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Friday, September 15, 2006

Citação do dia



"Não são certamente os muçulmanos que perseguiram os fiéis de outras religiões (...). O Islão é a religião mais tolerante". - MNE paquistanês

Sai um Estado policial para a mesa 5

GNR vai buscar alunos a casa
«O fecho da escola da Gemieira é irreversível, pelo que, a partir de terça-feira, se os pais continuarem a impedir os filhos de frequentar as aulas no Centro Escolar da Ribeira, onde estão matriculados, faremos cumprir a lei e pediremos à GNR para os ir buscar a casa, porque é a escolaridade obrigatória que está em causa», referiu, à Lusa, aquela responsável.

Tuesday, September 12, 2006

Deadlock

Galvanizadas pela crescente onda de especulação em torno dos ataques de 11 de Setembro, as teorias da conspiração sobre o que realmente ocorreu nesse dia fatídico ganham, a cada dia que passa, novos adeptos e mais fervorosos pseudo-investigadores que conseguem descortinar mais um pormenor sombrio que aparenta provar, irrefutavelmente, que a destruição das torres gémeas não foi somente obra da Al-Qaeda (se o foi de tudo obra da Al-Qaeda, caso exista) e que também terá contado com a conivência do governo americano (se apenas conivência) ou, provavelmente, orquestração judaica de forma a ganhar um pretexto para obrigar o estado americano a organizar ofensivas à escala global contra o mundo islâmico.

Todos nós, simples homens comuns, teríamos simpatia e apreço por estas almas caridosas que se dispõem voluntariamente a iluminar-nos, se elas conseguissem, de facto, provar algo de palpável.

O único problema é que qualquer teoria da conspiração tem valor porque atribui inerentemente validade a si mesma, pela própria forma como se caracteriza. Uma vez que esta não pode ser falsificada com dados que não se possuem ou confirmada por qualquer tipo de evidência, esse mecanismo funciona como argumento para os defensores destas teorias, demonstrando que a teoria consensualmente aceite omite algo, e fazendo com que a sua especulação adquira uma certa legitimidade. O exemplo típico é a ida à lua em 1969. Há quem diga que os americanos nunca lá estiveram mas não podem provar tal coisa por razões evidentes - ninguém estava na lua quando as missões Apollo lá chegaram e mesmo que lá estivessem, a validade das suas provas seria seriamente colocada em causa. Da mesma forma, os americanos nunca conseguem provar que lá estiveram porque por mais fotos, vídeos ou amostras de rochas lunares que os dirigentes dos programas aeroespaciais disponham ao escrutínio público, os autores destas teorias continuarão a reclamar que os vídeos foram produzidos num estúdio de cinema, as fotos são provenientes de cruzamento de imagens de satélite com solos do deserto, os saltinhos dos astronautas são montagens feitas em voos parabólicos e que só o mero facto de a NASA se preocupar com demonstrar que lá esteve realmente, mostra que há alguma insegurança e indica que para tentarem provar a veracidade das suas reclamações necessitam destas conferências de imprensa.

É assim que uma teoria literalmente lunática ganha, de imediato, credibilidade. Qualquer um de nós pode afirmar que havia um plano secreto da CIA e do Mossad para destruir o WTC e o Pentágono porque nenhum de nós tem acesso a um documento que afirme claramente que a suposta existência deste plano não passa de uma fraude. E se esse documento existisse, seria obviamente suspeito. Qual seria o significado de um documento que declarasse que uma conspiração não existia, certificado pela entidade que é acusada de a pôr em prática? Minimamente intrigante e enigmático. Nunca pode existir um documento que prove que a conspiração não existia, o que perpetua a ideia de que a teoria se mantém válida até prova em contrário, prova essa que nunca pode existir e que apenas serviria para reforçar a teoria inicial.

As teorias da conspiração não são, por definição, falsificáveis nem seguem o princípio segundo o qual a explicação mais simples, lógica, óbvia e coerente é provavelmente a correcta, de acordo com as informações disponíveis. Para as provar como erradas, exigem necessariamente um mundo de 100% de certezas e de acesso a toda a informação de sistemas complexos que é impossível de reunir no mundo real, no qual não se tem possibilidade alguma de regressar ao passado. Qualquer teoria histórica sobre um acontecimento acarreta um determinado nível de incerteza e qualquer pessoa pode jogar com isso para benefício próprio da sua imaginação fértil. Será que Viriato existiu ou é meramente uma obra de ficção criada pelos romanos? Será que Bush existe? Já há alguém o viu ao vivo por acaso? De que vale criticar uma pessoa que não sabemos se existe e que alguns até acusam de ser um extraterrestre?

Monday, September 11, 2006

Sunday, September 10, 2006

Ciência e economia I

A interrogação primordial que deve ser colocada recai sobre a natureza da ciência e o seu definição, que não é geralmente unânime.

O termo ciência tem sido usado repetidamente por dois movimentos distintos de forma a flexibilizá-lo e adaptá-lo à sua realidade própria, com objectivos intencionais de ganho de credibilidade. Um deles é o grupo de cientistas provenientes das ciências naturais/físicas que, com alguma constância, se referem a outras ciências num tom depreciativo, recusando que estas sejam "verdadeiras ciências". O outro é a sua banalização – incluindo no léxico académico - para dar uma imagem de maior rigor intrínseco a algo que de metódico ou de metodológico tem geralmente muito pouco. Quem estiver interessado em testar estas afirmações deverá questionar-se sobre 2 coisas:

- o que entende um leigo por investigador cientifico ou cientista, sabendo que, na maior parte dos casos, a resposta rondará o campo de ciências como a física, a matemática, etc. e praticamente nunca o das sociais. O portal da Wikipedia sobre ciência é um bom exemplo disso. Dele constam apenas ciências físicas e aquilo que em português se costumam chamar ciências da terra e da vida.

- atentar no uso do termo ciência para designar "ciências alternativas", "ciências paranormais/ocultas" ou mesmo campos da área das humanidades como ciências políticas, ciências jurídicas, ciências literárias, humanas ou filosóficas*

A banalização do termo em si não é a questão que aborde en particular mas não é raro usar, na linguagem quotidiana, o termo ciência como referência ao conhecimento de algo ou ao apuramento da causa para um determinado efeito, o que provavelmente torna compreensível o abuso da denominação em si para vários campos académicos que não seguem uma linha de investigação cujos princípios são partilhados entre si.
A questão posterior é avaliar o teor epistemológico dos campos a que se chamam ciência (que é o tema central desta primeira entrada), a sua metodologia, e a razão que as faz diferenciar umas das outras. Qualquer ciência parte sempre de alguns pressupostos filosóficos como uma certa dose de empirismo e outras condições axiomáticas auto-evidentes que permitam assumir à partida que existe um mundo físico do qual podem ser retiradas conclusões teóricas através observações experimentais (factos) ou, pelo método contrário, confirmar a dado ponto a validade de uma hipótese teórica por meio de experiências, sempre e quando a hipótese teórica não exclua ou condicione à partida, por razões de impossibilidade técnica ou lógica, a confirmação experimental.

Tendo estas condições iniciais, a ciência baseia-se, portanto, na análise racional de dados obtidos com dois objectivos básicos: 1) adquirir conhecimento sobre a natureza do campo de estudo, compreendendo-o com a maior amplitude possível, através de um processo lógico-indutivo e 2) possibilitar a aplicação desse conhecimento adquirido em situações práticas presentes ou futuras por dedução das cadeias de eventos e previsão dos efeitos de determinadas causas.

Este género de definição abrange praticamente todos os ramos daquilo a que regularmente chamamos ciências. Particularmente as ciências naturais, que estão indissociavelmente dependentes da linguagem matemática para se exprimirem em termos quantitativos. Ciências como a física ou a química personificam na perfeição estas características. Divididas entre ramos teóricos e experimentais, puros e aplicados, têm o seu culminar de pragmatismo nas engenharias, onde é feita recorrência constante aos conhecimentos de ambas as ciências. No entanto - e aqui incorre um erro generalizado - não se deve cair na tentação de dizer que uma ciência apenas é uma ciência somente se fizer uso da matemática. A matemática não é o único sistema lógico possível e a única condição que se exige ao estudo científico, para além da descrição da realidade nas formas acima mencionadas, é que haja uma consistência interna entre toda a sua forma estrutural, as premissas e as conclusões.

Podem outras ciências enquadrar-se nesta classificação? Ciências como a astronomia, basicamente constituída por estudo observacional, não têm propriamente uma aplicação do conhecimento que é adquirido por meio da astrofísica ou da cosmologia. Note-se aqui também a interligação e multidisciplinaridade entre as diversas ciências (daí o derivado astrofísica, cujo tipo de aglutinação é frequente). O mesmo acontece em ciências como a sismologia, que nascem de outras ciências próximas como a geofísica, mas que não possuem (até ao momento?) o dom da previsibilidade eventualmente desejável, tal como expressa no objectivo 2). Devem, por isso, ser consideradas ciências menores, uma vez que não se conseguem reproduzir directamente os seus conhecimentos?; não se deverá antes esta impossibilidade a uma restrição física que transcende o que (actualmente?) o ser humano pode fazer? Os problemas destas aproximações e dos limites de obtenção de informação e sua aplicação, assim como a metodologia utilizada em ciência, serão o objectivo de discussão da próxima entrada, que provavelmente também lidará com os conflitos entre a economia e alguns destes termos.

Tendo a definição, chega-se ao assunto que motiva este texto. O que dizer da economia e outras ciências sociais? A economia (positiva) tem como objectivo, independentemente da metodologia usada, compreender os princípios elementares subjacentes à forma como interagem os seres humanos no que diz respeito às relações comerciais entre si e ao resultado em larga escala destas complexas redes estabelecidas. Esta análise é posteriormente utilizada para retirar ilações sobre as consequências de determinadas políticas económicas ou monetárias, perspectivas futuras de crescimento, investimento, tendências de mercado, etc. Não é isto que se supõe que uma ciência faça?

Uma ciência necessita de características marcantes como a objectividade e a universalidade. Se por um lado se exige que a objectividade seja um parâmetro incondicionalmente relacionado com o racionalismo próprio de uma ciência (que não dê lugar a subjectivismos superiores às especulações científicas próprias que não podem ou ainda não foram confirmadas ou refutadas), a ciência deve ser também universal, ou seja, não deve ser diferente se for estudada no Pólo Norte, Pequim ou nas Nuvens de Magalhães. As conclusões devem ser independentes do referencial (para eventual desgosto de interpretações pós-modernas) e iguais para todos os observadores. Este princípio é uma base das leis da física mas deve ser aplicável a todas as outras. Para além de tudo isto, uma ciência deve ser aprioristicamente céptica - derivado de descartar à partida qualquer explicação sobrenatural ou de natureza metafísica e intangível - assim como assumidamente reducionista, de forma a evitar tendências holistas que directamente intefiram com a tentativa essencial de explicação dos factos, atendendo a hipóteses que os atribuam às suas causas (mais) primárias. Escusado será dizer que não devem existir verdades absolutas, para além dos já referidos princípios axiomáticos, e que a constante revisão é crucial.

Ramos do conhecimento como a filosofia, a literatura ou as artes não se enquadram nesta matriz. No entanto, julgo é possível que, à luz desta definição, por exemplo, a história seja uma ciência, apesar de ter um carácter mais descritivo do que propriamente de aplicação prática, algo que não é assim tão invulgar e costuma afectar algumas ciências (para além das ciências sociais, recordar o caso explícito num dos parágrafos anteriores, sobre os exemplos da astronomia e da sismologia).

Em nenhum destes casos, no entanto, teorias opostas, existindo prova experimental suficiente para fundamentação aceitável (no caso histórico, evidências genéticas, documentos relevantes, datação por carbono, etc), poderão co-existir pacificamente. Dir-se-á que a situação é mais frágil do que em física, onde as teorias são sólidas, mas a verdade é que muita gente recusa aceitar como válida a teoria da relatividade geral, apesar de ser provavelmente a teoria mais bem sucedida da sua história. Assim como existe quem não aceite a mecânica quântica, o modelo padrão de partículas, o Big Bang ou o actual paradigma da cosmologia (lambda-CDM). A ciência é feita de constante remodelação e crítica externa, assim como é, e deve ser, qualquer área de estudo que ambicione responder por esse nome, sob constante ameaça de se tornar numa matéria religiosa em vez de científica. E por revisão, obviamente, não me refiro a rever os factos mas sim rever as teorias.

--

* Estas "ciências" cumprem apenas vagamente o segundo critério que enuncio (da aplicação de conhecimento adquirido), nestes casos, por via da criação de um determinado sistema político ou legal. Todavia, focam-se muito mais na questão normativa de como deve ser o sistema - daí os fundamentos éticos que sempre surgem - em vez de como funciona o sistema, tarefa que é geralmente relegada para a economia, a sociologia ou mesmo a psicologia e história.


(continua, possivelmente para a semana)

As FARC e o PCP

A última semana tem sido rica em manifestos de indignação, surpresa, recriminação e, sobretudo, apelos ao esclarecimento, por parte do PCP, quanto à presença das FARC na festa do Avante!, uma sublevação que foi liderada e bem por blogues como o Kontratempos e o Tugir (ver a análise do Bruno Ribeiro publicada há dias no PubAddict). A questão que praticamente implora ser colocada é: terá todo este sobressalto algum resultado palpável, tal como está elaborado?

Por várias razões, seria mais importante e frutífero direccionar também estes pedidos de esclarecimento por via de uma generalização das perguntas implícitas, de uma forma mais conceptual e abrangente. Digo isto porque as duvidosas posições do PCP (em política externa e não só) são bastante claras e, nesse sentido, as suas declarações de defesa são tudo menos imprevisíveis. O problema não está numa incoerência ou na existência de dualidade de critérios mas sim no facto de que o PCP usa definições que não estão em concordância com as normas da língua portuguesa, que é a estrutura que utilizamos para tentar compreender as afirmações dos seus líderes e criticar as atitudes dos seus elementos. Alguns exemplos clássicos:
1) Os comunistas só falam da protecção dos direitos humanos quando estes jogam a favor do comunismo, ou seja, quando a infracção é praticada por nações que reconhecem ferozmente a legalidade e legitimidade da propriedade privada e outros direitos essenciais, por governos inimigos da facção comunista que os órgãos oficiais nacionais ou internacionais decidem apoiar ou simplesmente pelo Grande Satã do momento (neste ponto da história, os EUA). No caso de se tratarem de nações ou grupos aliados, tal acção é geralmente abafada;

2) O terrorismo só existe quando não é declaradamente a favor da destruição dos pilares das democracias liberais como o estado de direito, a maximização da independência e separação de poderes e/ou o reconhecimento das liberdades e direitos individuais. Caso contrário, é sempre uma reacção ao imperialismo ou à opressão capitalista. Alternadamente, também pode ser usado para designar uma forma de retaliação a um grupo que os comunistas decidiram apoiar (por exemplo, as "denúncias" do Estado de Israel como entidade terrorista), não necessariamente por mero uso propagandístico, mas muitas vezes também por parcerias políticas profundas;

3) A liberdade de expressão praticamente só é defendida quando está em causa a difusão da ideologia comunista e nunca quando ideologias antagónicas ou que fujam à ortodoxia dos mestres são perseguidas, menosprezadas ou pouco agraciadas com a devido abertura no espaço de discussão pública. Nos países comunistas que tipicamente o PCP defende, os dissidentes da ideologia do regime geralmente não acabam bem e o PCP deprecia a existência desses problemas. A mesma argumentação pode ser usada se estiverem em causa, novamente, aliados políticos;

4) A vitimização de minorias étnicas/políticas só é útil quando a minoria em causa é uma que é apoiada pelos movimentos comunistas ou quando essa mesma minoria sente alguma simpatia pelos movimentos em questão (como na dicotomia entre judeus e muçulmanos);

5) A globalização e o imperialismo só são maus quando são expressões de um capitalismo transfronteiriço. Quando estes dois fenómenos são propícios à propagação de um comunismo à escala global, tanto ideologicamente como pela via da "revolução permanente" e do financiamento de guerras em todo o globo não existem muitas queixas. Ainda hoje o PCP sente nostalgia pela antiga União Soviética e até Estaline foi reabilitado. Paralelamente, a guerra é sempre má, excepto quando é uma guerrilha de resistência que se insurge contra a exploração do homem pelo homem, contra a injustiça social trazida pelo capitalismo, etc., etc.;

6) Os direitos sociais dos trabalhadores ou da função pública só são defendidos quando os direitos que estes trabalhadores desejam coincidem com a ideologia da extorsão socialista. Nunca o PCP irá defender a economia de mercado, maiores flexibilidades laborais, nem que sejam esses os direitos a que os trabalhadadores queiram ter acesso;

7) A democracia para os membros do PCP é algo que só existe quando está sob controlo das políticas que o partido deseja. Os exemplos mais típicos são as críticas gerais aos EUA (ignorando o sistema de checks and balances e os poucos poderes do presidente quando comparados com os de outros países) sobre a suposta forma anti-democrática como são feitas as escolhas ou as decisões políticas, dizendo em simultâneo que Cuba é uma democracia, Chavez e Morales são grandes libertadores (democratas também) e que não sabem se a Coreia do Norte não será uma democracia (autoria de Bernardino Soares).

*

O que deve ser feito? A única forma de pressionar o PCP é pedir que esclareça de vez o eleitorado sobre as suas definições de terrorismo, imperialismo, direitos humanos, medidas anti-sociais, democracia, etc., em vez de usar os seus clássicos slogans vazios de qualquer significado lógico. É de duvidar que consiga elaborar uma resposta consistente porque, se usar os termos tais como se apresentam na língua portuguesa, será possível mostrar por todos os meios que não existe coisa mais antidemocrática, anti-social, imperialista, militarista e terrorista do que o comunismo, como se pôde testemunhar ao longo da história do séc. XX e como, pelos vistos, o PCP continua a demonstrar através das suas companhias. Se, por outro lado, usar as suas próprias definições, será fácil mostrar a qualquer pessoa bem intencioanda que o que o PCP diz defender, afinal, é uma deturpação dos significados distintos que se assumem a priori.

O PCP ficará assim dividido entre duas opções que lhe são prejudiciais e tenderá a evitar a resposta, dando continuidade à sua política oficial de usar newspeak para baralhar as pessoas. No entanto, desta vez será visivelmente ilusivo, uma vez que o PCP não poderá continuar a usar os chavões tradicionais sem justificar o que significam verdadeiramente. As verdadeiras intenções serão totalmente transparantes. Não interrogar sobre este ponto essencial é permitir que grupos deste género, para os quais todos os meios são válidos para atingir o fim desejado, continue a propagar eternamente o seu culto de ódio, pobreza e guerra. A necessidade fulcral, para além de saber o que faziam as FARC e outros grupos terroristas na festa, é combater e desmantelar ideologicamente um núcleo político que se escuda por trás de milhares de eleitores, situação única na UE em termos percentuais, e que permite que este género de promiscuidade infeliz com grupos terroristas (neste caso, definidos até como tal pela própria UE) aconteça num país democrático e relativamente livre como Portugal.

Liberdade económica

A parceria Cato Institute/Fraser Institute publicou a sua edição anual do índice de liberdade económica, desta vez referente ao ano de 2004. Os primeiros classificados não se alteraram relativamente ao ano anterior (tanto em termos absolutos como relativos): Hong Kong, Singapura, seguidos da Suiça, NZ e EUA em ex aequo na terceira posição. Em 6º encontram-se o Reino Unido e a Irlanda, que parece continuar a subir na tabela.

Portugal surge este ano na 20º posição, acompanhado por Chipre, Chile, Hungria, o que equivale a uma subida de 14 postos na tabela geral de países, comparativamente a 2003, mas apenas a uma melhoria de 0.3 pontos na classificação em termos absolutos. Para trás ficaram Espanha, França, Noruega, Bélgica e Suécia, embora a diferença com a maioria destes seja somente uma variação de 1 ou 2 décimas. Itália fica a 5 pontos decimais de distância e a Grécia a 6. No fim da tabela, praticamente todo o continente africano e alguns paraísos socialistas para os quais se obtiveram dados (Cuba e Coreia no Norte, por exemplo, não constam da lista).

O índice de liberdade económica da Heritage Foundation parece ter sido também actualizado (via A Arte da Fuga). Aqui, Portugal subiu 0.15 valores para 30º lugar (ultrapassa Espanha) e mantém-se à frente de França, Itália e Grécia. Hong Kong, Singapura e Irlanda lideram. O fim da tabela é ocupado por Myanmar (a antiga Birmânia), Irão e Coreia do Norte.

Saturday, September 09, 2006

Branco mais branco não há

«Not all older people feel like Mr Chen. For some, worried about the inequalities that China's capitalist revolution is now producing, Mao represents a time when China was a more equal country. And for many in the younger generation Mao has almost mythical status. "I think Mr Chairman Mao was a great guy. To us he is not a person, he is a god," according to Mr Cai, now in his thirties, and was just a child when Mao died. Like many Chinese, he admires Mao as the founder of modern China. "He united China and helped the poor people. Maybe some people in the world will not like him, but we Chinese will always think he was a great man," he said. That is just the sort of talk China's Communist Party likes to hear. Walking around Mao's childhood home, none of his mistakes are on show.» China moves on from Mao

Thursday, September 07, 2006

Doing Business

Está já disponível o resumo do relatório anual [pdf] do Doing Business. Portugal situa-se, este ano, na modesta posição de 40º lugar, em contraste com o 45º que ocupava no ano anterior. Esta subida de 5 posições deve-se essencialmente ao salto de 80 posições que foi dado no parâmetro starting a business, de 113º para 33º.

Os dados deste parâmetro e a sua evolução desde o último relatório estão na tabela seguinte:


2006 2007
Procedures (number) 11 8
Time (days) 54 8
Cost (% of income per capita) 13.4 4.3
Minimum capital (% of income per capita) 39.4 38.7


Apesar desta subida bastante elevada e digna de menção, os resultados apresentados apenas ficam em linha com a média da OCDE. De notar que neste grupo de países (ver tabela), a classificação média de Portugal apresenta-se no antepenúltimo lugar, à frente apenas da Itália e da Grécia, o que provavelmente não é razão de grande satisfação. Esta mudança não traz grande alteração em termos comparativos no ranking OCDE, já que Portugal se encontrava à frente dos mesmos dois países no ano anterior e também da França, que deu um salto de 12 posições do ranking (47º para 35º). Ser ultrapassado pela França que, como se pode ver, melhorou nos parâmetros getting credit e trading across borders, é provavelmente mau sinal.

Porém, é de realçar que a subida de Portugal é positiva, ainda que obviamente insuficiente. Seria relevante para Portugal se a subida se desse de uma forma significativa entre países da própria OCDE e não somente a nível mundial.

Quanto aos restantes países, a tabela geral mostra que o maior salto foi dado pela Geórgia, que passou de 112º para... 37º, à frente de Portugal e Espanha. Os líderes da tabela são os países anglo-saxónicos do costume, acompanhados por Hong Kong e Singapura, que este ano lidera. No fim da tabela encontram-se também os países do costume, nomeadamente os das reformas recentes mais prejudiciais, como a Bolívia, a Venezuela e o Zimbabwe. Quem tenha vindo a acompanhar as notícias da imprensa internacional, nos últimos meses, certamente compreenderá o porquê de tal mistério.

Tuesday, September 05, 2006

Witch trial

O mais que evidente perigo flagrante da velhinha lógica aristotélica*:



«Who are you, who are so wise in the ways of science?»

[Transcrição]

*uma dedicatória a António Vilarigues

Monday, September 04, 2006

Ciência, economia, exactidão

N'A destreza das dúvidas. Prometida uma emissão de opinião assim que haja maior disponibilidade.

Telhados de vidro

Jerónimo de Sousa retoma ataques à "política de direita" do PS
«No seu discurso, de mais de uma hora, Jerónimo de Sousa insistiu na ideia de que o Governo de José Sócrates defende os interesses do "grande capital", dos bancários e dos empresários, que acusou de fazerem propostas que "cheiram a mofo" e "vão ao encontro das propostas salazaristas".»

Sunday, September 03, 2006

Não é preciosismo semântico

São pouco compreensíveis as crescentes invectivas contra a referência ao Estado de Israel, por substituição a Israel. Supõe-se que os críticos de tal designação queiram implicar que, ao existirem denominações consistentes sob esta forma, há uma divisão subjacente que denuncia a artificialidade do Estado de Israel na região. Urge, portanto, explicar aos mais desatentos que Israel (ou qualquer outro país) e o seu Estado são entidades absolutamente distintas, ainda que por vezes se faça recurso a esta metonímia, tanto no jornalismo como noutras áreas, para designar o Estado correspondente ao respectivo país, através do próprio nome do país em questão.

A necessidade de usar o prefixo 'Estado de', ou 'Estado' seguido do adjectivo gentílico, torna-se relevante quando se estão a discutir as acções do governo de um país e não da sua população, independentemente do apoio popular que se verifique aos respectivos dirigentes, ou porque se discutem fronteiras políticas, cuja condição incontornável é a co-existência geográfica de múltiplos Estados.

Isto é relevante e, obviamente, não se aplica somente a Israel, como também ao Líbano, aos EUA e a todos os outros. Confundir a instituição política que é o Estado com o corpo do qual esta brota é errado e tendencioso porque acaba por servir - na pior das hipóteses - para falar dos habitantes desse Estado avaliando-os pelas decisões tomadas pelos seus líderes. Tendo em consideração que o feedback democrático (quando existe) não corresponde a um período de tempo aceitável para tomadas de decisão pontuais, não previstas antes do início do mandato, nem consegue nunca reunir total unanimidade, está-se simplesmente a lutar pela tentativa de encontrar um artifício verbal para criar uma posição criticável.

Claro que a base do problema está na manifesta dificuldade por parte de muito boa gente em diferenciar entre sociedade e Estado. Mas precisamente por ser um erro frequente, deveriam os novos seguidores deste tipo de argumento lutar por distinguir os dois conceitos constantemente, em vez de incentivar o uso de falácias generalizadoras que apenas servem para atacar o alvo desejável do momento. Infelizmente, tal tarefa avizinha-se como bastante difícil porque geralmente os que utilizam este tipo de retórica são os que vêm o indivíduo como uma espécie de simbiose indissociável entre o colectivo da sociedade e a estrutura criada pelo Estado para moldar os elementos que fazem parte desse mesmo colectivo.