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Tuesday, June 06, 2006

Maximização da utilidade

Os calendários dizem que hoje terá sido o Dia D, data do desembarque das tropas aliadas na Normandia. Diz-se também nas ruas que hoje é o Dia D, mas do juízo final. Bem, sobre isto nada posso adiantar. Contudo, segundo o sitemeter, parece que o meu Dia D foi ontem e aqui está o artigo:

Os mais recentes dados estimados pelo Banco Mundial apontam para que a dimensão da economia informal em Portugal tenha atingido valores em torno dos 20-25% do PIB, percentagem que tem vindo a aumentar progressivamente desde a década de 90.

Ao analisar friamente os dados referentes a estes indicadores, quem desconhecer por completo o contexto político português terá tendência a concluir que Portugal é um país severamente oprimido, já que as estimativas são superiores à média calculada para a OCDE em vários pontos percentuais. Mas podem ser os portugueses, de facto, oprimidos quando partilham precisamente as mesmas noções políticas e económicas surrealistas dos líderes que seleccionam democraticamente?

A que se devem, então, tais comportamentos tão díspares? A principal razão que justifica estes aparentemente inconjugáveis aspectos é a errada e perigosa noção, presente numa vasta fatia da população, de que a prática de políticas económicas socialistas recairá essencialmente sobre os outros elementos da sociedade e não sobre si mesma. Contrariamente à fachada da propaganda tradicional, a maioria dos eleitores de partidos tendencialmente movidos pela lógica da redistribuição social e do intervencionismo estatal cede o seu voto na esperança de melhorar as suas condições pessoais e não propriamente com a intenção de suportar despesas alheias. Não deixa, portanto, de ser irónico que o grande sucesso do socialismo no mercado das ideias políticas se deva à defesa que os eleitores fazem dos seus próprios interesses individuais, precisamente o oposto a que se propõe a sua retórica, cuja cartilha incide de forma persistente na pouca importância que estes representam face ao colectivo e aos enigmáticos desígnios comuns. A constatação deste facto é facilmente confirmada pela ideia bastante popular de que devem ser os ricos a pagar impostos e os pobres a receber subsídios. O cerne do problema origina-se, inevitavelmente, na dificuldade de encontrar alguém que, de acordo com o seu próprio referencial relativo, não se considere pobre. Na generalidade, a maioria julga-se no direito indiscutível de ser subsidiada mas quase ninguém (se alguém de todo) deseja contribuir vivamente para que tais projectos sociais sejam exequíveis.

Este fenómeno sociológico é particularmente extraordinário e preocupante, visto que se tratam exactamente das mesmas pessoas que se sentem molestadas por todas as estruturas burocráticas criadas para satisfazer os seus desejos de regulação incessante sobre as actividades económicas (incluindo as legislações laborais) e também as mesmas que demonstram ser ardentes defensoras do investimento público e da lógica do subsídio, ainda que pratiquem a fuga fiscal sempre que possível e evitem ao máximo fornecer ao Estado informação que de outra forma lhes seria claramente desfavorável.

Obviamente, sempre existirão os que preferem o método de funcionamento deste esquema, por hipocrisia própria ou, simplesmente, pelo desejo de viver num regime de socialismo selvagem em que todos dizem contribuir solenemente para uma hipotética causa comum e, em simultâneo, batalham entre si por extrair dessa mesma causa o máximo possível à custa dos que estão impossibilitados de o fazer. Escondida sobre a pretensa promoção da igualdade social, a naturalidade das suas consequências é absolutamente previsível, sendo a única forma de pôr fim a esta espiral destrutiva uma consciencialização dos mais honestos sobre a incoerência que representam todas estas práticas ideológicas quando aplicadas à sociedade e à natureza humana tal como a conhecemos.

Se se deseja, efectivamente, o melhor, tanto para nós mesmos como para os outros, a forma mais natural, justa e moral de o fazer é através do respeito por princípios basilares de qualquer sociedade próspera como a propriedade privada e a iniciativa individual.

[Agradecem-se, desde já, as simpáticas referências feitas no Blue Lounge, O Insurgente, O Observador, A Arte da Fuga, docontra e Bodegas]

Monday, June 05, 2006

Utilitarismo socialista vai perdendo pontos

Less is more de Constantin Gurdgiev:

«When it comes to government spending, less is more. Less government spending and involvement in the economy - both in terms of regulatory interference and taxation burden - are associated with higher rates of economic growth, better productivity and more diverse markets for products. This is supported by country-specific evidence and several long-running international indices ranking economic environments.

To discount the benefits of the minimal government, the state-reliant opponents of free markets and personal freedom usually argue that while less government may indeed mean more economic prosperity, smaller governments deliver lower quality of public services. In doing so, supporters of the large welfare state usually point to the alleged lack of public services in the US - a myth hardly supported by reality. The supposedly contrasting social-services-in "rich" European welfare states are similarly mythical.

(...)

Overall, the study concludes that "It may be surprising, even counter-intuitive, to find that countries with leaner governments spend more on health and education than those with larger governments (and have been growing that expenditure at a faster rate), that they have a better standard of living, better employment records and similar spending on income support. But the data... should give policy-makers some confidence in arguing [that] ...the leaner governments clearly benefit their citizens more than the narrow illusory benefits offered by larger governments."

The lesson is a simple one. If the real objective of European governments is to improve social and personal well-being, they should lower taxes, cut state spending and let the private sector do its job.»

Resumo:

The bigger the better? Evidence of the effect of government size on life satisfaction around the world (WIF - Institute of Economic Research) [pdf]
  • Life satisfaction actually decreases with higher government spending.
  • This negative impact of the government is stronger in countries with a left-leaning median voter.
  • It is alleviated by more effective governments -- but, crucially, only in countries where the state sector is already small.
The case for reducing business taxes (Centre for Policy Studies) [pdf]
  • In lower-spending countries, per-capita income was on average 12 per cent higher than in larger-government countries.
  • More importantly, the gap between the two types of economies is widening -- real gross domestically (GDP) grew more rapidly in the leaner countries.
  • Leaner governments reduced their tax and other receipts, as a proportion of GDP, by an average of 6.5 percentage points over the last two decades while larger governments grew their tax and other receipts by an average of 4.8 percent.
  • At the same time, between 1997 and 2005, it grew at an average annual rate of 4.1 percent in the former group of countries compared to 1.9 percent in the latter.

Saturday, June 03, 2006

Our man in Havana

Mota Amaral critica desumanização da sociedade

«O ex-presidente da Assembleia da República, Mota Amaral, criticou hoje as alterações dos ritmos de vida das pessoas “ditadas pelo lucro e competição”, apelando a uma reflexão da sociedade sobre o assunto.
(...)

Marcelo Nuno deu o exemplo da significativa expansão da rede de auto-estradas no país e afirmou que os portugueses dispõem hoje de mais oportunidades para o turismo e o lazer. Admitindo que esta versão possa corresponder, em termos estatísticos, à actual realidade de Portugal nesta área, Mota Amaral, mais céptico, advertiu que “resta saber até quando” as pessoas têm mais tempo para as actividades ligadas ao lazer.

“Chegamos esgotados a casa”, referiu, lamentando que quem trabalha tenha vindo a perder, nas últimas décadas, a possibilidade de ter uma refeição com a família, dado passar muitas horas nas empresas e serviços públicos.

O ex-presidente do Parlamento disse que “resta saber quem é que ganha com isto” – “uma sociedade virada para o lucro e a competição” –, sugerindo que “há algumas reflexões a fazer” neste capítulo. “Estamos a fazer parte de uma máquina da qual não tivemos os benefícios ao nível humano”, acentuou.»

O maravilhoso (sic) mundo do socialismo abstracto é algo deveras fascinante e extraordinário. É compreensível e concebível que alguém possa não gostar do lucro e da competição que existem naturalmente nas sociedades mas assim como o capitalismo não tem o direito de exigir que todas as actividades em que os cidadãos se envolvam sejam necessariamente lucrativas (aliás, é parte da liberdade concedida pelo sistema capitalista), não têm os seus detractores qualquer espécie de direito em requerer que as pessoas não obtenham lucro com o seu trabalho ou que este mesmo lucro seja regulado e penalizado, que é o que acontece em todas as sociedades autoritárias.

Mota Amaral parece sentir-se muito céptico perante a legitimidade da existência de lucro nas actividades económicas mas esquece-se de avaliar as consequências da sua abolição, deixando o seu agrado pela sovietização da sociedade funcionar de forma auto-justificativa para que todos aqueles que, de alguma forma, se sintam incomodados pelo sucesso individual de outros, se familiarizem com esta espécie de propaganda ideológica - coisa que, num país como Portugal, onde o ódio pelo sucesso alheio é generalizado, se revela bastante eficaz.

O lucro, quer se goste dele ou não, é o motor do desenvolvimento dos países e a própria razão da actividade económica. Os empresários não fariam investimentos se não existisse a possibilidade de lucrar com a aplicação do seu respectivo capital acumulado. As pessoas não trabalhariam se tal não se revelasse como uma forma de sustento. Sem a existência de lucro, deixa de existir iniciativa individual e, principalmente, deixa de existir razão para trabalhar porque não há nada a ganhar (lucrar) com isso. O mesmo se aplica à concorrência. O que é defendido nestas declarações é que as empresas devem oferecer serviços que os clientes não desejam, ou seja, que se devem deixar arrumar, indefinidamente, num nicho de mercado contra sua vontade ou mesmo falir. Se bem que a ideia seja terrivelmente difícil de compreender para quem tem preconceitos prévios (e irrealistas) sobre as transacções quotidianas, a concorrência do meio empresarial é a consequência natural da luta pacífica entre as diversas companhias para obter a melhor satisfação do cliente em relação aos seus concorrentes. Claro que, se esta concorrência ("excessiva") for bloqueada, estamos a interferir no processo natural de escolha do cidadão e na actividade típica dos mercados que consiste em seleccionar o sucesso das actividades empresariais de acordo com os critérios de qualidade definidos (subjectivamente) pelas mesmas pessoas que servem.

Alguém devia informar Mota Amaral de que a utopia distopia comunista com que ele sonha teve resultados extraordinários em vários locais do mundo. Claro que morreram vários milhões de pessoas (muitas delas à fome porque a comida é/era racionalizada pela benevolente administração central) mas o que importa isso quando se conseguiu uma sociedade sem lucro e sem concorrência? Não passa também despercebida a utilização da falácia já comum de que as pessoas têm cada vez menos tempo de lazer. Para começar, cada um define pessoalmente a quantidade de lazer que se lhe adapta, dentro das suas possibilidades, e, depois, Mota Amaral parece esquecer que antigamente a maior parte das pessoas trabalhava horas diárias a fio para conseguir garantir a auto-subsistência. A prova viva de que a liberdade - mesmo que estrangulada - tem efeitos positivos na sociedade é a diminuição do número médio de horas de trabalho por semana (coisa que, em geral, é erradamente atribuída à acção dos sindicatos), o aumento significativo da idade a que se começa a trabalhar e a inegável melhoria do nível de vida proporcionado pela miríade de possibilidades que existem actualmente. Assim, fica na dúvida o que se quer dizer exactamente com a falta de «benefícios ao nível humano», sentença que certamente estará baseada no pressuposto também falacioso de que é o Estado quem ajuda a sociedade e não a sociedade quem se ajuda a si própria. Fica, também, misteriosamente por esclarecer de onde vem o dinheiro que o Estado usa e a probabilidade de encontrar um fato tão bonitinho com uma gravata tão bonitinha num país onde a indústria têxtil não obtivesse lucro nem estivesse sujeita a concorrência...

Friday, June 02, 2006

[Não contem a ninguém]



(Por vias que não são importantes nem aconselháveis de divulgar publicamente, chegou-me às mãos a lista de obras - cujas traduções para a língua de Camões já estão a ser preparadas - que serão imediatamente incluídas e disponibilizadas gratuitamente ao abrigo do projecto socialista do Plano Nacional de Leitura)

Lista de livros:

* Benson, Bruce: The Enterprise of Law: Justice Without The State
* Davidson, James Dale and Rees-Mogg, William: The Sovereign Individual
* Friedman, David: The Machinery of Freedom
* Hoppe, Hans-Hermann: A Theory of Socialism and Capitalism
* Hoppe, Hans-Hermann: Democracy: The God That Failed
* Rothbard, Murray: For a New Liberty: The Libertarian Manifesto
* Rothbard, Murray: The Ethics of Liberty
* Tannehill, Linda and Morris: The Market For Liberty
* Murphy, Robert: Chaos Theory: Two Essays on Market Anarchism

Thursday, June 01, 2006

Estatísticas pirateadas

De vez em quando surgem estatísticas dos "prejuízos" das editoras discográficas e produtoras de software. A mais recente dá conta do seguinte:

Software pirata gera perdas de 80,92 M€ em Portugal

Depois de estimado o impacto económico da pirataria (relatório publicado também pela IDC no final do ano passado), o presente estudo conclui que a utilização de software ilegal cresceu em quatro regiões do mundo (Europa Ocidental, Ásia-Pacífico, América Latina e União Europeia), tendo diminuído no Médio-Oriente-África e Europa Central e Oriental, para ficar inalterado na América do Norte.

(...)

O estudo recolhe dados sobre o software instalado num determinado período, calcula o seu valor legal e subtrai ao valor facturado pelos estabelecimentos existentes no retalho. O resultado equivale ao peso do material pirateado e esta fórmula simples é a base metodológica para os cálculos do estudo.

A pirataria de software «tem severas consequências económicas: o enfraquecimento das indústrias de software local devido à concorrência desleal (…) perda de receitas de impostos e de empregos devido (…)», segundo nota o relatório.


O documento original, que pode ser lido na página da BSA [pdf], permite entender aquilo que a maior parte deste género de estudos nunca menciona:

1. Fala-se sempre dos prejuízos que as companhias de software têm com as actuais percentagens de pirataria por parte dos consumidores, utilizando os números estimados para os preços das aplicações piratas instaladas. Faz-se, portanto, uma equivalência entre o custo total do software que não foi pago e o que teria sido pago caso fosse instalado de forma legal. Esta análise ignora por completo o efeito dissuasor que os preços elevados têm sobre os potenciais clientes, já que se assume que estes comprariam exactamente a mesma quantidade de produtos que consomem na actual forma pirateada *

2. As empresas da indústria de software informático dizem que a sua expansão (e o seu lucro) é afectada pela pirataria generalizada e largamente distribuída de forma global mas esquecem que numa hipotética situação em que um mercado negro esteja impossibilitado de existir, uma fracção significativa dos utilizadores de software permaneceria com versões antigas durante um período de tempo mais largo, não compraria de todo o software comercializado, estaria menos disposta a comprá-lo ou mudaria para projectos open-source que são grátis ou infinitamente mais baratos quando comparados

3. Constantemente é utilizado o argumento de que a pirataria gera um impacto económico (negativo) relevante na economia, fazendo com que não seja acrescentado tanto valor por estas empresas como poderia eventualmente acontecer, reduzindo também a criação de emprego, que é menor do que seria na situação idealizada. Esta ideia entra novamente em contradição com o facto de tais previsões serem feitas tendo em conta o modelo falacioso referido no ponto 1 e, adicionalmente, porem de parte o impacto que teria na economia a cessação do uso do software por parte dos actuais utilizadores de versões piratas que também não são dissociáveis das economias dos respectivos países

4. As conclusões destes estudos, alicerçadas nos problemas evidenciados nos pontos anteriores, sugerem sempre um combate mais feroz à pirataria na base utilitária do benefício comum (provavelmente se fizessem valer a questão direitos de propriedade em si, ninguém lhes daria atenção) mas nunca avaliam os custos desse combate quando comparados aos efeitos que teriam as potenciais vendas na dinâmica das empresas (em parte porque os modelos anteriores estão errados) nem na restante sociedade já que esta imposição legal mais exacerbada seria obviamente paga com o dinheiro dos contribuintes e, provavelmente, em muitos casos, em detrimento das suas liberdades

5. Pede-se sempre civismo e compreensão pelo seu trabalho (coisa que é comum à indústria discográfica e cinematográfica) mas, misteriosamente, não se pede ao Estado que reduza os impostos de consumo sobre tais produtos, o que é ainda muito mais cívico e igualmente compreensível. O estudo presente mostra taxas de pirataria reduzidas para países como os EUA, NZ, Áustria e países desenvolvidos em geral. Não é apresentada nenhuma correlação com um indicador macroeconómico como o PIB per capita que permita entender estatisticamente a ligação que existe entre a riqueza de um país, o custo de vida e o poder de compra que possibilite adquirir facilmente tais produtos. Como não é feita semelhante análise para os países subdesenvolvidos, ignora-se em absoluto o facto de que os preços praticados por estas companhias estão muito acima do seu valor no mercado e do preço que as pessoas estão dispostas a pagar por ele. Países como Zimbabué, Indonésia e Vietname apresentam taxas de ~90%, o que deveria, no mínimo, levar estes produtores a considerar baixar drasticamente os preços, como fez a Microsoft ao introduzir o Windows Xp Starter Edition, uma versão low-cost do Windows XP já lançada em mais de 20 países pobres e que visa combater o uso de cópias piratas e o avanço galopante da quota de mercado que os sistemas GNU-Linux vão ganhando nestes locais. Entretanto, enquanto os outros países europeus sofreram uma oscilação para -1% ou -2% nos níveis de pirataria, Portugal é referido como caso notável por ter aumentado em 3%. Porque será?

6. Propositadamente, é esquecido o marketing e publicidade que são gerados através da pirataria. Poderá parecer uma ideia peregrina mas não deixa de ser real - os produtos não seriam tão conhecidos se não existisse um uso tão massivo (que inclui uma boa percentagem de utilizadores com cópias ilegais). Este factor natural denota-se especialmente na acção de empresas que estão a entrar no mercado ou têm uma quota muito pequena e é a razão pela qual muitas destas fornecem freeware ou shareware, na esperança de chegar ao conhecimento dos prováveis utilizadores, cobrando posteriormente por versões mais sofisticadas. As grandes empresas já estabelecidas poucas vezes o faziam porque se julgavam no direito de manter ou expandir o seu actual volume de negócios, sem modificar as suas estratégias de mercado menos arriscadas a priori mas que acabam por gerar, na realidade, menos proveito. Actualmente, já temos muitas aplicações cedidas de forma gratuita embora com menos qualidade do que outras versões disponíveis para venda.

7. As empresas nunca avaliam o mercado que perdem por introduzir técnicas de segurança nos seus produtos. Mais uma vez, poderá parecer uma ideia bizarra não estabelecer estes métodos mas quem já instalou e usa software com propriedade saberá que as exigências e condições são muitas vezes restritivas e o controlo constante que as empresas fazem sobre a cópia em uso afectam até a própria perfomance dos computadores. A este aspecto juntam-se os métodos de compra e os formatos utilizados. Não é estranho que a compra por download (digital) em vez de envio por correio (físico) seja cada vez mais comum, verdade que se aplica tanto a livros como música e programas informáticos. A Stardock, por exemplo, implementou um sistema de download relativamente simples para o seu jogo Galactic Civilizations II e não sobrecarregou os seus clientes com necessidades irrelevantes como a presença do CD no leitor. Esta filosofia de venda mereceu a crítica de outras empresas apesar do GalCiv II ter disparado para os primeiros lugares dos tops de vendas, ainda que não seja um jogo de grande mercado (estratégia por turnos).

8. Nestas contas não se inclui a quantidade de utilizadores que tem cópia válida mas arranja uma pirateada por diversas razões como as apresentadas no ponto anterior. Em muitos casos, estas cópias permitem que não haja necessidade da presença constante do CD ou que não seja necessário um processo de verificação da autenticidade da cópia de cada vez que se deseja utilizar a aplicação (assim como da transferência para outro hardware).

9. Qualquer justificação, por mais descabida que seja, serve - estas empresas também dizem que os Estados recolhem menos impostos, uma vez que as vendas são ilegais. À semelhança do ponto 5, se estivessem interessadas em contribuir mais para a causa dos opressores, defendiam impostos mais baixos.

É certo que muitas das variáveis necessárias para que se conhecessem todos estes parâmetros não estão acessíveis mas, precisamente por essa razão, estes estudos não podem ser apresentados como se fossem relatórios de vendas ou de prejuízos. Estes estudos dão apenas belos títulos de imprensa sensacionalista mas não permitem ao leitor avaliar as consequências de um combate à pirataria ou sequer a razão da sua existência. No máximo, são um panfleto publicitário do ponto de vista dos interesses das empresas de software, não dando qualquer possibilidade de retirar conclusões lógicas ou racionais acerca dos debates sobre propriedade intelectual e sua defesa.

O ponto alto do estudo é aquele em que se diz o seguinte (repare-se como uma projecção de estatísticas se torna, de repente, "estranhamente" autoritária):
«Governments can increase public awareness of the importance of respecting creative works by informing the public about the consequences of disobeying the law, expressing their intent to strictly enforce those laws and encouraging the use of legitimate software»
A intenção de debater o assunto é nula. Então porque chegam estas opiniões à imprensa como se fossem notícias? De alguma forma, a BSA (Business Software Alliance, nome nada claro como se nota) terá sido confundida com uma inocente agência noticiosa.

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* No final do documento, é analisado este método para calcular as perdas. O sistema para fazer a correlação baseia-se nas compras de hardware novo que supostamente mostrariam uma ligação com a compra de software legal. Não se compreende qual a forma utilizada para concluir acerca da compra de software já que a compra de computadores montados é apenas uma parte do mercado e é impossível, nestes casos, saber se o utilizador planeia desinstalar o sistema operativo residente para instalar outro. Também é utilizada uma falácia económica para justificar que o combate à pirataria traz mais lucro às empresas de software (o que parece ser verdade de acordo com os resultados) e que isto gera, por si mesmo, maior crescimento económico geral. Esta conclusão olvida que o dinheiro que for redireccionado para comprar software legal seria utilizado para qualquer outra actividade se a cópia não tivesse de ser necessariamente legítima.

Wednesday, May 31, 2006

Ouvido por aí (várias vezes)

Por mais antitético que seja, é fácil encontrar imensa gente que julga que a vitória indiscutível dos Lordi, há 2 semanas atrás, no festival da eurovisão, simboliza a decadência das sociedades europeias contemporâneas ao mesmo tempo que pensa que é possível salvar, sem sombra de dúvidas, os decadentes Estados sociais espalhados por toda a Europa.





Por amor do Diabo, ganhem mas é juízo...

Monday, May 29, 2006

A beleza do realismo hipócrita

O apelo do Presidente da República

«O Presidente da República, Cavaco Silva, apelou hoje à sociedade civil para que se mobilize no combate à exclusão social, advertindo que este flagelo é um peso na consciência colectiva, cujo combate é da responsabilidade de todos.

(...)

"Não creio que possamos confiar apenas no Estado para resolver estes problemas de exclusão social no nosso país", observou, evocando os exemplos das instituições de solidariedade social, misericórdias e voluntariado para concluir que "há muita coisa que se pode fazer" naquele domínio.»

Pede-se a uma sociedade socialista que seja voluntária e solidária quando o socialismo existe, em teoria, para resolver a hipotética falta dessas características. O mais curioso em tudo isto é que os impostos que supostamente são cobrados para colmatar essas "necessidades" são aqueles que serviriam para que a sociedade civil lidasse autonomamente com os possíveis problemas derivados ou causadores da exclusão social que deseja ser combatida, a crer nas palavras do PR.

Se se observar com atenção, este discurso é absolutamente idêntico à da sequência infindável de ministros das finanças que esteve no governo durante os últimos anos e que, ao mesmo tempo que exigia rigor fiscal nas finanças públicas e encontrava novos métodos de receita e extorsão (assim como de, supostamente, maior eficácia no acto de cobrar esses impostos), apelava ao investimento dos agentes económicos para revitalizar o dinamismo da economia portuguesa. Infelizmente para o sucesso desta teoria abstrusa, o dinheiro não nasce das árvores e todo aquele que fica perdido em impostos e burocracias é precisamente o mesmo que devia estar a ser usado para criar riqueza.

Tudo isto traz-nos a uma indagação interessante. Será que a aplicação do socialismo existe para que se possa justificar, de forma recursiva, a si mesma? O que distingue esta situação da perspectiva que a sanguessuga tem da vida e que lhe permite alimentar-se garantindo ao mesmo tempo que a sua fonte de sobrevivência não fica danificada? Se o socialismo não cumpre os seus objectivos retóricos (que são mero marketing) porque não revogá-lo de imediato?

Friday, May 26, 2006

Newspeak anestesiante e ilusivo

A comunicação social tem estado constantemente a referir a "liberalização" do sector farmacêutico. A confusão é tanta ou tão pouca que o governo anuncia a "liberalização" e os jornalistas, sem saber muito bem o que isto significa, dizem que o governo vai liberalizar. Mas verifica-se que não vai haver propriamente liberalização nenhuma porque há concursos públicos e o governo vai "autorizar" a existência destas farmácias (o Estado é uma entidade benevolente, veja-se, até "autoriza" os cidadãos a ter propriedade) e outras regras para evitar a sua concentração, assim como para a distribuição geográfica destes estabelecimentos.

E depois aparecem as outras notícias de quem está contra a "liberalização" como a Ordem dos Farmacêuticos. Eles não estão contra a liberalização das farmácias (embora também estivessem certamente se fosse verdade) mas contra a pseudo-liberalização tal como é anunciada nas notícias prévias, o que torna a discussão ainda mais interessante.

Quem é a favor da liberalização não está muito entusiasmado com a proposta do governo mas também não é contra, especialmente tendo em conta a situação actual. Quem argumenta contra a proposta do governo, não está necessariamente a argumentar contra a liberalização das farmácias porque o programa sugerido não propõe nada disso. Muito pelo contrário. Do ponto de vista liberal, toda a ideia é terrivelmente socialista. O problema é que este debate parte de um ponto de vista praticamente colectivista e absolutamente estatizante fazendo com que ao mínimo grau de liberdade lhe chamem inadequada e erradamente "liberalização".

Inconvenient Truths

Wall Street Journal de 22 de Abril:

"Today, April 22, is Earth Day, which has been marked each year since 1970 as a day of reflection on the state of the environment. At least that's the idea, so let's begin with some figures.

Since 1970, carbon monoxide emissions in the U.S. are down 55%, according to the Environmental Protection Agency. Particulate emissions are down nearly 80%, and sulfur dioxide emissions have been reduced by half. Lead emissions have declined more than 98%. All of this has been accomplished despite a doubling of the number of cars on the road and a near-tripling of the number of miles driven, according to Steven Hayward of the Pacific Research Institute."


Daily Telegraph de 9 de Abril:

"For many years now, human-caused climate change has been viewed as a large and urgent problem. In truth, however, the biggest part of the problem is neither environmental nor scientific, but a self-created political fiasco. Consider the simple fact, drawn from the official temperature records of the Climate Research Unit at the University of East Anglia, that for the years 1998-2005 global average temperature did not increase (there was actually a slight decrease, though not at a rate that differs significantly from zero).

Yes, you did read that right. And also, yes, this eight-year period of temperature stasis did coincide with society's continued power station and SUV-inspired pumping of yet more carbon dioxide into the atmosphere.

In response to these facts, a global warming devotee will chuckle and say "how silly to judge climate change over such a short period". Yet in the next breath, the same person will assure you that the 28-year-long period of warming which occurred between 1970 and 1998 constitutes a dangerous (and man-made) warming. Tosh. Our devotee will also pass by the curious additional facts that a period of similar warming occurred between 1918 and 1940, well prior to the greatest phase of world industrialisation, and that cooling occurred between 1940 and 1965, at precisely the time that human emissions were increasing at their greatest rate."

Wall Street Journal de 23 de Maio:

"Since 1970, the year of the first Earth Day, America's population has increased by 42%, the country's inflation-adjusted gross domestic product has grown 195%, the number of cars and trucks in the United States has more than doubled, and the total number of miles driven has increased by 178%.

But during these 35 years of growing population, employment, and industrial production, the Environmental Protection Agency reports, the environment has substantially improved. Emissions of the six principal air pollutants have decreased by 53%. Carbon monoxide emissions have dropped from 197 million tons per year to 89 million; nitrogen oxides from 27 million tons to 19 million, and sulfur dioxide from 31 million to 15 million. Particulates are down 80%, and lead emissions have declined by more than 98%."

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Inconvenient consequences:

"Canada was one of the prime movers of Kyoto early on. But the new Conservative government says we will never meet our 2012 target (we are apparently almost 35 per cent over at the moment).

And Ottawa appears to want to join the new Australian-inspired, U.S.-led group called the Asia-Pacific Partnership on Clean Development and Climate, also known as the AP6 or, to its critics, Kyoto Lite."

E o que é o AP6?

"The Asia-Pacific Partnership on Clean Development and Climate, also known as AP6, is an international non-treaty agreement among Australia, India, Japan, the People's Republic of China, South Korea, and the United States announced July 28, 2005 at an Association of South East Asian Nations (ASEAN) Regional Forum meeting and launched on January 12 2006 at the Partnership's inaugural Ministerial meeting in Sydney. Foreign, Environment and Energy Ministers from partner countries agreed to co-operate on development and transfer of technology which enables reduction of greenhouse gas emissions. Ministers agreed a Charter, Communique and Work Plan that "outline a ground-breaking new model of private-public taskforcess to address climate change, energy security and air pollution."

Thursday, May 25, 2006

Recomendada

Crónica do Migas:

«Surgiu como desabafo sobre o estado geral insatisfatório das coisas, ao estilo graffiti, surgindo subversivamente nas paredes do IST, ressurgindo agora numa dimensão blogosférica, quando as coisas conseguiram ficar ainda piores. Se originalmente esta crónica teve, acima de tudo, um pendor marcadamente influenciado pelo anarquismo, ou mais especificamente, anarco-capitalismo, a idade trouxe o juízo para perceber que o minarquismo é bastante mais defensável na vida real...
Já agora: os defensores do minarquismo não são minorcas.»

Tuesday, May 23, 2006

Cortar o mal pela raiz

Uma não solução do João Miranda:

"Actualmente, a função pública só não cresce mais porque o governo não tem como pagar aos novos funcionários. Se essa limitação for eliminada com entrada de dinheiro fresco, as portas da função pública abrem-se imediatamente a milhares de novos funcionários. A dimensão da função pública é um reflexo de uma relação de poder entre o estado e a sociedade. A dimensão da função pública só será reduzida se o poder do estado sobre a sociedade diminuir."

(via Licenciosidades)

Resultados do socialismo-melancia

Devido às imposições da religião ecologista, empresas como a St. Gobain (segundo o DE, a maior vidreira do mundo), ameaçam sair de Portugal devido à impossibilidade de expandir a sua produção. A fragilidade económica da estrutura totalitária da regulação no seu melhor - a chantagem empresarial:

"O grupo Saint-Gobain, líder mundial na produção de vidro plano, afirma que não terá capacidade para continuar a investir em Portugal se tiver que comprar licenças de emissão de CO2 no mercado. O grupo francês, que produziu os vidros para a pirâmide do Louvre e para a Estação do Oriente, pretendia aumentar em 50% a capacidade do seu forno de Santa Iria de Azóia. Agora, ameaça deslocalizar para a Europa de Leste. A escassez de licenças ameaça outros sectores da indústria e deverá agravar-se quando as licenças de CO2 disponíveis tiverem que acomodar as novas centrais de ciclo combinado."

Contudo, diz-se por aí que o Eng. Sócrates está interessado na competitividade da nossa economia. Vejá lá, Sr. Engenheiro, não abuse das reformas políticas neoliberais, ainda ganha o Prize for Advancing Liberty do Cato Institute.

Adenda: sobre o mesmo assunto, o breve mas incisivo comentário do jcd.

Sabedoria económica

É interessante analisar como os indivíduos e a dimensão social que lhes está relacionada se comporta perante o conhecimento. A natureza da informação não apresenta restrições ainda que por vezes esteja apresentada de uma forma que impossibilite a perfeita recepção por parte do leitor/interlocutor devido a requisitos mínimos que seriam desejáveis e este não possui. Em nada isto permite concluir que todos os que não respeitam estas condições não estejam aptos a compreender resultados retirados com base nestas, como também não torna certo que todos os possuidores da chamada linguagem técnica compreendam totalmente todas as implicações do que está a ser estudado.

Vem isto a propósito da incrível presunção que existe na sociedade para falar de economia. Todos se julgam verdadeiros mestres da arte económica (e muito em particular da política económica), compreendendo os mais ínfimos pormenores e as razões pelas quais os governos devem agir de determinada forma. Certamente que, na maioria destes relatos, não existe qualquer coesão interna entre o que é afirmado mas isso pouca importa a quem prefere discorrer livremente sobre um assunto sem estar inibido pela sua destacável falta de análise crucial e eventual demonstração de desconhecimento sobre os assuntos em causa.

Independentemente da refutação, esta casta julga-se infinitamente conhecedora - por ser mais experiente ou conhecer de alguma forma o meio em questão - e encontra-se completamente fechada a qualquer crítica veiculado por meios externos fornecidos via espírito crítico ou apresentação de dados relevantes que refutam a fugaz tentativa frustrada da tese às três pancadas, feita em cima do joelho.

Conta-se que Milton Friedman, prémio Nobel da economia nos anos 70, terá dito que a economia é uma ciência demasiado importante para ser deixada apenas aos economistas. Certo é também que Murray Rothbard, uma das grandes figuras da Escola Austríaca, disse que todos tinham o direito a ser ignorantes em matérias económicas mas que era de uma total irresponsabilidade ter uma opinião indignada e activista enquanto se mantivessem nesse estado de ignorância.

E aqui reside o mistério da vida. Se as pessoas delegam quase por completo o conhecimento científico de outras áreas - que afectam igualmente todos os nossos dias - aos mais aptos, porque o negam completamente quando se trata de assuntos de cariz económico? Quase ninguém irá tentar desautorizar uma pessoa que discuta numa conversa de café sobre a influência das ideias românticas nos movimentos nacionalistas e independentistas do séc. XIX ou sobre a importância que as forças de Van der Waals têm na química molecular. Ainda assim, basta referir um projecto de investimento público, a aprovação de uma lei laboral ou o significado da existência de um défice comercial para que se inicie uma discussão extraordinariamente acesa em que todos julgam ter uma opinião válida, mesmo que não compreendam uma parcela significativa das variáveis envolvidas nem estejam dispostos a discuti-las com base em asserções lógicas.

Também como dizia Churchill, um fanático é alguém que tem uma ideia fixa e inflexível e não consegue, de modo algum, mudar de tema.

Monday, May 22, 2006

Paradoxo imobiliário

Ser a favor da destruição da propriedade privada alheia por alegadamente não coincidir com níveis de qualidade mínimos determinados aleatoriamente e também a favor da atribuição de uma nova propriedade privada aos previamente destituídos da sua (novamente, segundo critérios de qualidade definidos subjectivamente mas que desta vez afectam os visados de forma objectiva), financiada com o dinheiro - coercivamente retirado - destes mesmos destituídos e com o daqueles que não concordam com a destruição da propriedade privada. E igualmente com o daqueles que concordando com a primeira parte do enunciado, estariam, ironicamente, contra a segunda.

Queda a dúvida. Terá sido a causa de tudo isto a falta de certificação dos construtores por parte da Ordem dos Arquitectos?

Independente mas pouco

Afirmam as notícias em vários jornais e meios de comunicação social que Montenegro vai ser finalmente independente pois o referendo em que se questionava o povo sobre esta proposta ofereceu um resultado (provisório) de 55, 3% a favor do sim. O mais interessante das notícias é que de seguida explicam que o resultado mínimo para que o "sim" fosse aprovado teria de ser 55%, com uma participação mínima de 50% do eleitorado.

No entanto, há algo curioso que nem todas referem. 55% de 50%. O número de 50% tem uma certa lógica numérica, metade da população. Mas de onde virá o de 55%? Estará na constituição de Montenegro? Fará parte de algum artigo aprovado pela união Sérvia e Montenegro? Não, parece ter sido um critério delineado pela União Europeia de forma a tornar a secessão de Montenegro "legítima".




Pergunta do dia: Se Montenegro se tornar independente, ter-se-á tornado independente?