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Monday, October 30, 2006

Hasta la Vista, Redmond?

[Previamente publicado n'O Insurgente]

À medida que se aproxima Novembro, o mundo do software aguarda com alguma expectativa a chegada do Windows Vista, o novo sistema operativo que virá substituir o anterior Windows XP, cuja edição Business começará a ser distribuída durante este mês. As suas novas possibilidades não são propriamente uma novidade uma vez que, neste processo de desenvolvimento, a Microsoft tem colocado à disposição de testers e developers os release candidates do Vista e estes têm sido revistos e avaliados com grande frequência pelos editores de magazines de informática à medida que vão sendo actualizados. Em geral, a opinião relativamente consensual é de que se trata de um avanço significativo quando comparado com o seu antecessor, tanto a nível do desenho interno do sistema como do interface gráfico (Aero) e da interacção possibilitada com o utilizador, mas que deixa um pouco a desejar quando comparado com os seus rivais mais directos. A situação prende-se com o facto de a Microsoft se ter deixado relativamente para trás durante o período que sucedeu à publicação do XP (2001) até ao presente, enquanto os diversos sistemas baseados em kernel linux continuaram progressivamente a reformular-se, dado a sua própria natureza de constante inovação, e a Apple foi publicando anualmente versões actualizadas do seu Mac OS X, um sistema operativo baseado em Unix, cuja versão 10.5, de nome de código Leopard, será disponibilizada em 2007, assim como a maior parte das versões do Windows Vista.

A situação é bastante análoga ao que sucedeu (e ainda se desenrola) com as browser wars disputadas maioritariamente entre o Mozilla/Firefox e o Internet Explorer ao longo dos últimos anos. O Internet Explorer 6 ficou parado no tempo e as únicas actualizações que eram anunciadas pela Microsoft diziam respeito a elementos de segurança que, ainda assim, nunca impediram o IE de provavelmente ser, em conjunto com um sistema operativo também ele repleto de falhas por todos os lados, o mais inseguro e vulnerável de todos os browsers - uma imensidão de pequenos remendos numa manta já imensamente retalhada. A MS anunciou há poucos dias que a versão 7 do IE está disponível mas a situação não parece muito risonha já que, nos últimos 5 anos, o Internet Explorer tem sucessivamente perdido quota de mercado em termos gerais, e ainda mais em termos de utilizadores frequentes da Internet. Das estatísticas do Insurgente, à hora que escrevo, consta que apenas 58% dos nossos leitores estão a usar IE.

O IE7 incorpora várias características como segurança melhorada e outras novas surpresas como a leitura de feeds de RSS e tabbed browsing. Realmente novas? Bem, não exactamente. Quem utilizar navegadores como o Firefox ou o Opera já terá descoberto há muito tempo todas estas possibilidades e, no caso do Firefox, inúmeras extensões que as permitem até ampliar ou simular a navegação numa janela em IE. À semelhança da comparação entre o IE7 e o seu maior competidor, o Windows Vista surge com melhorias que em grande parte igualam as inovações implementadas e desenvolvidas por outros sistemas operativos, não necessariamente open source. O extremo caso da falta de originalidade do GUI levou alguns comentadores a ponderar se o Windows Aero não seria uma imitação do Aqua do Mac OS X. O mesmo poderia ser dito relativamente aos gestores de desktop como o Gnome e o KDE que em GNU/Linux, fazendo uso do X11, produzem efeitos muito semelhantes, algo que até agora em ambiente Windows apenas podia ser recriado pelo uso de aplicações como o famoso WindowsBlinds.

As alterações mais marcantes nem serão provavelmente o Aero, o DirectX 10 ou a melhoria na gestão de memória e velocidade de acesso à informação contida nos discos rígidos, mas sim a forma como a MS encara progressivamente a sua própria segurança. A maior polémica que actualmente envolve o WV refere-se às restrições que serão colocadas ao utilizador, tanto pelo próprio licenciamento do sistema em si como por aquilo que não permitirá. A estratégia adoptada pela MS com o XP resumia-se a impedir o acesso ao computador, forçar a reinstalação ou constantemente pedir ao utilizador que requisitasse por telefone uma nova activação de cada vez que fossem substituídas peças de hardware não-periféricas, o que levou muitos detentores de cópias originais a adquirir outra ilegal para evitar todo este processo burocrático de cada vez que actualizassem o seu hardware ou transferissem o seu disco rígido para outro computador. Com o Vista, que continua a bloquear-se a si mesmo com novas peças de hardware, a reinstalação do sistema será permitida uma única vez. Se por alguma razão for necessário repetir a operação, o utilizador terá de adquirir uma nova licença do Windows. Em preços da Amazon, para a versão mais básica do Vista (Home Basic) isto corresponderá a $200 para a licença original e $180 para cada “renovação” seguinte. A este problema acrescem os (já registados) falsos positivos que poderão levar o sistema a desactivar-se automaticamente por determinar, de forma errada, que a cópia em uso é ilegal - como é evidente, aqueles que têm de obrigatoriamente utilizar um sistema da MS terão todas as razões para tentar circundar a activação, que se estende já a praticamente todos os novos produtos da MS - e a nova política de DRM, que ameaça impedir a correcta utilização de muitos monitores, placas gráficas e leitores de conteúdos multimédia, compelindo os utilizadores a adquirir componentes validados pelo Vista.

Ao contrário do que se poderia imaginar, a maioria destas implementações tem, segundo as palavras da Microsoft, o objectivo de combate à pirataria. Embora a MS aparente uma boa saúde, este género de estratégia pode revelar-se um verdadeiro tiro no pé, pois o combate está a ser feito com base no pressuposto errado de que as pessoas que utilizam cópias ilegítimas comprariam uma original caso não pudessem ter acesso a uma pirateada, enquanto aqueles que não têm hipótese de obter uma destas cópias ilegais se tornam sucessivamente clientes mais alienados por serem constantemente tratados como potenciais criminosos que não só são injustamente sacrificados em nome do combate à pirataria informática, como também estão sujeitos a todos os problemas decorrentes destas activações e do seu inevitável mau funcionamento. Conjuntamente com os preços considerados por muitos como exorbitantes (o correspondente à versão XP Professional custará $240) que a MS pretende praticar para o WV, tudo isto servirá de estímulo à propagação da pirataria entre os seus fiéis consumidores - porque há sempre formas de evitar as restrições de segurança - que desejam um sistema verdadeiramente operativo e não um que os obriga regularmente a ser inspeccionados para garantir a sua autenticidade e a produzir outras despesas extraordinárias. [Adenda: A ferramenta de verificação da autenticidade do Windows e outros programas, WGA, liga todos os dias à Microsoft, enviando dados do computador onde está instalada, como o IP, informações da BIOS e números de série dos discos rígidos. Algumas empresas americanas já processaram a MS por considerarem que o uso desta aplicação é uma violação dos seus direitos por funcionar como qualquer vulgar spyware. Muitos outros utilizadores estão também compreensivelmente irados.]

Uma outra opção provável para estes consumidores é a instalação de um sistema infinitamente mais barato (muitas vezes totalmente gratuito), flexível, seguro, rápido, eficiente e configurável como as centenas de distribuições de GNU/Linux que proliferaram nos últimos anos (em que a Microsoft se manteve demasiado inerte) e tomaram completamente de assalto o mercado de servidores, ameaçando galgar também o dos desktops, no qual provavelmente já ultrapassaram o e continuam a crescer a bom ritmo. A MS continuará certamente a ser um gigante da informática mas, se se confirmarem todas as notícias sobre a sua nova aposta para o futuro próximo, corre o risco de ir perdendo aos poucos o lucro proveniente dos clientes habituais e sua base de apoio que, ironicamente, assenta nas cópias pirateadas do Windows, o que leva os produtores de hardware e software a investir bastante na compatibilidade com os seus sistemas. A tendência aponta para a evolução deste mercado no sentido de uma interesse crescente dos fabricantes em desenvolver drivers específicos para linux, o seu problema crónico até ao momento, e dos criadores de software em produzir aplicações compatíveis com um sistema operativo que se tem vindo a tornar muito mais user friendly que no passado, tanto por uso de ferramentas de detecção automática de hardware como pela possibilidade de ambientes gráficos muito semelhantes ao Windows (logo, familiares a quem apenas tenha usado este último) e de utilização sem necessidade de qualquer instalação no disco rígido.

Wednesday, October 25, 2006

Ironias

Quando o plágio consegue ser mais original do que o original.

Ridin' Dirty da autoria de Chamillionaire, um videoclip rap com temas muito tipicamente americanos: racial profilling, todo o estereótipo afro-americano, os respectivos lugares-comuns, contrabando, relações com as forças policiais, etc.


Esta é a sátira da autoria do humorista "Weird Al" Yankovic, apelidada White & Nerdy:


Segundo a Wikipédia, esta foi a reacção de Chamillionaire ao ver a paródia à sua própria música:

"He's actually rapping pretty good on it, it's crazy [...] I didn't know he could rap like that". He also said "It's really an honor when he does that. [...] Weird Al is not gonna do a parody of your song if you're not doing it big."

Tuesday, October 24, 2006

Salvar o planeta

[Previamente publicado n'O Insurgente]

A semana passada, este texto do André Azevedo Alves sobre o aquecimento global, publicado previamente na Dia D, causou algum alvoroço. Ao contrário do que algumas pessoas poderiam pensar, não era nem uma defesa de que este não existe, nem de que não devem ser tomadas quaisquer medidas. Era sim, um artigo sensato sobre como o aquecimento global, a existir nos termos propostos, deve ser abordado em termos económicos. Algumas das reacções foram bastante semelhantes a outras que se leram acerca deste artigo da Economist, ironicamente, algo favorável às principais ideias subjacentes ao activismo ecologista.

A heresia cometida por ambos os artigos foi, essencialmente, referir a importância de uma avaliação cuidadosa de custos e benefícios envolvidos. Acontece que isto é provavelmente uma das piores coisas que se pode propor a um ambientalista ideológico cujo único objectivo político é a “salvação do planeta”. Claro que salvar o planeta é algo propositadamente abstracto em demasia e, como tal, a passagem de afirmações qualitativas a quantitativas é encarada como uma perspectiva economicista sobre algo que supostamente está acima da própria economia. Partindo desta visão, todo e qualquer gasto é vital e indispensável para atingir a meta proposta - salvar o planeta, custe o que custar.

Ora, esta negação da importância que deve ser atribuída à análise económica das questões ambientais esconde o facto irónico de que estes ambientalistas criticam a própria caricatura distorcida que fazem do que é o sistema económico. Muito contrariamente à imagem que está presente no seu subconsciente, seja do empresário demoníaco que comanda as suas indústrias poluentes, resguardado nas suas torres de marfim, ou de uma utopia distopia socialista em que é possível não existir uma moeda de troca e/ou o comércio livre é abolido, as relações económicas e o dinheiro são infinitamente mais humanos do que se vislumbra à primeira vista. Se estas análises de trade-offs são extremamente relevantes, tal acontece precisamente porque são essenciais à vivência dos cidadãos que se tornam os principais financiadores dos projectos de acção ambiental requisitados e as suas vidas serão significativamente por eles influenciadas, uma vez que o dinheiro utilizado é proveniente do fruto do seu próprio trabalho. Provavelmente, não haverá nada mais humano do que tentar compreender se o esforço de uma pessoa é devidamente recompensado ou totalmente desperdiçado.

A forma mais intuitiva de compreender a importância deste factor será através da observação das discrepâncias de preocupação e alarmismo que existem entre os países desenvolvidos e aqueles em vias de desenvolvimento. Enquanto nos primeiros se dá um clima político (excessivamente) propício à discussão de causas ambientais, inclusive fora de padrões científicos, nos últimos todos estes temas são muitos secundários. É muito pouco provável que quem tem de garantir, no final do dia, o acesso da sua família a alguns pratos de comida, sinta insónias sobre a eventual subida da temperatura média da Terra, nos próximos 50 anos, em 1 ou 2 graus Celsius. Se os governos destes países decidissem criar planos de investimento astronómicos, utilizando o dinheiro retirado a estas populações, o resultado seria bastante desastroso. Mesmo que o planeta ficasse temporariamente mais asseadinho e menos cálido, milhares de pessoas seriam directamente atiradas para uma condição de indigência extrema pelo impacto que tais medidas teriam sobre toda a frágil estrutura económica dos seus países.

Isto é, certamente, um exemplo hiperbolizado, mas é precisamente o equivalente ao que acontece nos países desenvolvidos - ainda que devido à enorme riqueza acumulada este efeito seja menos perceptível - quando se aplicam medidas para combater, muitas vezes sem avaliar a respectiva eficácia, a subida das temperaturas. A perspectiva económica é tão ou mais importante do que a análise climatológica; se uma nos tenta explicar o que está a ocorrer e quais as causas dos fenómenos que observamos, a outra permite propor as formas mais eficientes e racionais de as sociedades se organizarem com o intuito de mitigar as alterações ou a adaptar-se a elas. Daí deriva que qualquer acção direccionada à “salvação do planeta” que não contemple, por questões de princípio, um estudo pormenorizado do que se ganha, do que se perde e do que se poderia ganhar se não se perdesse, não passa de um forma moderna de autoritarismo, retocada com pinceladas de um colectivismo panteísta, que pretende subverter toda a sociedade a um fim cujas consequências não fazem parte dos desejos dos inevitavelmente visados em todo este processo.

Assim sendo, e em paralelo a esclarecer cientificamente (correlação estatística não vale) se o aumento da temperatura média do planeta corresponde a um aquecimento global que tenha origem antropogénica, eventualmente reversível, e não faz parte de uma variação dentro dos parâmetros expectáveis à escala geológica, importa ter em conta não só os benefícios que podem ser retirados deste suposto aquecimento global como fazer todas as continhas sobre quanto custa a tentativa de mitigar o seu suposto progresso, qual o risco de prejuízos económicos e ambientais com que nos comprometemos se tal não for feito e qual o resultado palpável dessa futura prevenção. Basear qualquer planeamento político em estimativas cuja margens de erro são tão elevadas (por exemplo, a previsão do IPCC para o aumento das temperaturas à superfície no período 1990-2100 encontra-se entre 1,4ºC e 5.8ºC), consoante o modelo utilizado, não deveria ser sequer uma questão de cepticismo económico mas sim de cepticismo científico, cuja defesa deve caber, mais do que ninguém, aos próprios investigadores que participam na elaboração destes estudos e na criação dos modelos associados.

Contudo, talvez o mais importante seja que os defensores da suposta integridade do planeta se vão habituando à ideia de que este sempre teve a sua certidão de óbito assinada e já milhares de espécies que nunca chegámos a conhecer foram desta para melhor, em grande parte, devido a bruscas alterações climáticas completamente alheias ao ser humano e que este poderia ter feito muito pouco para evitar. Aqueles que estiverem efectivamente preocupados com a biodiversidade e a sobrevivência das espécies que conhecemos na Terra, devem começar a perscrutar outros caminhos e, em vez de idolatrar a deusa Gaia, encarar o facto de que análises como a económica são cruciais para discutir o panorama corrente da política ambiental e nos permitem obter uma ideia infinitamente mais concreta e definida de quais as prioridades que as populações definem para si mesmas, incluindo as melhores formas de gerir o ambiente e respectivos recursos naturais que tanto desejam proteger. Quanto a isso, o único método que a humanidade tem de se adaptar naturalmente aos problemas ambientais que forem surgindo, e encontrar novas soluções para os seus efeitos, na Terra ou nos próximos planetas que terá necessariamente de colonizar no futuro, é o uso da sua liberdade - o capitalismo - para progressivamente desenvolver meios adequados que permitam garantir a sua sobrevivência sem a colocar simultaneamente em causa (razão pela qual acordos como o AP6 aparentam ser mais promissores do que o cada vez mais visivelmente inútil protocolo de Quioto). Caso contrário, se cedermos ao intervencionismo caótico propositado por parâmetros de incerteza desconhecidos e riscos potencialmente inexistentes, estaremos, realmente, todos mortos a longo prazo.

Saturday, October 21, 2006

Wednesday, October 18, 2006

Pedido

Aos jornalistas, para que não escrevam partido socialista quando se referem ao Partido Socialista. Uma pessoa fica sempre sem saber sobre qual deles estão a falar. Obrigado.

Inevitável e previsível?

Preços da água vão aumentar em todo o país (6-10-2006)

Electricidade: Tarifas domésticas aumentam 15,7% em 2007 (16-10-2006)

Factura média da luz sobe 66 euros por ano (18-10-2006)

Máxima do dia: quando o preço não é livre, os reajustamentos futuros dos custos são sempre mais dolorosos, tanto pelo prévio volume do consumo energético abaixo do preço real, como pelo próprio efeito do estímulo adicional ao consumo que é dado por esta distorção.

[Leitura complementar: O exemplo de Antuérpia]

Monday, October 16, 2006

Here's some action!

Consenso científico ad baculum:


Blogar é uma arte

E que tal se as autarquias começassem a distribuir subsídios entre os autores de blogues? Não sei se sabem mas isto é uma injustiça: estamos todos condenados a uma gestão privada, não podemos exercer uma actividade que não se consegue sustentar por si mesma e precisa de ajuda porque não dá lucro directo. Infelizmente não há por aqui câmaras de televisão e barricar-me dentro de minha própria casa não parece que possa surtir grande efeito.

O mundo não pode ser só feito de tendências economicistas! (tradução para português = Queremos ganhar dinheiro a fazer uma coisa de que as pessoas não gostam o suficiente para pagar tanto como nós desejaríamos, por isso queremos que sejam os contribuintes a financiá-la)

Sunday, October 15, 2006

Interferências

[A minha insurgência semanal]

***

O vencedor do prémio Nobel da Medicina deste ano foi Craig C. Mello. O apelido Mello parece levemente suspeito de apresentar alguma familiaridade? A genealogia portuguesa diz que sim. Aliás, não foi nenhuma investigação particular que chegou a essa conclusão, mas sim os meios de imprensa portugueses. No dia seguinte (ou mesmo no próprio dia) ao anúncio da atribuição do galardão, os jornais portugueses noticiavam que este investigador era quase português, ou melhor, de ascendência portuguesa. Esta referência é importante porque não se trata de um caso isolado - semana a semana, quem ligar o televisor ou folhear diversos jornais, acabará por se deparar repetidamente com relatos da vida de vários e humildes portugueses que fugiram da sua terra natal há décadas atrás, para o outro continente, em busca de uma vida melhor, criando riqueza, trazendo prosperidade ao local onde se estabeleceram e, acima de tudo, poupando os seus filhos do esforço por que passaram. Mas mais interessante ainda do que analisar o historial de Portugal em termos de fluxos migratórios, a sua inversão recente e as razões pelas quais se deu, é observar toda a repercussão sociológica que envolve a emigração de portugueses.

Muitos portugueses, talvez por pertencerem ao país dos ei-los que partem, desenvolveram uma espécie de inconsciente colectivo e nostálgico que os faz sentir conectados a tudo o que diga respeito a (descendentes de) conterrâneos (de outrora), chegando a idolatrá-los, vendo-os como heróis, representantes da pátria lusitana pelo mundo, que simbolizam directamente a capacidade de trabalho do português médio que abandona o seu país em busca de condições mais favoráveis. Começar do zero não era assim tão incomum, especialmente quando se tratavam de pessoas de baixos rendimentos que, assoladas pela miséria, fugiam na esperança de recomeçar do outro lado do Atlântico e viver o sonho americano.

Vem isto a propósito não de razões sociológicas ou demográficas mas do facto de tantos portugueses sentirem, mesmo que não o comuniquem conscientemente, uma admiração extrema pelo seu primo na América que se tornou num self-made man - alguém que era muito pobre, não tinha absolutamente nada e que, todavia, se tornou num empresário de grande êxito. O self-made man luso-americano ou luso-canadiano funciona como uma espécie de demonstração psicológica interna de que a quem é dada uma oportunidade de singrar com o seu próprio trabalho árduo, muitas vezes alcança o sucesso.

No entanto, a contradição imediata deste fenómeno reside na introspecção que se segue à primeira adoração que surgiu. Deixando de falar dos EUA ou do Canadá, de repente, a forma de entender Portugal e os portugueses altera-se radicalmente quando o assunto não recai sobre os emigrantes e seus descendentes, mas sobre os habitantes do território original. Ao contrário do que se admira em outras ocasiões, defendem-se de imediato toda a classe de imposições que penalizem a criação de riqueza, o desenvolvimento do potencial empreendedor, que inevitavelmente fica oprimido em si mesmo, e o desejo de assumir riscos de investimento. Com todos estes aspectos, afunda-se em conjunto a mobilidade social que implicitamente é tão venerada na sociedade norte-americana. Não se hesita em apoiar em abstracto a transferência de fundos dos ricos para os pobres, não entendendo que o que acaba por ocorrer é ter uma sociedade que trabalha para danificar as suas próprias possibilidades de progresso, manter uma legião maioritariamente ineficiente e improdutiva de dependentes directos deste dinheiro e financiar os mecanismos tortuosos e burocráticos desta própria transferência. Curiosamente ou não, são precisamente as mesmas pessoas que, sempre que podem, não hesitam em desejar o melhor para os seus filhos, ou seja, que possam vir posteriormente a estudar/trabalhar em países com uma estrutura económica semelhante à dos EUA, onde o seu trabalho seja superiormente recompensado.

A interrogação que infelizmente estes portugueses não parecem impor a si mesmos é a razão pela qual todos estes self-made men não foram, na verdade, produto caseiro. Porque foi necessário que saíssem para atingir tais resultados. E porque continua a corporate america a gerar mais self-made men de grande sucesso com sangue português do que Portugal. Quem colocar a si mesmo estas perguntas, sem conhecer previamente a resposta, acabará por ter de concluir que a única diferença é o facto de que estas pessoas que decidiram abandonar o seu país de origem, algo que no fundo aconteceu por toda a Europa, não foram bem sucedidas na sua terra nativa porque não lhe foi dada essa possibilidade. E decidiram recomeçar na América, ou em outro país maioritariamente livre, porque não é o Estado toda a fonte de oportunidades de empreendedorismo, mas sim a própria natureza da sociedade livre que permite que estas surjam quando alguém tem intenção e vontade de se dedicar à produção de algo que melhore as vidas de cada um dos elementos que a compõe.

Entretanto, e até que isto seja compreendido e assimilado, por consciencialização ou força da necessidade, aqueles que desejem maximizar as suas capacidades nas profissões da actualidade continuarão a emigrar para países que durante décadas sofrerem um desenvolvimento sustentado, o que lhes permite oferecer condições de trabalho muito mais apetecíveis e onde a qualidade é indubitavelmente reconhecida como preciosa. Consequentemente, os portugueses cá de dentro continuarão a ter portugueses e luso-something de quem se orgulhar, uns self-made men, outros já de profissões especializadas. E a grande maioria da Europa continental, de onde todos os mais individualistas vão tentando sair continuamente, deixando para trás os que defendem a manutenção dos sistemas económicos actuais e os malfadados estados de bem-estar (sic), continuará a assemelhar-se cada vez mais com uma estrutura decadente, em vias de colapso, que vive acima das suas possibilidades e acabará por sofrer o amargo sabor dos reajustamentos forçados.

Friday, October 13, 2006

Não só os arrotos têm metano



Vacas contribuem para efeito de estufa
«Os efeitos nocivos da poluição na camada do ozono já são conhecidos, mas nunca se pensou que as vacas podiam contribuir para aumentar o efeito de estufa. Quando arrotam, as vacas libertam metano, um gás que é 23 vezes mais nocivo para o ambiente do que o dióxido de carbono, conta a Sky News.

Estes animais produzem três por cento dos gases de efeito de estufa da Inglaterra. Por dia, uma vaca pode arrotar 500 litros de metano por dia. O governo inglês está preocupado com esta situação e já pensou em formas de reduzir os arrotos das vacas.»
Quando é que estas vacas começam a ser seriamente responsabilizadas pelos danos que estão a causar ao planeta? Será que não compreendem que temos de cuidar do nosso ambiente porque todos dependemos dele?

Et pour cause

O prémio Nobel da Literatura foi ontem atribuído a Orhan Pamuk. Este ano proporcionou mais um exemplo de uma tendência que já nem os próprios meios de comunicação social tentam dissimular. Ao longo do dia, todas as notícias que chegaram davam conta de que o vencedor deste ano se chamava Orhan Pamuk e era turco. Depois desta breve introdução, passavam de imediato a explicar que Orhan Pamuk era um lutador pelo reconhecimento, por parte da Turquia, do genocídio arménio e curdo ocorrido durante a Primeira Grande Guerra. Diziam que tinha estado envolvido em processos judiciais devido às suas afirmações contra a Turquia, dando-lhe uma imagem de perseguido político que mais o fazia parecer com uma versão masculina de Aung San Suu Kyi. Referiam também que era um escritor que frequentemente discorria sobre o dilema turco da tensão entre o secularismo e a religião e o binómio ocidente/oriente.

Sobre livros do autor, muito pouco. Muito menos sobre os seus títulos ou sobre o seu conteúdo, o estilo narrativo, a densidade psicológica dos personagens ou sequer a dimensão e significado da sua carreira e obra em geral. Na página inicial da Fundação Nobel, ao contrário dos outros prémios em que é listada a razão específica da atribuição (até o da Paz...) diz-se apenas que se trata do primeiro turco a ser galardoado, como se isso por si só fosse a razão do prémio.

É, portanto, muito difícil que as pessoas que constantemente tentam demonstrar o suposto sectarismo dos que afirmam que há uma inclinação política na atribuição do prémio Nobel da literatura neguem que esta existe realmente. Se há realmente um consenso internacional sobre os autores que apenas os críticos não vêem, então não haveria qualquer necessidade de descrever quase sempre os autores premiados como polémicos. Aliás, os próprios autores não disfarçam a importância desta característica. Harold Pinter no ano anterior dizia que era provável que o seu activismo político o teria auxiliado na conquista. Na Turquia, comenta-se que Pamuk terá levantado a questão do genocídio para se tornar um candidato mais apetecível ao prémio Nobel. Quando soube de que o tinha ganho este ano, reagiu dizendo que considerava a escolha do seu nome como uma mensagem para os defensores do "choque de culturas".

Claro que não há razão pela qual um prémio não possa ser atribuído a alguém que seja politicamente activo mas o contraditório é chamar-lhe Nobel da Literatura quando os critérios do comité parecem ser as posições políticas dos autores, a sua origem e as causas pelas quais lutam, ao mesmo tempo que são precisamente estas caractéristicas que os próprios meios de difusão já não sentem pudor em exaltar acerca dos autores, ignorando quase por completo a justificação formal da atribuição da distinção.

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Nota: No mesmo dia, França ficou menos livre. Agora negar o genocídio arméniodireito a multa de milhares de euros e prisão.

Será o neoliberalismo anti-neoliberal?

"If the facts don't fit the theory, change the facts" - Albert Einstein

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«Nobel Paz a "banquero de los pobres", señal contra neoliberalismo

Oslo, 13 oct (EFECOM).- El Comité Noruego del Nobel ha lanzado este año un mensaje contra el neoliberalismo y la globalización desenfrenados al premiar con el Nobel de la Paz al llamado "banquero de los pobres", el bangladeshí Muhammad Yunus y su banco de microcréditos Grameen Bank»

(via La Hora de Todos)