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Sunday, July 09, 2006

Your eyes are very heavy now...




Vai sendo cada vez mais cansativo ouvir anúncios de investimentos privados feitos por José Sócrates (os anúncios, não os investimentos) com a inclusão de números astronómicos de cash flow a entrar na humilde caixa registadora portuguesa. Em todos estes anúncios é comum ouvir-se 3 palavras mágicas: "competitividade", "economia", "Portugal". Quando conjugadas perfazem a justificação para os compromissos publicitários - digo, novo investimento - e a conclusão de que a forma de actuar do governo está no caminho certo.

Quem estiver mais distraído até poderá pensar que é dos governos que nasce a iniciativa privada. Parece ser esse o objectivo do conteúdo das declarações.

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Nota: Este comentário do Bruno Gonçalves sobre o Debate da Nação ajusta-se perfeitamente.

Wednesday, July 05, 2006

Os espanhóis não gostam de nós!

Mundial 2006: Embaixada lusa em Madrid recebe saudações

«Todos os serviços da Embaixada têm recebido inúmeras mensagens de espanhóis, que se tem dirigido à Embaixada para desejar boa sorte, para dar vivas a Portugal e para saber onde podem ver o jogo», disse à Agência Lusa a assessora de imprensa, Maria de Lurdes Vale.

«Recebemos telefonemas de pessoas que dizem que nas suas empresas estão todos por Portugal. Que desejam a vitória portuguesa e que mandam saudações aos portugueses», explicou.

Muitos dos telefonemas usam, agora por Portugal, a frase que foi tornada célebre no apoio à selecção espanhola: «A por ellos» (vamos a eles).

A delegação da Agência Lusa em Madrid tem recebido mensagens idênticas de jornalistas latino-americanos residentes em Espanha e de espanhóis, com saudações a Portugal e manifestações de esperança de que a selecção portuguesa vingue as equipas nacionais espanhola, brasileira e argentina, todas eliminadas até aos quartos-de-final.

Nada de novo - já todos sabemos que de Espanha nem bom vento, nem bom casamento. Como se pode constatar, está tudo a roer-se para que a França ganhe. Ainda bem que os portugueses não são assim tão orgulhosos e arrogantes. Se fosse ao contrátrio, estariam certamente todos a torcer por Espanha. Francamente, estes espanhóis...

Tuesday, July 04, 2006

Introdução à Lógica I

Muita gente tem estado a defender que o governo não deveria deixar a fábrica da General Motors sair de Portugal. Apesar de não especificarem exactamente que meios de persuasão deve utilizar o governo, já que, regra geral, esta gente também está contra as reduções/abolições de impostos, abdicação da protecção laboral e outras regulações, há algo que nunca fica seriamente respondido e permite que estas indignações bem-pensantes sobrevivam ao passar do tempo como arma política e continuem a ser usadas indefinidamente.

A pergunta incómoda é a seguinte: partindo-se do princípio de que o governo teria a legitimidade e o direito inquestionável para exigir que uma empresa se mantivesse operacional em Portugal após o seu investimento, independentemente do seu incentivo original, qual a percentagem de empresas estrangeiras, em comparação com a actual, que passaria a estar interessada em investir uma parcela do seu capital neste país? A mesma pergunta se aplica aos que defendem que o governo deve impedir que seja permitido movimentar grandes quantidades de capital para o estrangeiro.

Se é certo que a média nos exames nacionais de matemática costuma ser sempre abaixo de 9 numa escala de 20 valores, deveria existir ao menos a noção de que modificar uma variável numa equação literal e assumir que todas as restantes ficaram intactas não é, geralmente, boa ideia. Daí a concluir, com um bocadinho de raciocínio abstracto mas simples, em que sentido se vai movimentar a variável "capital estrangeiro investido" não deve ser muito difícil.

A Arte da Fuga de parabéns



2 anos de excelentes fugas sem, no entanto, fugir ao que realmente importa.

Sunday, July 02, 2006

Fair play é só para os outros

É muito engraçado que alguma imprensa inglesa e muitos comentadores apoiantes da respectiva selecção continuem com a sua evasão dos acontecimentos que ocorreram durante a partida com Portugal. Não que os ingleses tenham particularmente fama de serem gente fina (excepto o mito de que todos são muito educados e uns verdadeiros gentlemen) mas em especial pelo facto de, durante a semana passada, terem exercido pressão psicológica sobre a selecção portuguesa e os portugueses por supostamente serem "arruaceiros".

Claro que colunistas menos sensacionalistas e mais racionais lá admitem que Rooney foi infantil ou mesmo idiota por ter colocado Inglaterra a jogar com 10 e ter influenciado negativamente o decurso do restante jogo, tendo até algumas reticências em vê-lo jogar em breve, mas é curioso ver que, depois de tanta gente ter acusado os portugueses de ser violentos, estejam a tentar desculpar uma pisadela - ao que tudo parece segundo as imagens, completamente intencional - de Wayne Rooney que poderia ter afectado seriamente a saúde de Ricardo Carvalho. Este fenómeno "inexplicável" inclui companheiros de equipa que, incrivelmente, culpam Cristiano Rolando pelo sucedido.

De início, ninguém deveria recriminar os jornalistas que saíram com acusações à selecção portuguesa, depois do despique com a Holanda, em que o árbitro teve um ataque de insanidade e o próprio Joseph Blatter criticou a arbitragem infeliz. Também, de forma curiosa, foi neste mesmo jogo que Cristiano Ronaldo saiu lesionado após uma entrada absolutamente descabida (apesar de os violentos serem os portugueses e não os holandeses, claro), o que até mostrou gerar algum agrado implícito por parte da imprensa desportiva britânica.

Inglaterra é um daqueles países de futebol muito jogado com o físico em que os árbitros mostram ser bastante complacentes com faltas que seriam consideras agressões noutras ligas, razão pela qual algumas equipas europeias receiam encontrar árbitros ingleses em competições internacionais. Se se entrar nesta guerra sem sentido, também se poderiam referir todos os distúrbios tradicionais que causa a perigosa mistura bioquímica entre a cerveja e os adeptos ingleses em qualquer parte do mundo para onde se dirijam. Na Alemanha, por exemplo, quase todos os dias lemos sobre como houve mais uma rixa que envolvia claques de apoio inglesas. Qual a relevância disto? Absolutamente nenhuma. O facto de querer desculpar uma suposta e provavelmente verdadeira falta de fair play da selecção portuguesa, durante o jogo com a Holanda, com base nas acções de quem se pronuncia é irrelevante porque, sendo apontado ou não por alguém que age de forma semelhante, não deixa de ser um facto verídico e constatável. Todavia, criticar um suposto comportamento alheio para depois o tentar desculpar quando a situação já é pessoal torna-se moralmente questionável e preocupante.

O mais intrigante e relevador sobre o conceito de jogo limpo de alguns ingleses é que, sempre dispostos a ser diplomáticos e politicamente correctos, queiram primeiro convencer o mundo de que os portugueses são uma espécie de agressores e violadores das regras básicas (do futebol e não só) para depois vitimizar Rooney quando este agride Ricardo Carvalho. Como dizia o jornal madrileno As ontem (em tom de brincadeira mas, infelizmente, realista): «el colegiado argentino Elizondo interpretó que Rooney quiso hacer intencionadamente una tortilla con sus tacos y las partes íntimas de Carvalho.»

Talvez um bocadinho de humildade e menos dualidade de critérios lhes ficasse bem. Que festejem pacificamente a desejada saída de Eriksson e parem de bater em alemães. Os fãs do futebol de alta competição agradecem.

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Notas:

1. N'O Insurgente, ver o vídeo com quem penso ser Alan Shearer a dizer que os ingleses (que são todos santos, a começar por Rooney...) não fazem coisas assim, referindo-se à reacção dos jogadores portugueses depois da tentativa de transformar os países baixos de R. Carvalho em ketchup.

2. Ver também no Blasfémias os dois artigos do CAA sobre (1) as teorias da conspiração britânicas quanto à piscadela de olho de Cristiano Ronaldo - como se o contentamento dos jogadores portugueses justificasse a não atribuição de cartão vermelho a Rooney - e (2) a ideia de que jogar no Manchester United depois de ter prejudicado a equipa inglesa não seja muito natural. Talvez, como diz o CAA, a imprensa inglesa esperasse que C. Ronaldo fosse mais um lion.

3. De admirar a súbita defesa de Rooney quando é conhecido pelo seu carácter tempestuoso em casa. Um comentário mais sóbrio de Rob Smyth no Guardian acompanhado de comentários de leitores menos sóbrios.

Thursday, June 29, 2006

Ficamos mais descansados!

Das FAQs do novo projecto ViaCTT:

«A ViaCTT é universal

Para todos: empresas, particulares, organismos públicos.

(...)

A ViaCTT é gratuita

Para aderir e utilizar não tem qualquer custo.»

O Eng. Sócrates é um egoísta de todo o tamanho. Descobriu uma árvore das patacas e não disse nada a ninguém.

Monday, June 26, 2006

Mistérios sobrenaturais II

Metade dos portugueses não liquida IRS

(Os meus) comentários finais

... ou como andar à volta da mesma rotunda, repetidamente, sem sair dela.

A maioria das coisas que têm estado aqui a ser discutidas ficaram esclarecidas (ou implicitamente mencionadas) desde a primeira entrada sobre o anarco-comunismo. No entanto, continua-se a andar às voltas com as mesmas premissas, relativizanda-os quando necessário para adaptá-las à forma como se vai respondendo por aqui (como o caso da coação, que é relativamente simples e óbvio). Não é uma crítica ao método, é uma crítica à ideologia. Esta acaba ela mesma por ter estes efeitos já que está completamente destacada do realismo e do empirismo e foi, inevitavelmente, a causa de tantas desgraças ao longo do Século XX, convencendo milhares de pessoas por via das suas argumentações circulares e sofistas.

De entre muitos iludidos que lutavam por regimes comunistas encontravam-se, precisamente, "anarquistas" que, convencidos por uma retórica de pés de barro e que estaria sociologicamente apta a extraterrestres lobotomizados, permitiu que os maiores monstros genocidas conseguissem alcançar o poder para cometer dos maiores crimes de que a humanidade tem conhecimento (evidência histórica). Ainda assim, há quem julgue que coisas como estas seriam possíveis de aplicar sem que se desse uma guerra no final da qual, caso estes vencessem, as coisas até funcionariam fluentemente.

Dito isto, alguns pontos que desejava esclarecer, caso ainda não tenham ficado suficientemente explícitos, para finalizar a minha participação em algo que penso ser já inútil por ter sido clarificado praticamente todo o essencial do que pretendia em relação às reclamações iniciais e complementares do Miguel Madeira:
1. As teorias anarco-socialistas andam às voltas para explicar que a propriedade é comunitária mas pode ser gerida individualmente. É importante referir que mesmo que isto fosse verdade, haveria uma entidade em representação da comunidade que estaria responsável por fazer a distribuição da propriedade. Isto é uma forma de governo. Não é uma anarquia. Sugerir que tudo pode ser resolvido em assembleia geral, para além de muito criativamente fértil e romântico, constitui uma forma de democracia e não uma anarquia.

2. A ideia de um mercado livre não-capitalista é ridícula. Não existindo a possibilidade de possuir meios de produção ou estabelecer voluntariamente relações laborais, não se pode dizer que o mercado seja "livre". Ao contrário do que diz o Miguel (exemplo das laranjas), é muito importante saber qual é a linha que distingue os meios de produção dos meios de consumo. Como esta ideia é vaga, abstracta e de âmbito limitado devido à imaginação humana, quase tudo pode ser considerado um meio de produção. Dizer que existe propriedade num regime assim é uma farsa. Em última instância, é o governo (os mais confusos poderão ler "comunidade") quem decide o que deve ser considerado propriedade. Não deverá ser necessário comentar o que acontece historicamente quando ideias assim proliferam ou a razão pela qual as revoluções são sempre "desvirtuadas".

4. Voltamos a relativizar, desta vez, não a propriedade, mas o que é um governo. Por qualquer razão enigmática o Miguel acha que qualquer pessoa que monte um negócio "governa" os empregados. Mas não façamos jogos de palavras. Governo é uma coisa - a tentativa infrutífera de gestão da sociedade e da economia a troco das liberdade pessoais - e as empresas são outra. De acordo com esse prisma, também poderíamos criticar o liberalismo por dizer que as pessoas se devem governar a si próprias. Afinal, também parece ser uma forma de "governo".

5. Constantemente fiz aqui a referência a que numa sociedade anarquista tanto seria possível estabelecer empresas como cooperativas. O Miguel Madeira reconhece que, realmente, numa "sociedade anarquista" não seriam possíveis tais coisas. Quando se lhe pergunta como é pode isto acontecer numa anarquia (e se coloca a ideia de que é necessária uma forma de autoritarismo para manter um regime antagónico às expectativas), ele refere que seria a vontade das pessoas. Pena que não tenha nada a ver com a vontade das pessoas. -- ver ponto 8 [Outros conceitos importantes para se compreender "vontade das pessoas": "revolução bem sucedida", "mudança de mentalidades", "socialismo bem aplicado", etc.]

6. Dizer igualmente que numa expropriação não existe necessariamente violência porque o proprietário pode não estar presente é o mesmo que dizer que numa sociedade de propriedade comunitária não existe necessariamente violência se um grupo de indivíduos decidir sair da jurisdição da comissão. Cada acto acarreta uma consequência. Em ninguém dos casos as coisas ficariam por aqui.

7. O Miguel diz que há "soluções propostas" para os casos de distribuição da propriedade mas acontece que numa sociedade anarquista não há "soluções" desse género, há processos descentralizados. As pessoas agem por si mesmas. Estar a querer inventar soluções para a distribuição de terrenos é o mesmo que ter uma agencia central (novamente, leiam os mais confusos qualquer palavra mais eufemística) a decidir quem tem direitos a explorar que terreno. Ao passo que num regime de propriedade privada há um reconhecimento mútuo feito pelas pessoas, nessa situação, essa agencia não tem legitimidade para fazer tal coisa a menos que seja reconhecida pelos envolvidos (o que é praticamente impossível).

8. Quando disse, e digo, que as pessoas defendem naturalmente a propriedade privada não me refiro em termos políticos. O exemplo prático na política é sempre muito bonito de argumentar porque parece mostrar que as pessoas gostam de propriedade, mas bem regulada ou limitada, quando na realidade esta projecção idealizada se aplica quase exclusivamente sempre à propriedade alheia. Acontece que as pessoas tentam aumentar ao máximo o proveito que obtêm de um dado sistema mesmo que nele não acreditem (ou mesmo que acreditam que saem individualmente beneficiadas).

9. O Miguel acha que o resultado final da "anarquia" é semelhante ao da democracia (aliás, o agitador até diz que os anarquistas são a favor da democracia directa). Todavia, quando digo que o anarco-socialismo gera por si mesmo um Estado (chamem-lhe democracia, ditadura da maioria, oligarquia, feudalismo, o que quiserem...), dizem que eu estou errado. Intrigante. Se anarquia é a falta de governo, o anarco-socialismo não pode ser uma anarquia por colocar a maioria a literalmente governar as minorias (indivíduos). Só para imaginar que a maioria das pessoas aceitaria sequer esse sistema ou este não se tornaria/seria um regime totalitário (por definição anti-anarquista) é absolutamente utópico e irrealista por, entre várias coisas, não considerar que o que este sistema faz é, em vez de ceder a liberdade aos indivíduos, cedê-la à vontade da maioria e permitir que esta tome as decisões que veja como "necessárias"-- ver também pontos 1 e 8.

10. Quanto a estas afirmações, aconselho o Miguel a ler o parágrafo seguinte à frase de onde esta foi citada. As respostas às perguntas são a) sim e b) não. Quanto a b), reconheço que é possível (já o é na actualidade) mas a pergunta é feita com o advérbio "substancialmente", o que muda tudo. Precisamente por não ser substancialmente, estamos a discutir uma forma de pseudo-anarquismo, uma mera desculpa para, na prática, instalar um regime totalitário. De igual modo, se o objectivo da menção ao trabalho de Peter Leeson «era refutar a necessidade de um Estado para impedir o aparecimento de propriedade privada (ou seja, provar que, mesmo sem Estado, pode haver sociedades em que os principais recursos sejam propriedade comunitária)», não sei porque foi dito na altura que «parece (...) implicito que há "sociedades sem estado" que "não reconhecem propriedade privada além dos bens de consumo imediatos", o que (...) corta pela raiz a tese que o anarco-socialismo é "impossivel" e "absurdo"» uma vez que nunca disse aqui que não poderiam existir bens geridos de forma voluntária colectivamente (comunidades, cooperativas, etc.). Agora, o anarco-socialismo não defende a existência de cooperativas mas sim um modelo social de propriedade colectiva. São duas coisas bem distintas - uma tem lógica, a outra é teoricamente absurda e experimentalmente desastrosa. E é isso que se tem estado a explicar constantemente por aqui.

11. É cansativo referir o mesmo mas repito: sim, numa sociedade livre os indivíduos podem fazer valer os seus direitos quando bem entenderem. Não reparei se o Miguel não terá percebido a falha lógica do exemplo de Kirzner a propósito disto. Se Kirzner diz que apenas o primeiro tem direito ao lago, utilizar essa ideia para mostrar que os outros não têm direito a beber dele é uma conclusão completamente irrelevante já que está implícita na primeira afirmação. Segundo o mesmo sistema, eles não teriam direito a beber nada. Realmente, é circular mas não vejo que tenha nada a ver com o anarco-capitalismo. Esse exemplo de refutação é que não tem utilidade nenhuma porque:

1. Define quem tem o direito.
2. É usado para mostrar que os que estão excluídos do direito estão... excluídos do direito.
3. Logo, não serve para mostrar que não podem fazer valer os seus direitos porque, neste mesmo sistema definido por 1, nunca os tiveram.

Tanto os exemplos dados (de coisas completamente descabidas) como reclamar propriedade sobre um deserto ou sobre praias consideradas públicas dão-me a ideia de que o Miguel Madeira ou está muito confuso sobre o que é a propriedade privada ou simplesmente se lembra de uns exemplos bons e propagandísticos para confundir os seus leitores. É que esse tipo de exemplos serve para eu dizer que num regime capitalista é possível reclamar que Marte me pertence, o que, como é óbvio, é absolutamente ridículo e sem sentido.

12. Não sei onde é que o Miguel conclui que a propriedade natural é proudhoniana em vez de capitalista. Retirar exemplos de animais, crianças (ou mesma a situação extrema de um naufrágio -- ler esta entrada que se aplica) para extrapolar posteriormente que assim é entre humanos adultos é um raciocínio indutivo, não dedutivo. Como tal, não é válido em termos lógicos e de valor falso, a menos que seja confirmado na realidade - o que não acontece. A propriedade proudhoniana refere um direito de ocupação proveniente do "uso regular", mas este uso regular está por definição dependente de um intervalo de tempo a ele associado que ninguém tem a legitimidade de definir arbitrariamente contra a vontade dos indivíduos que ocupam os locais em questão. Se o indivíduo X abandonar a sua casa para ir trabalhar, poderá ver a sua habitação ocupada por alguém que julge que um intervalo de algumas horas deixa de ser "uso regular". O mesmo pode suceder se a pessoa passar várias semanas de férias e assim por diante. [Atenção: não estou a falar dos okupas que habitam locais abandonados.]

Nota adicional: O Miguel está constantemente a referir que eu não uso argumentos sobre a eficácia/eficiência ou apetibilidade do sistema para avaliar negativamente as formas de anarco-socialismo. Como não estou, por princípio, interessado em maximizar o "bem-estar" do colectivo (impossível de definir) em detrimento do bem-estar individual de cada elemento do colectivo, não vejo qual a relevância do assunto. Quanto muito, bastam os exemplos históricos do que as formas de socialismo clássico fizeram. E sim, já sabemos que não são os "trabalhadores associados" e outras definições típicas nunca atingidas, etc. Mas é interessante e revelador saber que muitos dos que lutavam por estas definições não tiveram propriamente escrúpulos de lutar lado a lado com outros providos de definições mais realistas e menos ingénuas.

Saturday, June 24, 2006

Inversões

Depois de manifestada a intenção da GM em abandonar a sua fábrica na Azambuja para passar a produzir o Opel Combo em Saragoça, os meios de comunicação (como a SIC) vêm vindo a referir que as greves consecutivas dos trabalhadores têm como objectivo a "luta" pelos seus postos de trabalho. Como parece ser evidente, em qualquer parte do mundo, todos os trabalhadores que vêem em risco o seu emprego esforçam-se activamente para dar mais dúvidas ao seu empregador quanto à sustentabilidade/rentabilidade do projecto e mais razões para se desfazer deles. Não querendo entrar em guerras especulativas, será que também no caso dos jornalistas e repórteres portugueses podemos considerar que a linguagem e o pensamento são duas realidades indissociáveis?

Friday, June 23, 2006

No comunismo não há voluntários

Ao contrário do que afirma o Miguel, que julga ter encontrado a refutação derradeira (ainda por cima vinda de um economista austríaco) para as minhas afirmações sobre a absurdidade das formas de anarco-socialismo, não se vislumbra grande razão para surpresa. Diz Peter Leeson, numa citação de Efficient Anarchy:

"[i]ndividuals in primitive societies often have very similar endowments. Because they are frequently egalitarian and do not often recognize private ownership beyond the level of direct consumables..."

Utilizar isto para refutar qualquer das ideias e factos anteriormente aqui expostos é semelhante a falar sobre as teorias do "comunismo primitivo". Há milhares de anos atrás, as tribos nómadas - e Leeson refere que era generalizado à pequena escala, o que não é estranho - tinham pouca margem de manobra (e intenção, sequer) para fazer valer os seus direitos de propriedade sobre coisas que representavam menos valor para eles do que o bem-estar dos seus companheiros de tribo. E isto não acontece por acaso: os recursos eram extremamente limitados e era mais importante saber que os companheiros de grupo estavam bem alimentados e fortes do que brincar com o assunto. Baixas importantes significariam atrasos nas caçadas, o que poderia significar a morte, não só dos que buscavam alimento como também dos que aguardavam por ele e não iam caçar. A morte de um elemento poderia ser fatal para todo o grupo, que subsistia à custa do trabalho árduo dos caçadores. A prova mais viva desta realidade é que se um grupo de caçadores de uma tribo vizinha - na verdade, rival, já que competia pelos mesmos recursos escassos - tentasse obter pela força o produto da caçada seria muito provavelmente corrido à pedrada por tentar saquear uma propriedade conquistada com muita dificuldade, na mira de conseguir um almoço grátis.

Usar a mesma fasquia para falar de supostas pseudo-anarquias, seria o mesmo que dizer que um casal que partilhe a mesma casa e a mesma conta bancária apenas pode ser anarco-socialista porque não faz valer os seus direitos de propriedade um sobre o outro. Estes direitos são livres de ser definidos desde que não se interfiram com o que os implicados também decidem definir livremente. Assim como não é comunista partilhar uma caneta ou um livro.

É esta a diferença entre o que é uma sociedade livre e uma sociedade comunista (ou anarco-comunista, para o efeito...). Numa sociedade livre, as pessoas podem fazer valer os seus direitos quando bem entenderem enquanto numa sociedade anarco-comunista ninguém pode fazer nada porque é forçado a "partilhar" por defeito. Deixa de ser uma sociedade livre onde as coisas são partilhadas por necessidade ou vontade própria para se tornar numa em que nem se pode dizer que haja realmente partilha, mas sim uma obrigação de manter a sua propriedade como colectiva ou comunitária. Não tem outro nome senão o de totalitarismo.

Preocupante mesmo é que os exemplos com que o Miguel tenta refutar a necessidade da propriedade privada sejam de sociedades classificadas como primitivas. Talvez fosse boa ideia ter-se isso em consideração.

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Nota importante:

Não creio ter dito que o anarco-comunismo era "impossível". Seria o mesmo que dizer que o estalinismo era impossível. Claro que é possível. É tudo uma questão de ter valas comuns prontas e suficientes e uma boa dose de intelectuais de ideologia em punho que convençam as massas de que, na verdade, estão a lutar pela sua libertação individual. Depois, quando já não forem necessários para as tarefas sofistas, são eliminados pelos que sempre souberam desde início que a coisa ia dar assim. A receita foi aplicada com sucesso ao longo do século passado em vários países. E, incrivelmente, continuou a funcionar.

Thursday, June 22, 2006

Lógica da liberdade positiva

Faz parte do discurso político nacional há vários anos, sendo normalmente independente do partido de onde é proveniente. Falo daquela franja ideológica influenciada pelo "socialismo individualista" que nos diz que o indivíduo deve ser "livre". Livre no sentido de conseguir alcançar um determinado objectivo e, para isso, ter disponível todo o apoio do aparelho social. Esquece-se, convenientemente, que os outros elementos individuais da sociedade não serão livres já que terão de financiar ambições e sonhos alheios. Esta pequena falha de raciocínio parece eclipsar-se subitamente, já que quem a defende não consegue destacar-se de analisar, a cada vez, um indivíduo isolado e o resto da sociedade como um colectivo. Este indivíduo tenderá a pagar as escolhas (dos outros) que se encontrem previstas no grupo de acções que o governo decida como pertencentes à lista das que devem ser vistas como requisitos mínimos para satisfazer as necessidades de cada pessoa.

Porque é este sistema uma fraude? Para começar, convence as pessoas de que funciona e de que todos terão a possibilidade de cumprir as oportunidades desejadas mas ignora que estas passam a estar muito mais interdependentes dos impostos pagos uns pelos outros do que estariam numa situação em que pudessem gerir de forma normal e pessoal os seus fundos. Uma vez que os governos não tomam decisões de acordo com o que cada um paga, os orçamentos são encarados como um todo e existe uma racionalização das parcelas financeiras que são destinadas a esta ou aquela coisa, impossibilitando muitos projectos que são demasiado específicos para que possam ser levados a cabo por uma autoridade central que, quando investe em algo, tende a fazê-lo de forma a servir uma procura que seja relativamente homogénea (no sentido de curva gaussiana).

Quem defende este género de modelo oculta que existe perda de dinheiro com os processos intermédios da sua própria distribuição e que há um desvio da sociedade, das actividades que seriam normalmente escolhidas para as que são subsidiadas ou mais apoiadas, uma escolha que está dependente da vontade política do governo e que tende a ser, por regra, generalista. As pessoas que tenham projectos pessoais e que não pertençam ao grupo de interesses gerais estarão a ser prejudicadas por, afinal de contas, serem elas a financiar as outras actividades e possuir menos com que financiar as suas.

Em muitos casos deste género, como naquela perversidade que se costuma designar por ensino em Portugal, os mais pobres acabam por não conseguir obter nada do sistema já que é necessário um input individual e, independentemente de o frequentarem ou não, subsidiam toda a fatia de insiders mais abastados que optam por escolhas tidas como mais regulares. A solução de políticas de repressão económica para financiar o ensino aos mais pobres não passa de algo absolutamente inútil e contrário aos objectivos anunciados porque, quanto muito, são precisamente os mais pobres que financiam os que já fazem parte do sistema e têm muito melhor capacidade de escapar aos seus tentáculos fiscais.

Monday, June 19, 2006

Óxido de azoto

O grupo de pseudo-anarquistas que gravitam o blogue do Miguel Madeira (presumo que ele nem tenha culpa...), que fazem vários comentários pomposos aos artigos do Miguel e nunca por cá aparecem, embora estejam constantemente a falar do que se passa por estas paragens com afirmações simpáticas e elogiosas. Duvido sequer que tenham lido uma resposta inteira, limitando-se apenas às minhas citações que aparecem por lá...

Depois, claro, podem ler-se pérolas destas:

Pedro:

«Continuam os posts excelentes. O Dos Santos está quase KO...»

Este aqui sou eu na minha última competição de wrestling argumentativo. Como se pode ver, até estava bastante bronzeado ainda que a minha posição não fosse propriamente fotogénica. Culpa do fotógrafo.




agitador:

«o dos santos com essa analise entrou numa onda de determinismo historico.

que por acaso, já ouvi em qualquer lado...»

Recomenda quem sabe (tirando erros ortográficos):



Anarquismos

Respostas do Miguel Madeira --> I, II e III (é favor ler os textos para entender o contexto nos qual se inserem os comentários que se seguem):

1. Estejamos a falar de anarquismo individualista ou de anarquismo social (anarco-sindicalismo/comunismo, etc.), ambos rejeitam o capitalismo. O Miguel diz também que esta rejeição é feita com base no já referido sentido 3, mas é um igualmente um facto que apesar de nomenclaturas simpáticas e visão parcial dada pela crítica marxista implícita nessa definição, o capitalismo não pode existir sem que exista a margem de liberdade (o que não significa que se concretize) para gerar um lucro e criar emprego. Desta forma, estes "anarquistas" poderão rejeitar a "definição" 3 de "capitalismo" mas terão necessariamente de rejeitar 1 que é aliás, exactamente o que fazem os socialistas clássicos (marxismo, por exemplo). Vêem o capitalismo como o sentido 3, criticam o sentido 3 mas, na verdade, repudiam 1 já que as relações laborais expressas em 3 são ideologicamente vistas como ilegítimas.
2. O exemplo dessa aldeia é muito interessante. Como seria de esperar, desde que seja essa a vontade dos proprietários, neste caso, a comunidade, tudo parece ser aceitável. Contudo, é também interessante a referência à existência de um governo (é colocado misteriosamente entre aspas...). No texto - e apesar de parecer ter sido escrito propositadamente como forma de panfletário - esta espécie de "governo" da aldeia é eleita pelo povo, não se diz se por via democrática. Mesmo que seja uma via democrática, seria interessante saber se há ou não unanimidade no voto. Como se pode sugerir este exemplo como experiência anarquista, se o anarquismo se opõe a toda a forma de poder político? Como é possível e expectável que seja acatada uma decisão que afecte toda a comunidade e não seja do agrado da sua totalidade numa sociedade anarquista? Igualmente sugestiva é a expressão usada, e cito, «[a] associação/comissão (...) continua a governar, a gerir os interesses da comunidade». O que são os "interesses da comunidade"? Como se define algo que varia de acordo com as intenções de cada elemento de uma mesma comunidade?

3.
«por que é que alguém haveria de querer trabalhar para um patrão se, à partida, tem tanto direito como ele a utilizar os bens da comunidade, nomeadamente os instrumentos de trabalho? Para que é que, numa sociedade anarco-socialista, alguêm precisa de trabalhar para um patrão?»

A resposta é bastante simples: a pergunta deveria estar feita ao contrário. Porque não haveria alguém de desejar trabalhar para outra pessoa? A pergunta, feita da forma positiva, induz à partida a que se julgue que trabalhar sem ser por razões de subsistência própria é negativo. Trabalhar para uma pessoa que se conhece é impensável e para a comunidade, composta por vários membros (muitos deles potencialmente desconhecidos), não o é? O erro conceptual está em assumir que a pessoa não poderá encontrar uma forma de trabalho melhor do que a "oferecida" pela comunidade nem que esta seria considerada. Assume-se, novamente, conhecer algo que diz apenas respeito a cada um dos indivíduos e que apenas cada um deles pode determinar por si mesmo, mesmo atendendo à propriedade colectiva dos bens. O que impede que alguém pague por um determinado serviço, ainda que através do uso colectivo dos meios de produção?

Para além de nem todas as relações laborais se estabelecerem na indústria e na agro-pecuária (que é onde a generalidade dos exemplos propostos costuma estar enclausurada), existe o conhecimento ou a técnica necessários para utilizar esses meios da produção de algo. Não parece difícil de imaginar que devido à subjectividade de valor que os tipos de pagamento têm, um determinado empregador poderia oferecer maior benefício (a forma e a quantidade de pagamento) a um potencial empregado do que a comunidade como um todo. Claro que poderão existir 3 linhas de tentativa refutação da ideia proposta:

a) a comunidade pode oferecer, no seu colectivo, tudo o que satisfaça o indivíduo. Isto é curioso porque se baseia na ideia de que o indivíduo não tem vontade própria ou então na de que os recursos naturais e humanos são praticamente infinitos (estando estes próprios recursos humanos dispostos, por sua vez, a prestar "roboticamente" tal serviço à comunidade a troco de algo que potencialmente valorizam menos do que eventuais empregadores lhes possam oferecer);

b) ninguém deseja ser "explorado" e ter um patrão. Vago e de interpretação subjectiva. Há muita gente que a trabalhar por conta de outrem sabe obter mais benefícios do que por conta própria e não tem problema algum com isso.

c) o "empregador" não pode pagar nada porque não possui nada com que possa comerciar, seja por troca directa ou através de uma moeda comum, já que tudo o que produz é propriedade do colectivo, sendo-lhe posteriormente distribuído apenas o essencial para a sua subsistência ou a parcela do total produzido que lhe foi designada. Para além de ir potencialmente contra a ideia de que alguém trabalha realmente por contra própria utilizando meios de produção colectivos, a pergunta sobre o desejo de trabalhar para alguém que não a comunidade deixa de fazer sentido já que não sequer pode ser colocada. Não se pode perguntar qual o incentivo para trabalhar por conta de outrem quando tal coisa se apresenta como uma impossibilidade devido às suas implicações do ponto de vista legal (alguém teria propriedade que comerciar).

4. Quanto à coerção/coacção não é necessário andar com tantos rodeios porque ate é bastante simples. Relativizar a questão da propriedade para que coacção exista em ambos os casos (socialismo e capitalismo), dependendo do referencial a partir do qual se analise, não faz sentido. Vamos colocar a questão de uma forma clara. Num sistema (anarco-)capitalista, os socialistas podem ter propriedades que partilhem e giram em conjunto e ninguém tem nada que ver com isso. Num regime de anarquismo social - em que a propriedade privada não é reconhecida - não se pode sequer abrir e gerir individualmente uma mercearia, o que inclui a impossibilidade de estabelecer relações laborais. Qual dos regimes proíbe especifica e explicitamente um tipo de organização social? Qual dos dois é, por conseguinte, menos livre?

A ter em conta, também, que para abolir a propriedade privada é necessário literalmente expropriar os proprietários e não apenas sugerir essas utopias de que a propriedade só é defendida pelo Estado. Para impedir as pessoas de fazer valer os seus direitos de propriedade é necessário recorrer à força contra o próprio proprietário. Pelo contrário, no caso hipotético de uma "privatização" de uma propriedade colectiva em várias individuais (que nem tem nada a ver com o assunto mas serve como comparação), nada impede que os membros que desejam voltar a unir as suas propriedades, na incrivelmente extrema eventualidade de que o desejem fazer, não o façam livremente.

5. Não vejo que seja muito relevante falar de conflitos de propriedade como se fosse algo meramente pertencente a um sistema que reconheça a propriedade privada. Se as diversas formas dos anarquismos mencionados pretendem distribuir, por exemplo, parcelas de terreno individualmente, como julgam que não existiram conflitos de propriedade à semelhança do capitalismo? Qual a razão especial que faz com que tudo coincida harmonicamente sem que existam problemas? É a comunidade quem define que "propriedade" fica à guarda de uma determinada pessoa? E se essa pessoa preferir gerir a "propriedade" do vizinho? Efectivamente, os conflitos deste género até se tornam mais interessantes num regime que não reconheça a propriedade. Para o capitalismo, cada um teria a sua propriedade (não há nada como "distribuição" quando os limites já estão definidos à partida por gerações ou negócios anteriores) e existiria uma moeda de troca para que as propriedades fossem compradas ou vendidas. Por sua vez, no sistema proposto, cada um poderá realmente argumentar que a propriedade é de todos e por isso mesmo ambos preferem aquela parcela, não se chegando a uma resolução lógica. Qualquer reconhecimento por parte de uma "assembleia judicial" de que o membro X tinha mais direitos sobre aquele terreno do que outro por que razão fosse, seria como reconhecer que este tinha direito a estar ali e o outro não. Não existindo reconhecimento de propriedade privada, que razões tem o membro Y para respeitar e aceitar tal deliberação? Afinal, a propriedade também é de todos...

6. Citação do Miguel (sem distorções do contexto por minha parte...):

«Para falar a verdade, eu também não sei se poderemos falar em "comércio livre" no contexto do anarco-socialismo (no fundo, o que eu queria dizer, era que o "comércio livre" não seria abolido por si, mas que talvez morresse de "morte natural", por deixar de existir muita da sua base), mas apesar de tudo, talvez sim.»
.

Fica a dúvida sobre como é que se mata algo natural e espontâneo de forma... natural e espontânea.

7. A questão sobre o bilhete de cinema é muito engraçada. O único problema está em que o bilhete não vende aquele lugar do cinema, apenas o aluga para a sessão do filme a que diz respeito logo, quando se comercia um bilhete de cinema (também não faço ideia se é legal mas é irrelevante), apenas se está a conceder o direito de frequentar um determinado local a uma determinada hora. E isto é comércio livre porque foram as condições inicialmente definidas pelo proprietário da sala de cinema. O contrato entre o proprietário e o comprador não lhe dava muito mais direitos do que esse.

8. O Miguel diz que numa sociedade anarco-socialista em que a propriedade está definida comunitariamente, a comunidade está encarregue de regular os meios de produção. A menos que o Miguel julgue que a comunidade estaria em peso a tomar as decisões (centenas, talvez milhares de pessoas) e não escolhesse uma forma de "representatividade democrática", não se consegue dissociar esta concepção da de um Estado. E claro, um Estado comunista. Obviamente também se poderia dizer que era uma sociedade anarquista (como na verdade dizem muitos noruegueses, presumíveis adeptos da ideologia "anarquista", relativamente ao seu país) mas da mesma forma se pode dizer que Portugal é um país anarquista e escolhe ter um Estado ("comissão", "governo", "assembleia") porque é a sua vontade enquanto anarquista... Todos os que não respeitem a vontade da maioria da "comunidade portuguesa" são os que estão contra o sistema imposto pelos anarquistas que livremente decidem a vigência do actual sistema. Todo o anarquismo de cariz "social" corrompe o que é realmente o anarquismo, levando o indivíduo, que deveria ser o centro de poder, a vergar-se perante a vontade da maioria que o rodeia, independentemente da sua aceitação da corrente política. Aqui reside outras das conclusões absurdas. Se as decisões se fazem pela vontade da comunidade, então não existe diferença entre o anarquismo e o regime democrático, o que é absolutamente ridículo.

Quanto à ideia de que a comunidade "apenas" teria como propriedade os meios de produção, a ideia é demasiado difusa por natureza, assim como já o é na análise económica marxista. Por exemplo, tem-se estado aqui a dizer que a pessoa poderia trabalhar por conta própria com os meios de produção possuídos pela sociedade e assim produziria para si própria. Imagine-se que gere um pomar e produz laranjas. Mas serão as laranjas para consumo próprio e garantia de subsistência ou um meio de produção? É que essa pessoa pode usá-las para fazer umas tartes de laranja e começar a vendê-las. Ou pegar em linho e algodão e fazer roupas para si, e talvez abrir um negócio pessoal de pronto-a-vestir. Onde é que fica desenhada a linha de meios de produção? Como fazer com que a abolição da propriedade privada sobre os "meios de produção" não seja apenas uma via para implementar a escravatura sob a máscara de uma libertação?

9. Claro que a pergunta sobre a legitimidade de um sistema de definição de propriedade pode ser feita relativamente a qualquer um. Mas enquanto um sistema anarquista (ou seja, anarco-capitalista) é legítimo, coisas como o anarco-comunismo não o são. Num sistema anarco-capitalista, como se explicava no ponto 5, é dada liberdade total aos indivíduos para definir como desejam viver na sociedade e é perfeitamente válido (embora diria que não fosse natural) que surjam agregações onde a propriedade é encarada de uma forma menos liberal. Regimes que à partida proíbem todos os outros tipos de organização não podem ser considerados propriamente legítimos e muito menos anarquistas. Uma analogia recorrente poderá ser a de pensar no planeta Terra como um sistema onde diversos estados se organizam de forma anárquica e cada um decide como funcionará. Assim, existem países mais normais e outros menos normais.

Da mesma forma, (anarco-)comunistas poderiam perfeitamente viver numa sociedade anarco-capitalista desde que fossem suficientemente honestos para distinguir entre a abolição da propriedade privada e a definição da propriedade como um bem colectivo. Seria interessante observar este jogo de forças e saber se o desejo de implementação de um sistema colectivista se baseia apenas na crença de que leva a uma sociedade melhor (caso em que poderiam viver numa comunidade que assim pensasse) ou se se movem simplesmente pela cobiça da propriedade alheia e tentariam combater os capitalistas da área.

10. Não foi argumentado que para que o anarco-comunismo funcionasse 100% dos membros teriam de estar de acordo mas sim que para que fosse válido (no sentido de legítimo), esta condição teria de ser verificada uma vez que são impostas sérias restrições a determinados tipos de liberdade.

11. A sugestão de que numa sociedade sem Estado, o sistema de direitos de propriedade seria o reconhecido pela generalidade das pessoas nessa área é a correcta. Acontece que, por natureza, a maior parte das pessoas defende os direitos de propriedade privada. Muitas vezes poderão até dizer o contrário mas é interessante testar os seus instintos e a verdade é que se vivermos sozinhos e a meio da noite ouvirmos alguém a dar passos sorrateiros na sala, não assumimos que seja um anarco-socialista que se sentiu sozinho do outro lado da cidade e decidiu partilhar connosco a nossa propriedade para discutir a exploração laboral até às 4 da manhã mas sim alguém que invadiu a casa e a pretende roubar ou por em causa a nossa integridade física. Proteger a propriedade, assim como proteger a vida, é algo tão natural que até outros animais o fazem.

Claro que existe sempre uma parcela da população que não pensa assim e também não agiria assim. Mas essa percentagem é absolutamente mínima. Não conto com os comunistas (políticos) que nem sequer falam em formas de anarquismo e avançam logo para discursos de nacionalização e colectivização (eufemismos para apropriação de tudo por parte do Estado, fazendo eles parte do Estado...) mas com a percentagem muito reduzida de anarquistas de esquerdas que existem e que efectivamente estariam dispostos a participar numa comunidade desse tipo. Tirando esta minoria, a restante humanidade vive à base do reconhecimento da propriedade privada e assim tem sido desde que nos conhecemos como espécie. Qualquer outra forma de gerir as propriedades que tenha sido introduzida ao longo da história resultou sempre em caos quando aplicada à larga escala. Curiosamente, ninguém falou em introduzir um conceito de propriedade privada numa sociedade porque, obviamente, este já existe de forma natural.

12. Há que reconhecer que o exemplo da praia não é muito feliz, não só pela falta de dados como pela aparente impulsividade do hipotético Miguel Madeira. Antes de mais, se a praia teve gente a ir lá de seguida é porque, decerto, já a frequentava anteriormente. Se já usufruíam daquele espaço e este era um local considerado público, então não existe grande legitimidade para reclamar aquela propriedade a menos que fosse com o consentimento das pessoas que usualmente o frequentavam e que seriam, de forma abstracta, as pessoas com mais direito a pronunciar-se sobre o futuro do local. Claro que se a praia tivesse sido adquirida, herdada ou algo do género, os banhistas já estariam a par disso porque a praia já possuía um proprietário.

Escusado será dizer que a situação de confronto entre as agências de segurança, provavelmente, nunca iria acontecer. Não só pela situação em si e pelas razões de estabilidade financeira apontadas pelo Miguel como também pelo facto de elas próprias não se quererem envolver em distúrbios sérios potencialmente considerados ilegais [um tribunal independente daria a reclamação como ilegítima].

13. A anarquia (estou a falar de uma verdadeira anarquia com privatização da lei e tudo) nunca poderia produzir resultados semelhantes a uma democracia porque não seria regulada pelos interesses da maioria mas sim pelo interesse individual de cada um dos habitantes de um determinado local. Nesse sentido, a anarquia é - realmente - muito mais directa e descentralizada mas não pode ser comparada com um processo governativo em que existe um Estado e onde as acções deste estão dependentes da decisão dos votantes que penderam em maior número para um dado resultado (seja do género plebiscitário ou legislativo). Obviamente, existem algumas decisões gerais que poderiam ser tomadas em conjunto mas isso seria algo a determinar a nível local e de acordo com a vontade expressa pelos indivíduos, não sob uma forma que afectassem que não estivessem implicado na resolução. Decisões em conjunto à pequena escala todos fazemos diariamente.

14. Quanto à protecção dos mais poderosos - e para finalizar - sim, essa dedução lógica está totalmente correcta e é verdadeira. O Estado protege os mais poderosos. Quando eu disse que a sugestão, provavelmente por influência da luta de classes marxista, de que o capitalismo protege a propriedade dos mais poderosos é uma concepção errada queria dizer que o capitalismo não favorece um proprietário apenas porque ele é mais poderoso economicamente. Falta um "apenas" ou um "privilegiadamente" entre "protege" e "a". Falha por omissão.

Leituras recomendadas

Ondas de Paixão do Tiago Mendes

Rien ne va plus do Rodrigo Adão da Fonseca

Se (crónica semanal do Luciano Amaral n'O Insurgente)

Portugal. Que futuro? do membro do Conselho de Estado Jorge Coelho

[Definitivamente, o melhor e menos disparatado artigo de sempre de Jorge Coelho no DE. De notar em especial a conclusão e o facto de que Jorge Coelho assinava como economista e agora, que diz coisas assim, passou a assinar como "membro do Conselho de Estado"...]