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Wednesday, December 20, 2006

A tradição de ser contra a tradição

Hoje à noite, a convidada de Ana Sousa Dias no programa Por outro lado, transmitido pela 2:, foi Pilar del Río. Pilar del Río é uma senhora de meia-idade com um cabelo impecavelmente arranjado e, pelo teor da entrevista, com bastante experiência pessoal em técnicos de estética capilar. Mas há mais, Pilar del Río não só tinha um cabelo impecavelmente arranjado (para dizer a verdade, provavelmente sujeito a uma coloração artificial), usava também pendentes brilhantes nos lóbulos das suas orelhas, uma camisola decotada e uma saia. Notava-se também a maquilhagem que aperfeiçoava os contornos da sua cútis acetinada e o batom que fazia os seus lábios mais proeminentes e vistosos. Para além de tudo isto, teve a graciosidade inigualável de fazer um monólogo bilingue com Ana Sousa Dias, falando um castelhano (língua secular baseada de forma incontornável em outras milenares como o latim vulgar e o euskera) de gramática aparentemente de acordo com a norma estabelecida pela Academia Real Espanhola e uma pronúncia descafeínada entre o português e o andaluz (outra língua secular, mas desta vez baseada também na fonética moçárabe). Há mais ainda. Para além de ter utilizado expressões idiomáticas em castelhano, Pilar de Río disse que estava casada (pela segunda vez) com José Saramago e que tinha animais domésticos na sua casa em Lanzarote.

O ponto culminante do monólogo foi, portanto, quando Pilar del Río se revelou totalmente contra toda e qualquer espécie de tradição. As suas afirmações anteriores sobre Franco, o catolicismo e o mundo da moda e respectiva indústria denunciavam já a sua alma de eterna progressista, sempre em busca de uma revolução social que não deixe a sociedade sedentarizar-se (se não forem os sutiãs queimados e a libertação dos grilhões que impiedosamente amarram o Homem a si mesmo, que sejam os direitos humanos dos símios e robôs ou coisa semelhante). Pilar del Río deu alguns exemplos de tradições que a deixavam incomodada e Ana Sousa Dias, num dos seus raros momentos de despertar da letargia em que mergulhara no início do programa, ainda esboçou uns comentários indignados sobre receitas culinárias que passavam de geração em geração. Mas nada, Pilar del Río era totalmente avessa a toda e qualquer tradição ou regra herdada existente, fosse ela qual fosse.

Como se não bastasse já todo este acumular misantropo de emoções, chegou o segundo clímax. Pilar del Río afirmava com orgulho espelhado na sua face que admirava Saramago por se conseguir entender com os jovens pertencentes aos movimentos anti-globalização. Estava dado o mote para o chorrilho que se aproximava. A partir daqui foi sempre em movimento descendente, qual bola de neve rolando por inevitável encosta de declive acentuado. A globalização impiedosa, a exploração do capitalismo selvagem, o lucro obsceno das grandes empresas, a economia desumana, os interesses económicos. Lugares-comuns perfeitamente gastos, correntes e com um historial já mais que centenário mas que, por alguma razão imperscrutável, continuam a ser vistos como uma visão provocadora e contrária ao sistema, para além de inovadora e refrescante.

Uma coisa é bem certa. Saramago, mesmo quando não está presente ou a fazer observações sobre a inutilidade da informática, faz questão de enviar a sua esposa como emissária especial da sua palavra divina para que ninguém sinta a sua falta e passe um serão risonho em companhia da exposição dos princípios filosóficos de algo perfeitamente congruente e fascinante como o comunismo individualista - o tal que nega a privacidade por ser imoral, ao mesmo tempo que recusa normas sociais conservadoras e reaccionárias impostas, que quer promover a cidadania, a entreajuda e o humanismo, quando se recusa a aceitar tudo aquilo que faz parte da natureza humana, e que rejeita todo e qualquer passado ao mesmo tempo que não consegue sequer dar um passo sem ele.

Monday, December 18, 2006

Todo o jogador é um potencial assassino

German gov't considers jail time for gamers

«Proposed legislation targets pixelated mayhem and virtual violence; legislators consider acts of cruelty against "human-looking characters" as reason enough to fine, imprison.

Games in Germany already face strict censorship laws--titles such as Gears of War are deemed to be too violent, and the German board of classification (the Unterhaltungssoftware Selbskontrolle) refuses to give them a rating, effectively meaning that the games can be sold only at adults-only retailers.

Nazi symbols are also banned in the country, except for art and educational purposes--so games which use them, including the Wolfenstein series, are also banned from being released in Germany. Even games such as Dead Rising are regarded as crossing a threshold of acceptability since violence towards zombies is considered to be too close to violence towards real people.

Legislation currently being drafted would take these standards a step further. The bill, which was introduced last week by the states of Bavaria and Lower Saxony, proposes a new offence. Those found guilty of "cruel violence on humans or human-looking characters" could face fines or jail time of up to 12 months--and those it applies to include developers, retailers, and consumers, reports UK newspaper The Guardian. (...)

The proposed legislation makes the future for German game companies unclear. One company, Far Cry and Crysis developer Crytek, has already made known its plans to relocate to another country should any legislation of this kind be made law

Friday, December 15, 2006

Todo o cidadão é um potencial terrorista

Homeland Security chief defends Real ID plan

«U.S. Department of Homeland Security Secretary Michael Chertoff on Thursday defended forthcoming national ID cards as vital for security and consistent with privacy rights.

Chertoff said one of his agency's top goals next year is to forge ahead with recommendations for the controversial documents established by a federal law called the Real ID Act in May 2005. By 2008, Americans may be required to present such federally approved cards--which must be electronically readable--to travel on an airplane, open a bank account or take advantage of myriad government services such as Social Security. (...)

The upcoming federally approved IDs are intended to be a secure, tamperproof means of protecting Americans' identities while keeping out terrorists and other wrongdoers, Chertoff said. (...)

Some have argued that the idea of creating more tamperproof IDs is only a marginally better way to screen out those intent on committing terrorist acts because ID cards don't even begin to tackle a core crime prevention challenge: determining a person's unspoken intentions. (...) A September study released by the National Governors Association, National Conference of State Legislatures and American Association of Motor Vehicle Administrators estimated that the overhaul of their identification systems would cost states more than $11 billion over five years. (...)

The cards must contain, at a minimum, a person's name, birth date, gender, ID number, digital portrait, address, "physical security features" to prevent tampering or counterfeiting and a "common machine-readable technology" specified by Homeland Security.»

Wednesday, December 13, 2006

Agora que o salário mínimo aumentou

Ministro quer alunos a trabalhar

«Titular da pasta do Ensino Superior revela que Governo está a preparar legislação que recompensa estudantes universitários que acumulem part-time com os estudos.»

Há estudos que são tiros no pé

OCDE recomenda que universidades e politécnicos passem a ser fundações

«O estudo encomendado pelo Governo aconselha também que professores e trabalhadores não-docentes das escolas percam o vínculo ao Estado e deixem de ser funcionários públicos.

Fundações – a proposta da OCDE para o ensino superior português é que universidades e politécnicos públicos passem, gradualmente, a ser fundações financiadas pelo Estado, mas geridas como se fossem do sector privado.

O organismo aconselha também que professores e trabalhadores não-docentes das escolas percam o vínculo ao Estado e deixem de ser funcionários públicos.

As instituições de ensino superior poderão, "por exemplo, continuar a ser financiadas pelo Governo, mas serão vistas como pertencendo ao sector privado", diz o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) encomendado pelo Governo, no início deste ano, no âmbito da avaliação internacional do sistema de ensino superior português. (...)

O objectivo é que as instituições tenham lideranças mais fortes, mais iniciativa e inovem. "Inércia" e "inflexibilidade" são duas das palavras que caracterizam a acção dos actuais reitores, critica a OCDE. Outras são falta de liderança e falta de vontade para tomar uma decisão. "Há uma clara necessidade de mudar."

A OCDE sabe que esta recomendação é "radical" e questiona: "Será que o Governo está disposto a ceder o controlo das instituições e a passá-lo para fora do sistema do Estado? Será politicamente viável? Como é que vão reagir as instituições a estas propostas?" (...)»

Friday, December 08, 2006

It's all about the oil II

Oil field delays mean higher 2010 crude price: EIA

«The U.S. government's top energy forecaster on Tuesday said it raised its estimate for world crude prices in 2010 by about 20 percent to near $60 a barrel due to delays bringing new oil fields on line. (...)

World crude oil prices are projected to average $57.47 a barrel in 2010 based on 2005 dollars, versus a year-ago estimate of $47.29 a barrel in 2004 dollars, the EIA said. (...) U.S. crude oil futures have hovered around $60 a barrel in recent weeks, down from the record $78.40 hit in July.

World crude prices will dip to $49.87 a barrel in 2015 and then rise steadily to average $59.12 in 2030, the EIA said. That's versus the $56.97 a barrel average for 2030 that the EIA predicted last year.»

Oil's Well

«Once again, doomsayers claiming the world's oil will soon run out have been proved wrong. There is, however, a huge threat to global fossil fuel supply: proposed taxes that would kill investment and exploration. Some environmentalists contend that the world has reached peak oil production and that we've entered a period of decline that demands we abruptly shift to more politically correct forms of power.

But before we start having the government mandate windmills on every street corner, it would be wise to listen to oil industry historian Daniel Yergin, the chairman of Cambridge Energy Research Associates. Yergin, whose 800-page best-seller, "The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power," won a Pulitzer, this week published an analysis that found a remaining 3.74 trillion barrels of total global oil reserves — more than three times as much as "peak oil" theory contends. (...)

CERA's study reveals that Hubbert's approach was riddled with flaws:
• He underestimated the effectiveness of new technologies in discovering, retrieving and refining oil resources.

• His forecasts of oil production over the following decades in the lower 48 states were hugely understated — by 66% in the case of 2005.

• He failed to anticipate the huge finds in Alaska and the Gulf of Mexico.

• Even leaving new technology aside, Hubbert's prediction of a steep downward curve after a production peak is based on false assumptions regarding typical oil fields.

• He ignored the impact of price and demand in driving production.

"This is the fifth time that the world is said to be running out of oil," noted Yergin in releasing the report, titled "Why the Peak Oil Theory Falls Down: Myths, Legends and the Future of Oil Resources." (...)

CERA's Yergin points out that each time there have been fears of oil running out, "technology and the opening of new frontier areas have banished the specter of decline." He concludes that "there's no reason to think that technology is finished this time." That is unless tax-crazed politicians step in to finish it.»

Thursday, December 07, 2006

The State's my Personal Jesus


«Apesar das vantagens, o VoIP ainda não pode ser visto como um substituto da rede fixa tradicional, devido à inexistência de um plano nacional de numeração para a recepção de chamadas através desta tecnologia, diz Miguel Lage, da Deco

Tuesday, December 05, 2006

Alguém falou em racionalização?

Mariano Gago admite fechar universidade em Lisboa

«O ministro do Ensino Superior lançou a ideia numa reunião com os reitores. Nova, Clássica, ISCTE e Técnico, uma delas pode fechar. (...)

Uma das quatro universidades públicas em Lisboa poderá encerrar. Esta é uma das hipóteses que está a ser ponderada pelo ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, no âmbito da reorganização da rede de estabelecimentos de ensino superior que deverá avançar no próximo ano, seguindo as recomendações do relatório da OCDE que será divulgado na próxima semana.»

Cavar a própria cova

[Previamente publicado n'O Insurgente]

Todas as discussões sobre o estado do ensino superior em Portugal acabam mais ou menos da mesma forma - com um consenso geral sobre as qualidades visíveis que este deveria apresentar e não apresenta. Formação com um elevado padrão de qualidade a nível internacional, preparação para uma flexibilidade laboral, eficiência optimizada no aproveitamento de recursos financeiros e didácticos disponíveis, professores de simultâneo talento pedagógico e científico e um clima que propicie a investigação e respectiva troca com a sociedade de cariz não-académico.

Não há nenhum problema endógeno em todos estes desejos. A incompatibilidade surge apenas quando aqueles que concordam entre si sobre a discordância relativa ao actual panorama do ensino superior se revelam como sendo socialistas da velha escola, um problema que afecta particular e gravemente a elite académica (este sim, um problema de endogenia e endogamia). Acontece que adicionalmente a todas estas ânsias por resultados palpáveis, ambicionam também - o que talvez seja a cereja no topo do bolo - um ensino superior tendencialmente gratuito e cumpridor de determinados padrões de uniformização para efeito de igualdade de condições e oportunidades, de tal forma que não se verifiquem grandes disparidades entre cursos de universidades diferentes, métodos de avaliação, critérios de financiamento de projectos, etc. Isto é tão exequível como querer fundir o modelo de qualidade do emblema Ivy League/Russell Group com o paraíso tecnológico japonês e o "preço" e a "igualdade" da educação em Cuba.

Uma vez que é impossível combinar a oferta de todas estas características de uma forma espontânea - o que qualquer crítico social omnisciente e eticamente intocável reconhecerá como uma falha significativa - é aqui que o apelo à participação das instâncias estatais entra em cena; o planeamento central é sempre o agente de recurso quando o objecto contestado é parte das consequências de viver num mundo onde a criação natural de serviços serve o actual estado de evolução de uma dada sociedade. Este apelo não se limita obviamente a um pedido à interferência no sector - até porque no caso português o ensino estatal já constitui uma grande fatia do paradigma actual - mas sim a modificações na fórmula de engenharia vigente. O Estado acaba assim por assumir o papel de derradeiro responsável pela tarefa do ensino universitário e daí resulta que passam a ser geridos os recursos académicos de acordo com o que os dirigentes nomeados pensam ser correcto e não consoante o processo típico de uma economia de mercado, que é como quem diz, com as escolhas a serem feitas por parte de quem paga o serviço.
Há várias consequências resultantes deste tipo de política. A primeiro é a de que todos estes recursos, mesmo tendo em conta o factor das variantes regionais, passam a ser alvo de uma racionalização programada pois é impossível cobrir tudo com semelhante ênfase. O ensino superior - métodos de ensino, cursos, disciplinas, horários - tem, portanto, de ser elaborado para o aluno médio e para as saídas profissionais médias. Como não existe tal coisa como o aluno médio nem a profissão média, este acaba por não estar adaptado para servir ninguém de forma integral, sendo que esta racionalização massiva acaba por danificar a liberdade de escolha e consequentes nichos de mercado que poderiam surgir, os quais são substituídos por cursos de carácter mais generalista. Como os critérios de selecção do que deve ser ensinado estão a cargo dos comités organizados pelas próprias universidades em questão (em algum ponto da linha, encontra-se também a barreira do Portugal das ordens profissionais, mas esse é outro problema), gera-se desperdício generalizado por duas vias: se por um lado, visto que há dinheiro para torrar à vontade sem grande discernimento, existem cursos e opções de utilidade duvidosa que ninguém frequenta e continuam a ser mantidos, por outro é extremamente frequente observar, dentro do carácter generalista, uma incidência concreta sobre matérias que os alunos nunca poderão colocar em prática a menos que estejam a pensar em ser eles próprios sustentados pela estrutura académica estatal (nesse caso, ainda terão provavelmente vários anos de luta na selva de "amiguismos" pela frente) ou considerem a hipótese de emigração. Dados estes factos, o desemprego crescente que se verifica entre licenciados não é muito surpreendente. E muito menos surpreendente é ler os dados que apontam as percentagens de licenciados a trabalhar, também sem grande surpresa, em áreas que requerem qualificações inferiores às que adquiriram. A insistência tenaz apenas acaba por ironicamente reflectir a lógica do ciclo vicioso. Quanto mais a sociedade é forçada a investir em ramos demasiado específicos dos quais faz pouco uso, mais tempo lhe levará a acumular necessidade suficiente para os tornar relevantes e desejados.

Existem muitas outras fontes que permitem entender onde está o desperdício, seja porque o dinheiro acaba por ir parar a actividades que produzem algo de valor muito inferior ao que com elas é despendido, devido às próprias consequências do modelo seguido, ou porque simplesmente a estrutura de remunerações e outros gastos é definida por decreto; mas a juntar a isto há sempre o problema de que qualquer instituição cuja sujeição às forças de mercado esteja demasiado mitigada dificilmente criará resultados que se distingam pelo mérito do seu trabalho. Como não está submetida à necessidade directa de garantir uma auto-subsistência, não há nem incentivo à organização interna que promova e premeie a qualidade - para além do facto de que, sendo estatal, está sujeita à necessidade de se apresentar como um símbolo de "igualdade" em alguma medida - nem há razão para estabelecer um feedback real e dinâmico com aqueles que deveria servir. A sua existência e manutenção, uma vez que maior independência nunca a tem nem provavelmente a deseja por representar uma cessão da obediência a estes princípios, diz apenas respeito a motivos políticos e não económicos. É aqui que o sonho socialista se começa a desfazer. Qualidade vislumbra-se muito pouca, desperdício sobra em demasiada e os fundos investidos na educação através dos impostos, se fossem colocados a circular livremente, provavelmente dariam para ensinar várias gerações em universidades privadas, também elas criadas com parte desse dinheiro. De notar que, no entanto, qualquer defensor do ensino estatal é também quase sempre um fervoroso defensor do combate ao esbanjamento e da promoção de valores como a qualidade, a criatividade e a inovação, o que é quase tão gracioso como os políticos que se manifestam fortemente contra a corrupção.

No fim de tudo, apenas se pode concluir que o desígnio utópico da resolução dos problemas de mercado através de uma solução que se supõe superior a este - por não responder aos seus mecanismos próprios - e os corrige, acaba também por falhar redondamente e ter resultados muito distintos dos objectivos delineados à partida quando necessita de encarar o mundo real. Como tenta responder a quase tudo e acaba por responder a quase nada, muitas vezes, os efeitos são ainda mais negativos do que o problema que se apresentava inicialmente, não só porque se estabelecem novas relações entre o poder político e a forma como este se relaciona com as pessoas, mas porque o poder político passa a poder controlar a própria forma como estas se relacionam entre si, e consigo mesmo, por meio das regras que ele próprio estipula. É por isso que em Portugal se discute como deve ser financiado e gerido o ensino superior (e o ensino em geral) há décadas e toda a gente concorda exactamente em quais são os resultados desejados mas praticamente toda a gente prescreve a forma errada de os alcançar. A maior prova disto é que o ensino português não tem particular fama de ser de grande qualidade, não gera uma sociedade com o conhecimento proporcional que devia fornecer quando comparado com o que com ele se gasta, oferece poucas opções relevantes ao mesmo tempo que tem opções irrelevantes em demasia, é tudo menos barato e, acima de tudo, não é livre. Porque nem incute a responsabilização individual dos alunos, nem promove a autonomia das universidades (sejam elas estatais ou privadas), nem responde às escolhas dos pais, nem cria oportunidades para as empresas ou para as eventuais ofertas de ensino providenciadas a menor escala por outros meios que não os regulares (ensino especializado, ensino à distância, etc.).

Pedir ao Estado que faça alguma coisa é extremamente fácil. Tão fácil e previsível como aguardar que uma infindável série de governos se sintam seduzidos pela visão de que tal aliciante pedido lhes permita adquirir ainda mais poder, para dominar ou controlar. Difícil é fazer o caminho no sentido inverso - compreender as razões pelas quais a pseudo-solução anterior apenas gera constantemente becos sem saída a cada direcção para a qual se tente virar e reconhecer que muitos dos problemas tipicamente apontados são precisamente a consequência do modelo actual que, em teoria, se oferecia como forma de resolução para outros problemas que permanecem sem ser resolvidos.

Monday, December 04, 2006

Liberdade e igualdade I


"A society that puts equality - in the sense of equality of outcome - ahead of freedom will end up with neither equality or freedom. The use of force to achieve equality will destroy freedom. On the other hand, a society that puts freedom first will, as a happy by-product, end up with both greater freedom and greater equality. Freedom means diversity but also mobility. It preserves the opportunity for today's less well off to become tomorrow's rich, and in the process, enables almost everyone, from top to bottom, to enjoy a richer and fuller life."

Pequenas notas II




1. Boas notícias para os fãs de Ayn Rand. O Atlas já entrou no activo.

2. Fiscal Policy Lessons from Europe de Daniel J. Mitchell na Heritage Foundation, uma comparação entre a situação económica na Europa e nos EUA.

3. O aguardado relatório sobre a Antikythera, o pequeno computador com mais de 2000 anos, saiu finalmente. A notícia pode ser lida no New York Times.

4. A ABC News, citando Arthur Brooks, autor de Who really cares diz que nos EUA a direita, apesar de ironicamente mais pobre, é mais generosa do que a esquerda. Algumas razões lógicas são apontadas na notícia. O AAA refere um artigo de Thomas Sowell em que também são discutidos estes resultados e o livro de Brooks.

5. Free to Choose, agora totalmente disponível de forma gratuita no Idea Channel.

6. O artigo Portuguese research universities: why not the best? [pdf] de Michael Athans que já tinha referido aqui n'O Insurgente.

6. Parece que os suecos confiam mais nas companhias IKEA, Saab, Volvo e Ericsson do que no partido do governo, na igreja, no banco central e na estação pública de televisão.

Tuesday, November 28, 2006

Os inalienáveis e auto-evidentes direitos

:: Texto publicado a 24 de Novembro na revista Dia D ::

A condenação da desigualdade de rendimentos continua a marcar severamente o discurso político da actualidade, surgindo de forma assídua em apelativos artigos de imprensa ou mesmo constituindo, academicamente, uma forma regular de análise através da qual se dá uma maior relevância aos métodos de criar uma distribuição tendencialmente mais uniforme, numa visão normativa e presumivelmente ética da sociedade, do que ao estudo objectivo e estatístico da ordenação da riqueza em si e dos factos com ela relacionados.

Referir que o capitalismo é responsável por tais disparidades é normalmente o lugar comum que serve de explicação a uma realidade que se revela sempre muito mais complexa do que os modelos simplificados que lhe desejam atribuir. Na verdade, os países com maior discrepância de riqueza entre os seus cidadãos são tudo menos capitalistas, e não existe razão alguma para que países mais livres não possam apresentar um nível de igualdade de rendimentos naturalmente superior aos restantes – o que há, no entanto, a frisar é o historial dos que se tornaram, em termos absolutos, mais pobres por insistir nesta redistribuição homogeneizadora através da coerção.

Um dos problemas de origem epistemológica que é particularmente relevante nos países mais economicamente livres, já que, nestes casos, a estatística se torna bastante enganadora por ser impossível mensurar o efeito da característica que mais influencia os resultados – a individualidade – é distinguir o que é resultante do desejo próprio. Parte das desigualdades observáveis são uma medida das diferenças existentes entre as diversas pessoas que compõem a sociedade; não só como o resultado de uma acumulação de singularidades providenciadas por via hereditária e legado patrimonial transmitido entre gerações, mas porque estas efectuam diferentes escolhas consoante as suas próprias intenções, ambições e circunstâncias pessoais, o que afectará directa e voluntariamente a riqueza produzida.

Por regra, os pioneiros da formatação social sentem-se incomodados com este facto porque a sua intenção se revela não ser verdadeiramente a redução da pobreza em termos de absolutos, mas a sua diminuição em termos relativos, i.e., combater a riqueza diferenciadora de forma a eliminar a ostentação de um estatuto social que é necessariamente comparativo, o que explica a sua relutância em admitir o facto, também evidente nas tendências migratórias, de que os mais indigentes de todos vivem melhor em países mais ricos. Muitas destas conclusões derivam de tradicionais variantes da falácia de soma nula, que infere que para alguém ganhe, outro terá de perder, mas o principal problema desta interpretação situa-se no escasso reconhecimento de que a redistribuição forçada de riqueza danifica largamente a sua própria formação, tanto por redução do encorajamento ao negócio por parte do investidor e distorção do incentivo à produção por parte de quem cria, como por desperdício e outras consequências provenientes da sua execução administrativa, o que tem um efeito pernicioso na sociedade, especialmente nos que mais pretende auxiliar.

Porque se algum direito assiste naturalmente a todos – o de possuir a oportunidade de se tornar mais abastado sem, contudo, o retirar aos seus concidadãos – o que se encontra verdadeiramente em causa não é a transição para uma maior igualdade de rendimentos em si, mas uma progressiva desigualdade de liberdades consagradas, uma vez que uma pessoa de reduzida remuneração que defenda a existência de um sistema fiscal cuja razão de ser é a transferência massiva de riqueza dificilmente manterá a coerência de defender a mesma solução se a sua situação financeira se inverter subitamente. A lei deve ser inequivocamente baseada numa condição de igualdade efectiva de todos os cidadãos perante si, independentemente da sua origem e das suas diferenças, e não na promoção de um conceito fabricado que os divida em categorias distintas. A menos, claro, que o egoísmo gerador de direitos relativos, a extorsão, a invídia e o dualismo político possam constituir o corpo de justificações lógicas de um sistema económico.

Friday, November 24, 2006

It's all about the oil

World oil production may have peaked (Thu Oct 26)

«Matthew Simmons, chairman of Simmons & Co. International, a Houston-based investment banking firm specializing in the energy sector, said U.S. government data showed that the world oil supply has declined through the first half of this year.

Energy Information Administration data showed world supply of crude oil has declined to 83.98 million barrels per day in the second quarter after hitting 84.35 million bpd in the fourth quarter of 2005.(...)

Rising demand for oil, stoked by the rapid economic development of China and India, have helped to drive oil prices to record highs. U.S. oil futures peaked above $78 in July, but have since eased to about $61 per barrel. (...)

It's hard to determine just how much oil is left in the world, since companies in different countries use varying standards to calculate their oil reserves, speakers said. Major oil companies haven't raised the specter of peak supply with their shareholders. One speaker said that could suggest their oil reserves are richer than many executives disclose, as a result of strict U.S. regulations on how public companies may estimate their reserves.»

Oil prices fall as crude supplies surge (Wed Nov 22)

Oil prices fell Wednesday after U.S. government data showed rising supplies of crude. (...) The Energy Department's weekly petroleum report said crude-oil inventories swelled by 5.1 million barrels last week to 341.1 million barrels, or 6 percent above year ago levels.

The nation's gasoline stocks grew by 1.4 million barrels to 201.7 million barrels after a drop in refinery activity, leaving them less than 1 percent below year ago levels. The supply of distillate fuel, which includes heating oil and diesel, is slightly above year ago levels even after a 1.2 million barrel decline that left inventories at 133.8 million barrels.(...)

Light sweet crude for January delivery fell 93 cents to settle at $59.24 a barrel on the New York Mercantile Exchange, where natural gas futures slid 27 cents to settle at $7.718 per 1,000 cubic feet. On London's ICE Futures exchange, January Brent futures dipped 90 cents to settle at $59.49 a barrel.(...)

"Day-to-day events and commentary will continue to push prices up and down in the short term, but until something new of significant fundamental import surfaces, prices will most likely remain fairly close to the current range," said John Kilduff at Fimat USA.(...)

Oil prices have fallen by about 23 percent since hitting an all-time trading high above $78 a barrel in mid-July. They haven't settled above $62 a barrel since Oct. 1, despite the Organization of Petroleum Exporting Countries' announcement in mid-October that it would reduce output by 1.2 million barrels a day.

Monday, November 20, 2006

Pequenas notas

1. Sobre Milton Friedman, vale a pena ler o que escreveram Samuel Brittan no Financial Times, Walter Block no Mises Institute e Thomas Sowell no Wall Street Journal. A sua entrevista no programa The Open Mind, em 1975, a parábola do lápis retirada da série Free to Choose e uma entrevista de 1999 em que Friedman fala sobre a sua visão do liberalismo.

2. O Indivíduo (9 anos) e o Blue Lounge (1 ano) estão de parabéns.

3. Why Intellectuals Still Support Socialism de Peter Klein. Sobre o mesmo tópico e na mesma linha da análise, ler também Why do Intellectuals Oppose Capitalism? de Robert Nozick, datado de 98.

4. How to Win the War on Poverty: An Analysis of State Poverty Trends [pdf], um estudo do Goldwater Institute. Um resumo das conclusões pode ser lido no National Center for Policy Analysis. Adenda: está também disponível o Poverty in Canada: 2006 Update [pdf] publicado pelo Fraser Institute.

5. O TIOBE Programming Community Index, que tenta listar quais as linguagens de programação mais populares num dado mês do ano e a sua evolução ao longo do tempo. Em Novembro de 2006, o top 4 é ocupado por Java, C, C++ e Visual Basic, todas [obrigado ao JLP pelo reparo] 3 das quais são linguagens de programação orientada por objectos.

6. The pleasure of finding things out, uma entrevista datada de 1981 a Richard Feynman, vencedor do prémio nobel da física em 65 pelo seu trabalho em electrodinâmica quântica. O paralelo com Friedman é muito difícil de evitar - Feynman foi não só um dos melhores físicos da história como um dos mais brilhantes comunicadores (públicos) da ciência em geral.