caro leitor julgar que a extrema-esquerda apoia os direitos individuais de pessoas com uma orientação sexual pouco ortodoxa, pense novamente. A sua presente associação e apoio a movimentos homossexuais deve-se muito mais a uma mudança de estratégia política do que a uma motivação de cariz ideológico. Precisamente nesse sentido, é interessante notar que, mais recentemente, a propaganda do regime - que serve de guia para a propaganda comunista no resto do mundo - passou a adoptar uma postura mais alinhada com aquilo que a comunidade internacional pretende ouvir:
Porém, em 1992, perguntado sobre a situação dos gays em Cuba, Fidel deu outra resposta: "Nunca promovi políticas contra homossexuais. Não acredito que a homossexualidade seja uma degeneração. Sempre tive uma abordagem mais racional, considerando que a homossexualidade seja uma tendência natural dos seres humanos que eu respeito. Sou contra qualquer forma de discriminação de homossexuais". As citações aparecem em uma longa reportagem da revista inglesa Attitude, de maio de 2007, sobre a homossexualidade em Cuba.

Bolting outta there

Usain Bolt anunciou que não irá correr no meeting da Liga Diamante de Londres, a 13 e 14 de Agosto.

O campeão olímpico e recordista mundial dos 100 e 200m - que está em Paris para outra das provas do circuito, que se realiza esta sexta-feira - não foi claro nas explicações, mas, segundo a imprensa britânica, a razão da desistência estará relacionada com os impostos que vigoram em Inglaterra.

O atleta terá feito contas e visto que a presença em Londres significaria ter maiores custos com taxas a pagar do que o cachet cobriria. «Foi o que o meu empresário disse», admitiu Bolt. Os jornais publicam que, caso o atleta faça uma prova na Grã-Bretanha e outras cinco noutros países, terá de pagar 1/6 do total que receber, em competições e contratos.
A única coisa que um país ganha em tentar cobrar taxas demasiado altas é uma redução no número de pessoas que desejam fazer negócios sob a sua jurisdição.