Os parabéns a quem nos ajuda a ter uma esperança no seio de tanto desespero.
Monday, July 17, 2006
How to Lie with Statistics
Estudo: Portugal tem o 16º melhor sistema de saúde europeu
O que o comunicado queria mesmo dizer era que Portugal tem o 11º "pior" sistema (o que está dependente dos critérios usados) da lista de países analisados. Claro que ver a lista a partir do ponto positivo ("melhor") é mais simpático e menos noticiosamente deprimente.
«Portugal tem o 16º melhor sistema de saúde europeu de um total de 26 países, numa lista que é encabeçada pela França. Depois de Portugal surge Espanha e a Grécia, segundo um estudo elaborado pela organização Health Consumer Powerhouse sobre os sistemas de saúde do Velho Continente.»
O que o comunicado queria mesmo dizer era que Portugal tem o 11º "pior" sistema (o que está dependente dos critérios usados) da lista de países analisados. Claro que ver a lista a partir do ponto positivo ("melhor") é mais simpático e menos noticiosamente deprimente.
Saturday, July 15, 2006
Em nome da segurança
Toyota's totally bizarre recall
(via Tom Palmer)
Esta questão, para além de servir como forma de elucidação aos mais distraídos acerca da típica regulação por motivos de segurança (que reflecte o malefícios dos decisores políticos) e obrigar a Toyota a gastar mais milhões de forma aparentemente desnecessária e nefasta, demonstra uma das razões pelas quais o Estado não consegue "regular" devidamente seja o que for: falta de informação. O Estado não consegue ser, em simultâneo, especialista em todas as áreas do conhecimento e inovação tecnológica, não podendo, por essas mesmas razões, reclamar conhecer mais sobre um determinado sistema do que o seu respectivo produtor e analistas.
Este problema recorda, também nos EUA, o dos adoçantes artificiais. Um dos exemplos mais polémicos é o do aspartame, uma substância bastante duvidosa do ponto de vista médico (para além do tradicional problema que causa aos portadores de fenilcetonúria) e largamente utilizada em refrigerantes. Entre outras coisas, estudos médicos sugeriram que alegadamente poderia haver uma ligação do aspartame com tumores e lesões cerebrais, linfomas, mutações genéticas, leucemia, perturbações neurológicas, etc. Existe muita informação e também muita contra-informação dada a controvérsia sobre o assunto. Seria, portanto, de esperar que o aspartame tivesse uma quota de mercado reduzida por ser demasiado caro de produzir e possuidor de um risco relativamente elevado que os consumidores e os produtores não estariam dispostos a correr.
No entanto, acontece que a FDA (Food and Drug Administration), o corpo governamental que regula a qualidade dos alimentos e medicamentos nos EUA, deu carta branca aos produtores de aspartame nos anos 80. Adicionalmente, o governo subsidia a indústria nacional de produção de adoçantes artificiais e impõe restrições à importação de açúcar produzido no estrangeiro, através de tarifas alfandegárias. Ou seja, se todos estes efeitos forem reais, o Estado americano tem estado a apoiar o consumo de substâncias químicas potencialmente perigosas enquanto os produtores de alimentos e bebidas como os refrigerantes são desincentivados a usar açúcar e outros componentes portadores de um risco de saúde menor.
Ainda bem que os governos existem para proteger a nossa saúde. Pessoalmente, julgo que qualquer um ficará menos preocupado.
«Why would Toyota issue a recall designed to make vehicles less safe?
This fall, Toyota will voluntarily recall nearly 160,000 Toyota Tundra pickups so that they can be made less safe for children riding in the front seat.
No, that's not a mistake - at least not on our part.
The recall, announced Monday, is meant to make Tundras comply with a set of safety regulations. The rules say that vehicles built after 2002 must have a child-seat anchor system known as LATCH in the front seat if they also have a front-seat airbag shut-off switch.
The Tundras in question were built with an airbag shut-off switch but not the LATCH system.
The solution? Spend lots of money and inconvenience customers...to remove the airbag shut-off switch.
The move not only doesn't enhance the safety of these vehicles, it actually makes the vehicles unsafe for small children riding in the front seat.
Those shut-off switches exist because airbags can injure and even kill small children even in otherwise minor crashes.»
(via Tom Palmer)
Esta questão, para além de servir como forma de elucidação aos mais distraídos acerca da típica regulação por motivos de segurança (que reflecte o malefícios dos decisores políticos) e obrigar a Toyota a gastar mais milhões de forma aparentemente desnecessária e nefasta, demonstra uma das razões pelas quais o Estado não consegue "regular" devidamente seja o que for: falta de informação. O Estado não consegue ser, em simultâneo, especialista em todas as áreas do conhecimento e inovação tecnológica, não podendo, por essas mesmas razões, reclamar conhecer mais sobre um determinado sistema do que o seu respectivo produtor e analistas.
Este problema recorda, também nos EUA, o dos adoçantes artificiais. Um dos exemplos mais polémicos é o do aspartame, uma substância bastante duvidosa do ponto de vista médico (para além do tradicional problema que causa aos portadores de fenilcetonúria) e largamente utilizada em refrigerantes. Entre outras coisas, estudos médicos sugeriram que alegadamente poderia haver uma ligação do aspartame com tumores e lesões cerebrais, linfomas, mutações genéticas, leucemia, perturbações neurológicas, etc. Existe muita informação e também muita contra-informação dada a controvérsia sobre o assunto. Seria, portanto, de esperar que o aspartame tivesse uma quota de mercado reduzida por ser demasiado caro de produzir e possuidor de um risco relativamente elevado que os consumidores e os produtores não estariam dispostos a correr.
No entanto, acontece que a FDA (Food and Drug Administration), o corpo governamental que regula a qualidade dos alimentos e medicamentos nos EUA, deu carta branca aos produtores de aspartame nos anos 80. Adicionalmente, o governo subsidia a indústria nacional de produção de adoçantes artificiais e impõe restrições à importação de açúcar produzido no estrangeiro, através de tarifas alfandegárias. Ou seja, se todos estes efeitos forem reais, o Estado americano tem estado a apoiar o consumo de substâncias químicas potencialmente perigosas enquanto os produtores de alimentos e bebidas como os refrigerantes são desincentivados a usar açúcar e outros componentes portadores de um risco de saúde menor.
Ainda bem que os governos existem para proteger a nossa saúde. Pessoalmente, julgo que qualquer um ficará menos preocupado.
Friday, July 14, 2006
Entrelinhas
Para quem tem acompanhado com o mínimo de atenção os desenvolvimentos dos últimos dias sobre o recente conflito israelo-árabe, há apenas uma certeza que é justificada pela quantidade de vezes que o comportamento se repete, sempre da mesma forma, e que por isso já não apresenta grande novidade.
Tanto na comunicação social como nos comentários políticos é-se muito mais rápido e desproporcional a condenar uma acção com objectivos militares do Estado israelita do que a fazê-lo quando se trata de um ataque terrorista com o objectivo puro e simples de matar civis israelitas. Para além do típico apoio pela "causa palestiniana" existe uma razão muito óbvia para que isto aconteça. Israel, como parte do Ocidente pela ligação às raízes judaico-cristãs, faz com que se apresente uma enorme dificuldade em destacar entre o "eles" do "nós". Daí decorre que as acções de Israel ou do Estado de Israel são tipicamente analisadas segundo o critérios de avaliação feito para um país do Ocidente - por exemplo, os EUA - enquanto as dos demais países árabes (ou outros islâmicos) são vulgarmente vistos como pertencentes a outra "cultura" e portanto, à luz do multicultarismo niilista, possuidoras de uma infinidade de explicações de acordo com a sua especificidade social local. Não que exista muito raciocínio em todo este processo, é algo que acontece de forma automática.
Ironicamente, ao fazerem esta distinção natural, os que tanto labutam por se destacar de Israel, acabam por admitir necessariamente que fazem parte da sua matriz cultural.
Tanto na comunicação social como nos comentários políticos é-se muito mais rápido e desproporcional a condenar uma acção com objectivos militares do Estado israelita do que a fazê-lo quando se trata de um ataque terrorista com o objectivo puro e simples de matar civis israelitas. Para além do típico apoio pela "causa palestiniana" existe uma razão muito óbvia para que isto aconteça. Israel, como parte do Ocidente pela ligação às raízes judaico-cristãs, faz com que se apresente uma enorme dificuldade em destacar entre o "eles" do "nós". Daí decorre que as acções de Israel ou do Estado de Israel são tipicamente analisadas segundo o critérios de avaliação feito para um país do Ocidente - por exemplo, os EUA - enquanto as dos demais países árabes (ou outros islâmicos) são vulgarmente vistos como pertencentes a outra "cultura" e portanto, à luz do multicultarismo niilista, possuidoras de uma infinidade de explicações de acordo com a sua especificidade social local. Não que exista muito raciocínio em todo este processo, é algo que acontece de forma automática.
Ironicamente, ao fazerem esta distinção natural, os que tanto labutam por se destacar de Israel, acabam por admitir necessariamente que fazem parte da sua matriz cultural.
Wednesday, July 12, 2006
Tuesday, July 11, 2006
Gestão da economia
Oposição diz que estratégia do Governo falhou
Continua-se sem entender muito bem quais as verdadeiras intenções das pessoas que tanto criticam a saída da fábrica da Opel da Azambuja. Sabendo que estas, que tanto se indignam e sobressaltam com os anúncios na imprensa, são exactamente as primeiras a rejeitar de forma muito contundente que não devem existir mais incentivos fiscais e subsidiários, nem aceitam os conceitos de globalização, divisão do trabalho a nível internacional, multiplicidade de centros de decisão e liberdade económica, qual é propriamente a ideia que têm em mente? Repetidamente se ouve o ministro da economia e outros a dizer que a Opel assinou um contrato em como permaneceria em Portugal por um período de tempo (até 2008) em troca de benefícios estatais e, como tal, deve pagar a indemnização referente à sua quebra. Se é certo que a Opel assinou o dito contrato, é igualmente tão certo que a Opel não dispensa ter os seus advogados prontos a disputar a questão em tribunal ou a pagar de imediato o que foi estipulado de acordo com as condições de rescisão.
De que serve saber isto? O cerne do problema aqui é que a Opel não é suficientemente ingénua para pensar que não terá de indemnizar os trabalhadores e o Estado português ou que não terá gastos adicionais com os sucessivos problemas decorrentes das deliberações do sistema judicial. A questão central é que, mesmo avaliando todos estes potenciais gastos, a Opel determine que os custos de tal operação sejam provavelmente menores e justifiquem os benefícios industriais e comerciais obtidos com a deslocalização da fábrica da Azambuja... para Espanha. Se não o analisasse desta forma (caso a probabilidade de sucesso e o risco a este associado não fosse aceitável), os seus directores acabariam por se resignar à actual situação. Isto sim, é deveras relevante e preocupante.
Tal realidade deveria dar muito que pensar aos deputados dos mais diversos partidos representados na AR. No entanto, alguns parecem estar mais inclinados para a indignação automaticamente gratuita. Qual é o plano? Nacionalizar as instalações em nome dos direitos do povo?
---
Actualização: No Diario Económico: «A Delphi produz componentes para a Opel e tem cinco fábricas em portugal. Duas das unidades, que têm reduzido pessoal, vão ver os custos aumentar para colocarem a produção em saragoça em vez da Azambuja.»
O PCP apelou hoje ao Governo para que não se resigne com o anunciado encerramento da Opel na Azambuja no final do ano, sublinhando que o executivo «tudo deve fazer» para garantir a continuidade da fábrica da General Motors.---
Continua-se sem entender muito bem quais as verdadeiras intenções das pessoas que tanto criticam a saída da fábrica da Opel da Azambuja. Sabendo que estas, que tanto se indignam e sobressaltam com os anúncios na imprensa, são exactamente as primeiras a rejeitar de forma muito contundente que não devem existir mais incentivos fiscais e subsidiários, nem aceitam os conceitos de globalização, divisão do trabalho a nível internacional, multiplicidade de centros de decisão e liberdade económica, qual é propriamente a ideia que têm em mente? Repetidamente se ouve o ministro da economia e outros a dizer que a Opel assinou um contrato em como permaneceria em Portugal por um período de tempo (até 2008) em troca de benefícios estatais e, como tal, deve pagar a indemnização referente à sua quebra. Se é certo que a Opel assinou o dito contrato, é igualmente tão certo que a Opel não dispensa ter os seus advogados prontos a disputar a questão em tribunal ou a pagar de imediato o que foi estipulado de acordo com as condições de rescisão.
De que serve saber isto? O cerne do problema aqui é que a Opel não é suficientemente ingénua para pensar que não terá de indemnizar os trabalhadores e o Estado português ou que não terá gastos adicionais com os sucessivos problemas decorrentes das deliberações do sistema judicial. A questão central é que, mesmo avaliando todos estes potenciais gastos, a Opel determine que os custos de tal operação sejam provavelmente menores e justifiquem os benefícios industriais e comerciais obtidos com a deslocalização da fábrica da Azambuja... para Espanha. Se não o analisasse desta forma (caso a probabilidade de sucesso e o risco a este associado não fosse aceitável), os seus directores acabariam por se resignar à actual situação. Isto sim, é deveras relevante e preocupante.
Tal realidade deveria dar muito que pensar aos deputados dos mais diversos partidos representados na AR. No entanto, alguns parecem estar mais inclinados para a indignação automaticamente gratuita. Qual é o plano? Nacionalizar as instalações em nome dos direitos do povo?
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Actualização: No Diario Económico: «A Delphi produz componentes para a Opel e tem cinco fábricas em portugal. Duas das unidades, que têm reduzido pessoal, vão ver os custos aumentar para colocarem a produção em saragoça em vez da Azambuja.»
Sunday, July 09, 2006
Your eyes are very heavy now...

Vai sendo cada vez mais cansativo ouvir anúncios de investimentos privados feitos por José Sócrates (os anúncios, não os investimentos) com a inclusão de números astronómicos de cash flow a entrar na humilde caixa registadora portuguesa. Em todos estes anúncios é comum ouvir-se 3 palavras mágicas: "competitividade", "economia", "Portugal". Quando conjugadas perfazem a justificação para os compromissos publicitários - digo, novo investimento - e a conclusão de que a forma de actuar do governo está no caminho certo.
Quem estiver mais distraído até poderá pensar que é dos governos que nasce a iniciativa privada. Parece ser esse o objectivo do conteúdo das declarações.
---
Nota: Este comentário do Bruno Gonçalves sobre o Debate da Nação ajusta-se perfeitamente.
Friday, July 07, 2006
Wednesday, July 05, 2006
Os espanhóis não gostam de nós!
Mundial 2006: Embaixada lusa em Madrid recebe saudações
Nada de novo - já todos sabemos que de Espanha nem bom vento, nem bom casamento. Como se pode constatar, está tudo a roer-se para que a França ganhe. Ainda bem que os portugueses não são assim tão orgulhosos e arrogantes. Se fosse ao contrátrio, estariam certamente todos a torcer por Espanha. Francamente, estes espanhóis...
«Todos os serviços da Embaixada têm recebido inúmeras mensagens de espanhóis, que se tem dirigido à Embaixada para desejar boa sorte, para dar vivas a Portugal e para saber onde podem ver o jogo», disse à Agência Lusa a assessora de imprensa, Maria de Lurdes Vale.
«Recebemos telefonemas de pessoas que dizem que nas suas empresas estão todos por Portugal. Que desejam a vitória portuguesa e que mandam saudações aos portugueses», explicou.
Muitos dos telefonemas usam, agora por Portugal, a frase que foi tornada célebre no apoio à selecção espanhola: «A por ellos» (vamos a eles).
A delegação da Agência Lusa em Madrid tem recebido mensagens idênticas de jornalistas latino-americanos residentes em Espanha e de espanhóis, com saudações a Portugal e manifestações de esperança de que a selecção portuguesa vingue as equipas nacionais espanhola, brasileira e argentina, todas eliminadas até aos quartos-de-final.
Nada de novo - já todos sabemos que de Espanha nem bom vento, nem bom casamento. Como se pode constatar, está tudo a roer-se para que a França ganhe. Ainda bem que os portugueses não são assim tão orgulhosos e arrogantes. Se fosse ao contrátrio, estariam certamente todos a torcer por Espanha. Francamente, estes espanhóis...
Tuesday, July 04, 2006
Introdução à Lógica I
Muita gente tem estado a defender que o governo não deveria deixar a fábrica da General Motors sair de Portugal. Apesar de não especificarem exactamente que meios de persuasão deve utilizar o governo, já que, regra geral, esta gente também está contra as reduções/abolições de impostos, abdicação da protecção laboral e outras regulações, há algo que nunca fica seriamente respondido e permite que estas indignações bem-pensantes sobrevivam ao passar do tempo como arma política e continuem a ser usadas indefinidamente.
A pergunta incómoda é a seguinte: partindo-se do princípio de que o governo teria a legitimidade e o direito inquestionável para exigir que uma empresa se mantivesse operacional em Portugal após o seu investimento, independentemente do seu incentivo original, qual a percentagem de empresas estrangeiras, em comparação com a actual, que passaria a estar interessada em investir uma parcela do seu capital neste país? A mesma pergunta se aplica aos que defendem que o governo deve impedir que seja permitido movimentar grandes quantidades de capital para o estrangeiro.
Se é certo que a média nos exames nacionais de matemática costuma ser sempre abaixo de 9 numa escala de 20 valores, deveria existir ao menos a noção de que modificar uma variável numa equação literal e assumir que todas as restantes ficaram intactas não é, geralmente, boa ideia. Daí a concluir, com um bocadinho de raciocínio abstracto mas simples, em que sentido se vai movimentar a variável "capital estrangeiro investido" não deve ser muito difícil.
A pergunta incómoda é a seguinte: partindo-se do princípio de que o governo teria a legitimidade e o direito inquestionável para exigir que uma empresa se mantivesse operacional em Portugal após o seu investimento, independentemente do seu incentivo original, qual a percentagem de empresas estrangeiras, em comparação com a actual, que passaria a estar interessada em investir uma parcela do seu capital neste país? A mesma pergunta se aplica aos que defendem que o governo deve impedir que seja permitido movimentar grandes quantidades de capital para o estrangeiro.
Se é certo que a média nos exames nacionais de matemática costuma ser sempre abaixo de 9 numa escala de 20 valores, deveria existir ao menos a noção de que modificar uma variável numa equação literal e assumir que todas as restantes ficaram intactas não é, geralmente, boa ideia. Daí a concluir, com um bocadinho de raciocínio abstracto mas simples, em que sentido se vai movimentar a variável "capital estrangeiro investido" não deve ser muito difícil.
Sunday, July 02, 2006
Fair play é só para os outros
É muito engraçado que alguma imprensa inglesa e muitos comentadores apoiantes da respectiva selecção continuem com a sua evasão dos acontecimentos que ocorreram durante a partida com Portugal. Não que os ingleses tenham particularmente fama de serem gente fina (excepto o mito de que todos são muito educados e uns verdadeiros gentlemen) mas em especial pelo facto de, durante a semana passada, terem exercido pressão psicológica sobre a selecção portuguesa e os portugueses por supostamente serem "arruaceiros".
Claro que colunistas menos sensacionalistas e mais racionais lá admitem que Rooney foi infantil ou mesmo idiota por ter colocado Inglaterra a jogar com 10 e ter influenciado negativamente o decurso do restante jogo, tendo até algumas reticências em vê-lo jogar em breve, mas é curioso ver que, depois de tanta gente ter acusado os portugueses de ser violentos, estejam a tentar desculpar uma pisadela - ao que tudo parece segundo as imagens, completamente intencional - de Wayne Rooney que poderia ter afectado seriamente a saúde de Ricardo Carvalho. Este fenómeno "inexplicável" inclui companheiros de equipa que, incrivelmente, culpam Cristiano Rolando pelo sucedido.
De início, ninguém deveria recriminar os jornalistas que saíram com acusações à selecção portuguesa, depois do despique com a Holanda, em que o árbitro teve um ataque de insanidade e o próprio Joseph Blatter criticou a arbitragem infeliz. Também, de forma curiosa, foi neste mesmo jogo que Cristiano Ronaldo saiu lesionado após uma entrada absolutamente descabida (apesar de os violentos serem os portugueses e não os holandeses, claro), o que até mostrou gerar algum agrado implícito por parte da imprensa desportiva britânica.
Inglaterra é um daqueles países de futebol muito jogado com o físico em que os árbitros mostram ser bastante complacentes com faltas que seriam consideras agressões noutras ligas, razão pela qual algumas equipas europeias receiam encontrar árbitros ingleses em competições internacionais. Se se entrar nesta guerra sem sentido, também se poderiam referir todos os distúrbios tradicionais que causa a perigosa mistura bioquímica entre a cerveja e os adeptos ingleses em qualquer parte do mundo para onde se dirijam. Na Alemanha, por exemplo, quase todos os dias lemos sobre como houve mais uma rixa que envolvia claques de apoio inglesas. Qual a relevância disto? Absolutamente nenhuma. O facto de querer desculpar uma suposta e provavelmente verdadeira falta de fair play da selecção portuguesa, durante o jogo com a Holanda, com base nas acções de quem se pronuncia é irrelevante porque, sendo apontado ou não por alguém que age de forma semelhante, não deixa de ser um facto verídico e constatável. Todavia, criticar um suposto comportamento alheio para depois o tentar desculpar quando a situação já é pessoal torna-se moralmente questionável e preocupante.
O mais intrigante e relevador sobre o conceito de jogo limpo de alguns ingleses é que, sempre dispostos a ser diplomáticos e politicamente correctos, queiram primeiro convencer o mundo de que os portugueses são uma espécie de agressores e violadores das regras básicas (do futebol e não só) para depois vitimizar Rooney quando este agride Ricardo Carvalho. Como dizia o jornal madrileno As ontem (em tom de brincadeira mas, infelizmente, realista): «el colegiado argentino Elizondo interpretó que Rooney quiso hacer intencionadamente una tortilla con sus tacos y las partes íntimas de Carvalho.»
Talvez um bocadinho de humildade e menos dualidade de critérios lhes ficasse bem. Que festejem pacificamente a desejada saída de Eriksson e parem de bater em alemães. Os fãs do futebol de alta competição agradecem.
---
Notas:
1. N'O Insurgente, ver o vídeo com quem penso ser Alan Shearer a dizer que os ingleses (que são todos santos, a começar por Rooney...) não fazem coisas assim, referindo-se à reacção dos jogadores portugueses depois da tentativa de transformar os países baixos de R. Carvalho em ketchup.
2. Ver também no Blasfémias os dois artigos do CAA sobre (1) as teorias da conspiração britânicas quanto à piscadela de olho de Cristiano Ronaldo - como se o contentamento dos jogadores portugueses justificasse a não atribuição de cartão vermelho a Rooney - e (2) a ideia de que jogar no Manchester United depois de ter prejudicado a equipa inglesa não seja muito natural. Talvez, como diz o CAA, a imprensa inglesa esperasse que C. Ronaldo fosse mais um lion.
3. De admirar a súbita defesa de Rooney quando é conhecido pelo seu carácter tempestuoso em casa. Um comentário mais sóbrio de Rob Smyth no Guardian acompanhado de comentários de leitores menos sóbrios.
Claro que colunistas menos sensacionalistas e mais racionais lá admitem que Rooney foi infantil ou mesmo idiota por ter colocado Inglaterra a jogar com 10 e ter influenciado negativamente o decurso do restante jogo, tendo até algumas reticências em vê-lo jogar em breve, mas é curioso ver que, depois de tanta gente ter acusado os portugueses de ser violentos, estejam a tentar desculpar uma pisadela - ao que tudo parece segundo as imagens, completamente intencional - de Wayne Rooney que poderia ter afectado seriamente a saúde de Ricardo Carvalho. Este fenómeno "inexplicável" inclui companheiros de equipa que, incrivelmente, culpam Cristiano Rolando pelo sucedido.
De início, ninguém deveria recriminar os jornalistas que saíram com acusações à selecção portuguesa, depois do despique com a Holanda, em que o árbitro teve um ataque de insanidade e o próprio Joseph Blatter criticou a arbitragem infeliz. Também, de forma curiosa, foi neste mesmo jogo que Cristiano Ronaldo saiu lesionado após uma entrada absolutamente descabida (apesar de os violentos serem os portugueses e não os holandeses, claro), o que até mostrou gerar algum agrado implícito por parte da imprensa desportiva britânica.
Inglaterra é um daqueles países de futebol muito jogado com o físico em que os árbitros mostram ser bastante complacentes com faltas que seriam consideras agressões noutras ligas, razão pela qual algumas equipas europeias receiam encontrar árbitros ingleses em competições internacionais. Se se entrar nesta guerra sem sentido, também se poderiam referir todos os distúrbios tradicionais que causa a perigosa mistura bioquímica entre a cerveja e os adeptos ingleses em qualquer parte do mundo para onde se dirijam. Na Alemanha, por exemplo, quase todos os dias lemos sobre como houve mais uma rixa que envolvia claques de apoio inglesas. Qual a relevância disto? Absolutamente nenhuma. O facto de querer desculpar uma suposta e provavelmente verdadeira falta de fair play da selecção portuguesa, durante o jogo com a Holanda, com base nas acções de quem se pronuncia é irrelevante porque, sendo apontado ou não por alguém que age de forma semelhante, não deixa de ser um facto verídico e constatável. Todavia, criticar um suposto comportamento alheio para depois o tentar desculpar quando a situação já é pessoal torna-se moralmente questionável e preocupante.
O mais intrigante e relevador sobre o conceito de jogo limpo de alguns ingleses é que, sempre dispostos a ser diplomáticos e politicamente correctos, queiram primeiro convencer o mundo de que os portugueses são uma espécie de agressores e violadores das regras básicas (do futebol e não só) para depois vitimizar Rooney quando este agride Ricardo Carvalho. Como dizia o jornal madrileno As ontem (em tom de brincadeira mas, infelizmente, realista): «el colegiado argentino Elizondo interpretó que Rooney quiso hacer intencionadamente una tortilla con sus tacos y las partes íntimas de Carvalho.»
Talvez um bocadinho de humildade e menos dualidade de critérios lhes ficasse bem. Que festejem pacificamente a desejada saída de Eriksson e parem de bater em alemães. Os fãs do futebol de alta competição agradecem.
---
Notas:
1. N'O Insurgente, ver o vídeo com quem penso ser Alan Shearer a dizer que os ingleses (que são todos santos, a começar por Rooney...) não fazem coisas assim, referindo-se à reacção dos jogadores portugueses depois da tentativa de transformar os países baixos de R. Carvalho em ketchup.
2. Ver também no Blasfémias os dois artigos do CAA sobre (1) as teorias da conspiração britânicas quanto à piscadela de olho de Cristiano Ronaldo - como se o contentamento dos jogadores portugueses justificasse a não atribuição de cartão vermelho a Rooney - e (2) a ideia de que jogar no Manchester United depois de ter prejudicado a equipa inglesa não seja muito natural. Talvez, como diz o CAA, a imprensa inglesa esperasse que C. Ronaldo fosse mais um lion.
3. De admirar a súbita defesa de Rooney quando é conhecido pelo seu carácter tempestuoso em casa. Um comentário mais sóbrio de Rob Smyth no Guardian acompanhado de comentários de leitores menos sóbrios.
Thursday, June 29, 2006
Ficamos mais descansados!
Das FAQs do novo projecto ViaCTT:
O Eng. Sócrates é um egoísta de todo o tamanho. Descobriu uma árvore das patacas e não disse nada a ninguém.
«A ViaCTT é universal
Para todos: empresas, particulares, organismos públicos.
(...)
A ViaCTT é gratuita
Para aderir e utilizar não tem qualquer custo.»
O Eng. Sócrates é um egoísta de todo o tamanho. Descobriu uma árvore das patacas e não disse nada a ninguém.
Monday, June 26, 2006
(Os meus) comentários finais
... ou como andar à volta da mesma rotunda, repetidamente, sem sair dela.
A maioria das coisas que têm estado aqui a ser discutidas ficaram esclarecidas (ou implicitamente mencionadas) desde a primeira entrada sobre o anarco-comunismo. No entanto, continua-se a andar às voltas com as mesmas premissas, relativizanda-os quando necessário para adaptá-las à forma como se vai respondendo por aqui (como o caso da coação, que é relativamente simples e óbvio). Não é uma crítica ao método, é uma crítica à ideologia. Esta acaba ela mesma por ter estes efeitos já que está completamente destacada do realismo e do empirismo e foi, inevitavelmente, a causa de tantas desgraças ao longo do Século XX, convencendo milhares de pessoas por via das suas argumentações circulares e sofistas.
De entre muitos iludidos que lutavam por regimes comunistas encontravam-se, precisamente, "anarquistas" que, convencidos por uma retórica de pés de barro e que estaria sociologicamente apta a extraterrestres lobotomizados, permitiu que os maiores monstros genocidas conseguissem alcançar o poder para cometer dos maiores crimes de que a humanidade tem conhecimento (evidência histórica). Ainda assim, há quem julgue que coisas como estas seriam possíveis de aplicar sem que se desse uma guerra no final da qual, caso estes vencessem, as coisas até funcionariam fluentemente.
Dito isto, alguns pontos que desejava esclarecer, caso ainda não tenham ficado suficientemente explícitos, para finalizar a minha participação em algo que penso ser já inútil por ter sido clarificado praticamente todo o essencial do que pretendia em relação às reclamações iniciais e complementares do Miguel Madeira:
A maioria das coisas que têm estado aqui a ser discutidas ficaram esclarecidas (ou implicitamente mencionadas) desde a primeira entrada sobre o anarco-comunismo. No entanto, continua-se a andar às voltas com as mesmas premissas, relativizanda-os quando necessário para adaptá-las à forma como se vai respondendo por aqui (como o caso da coação, que é relativamente simples e óbvio). Não é uma crítica ao método, é uma crítica à ideologia. Esta acaba ela mesma por ter estes efeitos já que está completamente destacada do realismo e do empirismo e foi, inevitavelmente, a causa de tantas desgraças ao longo do Século XX, convencendo milhares de pessoas por via das suas argumentações circulares e sofistas.
De entre muitos iludidos que lutavam por regimes comunistas encontravam-se, precisamente, "anarquistas" que, convencidos por uma retórica de pés de barro e que estaria sociologicamente apta a extraterrestres lobotomizados, permitiu que os maiores monstros genocidas conseguissem alcançar o poder para cometer dos maiores crimes de que a humanidade tem conhecimento (evidência histórica). Ainda assim, há quem julgue que coisas como estas seriam possíveis de aplicar sem que se desse uma guerra no final da qual, caso estes vencessem, as coisas até funcionariam fluentemente.
Dito isto, alguns pontos que desejava esclarecer, caso ainda não tenham ficado suficientemente explícitos, para finalizar a minha participação em algo que penso ser já inútil por ter sido clarificado praticamente todo o essencial do que pretendia em relação às reclamações iniciais e complementares do Miguel Madeira:
1. As teorias anarco-socialistas andam às voltas para explicar que a propriedade é comunitária mas pode ser gerida individualmente. É importante referir que mesmo que isto fosse verdade, haveria uma entidade em representação da comunidade que estaria responsável por fazer a distribuição da propriedade. Isto é uma forma de governo. Não é uma anarquia. Sugerir que tudo pode ser resolvido em assembleia geral, para além de muito criativamente fértil e romântico, constitui uma forma de democracia e não uma anarquia.
2. A ideia de um mercado livre não-capitalista é ridícula. Não existindo a possibilidade de possuir meios de produção ou estabelecer voluntariamente relações laborais, não se pode dizer que o mercado seja "livre". Ao contrário do que diz o Miguel (exemplo das laranjas), é muito importante saber qual é a linha que distingue os meios de produção dos meios de consumo. Como esta ideia é vaga, abstracta e de âmbito limitado devido à imaginação humana, quase tudo pode ser considerado um meio de produção. Dizer que existe propriedade num regime assim é uma farsa. Em última instância, é o governo (os mais confusos poderão ler "comunidade") quem decide o que deve ser considerado propriedade. Não deverá ser necessário comentar o que acontece historicamente quando ideias assim proliferam ou a razão pela qual as revoluções são sempre "desvirtuadas".
4. Voltamos a relativizar, desta vez, não a propriedade, mas o que é um governo. Por qualquer razão enigmática o Miguel acha que qualquer pessoa que monte um negócio "governa" os empregados. Mas não façamos jogos de palavras. Governo é uma coisa - a tentativa infrutífera de gestão da sociedade e da economia a troco das liberdade pessoais - e as empresas são outra. De acordo com esse prisma, também poderíamos criticar o liberalismo por dizer que as pessoas se devem governar a si próprias. Afinal, também parece ser uma forma de "governo".
5. Constantemente fiz aqui a referência a que numa sociedade anarquista tanto seria possível estabelecer empresas como cooperativas. O Miguel Madeira reconhece que, realmente, numa "sociedade anarquista" não seriam possíveis tais coisas. Quando se lhe pergunta como é pode isto acontecer numa anarquia (e se coloca a ideia de que é necessária uma forma de autoritarismo para manter um regime antagónico às expectativas), ele refere que seria a vontade das pessoas. Pena que não tenha nada a ver com a vontade das pessoas. -- ver ponto 8 [Outros conceitos importantes para se compreender "vontade das pessoas": "revolução bem sucedida", "mudança de mentalidades", "socialismo bem aplicado", etc.]
6. Dizer igualmente que numa expropriação não existe necessariamente violência porque o proprietário pode não estar presente é o mesmo que dizer que numa sociedade de propriedade comunitária não existe necessariamente violência se um grupo de indivíduos decidir sair da jurisdição da comissão. Cada acto acarreta uma consequência. Em ninguém dos casos as coisas ficariam por aqui.
7. O Miguel diz que há "soluções propostas" para os casos de distribuição da propriedade mas acontece que numa sociedade anarquista não há "soluções" desse género, há processos descentralizados. As pessoas agem por si mesmas. Estar a querer inventar soluções para a distribuição de terrenos é o mesmo que ter uma agencia central (novamente, leiam os mais confusos qualquer palavra mais eufemística) a decidir quem tem direitos a explorar que terreno. Ao passo que num regime de propriedade privada há um reconhecimento mútuo feito pelas pessoas, nessa situação, essa agencia não tem legitimidade para fazer tal coisa a menos que seja reconhecida pelos envolvidos (o que é praticamente impossível).
8. Quando disse, e digo, que as pessoas defendem naturalmente a propriedade privada não me refiro em termos políticos. O exemplo prático na política é sempre muito bonito de argumentar porque parece mostrar que as pessoas gostam de propriedade, mas bem regulada ou limitada, quando na realidade esta projecção idealizada se aplica quase exclusivamente sempre à propriedade alheia. Acontece que as pessoas tentam aumentar ao máximo o proveito que obtêm de um dado sistema mesmo que nele não acreditem (ou mesmo que acreditam que saem individualmente beneficiadas).
9. O Miguel acha que o resultado final da "anarquia" é semelhante ao da democracia (aliás, o agitador até diz que os anarquistas são a favor da democracia directa). Todavia, quando digo que o anarco-socialismo gera por si mesmo um Estado (chamem-lhe democracia, ditadura da maioria, oligarquia, feudalismo, o que quiserem...), dizem que eu estou errado. Intrigante. Se anarquia é a falta de governo, o anarco-socialismo não pode ser uma anarquia por colocar a maioria a literalmente governar as minorias (indivíduos). Só para imaginar que a maioria das pessoas aceitaria sequer esse sistema ou este não se tornaria/seria um regime totalitário (por definição anti-anarquista) é absolutamente utópico e irrealista por, entre várias coisas, não considerar que o que este sistema faz é, em vez de ceder a liberdade aos indivíduos, cedê-la à vontade da maioria e permitir que esta tome as decisões que veja como "necessárias"-- ver também pontos 1 e 8.
10. Quanto a estas afirmações, aconselho o Miguel a ler o parágrafo seguinte à frase de onde esta foi citada. As respostas às perguntas são a) sim e b) não. Quanto a b), reconheço que é possível (já o é na actualidade) mas a pergunta é feita com o advérbio "substancialmente", o que muda tudo. Precisamente por não ser substancialmente, estamos a discutir uma forma de pseudo-anarquismo, uma mera desculpa para, na prática, instalar um regime totalitário. De igual modo, se o objectivo da menção ao trabalho de Peter Leeson «era refutar a necessidade de um Estado para impedir o aparecimento de propriedade privada (ou seja, provar que, mesmo sem Estado, pode haver sociedades em que os principais recursos sejam propriedade comunitária)», não sei porque foi dito na altura que «parece (...) implicito que há "sociedades sem estado" que "não reconhecem propriedade privada além dos bens de consumo imediatos", o que (...) corta pela raiz a tese que o anarco-socialismo é "impossivel" e "absurdo"» uma vez que nunca disse aqui que não poderiam existir bens geridos de forma voluntária colectivamente (comunidades, cooperativas, etc.). Agora, o anarco-socialismo não defende a existência de cooperativas mas sim um modelo social de propriedade colectiva. São duas coisas bem distintas - uma tem lógica, a outra é teoricamente absurda e experimentalmente desastrosa. E é isso que se tem estado a explicar constantemente por aqui.
11. É cansativo referir o mesmo mas repito: sim, numa sociedade livre os indivíduos podem fazer valer os seus direitos quando bem entenderem. Não reparei se o Miguel não terá percebido a falha lógica do exemplo de Kirzner a propósito disto. Se Kirzner diz que apenas o primeiro tem direito ao lago, utilizar essa ideia para mostrar que os outros não têm direito a beber dele é uma conclusão completamente irrelevante já que está implícita na primeira afirmação. Segundo o mesmo sistema, eles não teriam direito a beber nada. Realmente, é circular mas não vejo que tenha nada a ver com o anarco-capitalismo. Esse exemplo de refutação é que não tem utilidade nenhuma porque:
1. Define quem tem o direito.
2. É usado para mostrar que os que estão excluídos do direito estão... excluídos do direito.
3. Logo, não serve para mostrar que não podem fazer valer os seus direitos porque, neste mesmo sistema definido por 1, nunca os tiveram.
Tanto os exemplos dados (de coisas completamente descabidas) como reclamar propriedade sobre um deserto ou sobre praias consideradas públicas dão-me a ideia de que o Miguel Madeira ou está muito confuso sobre o que é a propriedade privada ou simplesmente se lembra de uns exemplos bons e propagandísticos para confundir os seus leitores. É que esse tipo de exemplos serve para eu dizer que num regime capitalista é possível reclamar que Marte me pertence, o que, como é óbvio, é absolutamente ridículo e sem sentido.
12. Não sei onde é que o Miguel conclui que a propriedade natural é proudhoniana em vez de capitalista. Retirar exemplos de animais, crianças (ou mesma a situação extrema de um naufrágio -- ler esta entrada que se aplica) para extrapolar posteriormente que assim é entre humanos adultos é um raciocínio indutivo, não dedutivo. Como tal, não é válido em termos lógicos e de valor falso, a menos que seja confirmado na realidade - o que não acontece. A propriedade proudhoniana refere um direito de ocupação proveniente do "uso regular", mas este uso regular está por definição dependente de um intervalo de tempo a ele associado que ninguém tem a legitimidade de definir arbitrariamente contra a vontade dos indivíduos que ocupam os locais em questão. Se o indivíduo X abandonar a sua casa para ir trabalhar, poderá ver a sua habitação ocupada por alguém que julge que um intervalo de algumas horas deixa de ser "uso regular". O mesmo pode suceder se a pessoa passar várias semanas de férias e assim por diante. [Atenção: não estou a falar dos okupas que habitam locais abandonados.]
Nota adicional: O Miguel está constantemente a referir que eu não uso argumentos sobre a eficácia/eficiência ou apetibilidade do sistema para avaliar negativamente as formas de anarco-socialismo. Como não estou, por princípio, interessado em maximizar o "bem-estar" do colectivo (impossível de definir) em detrimento do bem-estar individual de cada elemento do colectivo, não vejo qual a relevância do assunto. Quanto muito, bastam os exemplos históricos do que as formas de socialismo clássico fizeram. E sim, já sabemos que não são os "trabalhadores associados" e outras definições típicas nunca atingidas, etc. Mas é interessante e revelador saber que muitos dos que lutavam por estas definições não tiveram propriamente escrúpulos de lutar lado a lado com outros providos de definições mais realistas e menos ingénuas.
2. A ideia de um mercado livre não-capitalista é ridícula. Não existindo a possibilidade de possuir meios de produção ou estabelecer voluntariamente relações laborais, não se pode dizer que o mercado seja "livre". Ao contrário do que diz o Miguel (exemplo das laranjas), é muito importante saber qual é a linha que distingue os meios de produção dos meios de consumo. Como esta ideia é vaga, abstracta e de âmbito limitado devido à imaginação humana, quase tudo pode ser considerado um meio de produção. Dizer que existe propriedade num regime assim é uma farsa. Em última instância, é o governo (os mais confusos poderão ler "comunidade") quem decide o que deve ser considerado propriedade. Não deverá ser necessário comentar o que acontece historicamente quando ideias assim proliferam ou a razão pela qual as revoluções são sempre "desvirtuadas".
4. Voltamos a relativizar, desta vez, não a propriedade, mas o que é um governo. Por qualquer razão enigmática o Miguel acha que qualquer pessoa que monte um negócio "governa" os empregados. Mas não façamos jogos de palavras. Governo é uma coisa - a tentativa infrutífera de gestão da sociedade e da economia a troco das liberdade pessoais - e as empresas são outra. De acordo com esse prisma, também poderíamos criticar o liberalismo por dizer que as pessoas se devem governar a si próprias. Afinal, também parece ser uma forma de "governo".
5. Constantemente fiz aqui a referência a que numa sociedade anarquista tanto seria possível estabelecer empresas como cooperativas. O Miguel Madeira reconhece que, realmente, numa "sociedade anarquista" não seriam possíveis tais coisas. Quando se lhe pergunta como é pode isto acontecer numa anarquia (e se coloca a ideia de que é necessária uma forma de autoritarismo para manter um regime antagónico às expectativas), ele refere que seria a vontade das pessoas. Pena que não tenha nada a ver com a vontade das pessoas. -- ver ponto 8 [Outros conceitos importantes para se compreender "vontade das pessoas": "revolução bem sucedida", "mudança de mentalidades", "socialismo bem aplicado", etc.]
6. Dizer igualmente que numa expropriação não existe necessariamente violência porque o proprietário pode não estar presente é o mesmo que dizer que numa sociedade de propriedade comunitária não existe necessariamente violência se um grupo de indivíduos decidir sair da jurisdição da comissão. Cada acto acarreta uma consequência. Em ninguém dos casos as coisas ficariam por aqui.
7. O Miguel diz que há "soluções propostas" para os casos de distribuição da propriedade mas acontece que numa sociedade anarquista não há "soluções" desse género, há processos descentralizados. As pessoas agem por si mesmas. Estar a querer inventar soluções para a distribuição de terrenos é o mesmo que ter uma agencia central (novamente, leiam os mais confusos qualquer palavra mais eufemística) a decidir quem tem direitos a explorar que terreno. Ao passo que num regime de propriedade privada há um reconhecimento mútuo feito pelas pessoas, nessa situação, essa agencia não tem legitimidade para fazer tal coisa a menos que seja reconhecida pelos envolvidos (o que é praticamente impossível).
8. Quando disse, e digo, que as pessoas defendem naturalmente a propriedade privada não me refiro em termos políticos. O exemplo prático na política é sempre muito bonito de argumentar porque parece mostrar que as pessoas gostam de propriedade, mas bem regulada ou limitada, quando na realidade esta projecção idealizada se aplica quase exclusivamente sempre à propriedade alheia. Acontece que as pessoas tentam aumentar ao máximo o proveito que obtêm de um dado sistema mesmo que nele não acreditem (ou mesmo que acreditam que saem individualmente beneficiadas).
9. O Miguel acha que o resultado final da "anarquia" é semelhante ao da democracia (aliás, o agitador até diz que os anarquistas são a favor da democracia directa). Todavia, quando digo que o anarco-socialismo gera por si mesmo um Estado (chamem-lhe democracia, ditadura da maioria, oligarquia, feudalismo, o que quiserem...), dizem que eu estou errado. Intrigante. Se anarquia é a falta de governo, o anarco-socialismo não pode ser uma anarquia por colocar a maioria a literalmente governar as minorias (indivíduos). Só para imaginar que a maioria das pessoas aceitaria sequer esse sistema ou este não se tornaria/seria um regime totalitário (por definição anti-anarquista) é absolutamente utópico e irrealista por, entre várias coisas, não considerar que o que este sistema faz é, em vez de ceder a liberdade aos indivíduos, cedê-la à vontade da maioria e permitir que esta tome as decisões que veja como "necessárias"-- ver também pontos 1 e 8.
10. Quanto a estas afirmações, aconselho o Miguel a ler o parágrafo seguinte à frase de onde esta foi citada. As respostas às perguntas são a) sim e b) não. Quanto a b), reconheço que é possível (já o é na actualidade) mas a pergunta é feita com o advérbio "substancialmente", o que muda tudo. Precisamente por não ser substancialmente, estamos a discutir uma forma de pseudo-anarquismo, uma mera desculpa para, na prática, instalar um regime totalitário. De igual modo, se o objectivo da menção ao trabalho de Peter Leeson «era refutar a necessidade de um Estado para impedir o aparecimento de propriedade privada (ou seja, provar que, mesmo sem Estado, pode haver sociedades em que os principais recursos sejam propriedade comunitária)», não sei porque foi dito na altura que «parece (...) implicito que há "sociedades sem estado" que "não reconhecem propriedade privada além dos bens de consumo imediatos", o que (...) corta pela raiz a tese que o anarco-socialismo é "impossivel" e "absurdo"» uma vez que nunca disse aqui que não poderiam existir bens geridos de forma voluntária colectivamente (comunidades, cooperativas, etc.). Agora, o anarco-socialismo não defende a existência de cooperativas mas sim um modelo social de propriedade colectiva. São duas coisas bem distintas - uma tem lógica, a outra é teoricamente absurda e experimentalmente desastrosa. E é isso que se tem estado a explicar constantemente por aqui.
11. É cansativo referir o mesmo mas repito: sim, numa sociedade livre os indivíduos podem fazer valer os seus direitos quando bem entenderem. Não reparei se o Miguel não terá percebido a falha lógica do exemplo de Kirzner a propósito disto. Se Kirzner diz que apenas o primeiro tem direito ao lago, utilizar essa ideia para mostrar que os outros não têm direito a beber dele é uma conclusão completamente irrelevante já que está implícita na primeira afirmação. Segundo o mesmo sistema, eles não teriam direito a beber nada. Realmente, é circular mas não vejo que tenha nada a ver com o anarco-capitalismo. Esse exemplo de refutação é que não tem utilidade nenhuma porque:
1. Define quem tem o direito.
2. É usado para mostrar que os que estão excluídos do direito estão... excluídos do direito.
3. Logo, não serve para mostrar que não podem fazer valer os seus direitos porque, neste mesmo sistema definido por 1, nunca os tiveram.
Tanto os exemplos dados (de coisas completamente descabidas) como reclamar propriedade sobre um deserto ou sobre praias consideradas públicas dão-me a ideia de que o Miguel Madeira ou está muito confuso sobre o que é a propriedade privada ou simplesmente se lembra de uns exemplos bons e propagandísticos para confundir os seus leitores. É que esse tipo de exemplos serve para eu dizer que num regime capitalista é possível reclamar que Marte me pertence, o que, como é óbvio, é absolutamente ridículo e sem sentido.
12. Não sei onde é que o Miguel conclui que a propriedade natural é proudhoniana em vez de capitalista. Retirar exemplos de animais, crianças (ou mesma a situação extrema de um naufrágio -- ler esta entrada que se aplica) para extrapolar posteriormente que assim é entre humanos adultos é um raciocínio indutivo, não dedutivo. Como tal, não é válido em termos lógicos e de valor falso, a menos que seja confirmado na realidade - o que não acontece. A propriedade proudhoniana refere um direito de ocupação proveniente do "uso regular", mas este uso regular está por definição dependente de um intervalo de tempo a ele associado que ninguém tem a legitimidade de definir arbitrariamente contra a vontade dos indivíduos que ocupam os locais em questão. Se o indivíduo X abandonar a sua casa para ir trabalhar, poderá ver a sua habitação ocupada por alguém que julge que um intervalo de algumas horas deixa de ser "uso regular". O mesmo pode suceder se a pessoa passar várias semanas de férias e assim por diante. [Atenção: não estou a falar dos okupas que habitam locais abandonados.]
Nota adicional: O Miguel está constantemente a referir que eu não uso argumentos sobre a eficácia/eficiência ou apetibilidade do sistema para avaliar negativamente as formas de anarco-socialismo. Como não estou, por princípio, interessado em maximizar o "bem-estar" do colectivo (impossível de definir) em detrimento do bem-estar individual de cada elemento do colectivo, não vejo qual a relevância do assunto. Quanto muito, bastam os exemplos históricos do que as formas de socialismo clássico fizeram. E sim, já sabemos que não são os "trabalhadores associados" e outras definições típicas nunca atingidas, etc. Mas é interessante e revelador saber que muitos dos que lutavam por estas definições não tiveram propriamente escrúpulos de lutar lado a lado com outros providos de definições mais realistas e menos ingénuas.
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