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Monday, September 25, 2006

Aviso à gravitação



Aos poucos e pobres degraçados que costumam ler o que por aqui se escreve através de um feed reader como o Bloglines ou utilizando qualquer outro método que envolva a subscrição da extensão .xml que o Blogger publicava para o My Guide to your Galaxy, convém anunciar que na versão beta do Blogger em que este blogue se encontra está em fase experimental e a feed antiga em formato Atom deixou de ser válida, como provavelmente já terão reparado.

O novo endereço (também em Atom) que o Blogger publica para este blogue encontra-se nesta ligação. Entretanto, a antiga feed que era utilizada no Bloglines ficou também desactivada e a nova parece estar a ser publicada neste endereço.

As minhas desculpas pela pequena oscilação orbital.

Wafa Sultan, a islamófoba

Wafa Sultan:

O grande e tão popular argumento de Ibrahim Al-Khouli:
"If you are a heretic, there is no point in rebuking you, since you have blasphemed against Islam, the Prophet, and the Koran..."

Outros "islamófobos" famosos com a cabeça a prémio: Ibn Warraq, Hirsi Ali, Walid Shoebat, Ali Sina, Salman Rushdie.

Saturday, September 23, 2006

Ciência vs. (?) religião



A day without yesterday

In January 1933, the Belgian mathematician and Catholic priest Georges Lemaitre traveled with Albert Einstein to California for a series of seminars. After the Belgian detailed his Big Bang theory, Einstein stood up applauded, and said, "This is the most beautiful and satisfactory explanation of creation to which I have ever listened." Lemaitre’s theory, the idea that there was a burst of fireworks which marked the beginning of time and space on "a day without yesterday", was a radical departure from prevailing scientific understandings, though it has since come to be the most probable explanation for the origin of the universe.

Friday, September 22, 2006

War is peace


«The only reward of those who make war upon Allah and His messenger and strive after corruption in the land will be that they will be killed or crucified, or have their hands and feet on alternate sides cut off, or will be expelled out of the land. Such will be their degradation in the world, and in the Hereafter theirs will be an awful doom» Qur'an, 5:33

A parte mais interessante surge quando se tentam conjugar afirmações como esta com os mandamentos que exigem a um muçulmano que participe na jihad (seja em que formato for) e que converta os descrentes. Claro que esta citação só por si não quer dizer nada, a noção linguística de «fazer guerra com Alá» é muito vaga. Mas como evitar a guerra com Alá quando Alá comanda que todos os infiéis sejam convertidos ao Islão ou que sofram as consequências? Como evitar a guerra quando a liberdade de expressão é vista como uma blasfémia, sendo esta punível com a morte?




A ler integralmente, os artigos de Pacheco Pereira (O que no discurso do Papa interpela o Islão?), de Alberto Gonçalves (Citações e obituários, publicado no Observatório da Jihad) e de Carlos Marques de Almeida (O Papa de Roma).

Ferir susceptibilidades II

«They long that ye should disbelieve even as they disbelieve, that ye may be upon a level (with them). So choose not friends from them till they forsake their homes in the way of Allah; if they turn back (to enmity) then take them and kill them wherever ye find them, and choose no friend nor helper from among them.» Qur'an, 4:88

(...)

«Ye will find others who desire that they should have security from you, and security from their own folk. So often as they are returned to hostility they are plunged therein. If they keep not aloof from you nor offer you peace nor hold their hands, then take them and kill them wherever ye find them. Against such We have given you clear warrant.» Qur'an, 4:91


***

1. Em nenhuma parte do discurso se discute a questão ocidente vs. oriente que não é o que é analisado, mas sim a racionalidade [logos] vs. irracionalidade e a sua relação com o uso da violência. Por isso, afirmar que o Papa diz que o Islão é irracional porque é oriental é absurdo. O Papa não diz nada acerca das religiões orientais (no oriente há muita coisa para além do Islão), nem sequer afirma que estas são necessariamente irracionais por não estarem ligadas à tradição filosófica helenística - apenas que o conhecimento sobre Deus, a profissão da fé e o estudo da doutrina religiosa devem ser executados de uma forma racional e que, por essas mesmas razões, se voltarmos atrás no texto, não podem ser guiados pela violência, que é irracional. Não sei se o Rui Fernandes está a perceber onde eu quero chegar - é o equivalente a ler a sua resposta e dizer que como o Rui está a dizer que o Papa esta a insultar o Islão, com isso estará a querer atingir a Igreja Católica e é um anti-clerical, por isso deve ser um nazi jacobino. A lógica por associação pode levar-nos a praticamente qualquer lado. O que me faz confusão em particular é o facto de tantos muçulmanos e não-muçulmanos se incomodarem com a ideia de que Maomé seria violento (e por conseguinte, o Islão), quando o Alcorão está recheado de citações de encorajamento mais que evidente à violência e à irracionalidade como aquelas ali acima que apelam à morte dos infiéis. E, obviamente, não são exemplo único.
2. Não vejo onde é que é possível «interpretar» com tantas certezas que Bento XVI é islamófobo. E se tivesse verdadeiramente aversão ao Islão, certamente teria as suas razões, que, se fossem bem fundamentadas, seriam importantes de analisar. Muitos líderes religiosos islâmicos dizem constantemente coisas muito mais claras e profanas sobre outras religiões que passam completamente despercebidas porque nessas religiões ninguém lhes faz caso (a tal coisa chamada tolerância religiosa que muitos islâmicos não conhecem). Na verdade, o Islão tem um problema muito sério com todas as religiões, monoteístas ou politeístas, racionais ou irracionais, ocidentais ou orientais simplesmente porque são outras religiões que não o Islão. É a única religião maioritária que conheço que comanda os seus fiéis a entrar numa guerra santa (sic) de conversão ou submissão dos descrentes.

3. Não há nenhum erro de análise histórica no que eu disse. Aliás, o erro histórico está nos que pensam que a agressão islâmica em nome de Alá é um fenómeno novo. Esquartejar, subjugar e dominar em nome de Alá foi uma coisa que se iniciou há 14 séculos atrás com Maomé, ou seja, faz parte da história do Islão, e continuou até aos dias de hoje. Maomé foi, entre outras coisas, um líder militar que participou em dezenas de guerras e não propriamente um pacifista.

4. As comparações a judeus e a cristãos que cometeram actos terroristas são uma defesa muito recorrente mas não levam a lado nenhum. Porquê? Porque eu não estou a propor que ninguém se converta ao cristianismo ou ao judaísmo, nem sequer a defender estas religiões. É um erro frequente encarar qualquer crítica a esta atitude islâmica como se o autor fosse sempre uma espécie de missionário ou evangelista, o que só serve para dispersar.

Contudo, há várias coisas a clarificar. Primeiro, se a justificação de qualquer que seja o terrorismo praticado por cristãos ou judeus reside na sua religião e se este é praticado em nome do deus judaico ou cristão. Quantos terroristas cristãos e judeus é que o Rui vê por aí a gritar "Deus é grande" e a matar pessoas normais apenas porque são infiéis e porque a sua religião o comanda?

O segundo ponto, e porque o Rui diz, quanto às minhas afirmações sobre o Islão, que «haveria sido ridículo formular por um cristão a um maometano em outras épocas e situações», em que parte do Novo Testamento, que é a parte mais importante da Bíblia para os cristãos, é que se encontram indicações sobre como os membros de outras religiões devem ser perseguidos, convertidos à força, executados, ter um estatuto legal inferior para garantir a sua sobrevivência ou são dados exemplos (i)morais acerca destas situações? E em quantos países maioritariamente cristãos é que tais ideias são correntes e são praticadas ao abrigo da lei ou como parte desta? Quantos países maioritariamente cristãos são teocratas e aplicam leis contra a blasfémia ou heresia ao cristianismo? E nas situações em que os países cristãos o fizeram no passado, quais eram os ensinamentos de Cristo que os obrigavam a fazer tal coisa?

O mesmo pode ser questionado relativamente ao judaísmo. Claro que no Pentateuco há muita indiciação à violência, como nos livros do Levítico e do Deuteronómio, mas somos forçados a regressar à questão essencial - quem são os judeus (porque o Pentateuco corresponde à Tora) ou os cristãos que seguem estes mandamentos ou os incluem na lei? Quem são, mesmo entre os que reclamam uma exegese literalista, os que desejam aplicá-los e o fazem? Volto a frisar - o que nós vemos é um terrorismo a nível global em nome do Islão, e não um terrorismo em nome dos valores cristãos e/ou judaicos, o que, aliás, seria bastante contraditório.

Nada disto seria relevante se a filosofia de interpretação literalista dos textos islâmicos não fosse tão vulgar e abrangente, sendo esse o terceiro ponto a recordar - qual a quantidade de pessoas cristãs e judaicas que partilha uma defesa do terrorismo em nome da sua religião? Qual é a aceitação que têm estes grupos entre os outros praticantes?

Quem analisar todas estas questões de forma racional chegará à conclusão óbvia, por mais difícil que seja de retirar, de que comparar as religiões sobre estes parâmetros faz pouco sentido. E para isso não é necesário sequer ler sobre documentos teológicos, basta ir lendo as notícias internacionais que não só mostram esta violência islâmica nos países de outras religiões, como nos islâmicos entre facções distintas, que se vêem mutuamente como hereges e se tentam extinguir. O que não deixa de ser curioso em tudo isto é que o Islão acaba por ser irracional quase por definição, porque para uma grande parte os ensinamentos presentes nos seus escritos, que são vistos como a palavra sagrada e directa de Alá, devem ser seguidos de forma literal. Para a generalidade não há estudo hermenêutico necessário, há simplesmente submissão (o significado da etimologia de Islão). Por isso, a ideia de defender que a tese do Papa sobre a irracionalidade do Islão - que por si é uma dedução do que é dito - é uma imbecilidade é quase uma espécie de imbecilidade em si própria.

Só uma nota aparte. Eu não faço "acusações" nenhumas contra os "árabes", e respectiva história ou cultura. Sejamos claros. Estamos a falar de muçulmanos - não é preciso ser árabe para ser muçulmano, nem todos os árabes são muçulmanos.

5. Falar de islamofobia quando ela não existe é uma forma de dissuadir as pessoas de discutir os assuntos de forma séria. Quem alguém tem medo de ser acusado de racista não se atreve a dizer o que pensa - é uma forma de tentativa de bloqueio à discussão. Mais uma vez, comparar cristianismo e seus princípios com islamismo é um erro muito grave. Dizer que todas as religiões podem ter as suas coisas más é uma coisa, mas insistir que estão todas numa espécie de nível semelhante porque as civilizações que as adoptaram cometeram, qualitativamente, erros históricos ou fizeram coisas menos boas é uma forma pouco isenta de diminuir os mandamentos que cada religão postula e a quantificação dos erros das civilizações quando correlacionados com os ensinamentos das respectivas religiões. Para além de ser terrivelmente falacioso, porque dois errados não fazem um certo, as civilizações só devem ser analisadas na sua medida religiosa de acordo com aquilo que é expresso nesses mesmos valores religiosos que professam, aqueles que decidem aplicar às suas sociedades e ao seu modo de vida e que tipos de eventos são derivados desses princípios.

6. O discurso de Bento XVI é um discurso tipicamente académico. Ele próprio o declara no início. Aquilo que para mim é mais preocupante é o facto de ao Rui Fernandes parecer mais importante demonstrar que quem concorda com o Papa é irracional, xenófobo, imoral, racista etc. e não que uma religião que não consegue obviamente lidar com criticas externas, um escrutínio público livre e a liberdade religiosa é, efectivamente, muito pouco racional e, como exposto aos olhos de todos, extremamente violenta. Mesmo que o Papa não o tenha dito explicitamente. Veja-se por exemplo, como encaram os cristãos a crítica à sua religião - matam, ameaçam, proíbem e condenam?

Leituras e fotos

1. Licença para pensar, Tiago Mendes [cada vez que defendo qualquer coisa muito parecida com isto há quem me chame traidor à pátria]

2. The new titans, The Economist [as economias emergentes que estão a ser exploradas crescem a um ritmo muito superior ao dos países desenvolvidos. Mistério...]

3. Pulsars prove Einstein right (nearly), Physics World [teoria da relativdade geral testada com um erro (exactidão) de 0.05%]

4. A missão Cassini-Huygens continua a enviar fotos de Saturno e já descobriu um novo anel. Algumas fotos abaixo:



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Thursday, September 21, 2006

Escorregadela crassa

Após 3 dias de intensa contestação na Hungria, por esta altura já Ferenc Gyurcsány se terá arrependido de ter assumido publicamente que a sua profissão era ser político.

Wednesday, September 20, 2006

Tragam cadeiras e sentem-se

Chavez tells UN Bush is 'devil'
"The devil came here yesterday," he said, referring to Mr Bush's speech on Tuesday. "It still smells of sulphur today," he added.
Tendo em conta o impacto progressivo que o catolicismo parece estar a ter nas visões políticas e declarações de Hugo Chávez, aguarda-se a qualquer momento que tanta referência constante ao universo religioso provoque a indignação da esquerda anti-fundamentalismo cristão que tanto tem demonstrado ultimamente o seu incómodo perante Bush, o homem que até diz falar com Deus.

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Outro exemplo recente:

"Do they want war because they have the devil inside them?" demanded Venezuelan President Hugo Chávez, speaking of the Jewish state. (...) But the Venezuelan wasn't finished. Israel's acts, he said, reminded him of a time when Simon Bolivar had invoked the story of Cain and Abel to talk about an enemy. "Bolivar said that day: 'God, if you have justice, throw a lightning bolt at the monsters,' " Chávez pronounced. "I would say today: 'God, throw the lightning bolts at the monsters.', 7 de Agosto, Washington Post

Ferir susceptibilidades



O Rui Fernandes pensa que o problema com o texto do Papa não foi de interpretação mas sim que este demonstra uma verdadeira xenofobia perante os muçulmanos e que eu, conjuntamente com o AAA e a Judite de Sousa, peco por falta de compreensão do que Bento XVI afirmou. Para quem ainda não leu e queira ler, é possível ler na página do Vaticano em inglês, e a versão original, em alemão.

A questão é muito simples e começa pela citação. É irrelevante se o Papa contextualiza ou não a citação que faz do imperador bizantino Manuel II, isto porque citar uma outra pessoa não a vincula às suas opiniões. Mas ainda assim, como podemos dizer que a citação não é contextualizada? Fala-se da relação entre a fé, a violência e a necessidade de negar a violência através da razão.

Infelizmente, tudo isto tem a ver com o Islão, seja pela lei islâmica, pela submissão religiosa ou pela necessidade de levar a cabo uma guerra santa contra a fracção do mundo que ainda não se submeteu à palavra de Alá. Dizer ou presumir que nada disto é real e é uma "interpretação" de uma minoria é negar os factos, incluindo as sondagens que mostram percentagens muito elevadas de apoio a actos terroristas contra alvos ocidentais. Se o Papa quisesse realmente expressar a sua negação intelectual por uma religião (ou ideologia política, dependerá do ponto de vista) não o poderia fazer livremente sem ser catalogado de islamófobo? Bento XVI - e embora tenha afirmado posteriormente o contrário - não tem direito a liberdade de expressão ou defesa da tese, em termos académicos, de que o Islão é intrinsecamente violento, pouco dado à tolerância religiosa, ao ecumenismo e à razão?
Este ponto não é muito importante em si. Mais importante é o facto de muita gente, como parece ser o caso do Rui Fernandes, se preocupar com o que é insultuoso para os muçulmanos ou não é, neste caso, a idolatria. Contudo, repare-se. Os muçulmanos são pessoas extremamente delicadas. Incomodam-se com a liberdade de expressão (que muitos vêem como uma falha das democracias ocidentais), com a discussão académica inconveniente, com as mini-saias, com a existência de liberdade religiosa, com a ideia de que as mulheres podem ter os mesmos direitos que os homens, etc. mas já não se incomodam, em grande parte, com o facto de as suas intenções chocarem directamente com o espírito crítico das sociedades ocidentais. No fundo, têm um problema muito sério com a liberdade e, acima de tudo, com a razão, em especial, porque raramente se incomodam com o que, quando não os incomoda a eles, incomoda os outros. Por exemplo, onde estão as manifestações pacíficas contra os fundamentalistas que têm apelado à morte de Bento XVI e à destruição do Vaticano? Onde estão esses senhores moderados que raramente aparecem, em defesa da razão, da não-violência (quando esta inclua também, obviamente, os actos cometidos por islâmicos) e da conversação diplomática inter-religiosa? Como se pode reclamar que algo é racional quando lida de forma irracional com qualquer crítica objectiva que se lhe faça, mesmo quando ela não existe?

A outra coisa que me intriga bastante são as constantes acusações de islamofobia, xenofobia e racismo a quem quer que observe criticamente atitudes percebidas como tendo aceitação extensa na comunidade muçulmana. A observação mais pertinente será questionar quem é mais islamófobo - quem se limita a descrever a realidade ou quem constantemente tenta negar que ela existe e a menospreza, por uma razão muito simples. A pretensa islamofobia não é preocupante porque ainda nenhum judeu ou cristão se dirigiu a um país muçulmano para executar actos terroristas e matar civis em nome da sua religião, muito ao contrário do que tem vindo a ser observado nos últimos anos.

E se há forma de evitar que tudo derive precisamente numa islamofobia global é começar por parar de bloquear qualquer crítica que seja feito ao islamismo, por receio de ferir as sensibilidades islâmicas, fundamentalistas e/ou moderadas, e de exercer constantemente uma relativização de valores e culturas que apenas funciona quando se parte do referencial ocidental/judaico-cristão. Ninguém tem interesse em criticar o islamismo apenas por criticar. Não se vêem pessoas por aí a discutir o perigo da violência hindu, sikh, budista, judaica ou xintoísta, simplesmente porque essas ameaças não existem.

Perigoso é negar implicitamente que um terrorismo de inspiração totalmente islâmica existe e que este é executado em grande parte, com a condescendência dos que manifestamente se declaram contra qualquer género de acto violento em abstracto. Perigoso é continuar a fechar propositadamente os olhos a algo que se está a desenvolver rapidamente no seio do mundo ocidental - que visivelmente não tem capacidade para tornar toda esta gente em pessoas tendencialmente seculares ou de interpretação religiosa pacífica - e deixar que todos estes acontecimentos passem completamente em branco. Porque no dia em que as sociedades que já começam a apresentar tensões sociais e demográficas relevantes (Bélgica, Holanda, França, Reino Unido, Suécia, etc.) e os eleitores entenderem que os governos não têm feito praticamente nada para os proteger de uma vasta camada de população que deseja implementar um sistema legal totalitário chamado shari'a, aí sim, teremos islamofobia. Mas não será uma islamofobia digna de estudo sociológico, será uma guerra em movimento, com movimentos de secessão dentro dos próprios países, gente inocente a morrer pelo meio, sistemas judiciais paralelos, comunidades hostis isoladas, subida de partidos autoritários ao poder, etc. Até lá, as liberdades civis dos inocentes continuarão a ser reduzidas em nome da ameaça terrorista, precisamente pela dificuldade em lidar com a causa central do problema e a resistência política a encarar os factos tais como eles são.

Ironicamente, e entretanto, todo o conjunto de ameaças que já foram feitas, em conjunto com as declarações difamatórias dos líderes comunitários e o silêncio de quem deveria ao menos expressar um repúdio de reacções menos racionais, vai, infelizmente, dando razão aos que interpretam as palavras de Bento XVI como uma acusação da violência islâmica. A inexistente islamofobia parece ser algo preocupante para muita gente mas os seus potenciais alvos parecem estar mais preocupados em emitir o seu antagonismo com o Papa do que destacar-se das manifestações mais violentas, preferindo em vez disso legitimar tais atitudes por via da indignação própria de quem vê a sua religião insultada. Assim como as pessoas que constamente insistem em criar dicotomias de barricada inexistentes, como se todos as pessoas que possivelmente concordem com o que o Papa afirmou no teor do seu discurso - interprete-se isso como crítica ao Islão ou não, coisa que o próprio negou várias vezes - tenham de ser cristãs e católicas, todos os que vêem a civilização ocidental como um feito importante sejam necessariamente anti-orientais e que os que vejam Deus (cristão) como um deus bom neguem claramente uma filosofia de convergência teológica com outras religiões, num espírito ecuménico. Não é disso que se trata - não é o alvo dos protestos, das ameaças e do terrorismo psicológico - e simplificar aqui só serve para criar argumentos difusos.

Relativos e absolutos

05.10.09.TheirPerspective-X

Cox & Forkum, Outubro de 2005

Friday, September 15, 2006

Citação do dia



"Não são certamente os muçulmanos que perseguiram os fiéis de outras religiões (...). O Islão é a religião mais tolerante". - MNE paquistanês

Sai um Estado policial para a mesa 5

GNR vai buscar alunos a casa
«O fecho da escola da Gemieira é irreversível, pelo que, a partir de terça-feira, se os pais continuarem a impedir os filhos de frequentar as aulas no Centro Escolar da Ribeira, onde estão matriculados, faremos cumprir a lei e pediremos à GNR para os ir buscar a casa, porque é a escolaridade obrigatória que está em causa», referiu, à Lusa, aquela responsável.

Tuesday, September 12, 2006

Deadlock

Galvanizadas pela crescente onda de especulação em torno dos ataques de 11 de Setembro, as teorias da conspiração sobre o que realmente ocorreu nesse dia fatídico ganham, a cada dia que passa, novos adeptos e mais fervorosos pseudo-investigadores que conseguem descortinar mais um pormenor sombrio que aparenta provar, irrefutavelmente, que a destruição das torres gémeas não foi somente obra da Al-Qaeda (se o foi de tudo obra da Al-Qaeda, caso exista) e que também terá contado com a conivência do governo americano (se apenas conivência) ou, provavelmente, orquestração judaica de forma a ganhar um pretexto para obrigar o estado americano a organizar ofensivas à escala global contra o mundo islâmico.

Todos nós, simples homens comuns, teríamos simpatia e apreço por estas almas caridosas que se dispõem voluntariamente a iluminar-nos, se elas conseguissem, de facto, provar algo de palpável.

O único problema é que qualquer teoria da conspiração tem valor porque atribui inerentemente validade a si mesma, pela própria forma como se caracteriza. Uma vez que esta não pode ser falsificada com dados que não se possuem ou confirmada por qualquer tipo de evidência, esse mecanismo funciona como argumento para os defensores destas teorias, demonstrando que a teoria consensualmente aceite omite algo, e fazendo com que a sua especulação adquira uma certa legitimidade. O exemplo típico é a ida à lua em 1969. Há quem diga que os americanos nunca lá estiveram mas não podem provar tal coisa por razões evidentes - ninguém estava na lua quando as missões Apollo lá chegaram e mesmo que lá estivessem, a validade das suas provas seria seriamente colocada em causa. Da mesma forma, os americanos nunca conseguem provar que lá estiveram porque por mais fotos, vídeos ou amostras de rochas lunares que os dirigentes dos programas aeroespaciais disponham ao escrutínio público, os autores destas teorias continuarão a reclamar que os vídeos foram produzidos num estúdio de cinema, as fotos são provenientes de cruzamento de imagens de satélite com solos do deserto, os saltinhos dos astronautas são montagens feitas em voos parabólicos e que só o mero facto de a NASA se preocupar com demonstrar que lá esteve realmente, mostra que há alguma insegurança e indica que para tentarem provar a veracidade das suas reclamações necessitam destas conferências de imprensa.

É assim que uma teoria literalmente lunática ganha, de imediato, credibilidade. Qualquer um de nós pode afirmar que havia um plano secreto da CIA e do Mossad para destruir o WTC e o Pentágono porque nenhum de nós tem acesso a um documento que afirme claramente que a suposta existência deste plano não passa de uma fraude. E se esse documento existisse, seria obviamente suspeito. Qual seria o significado de um documento que declarasse que uma conspiração não existia, certificado pela entidade que é acusada de a pôr em prática? Minimamente intrigante e enigmático. Nunca pode existir um documento que prove que a conspiração não existia, o que perpetua a ideia de que a teoria se mantém válida até prova em contrário, prova essa que nunca pode existir e que apenas serviria para reforçar a teoria inicial.

As teorias da conspiração não são, por definição, falsificáveis nem seguem o princípio segundo o qual a explicação mais simples, lógica, óbvia e coerente é provavelmente a correcta, de acordo com as informações disponíveis. Para as provar como erradas, exigem necessariamente um mundo de 100% de certezas e de acesso a toda a informação de sistemas complexos que é impossível de reunir no mundo real, no qual não se tem possibilidade alguma de regressar ao passado. Qualquer teoria histórica sobre um acontecimento acarreta um determinado nível de incerteza e qualquer pessoa pode jogar com isso para benefício próprio da sua imaginação fértil. Será que Viriato existiu ou é meramente uma obra de ficção criada pelos romanos? Será que Bush existe? Já há alguém o viu ao vivo por acaso? De que vale criticar uma pessoa que não sabemos se existe e que alguns até acusam de ser um extraterrestre?

Monday, September 11, 2006

Sunday, September 10, 2006

Ciência e economia I

A interrogação primordial que deve ser colocada recai sobre a natureza da ciência e o seu definição, que não é geralmente unânime.

O termo ciência tem sido usado repetidamente por dois movimentos distintos de forma a flexibilizá-lo e adaptá-lo à sua realidade própria, com objectivos intencionais de ganho de credibilidade. Um deles é o grupo de cientistas provenientes das ciências naturais/físicas que, com alguma constância, se referem a outras ciências num tom depreciativo, recusando que estas sejam "verdadeiras ciências". O outro é a sua banalização – incluindo no léxico académico - para dar uma imagem de maior rigor intrínseco a algo que de metódico ou de metodológico tem geralmente muito pouco. Quem estiver interessado em testar estas afirmações deverá questionar-se sobre 2 coisas:

- o que entende um leigo por investigador cientifico ou cientista, sabendo que, na maior parte dos casos, a resposta rondará o campo de ciências como a física, a matemática, etc. e praticamente nunca o das sociais. O portal da Wikipedia sobre ciência é um bom exemplo disso. Dele constam apenas ciências físicas e aquilo que em português se costumam chamar ciências da terra e da vida.

- atentar no uso do termo ciência para designar "ciências alternativas", "ciências paranormais/ocultas" ou mesmo campos da área das humanidades como ciências políticas, ciências jurídicas, ciências literárias, humanas ou filosóficas*

A banalização do termo em si não é a questão que aborde en particular mas não é raro usar, na linguagem quotidiana, o termo ciência como referência ao conhecimento de algo ou ao apuramento da causa para um determinado efeito, o que provavelmente torna compreensível o abuso da denominação em si para vários campos académicos que não seguem uma linha de investigação cujos princípios são partilhados entre si.
A questão posterior é avaliar o teor epistemológico dos campos a que se chamam ciência (que é o tema central desta primeira entrada), a sua metodologia, e a razão que as faz diferenciar umas das outras. Qualquer ciência parte sempre de alguns pressupostos filosóficos como uma certa dose de empirismo e outras condições axiomáticas auto-evidentes que permitam assumir à partida que existe um mundo físico do qual podem ser retiradas conclusões teóricas através observações experimentais (factos) ou, pelo método contrário, confirmar a dado ponto a validade de uma hipótese teórica por meio de experiências, sempre e quando a hipótese teórica não exclua ou condicione à partida, por razões de impossibilidade técnica ou lógica, a confirmação experimental.

Tendo estas condições iniciais, a ciência baseia-se, portanto, na análise racional de dados obtidos com dois objectivos básicos: 1) adquirir conhecimento sobre a natureza do campo de estudo, compreendendo-o com a maior amplitude possível, através de um processo lógico-indutivo e 2) possibilitar a aplicação desse conhecimento adquirido em situações práticas presentes ou futuras por dedução das cadeias de eventos e previsão dos efeitos de determinadas causas.

Este género de definição abrange praticamente todos os ramos daquilo a que regularmente chamamos ciências. Particularmente as ciências naturais, que estão indissociavelmente dependentes da linguagem matemática para se exprimirem em termos quantitativos. Ciências como a física ou a química personificam na perfeição estas características. Divididas entre ramos teóricos e experimentais, puros e aplicados, têm o seu culminar de pragmatismo nas engenharias, onde é feita recorrência constante aos conhecimentos de ambas as ciências. No entanto - e aqui incorre um erro generalizado - não se deve cair na tentação de dizer que uma ciência apenas é uma ciência somente se fizer uso da matemática. A matemática não é o único sistema lógico possível e a única condição que se exige ao estudo científico, para além da descrição da realidade nas formas acima mencionadas, é que haja uma consistência interna entre toda a sua forma estrutural, as premissas e as conclusões.

Podem outras ciências enquadrar-se nesta classificação? Ciências como a astronomia, basicamente constituída por estudo observacional, não têm propriamente uma aplicação do conhecimento que é adquirido por meio da astrofísica ou da cosmologia. Note-se aqui também a interligação e multidisciplinaridade entre as diversas ciências (daí o derivado astrofísica, cujo tipo de aglutinação é frequente). O mesmo acontece em ciências como a sismologia, que nascem de outras ciências próximas como a geofísica, mas que não possuem (até ao momento?) o dom da previsibilidade eventualmente desejável, tal como expressa no objectivo 2). Devem, por isso, ser consideradas ciências menores, uma vez que não se conseguem reproduzir directamente os seus conhecimentos?; não se deverá antes esta impossibilidade a uma restrição física que transcende o que (actualmente?) o ser humano pode fazer? Os problemas destas aproximações e dos limites de obtenção de informação e sua aplicação, assim como a metodologia utilizada em ciência, serão o objectivo de discussão da próxima entrada, que provavelmente também lidará com os conflitos entre a economia e alguns destes termos.

Tendo a definição, chega-se ao assunto que motiva este texto. O que dizer da economia e outras ciências sociais? A economia (positiva) tem como objectivo, independentemente da metodologia usada, compreender os princípios elementares subjacentes à forma como interagem os seres humanos no que diz respeito às relações comerciais entre si e ao resultado em larga escala destas complexas redes estabelecidas. Esta análise é posteriormente utilizada para retirar ilações sobre as consequências de determinadas políticas económicas ou monetárias, perspectivas futuras de crescimento, investimento, tendências de mercado, etc. Não é isto que se supõe que uma ciência faça?

Uma ciência necessita de características marcantes como a objectividade e a universalidade. Se por um lado se exige que a objectividade seja um parâmetro incondicionalmente relacionado com o racionalismo próprio de uma ciência (que não dê lugar a subjectivismos superiores às especulações científicas próprias que não podem ou ainda não foram confirmadas ou refutadas), a ciência deve ser também universal, ou seja, não deve ser diferente se for estudada no Pólo Norte, Pequim ou nas Nuvens de Magalhães. As conclusões devem ser independentes do referencial (para eventual desgosto de interpretações pós-modernas) e iguais para todos os observadores. Este princípio é uma base das leis da física mas deve ser aplicável a todas as outras. Para além de tudo isto, uma ciência deve ser aprioristicamente céptica - derivado de descartar à partida qualquer explicação sobrenatural ou de natureza metafísica e intangível - assim como assumidamente reducionista, de forma a evitar tendências holistas que directamente intefiram com a tentativa essencial de explicação dos factos, atendendo a hipóteses que os atribuam às suas causas (mais) primárias. Escusado será dizer que não devem existir verdades absolutas, para além dos já referidos princípios axiomáticos, e que a constante revisão é crucial.

Ramos do conhecimento como a filosofia, a literatura ou as artes não se enquadram nesta matriz. No entanto, julgo é possível que, à luz desta definição, por exemplo, a história seja uma ciência, apesar de ter um carácter mais descritivo do que propriamente de aplicação prática, algo que não é assim tão invulgar e costuma afectar algumas ciências (para além das ciências sociais, recordar o caso explícito num dos parágrafos anteriores, sobre os exemplos da astronomia e da sismologia).

Em nenhum destes casos, no entanto, teorias opostas, existindo prova experimental suficiente para fundamentação aceitável (no caso histórico, evidências genéticas, documentos relevantes, datação por carbono, etc), poderão co-existir pacificamente. Dir-se-á que a situação é mais frágil do que em física, onde as teorias são sólidas, mas a verdade é que muita gente recusa aceitar como válida a teoria da relatividade geral, apesar de ser provavelmente a teoria mais bem sucedida da sua história. Assim como existe quem não aceite a mecânica quântica, o modelo padrão de partículas, o Big Bang ou o actual paradigma da cosmologia (lambda-CDM). A ciência é feita de constante remodelação e crítica externa, assim como é, e deve ser, qualquer área de estudo que ambicione responder por esse nome, sob constante ameaça de se tornar numa matéria religiosa em vez de científica. E por revisão, obviamente, não me refiro a rever os factos mas sim rever as teorias.

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* Estas "ciências" cumprem apenas vagamente o segundo critério que enuncio (da aplicação de conhecimento adquirido), nestes casos, por via da criação de um determinado sistema político ou legal. Todavia, focam-se muito mais na questão normativa de como deve ser o sistema - daí os fundamentos éticos que sempre surgem - em vez de como funciona o sistema, tarefa que é geralmente relegada para a economia, a sociologia ou mesmo a psicologia e história.


(continua, possivelmente para a semana)