Pages

Monday, August 21, 2006

As leis laborais nas sondagens

O Financial Times publica hoje uma sondagem sobre a actual opinião de alguns europeus relativamente às leis laborais. Alemães e franceses, com uma percentagem de desempregados por volta dos dois dígitos, parecem estar mais receptivos à liberalização do número máximo de horas de trabalho exigidas por lei. O caso francês é crónico - a própria introdução do CPE era já uma medida meio-desesperada na tentativa de cortar um dado estatístico estagnado que ronda os 10% há aproximadamente 30 anos:

«Some 65 per cent of Germans and 52 per cent of French oppose government controls on working hours, according to a Financial Times/Harris poll that interviewed almost 10,000 people over 16 in Britain, France, Germany, Italy and Spain. (...)

Unemployment in Germany and France in recent years has been running at twice the British rate. This has prompted some politicians to question the effectiveness of highly protective labour regulations in the two countries, compared with the more liberal Anglo-Saxon model.»

Os resultados gerais estão resumidos no seguinte gráfico:

Sunday, August 20, 2006

Self-loathing II

«Alberto João Jardim admite, sim, que alguns investimentos terão de ser adiados. "Tem de haver uma outra engenharia financeira e lançar os investimentos de 2006 para 2007, os desse ano para 2008 e assim sucessivamente, mas os socialistas defendiam que eu devia lançar e aumentar impostos", realçou

Saturday, August 19, 2006

Combate à fuga da fuga

Tem sido sugerido constantemente na comunicação social que a decisão do governo em divulgar listas de contribuintes devedores ao fisco e à segurança social se faz no âmbito do combate à fuga fiscal. Uma conclusão muito curiosa e interessante se tivermos em conta que se supõe que as pessoas e empresas que aparecem nestas listas não cumpriram as suas obrigações, numa tentativa de fuga deliberada à tributação, com a esperança óbvia de não serem detectadas ou indiciadas pelo seu acto.

Mais natural é que os devedores experientes - os que mais temem ser apanhados, os que não confiam tanto na boa vontade dos burocratas ou suspeitam da possibilidade de serem descobertos por entre os dados estatísticos recolhidos - não arrisquem e façam o trabalho de um profissional. Estes certamente não fornecerão ao Estado qualquer informação que se possa virar contra si mesmos e que os possa prejudicar de futuro. O crime perfeito é sempre aquele que não deixa marcas formais ou aquele em que o criminoso usa o próprio sistema de detecção de crimes para seu próprio proveito, seja subornando um responsável, encontrando conveniências mútuas ou explorando falhas sistemáticas.

Os devedores que se encontram listados não fazem parte deste grupo porque se a acção fosse efectivamente intencional e tivessem tomado essas precauções, não estariam a braços com esta situação. A publicação das listas visa, portanto, os que foram suficientemente ingénuos para julgar que não seriam apanhados. O que a ideia de que a medida se insere no combate à fuga fiscal não analisa é o facto de que aqueles que já arriscam ser apanhados de qualquer das formas, ao permitir que o Estado registe provas das suas faltas, apenas ganharão um incentivo maior para recorrer a técnicas mais eficazes de subterfúgio e que permitam em simultâneo reduzir de forma significativa o seu risco de ser descobertos a longo prazo. A publicação destas listas é, portanto, um encorajamento à mudança destas pessoas do grupo dos que visivelmente actuam de forma ilegal para os que cometem ilegalidades mas dão uma aparência de legalidade absolutamente transparente.

Um bom exemplo dos efeitos deste género de perseguição fiscal é o súbito desaparecimento do número de contribuintes registados em escalões elevados do IRS, à medida que as respectivas taxas têm vindo a aumentar.

Friday, August 18, 2006

Lei da inércia mental

Dos boatos às ilações, o Saboteur sugere que possam ser os modelos físicos e matemáticos a derradeira explicação para a heresia capitalista que por aqui se comete. De onde vem esta súbita e peregrina relação causa-efeito? É que tanto quanto esta ciência do oculto e adivinhação permite concluir, talvez seja a opinião sobre Majorana um perigoso resultado proveniente de alguma duvidosa análise de custos de oportunidade e elasticidade de preços. Nestas coisas nunca se sabe e, pela via das dúvidas, possivelmente é melhor dar razão a quem não é suspeito de cooperar com a liberdade económica.

Por exemplo, a teoria da conspiração sobre os físicos, os matemáticos e as elites capitalistas é muito interessante. Mas está fundamentada em quê, exactamente? No perigoso e neoliberal teorema fundamental da álgebra? No facto de a lei da oferta e da procura ser proto-fascista e não ter lugar no modelo padrão de partículas e forças fundamentais? No de que a lei da gravitação universal é reaccionária e não há razão pela qual lhe devemos obedecer?



Aguardam-se novos desenvolvimentos neste magnífico campo de investigação multidisciplinar que pouco tem que ver com o uso real de física estatística e outras conclusões sobre processos considerados estocásticos em economia.

---

Nota: Saboteur, veja lá se resolve as suas desavenças com o problema filosófico com que deseja atacar as minhas opiniões. Primeiro era o modelo neo-clássico porque eu era economista, agora é a formulação matemática e teórica porque sou físico. Será amanhã a teoria geral do direito civil e a jurisprudência porque sou advogado e estes são evidentes servos do grande capital? E para mais, como resolvemos este enigma económico? E este, que parece ainda não ter tido uma resposta concreta?

Nota 2: O Filipe Moura e o establishment científico de (extrema-)esquerda devem ser uma conspiração da CIA.

Wednesday, August 16, 2006

Remar contra a maré

Consta que o meu pequeno apontamento sobre a absurdidade das últimas propostas relativamente ao affair Ettore Majorana foi referido na secção de ciência do Público e que o autor de tal proeza foi nada mais nada menos do que o Filipe Moura. Obviamente que agradeço e até reconheço a honestidade profissional em questão, tendo em conta a extrema importância que o Filipe parece querer dar ao facto de por aqui se partilharem visões antagónicas de política/economia. Contudo, o Filipe Moura publicou hoje o artigo no blogue e parece querer também provar alguma coisa no que diz respeito ao que tem andado a ser discutido sobre a Dia D nos últimos dias.

No que toca à Dia D propriamente dita, deveria ser do conhecimento geral que as entidades responsáveis pela sua publicação são privadas (Público/Money Media) e, como é óbvio, devem ser elas a decidir qual a linha editorial que desejam seguir, uma vez que não estão obrigadas a ser condescendentes com as tendências de opinião das outras publicações, nem os textos pessoais de cada um dos colaboradores vinculam a revista no que toca às suas posições particulares.

Felizmente, não parece existir uma comissão central que decida o plano estratégico a executar, nem quais as quantidades de cada ração opinativa a distribuir por unidade geográfica de distribuição jornalística, proveniente de cada autor, de acordo com a sua habilidade, e para cada um dos leitores, de acordo com a sua necessidade. Reconheço que é incómodo, fica tudo mais contra-revolucionário e difícil de gerir a partir de um gabinete que supostamente teria controlo sobre todas as decisões. Ainda assim, certamente que o Filipe não nos vê a criticar o facto de publicações de cariz privado como o Avante! (irónico, não?) não terem nas suas colunas a opinião de um insurgente ou blasfemo em vez destes elogios destacados a Fidel Castro. Semelhante observação é absolutamente válida para tantas outras revistas independentes e com total exclusividade sobre os seus próprios conteúdos, que são precisamente o fruto desta multiplicidade de centros de decisão gerada pela combinação entre a liberdade de imprensa e a detenção da propriedade privada sobre estes mesmos meios.

---

1. Quanto ao à ironia do João Miranda, não me parece que a menção do artigo sobre Majorana seja de todo relevante porque, quando muito, tal coisa só serve para demonstrar que fazia sentido. De acordo com os parâmetros estabelecidos pelo comentário do João, nenhuma das secções é propriamente pluralista, verificando-se ciência credível de um lado e economia credível do outro. Não vejo que tenha sido uma piada demasiado complexa.

2. O AAA tomou o cuidado de reproduzir um comentário meu feito nas caixas d'O Insurgente que resume o que penso acerca da situação e das acusações de falta de pluralismo. Verdade seja dita, se a Dia D é pouco pluralista, que dizer de canais como a RTP, que se trata supostamente de uma estação pública directamente financiada com os impostos dos contribuintes portugueses? (ao contrário da Dia D, que decerto está infinitamente mais dependente do seu sucesso no mercado). Curiosamente, vê-se pouca gente a incomodar-se com isto, tirando as pessoas do costume e aqueles que julgam que esta devia ser ainda menos pluralista.

3. Para além de ficar por explicar como é que um "antiesquerdista primário" tão exacerbado pode frequentar um curso que dá pelo pouco sugestivo nome de ... LEFT, como estagiário de jornalismo no Público, talvez fosse boa ideia desenvolver a saudável prática de obter uma certificação sólida para as alegações feitas, sustentada em fontes credíveis, em vez de as passar como informação sem confirmação. Já para não dizer que mentir é feio.

Plutão aguarda impaciente

Tuesday, August 15, 2006

Testemunhos de quem lá esteve

Uma recomendável, embora longa (46 minutos), entrevista com esta Brigitte Gabriel a que o Adolfo faz referência. Sobre a guerra civil libanesa e Israel:


As empresas são diabólicas

Dell recalls 4m laptop batteries
«The world's largest manufacturer of personal computers, Dell, is to recall 4.1 million of its notebook computer batteries because of a fire risk. (...)

Dell says it knows of six instances since December when the batteries, made by Sony, overheated or caught fire.

(...)

"In rare cases, a short-circuit could cause the battery to overheat, causing a risk of smoke and or fire," said Dell spokesman Ira Williams.

"It happens in rare cases but we opted to take this broad action immediately."

Dell plans to launch a website telling customers how to get a free replacement battery, the Associated Press news agency reports.»

Monday, August 14, 2006

A guerra de 1908

- Estabelecer uma hora, calculada de acordo com o Observatório de Greenwich para o fim das salvas de rockets/acções terrestres em ambas as partes e para dar início a um cessar-fogo mútuo;

- Criar uma resolução do conselho de segurança da ONU em muito semelhante à tal 1559 do ano 2004, que nunca foi cumprida, "apelando" ao desarmamento do Hezbollah;

- Ter o governo francês a ser absolutamente original, dizendo que a solução para o desarmamento do Hezbollah é política/diplomática e não militar;

- Determinar que o governo libanês (o tal que vê o Hezbollah como um grupo de resistentes em luta pela sobrevivência libanesa) e a UNIFIL (uma organização a mando dos anteriores cujos propósitos nunca são cumpridos) devem deter o controlo de facto da zona sul do Líbano.

- Imaginar que as hostilidades deste conflito ficaram resolvidas.

Sunday, August 13, 2006

Preocupante

O Sapo criou este blog acerca de Cuba e nele decorre uma votação sobre El Comandante. O problema não é a votação em si, nem as ligações (Juventude Rebelde, Granma, etc), mas a pergunta, que nos pede para determinar se Fidel Castro é um ditador ou um democrata. Surpreendentemente, 3/4 da amostra sondada - quase 4000 pessoas até ao momento - responderam que Fidel Castro é um ditador. Como não deve ser difícil de imaginar, o principal obstáculo à existência de democracia em Cuba é precisamente o facto de tanta gente ter atitudes mal-intencionadas deste género e responder o oposto da realidade só para denegrir internacionalmente a imagem de Fidel. Lamentável.

Créditos: Adobe® Photoshop® CS2




---

Adenda: Comentário no blogue de Johan Norberg.

Recomendações

As esquerdas anti-semitas (Vasco Graça Moura)

A génese do holocausto e A balança da liberdade (Mário Chainho) [a propósito deste último texto, consultar a versão em cartoon da obra The Road to Serfdom de F.A. Hayek]

Fidelíssimos e Os antigos radicais (Fernando da Cruz Gabriel)

Os vários episódios da série Free to Choose de Milton Friedman (via Greg Mankiw) e um vídeo dos anos 40 sobre as diferenças entre o capitalismo e o comunismo (via The Austrian Economists)

Impacto económico das nossas insuficiências educativas (João César das Neves) e La sociedad de deseño no funciona (Jorge Valín), sobre educação.

Os artigos de Paul Belien no The Brussels Journal sobre as tentativas de amordaçar a liberdade de imprensa e ilegalizar o ensino à distância por parte do Estado belga.

Saturday, August 12, 2006

Walid Shoebat e Zachariah Anani

Vários vídeos com Walid Shoebat e Zachariah Anani (ex-terroristas da OLP e [correcção: Fatah] milícias islâmicas libanesas, respectivamente) a ver na totalidade, embora algumas declarações e informações sejam repetidas. Os primeiros são descrições sobre o funcionamento interno das organizações terroristas a que pertenceram, as suas experiências pessoais e as dificuldades trazidas pelas suas apostasias. Os últimos, entrevistas na CNN e na Fox News sobre o conflito entre Israel e o Hezbollah.



[Actualização: N'O Insurgente, um vídeo com uma entrevista simultânea a Walid Shoebat, Zachariah Anani e Ibrahim Abdullah (ex-Fatah) que resume muito bem a maioria da informação presente nos restantes vídeos]













Friday, August 11, 2006

Confusões perigosas

Uma discussão política ou económica com um opositor declarado das ideias liberais acaba quase sempre com um assunto relacionado com os EUA em cima da mesa, seja sobre a visão da política externa americana ou uma qualquer prática corrente a nível interno. Isto acontece porque muita gente confunde os EUA com liberalismo e/ou capitalismo, o que, para além de absolutamente errado, é muito perigoso. Não só os Estados americanos (locais e federal) e a linha política seguida pelo seu governo não devem ser considerados liberais no sentido avançado pelo liberalismo clássico, como o liberalismo não pode - nem deve - servir como ideologia/filosofia justificativa para qualquer que seja a acção tomada pelo governo americano, flexibilizando-se à medida dos caprichos do Congresso, do presidente ou dos secretários de Estado.

É por isso evasivo e irrelevante, para uma discussão honesta, atacar os argumentos de alguém utilizando como forma de contestação qualquer prática promulgada pelo governo americano, independentemente da área legal, e que seja supostamente reveladora de uma contradição ou incoerência. Para que isso fosse possível, os proponentes de um regime (mais) liberal teriam de permanecer totalmente acríticos face à atitude governamental americana, o que geralmente não é verdade. O oposto seria horrivelmente insalubre.

Quem confunde estes dois aspectos sofre de uma síndrome própria de "Guerra Fria retrospectiva", em que o mundo é a preto e branco, e apenas se pode escolher um país para apoiar entusiasticamente, sem contestação, não sendo permitido sequer o mínimo de espaço para o designar de "mal menor" ou propor dissidências de opinião. Ao contrário de Estados publicamente reconhecidos como socialistas/comunistas, tanto pelos seus dirigentes como pelos seguidores da religião, não existem Estados liberais que sugiram um modelo inquestionável a seguir. E isto sucede porque, para o que talvez perfaz a maioria, nenhum Estado existente na actualidade é, por definição, totalmente liberal (como em governo limitado ou estado mínimo) ou é reconhecido como tal. A incidência do liberalismo sobre a política é presentemente sentida mais como uma questão quantitativa do que propriamente qualitativa, e assim se podem classificar Estados mais liberais e outros menos liberais, consoante o grau de liberdade que concedam aos seus habitantes. Para desespero dos mais necessitados de um manual de instruções, o liberalismo é algo que não apresenta um tomo sagrado que seguir de acordo com regras ortodoxas, nem os próprios liberais com frequência se entendem mutuamente sobre quais devem ser os limites impostos. Em contraposição ao outro extremo do espectro político, não se daria qualquer purga ideológica, por razões mais que evidentes.

Não existem necessariamente modelos para uma sociedade liberal. E isto não é um erro de arquitectura. O modelo das sociedades mais liberais é propositadamente emergente da ausência total ou presença muito mitigada de planeamento centralizado, uma vez que se reconhece, deontológica ou consequencialmente, que este planeamento ou é sempre mau ou, na maior parte das vezes, causa mais estragos do que os já naturalmente verificados, descontando o efeito negativo que a própria intromissão estatal possui. A melhor prova experimental deste facto é o reconhecimento feito pelos socialistas mais realistas (os sociais-democratas) de que o formato político mais socialmente eficiente e menos humanamente desastroso encontrado é a democracia liberal, por contraste à economia planeada e à legitimidade estatal para negar os direitos civis dos indivíduos consoante o rumo da conjuntura política.