Pages

Sunday, January 22, 2006

Coisa que não entendi

Durante a campanha, Mário Soares e seus apoiantes diziam que não davam atenção às sondagens porque estas o tentavam tramar e o que realmente contava era a vontade do povo. Então por que razão desertaram todos da sede de Mário Soares assim que saíram as projecções nos canais televisivos?

Surpresa da noite

Todas as televisões apontam para que este homem seja o vencedor.



Inacreditável.

Dúvidas de última hora

Hoje é dia de eleição presidencial e confesso que ainda estou indeciso entre Francisco Louçã e Garcia Pereira.

Friday, January 20, 2006

Rumo à cintura de Kuiper


Segredos da abstenção

Não é nada surpreendente a insistência com que todos os candidatos apelam ao voto, não necessariamente em si mesmos mas, acima de tudo, pelo mero acto de votar. A prática do voto constitui, per se, uma legitimação do presente regime democrático dada pelos cidadãos e uma aceitação implícita dos alicerces do próprio sistema.

Quando os políticos pedem que as pessoas não fiquem em casa no próximo domingo, não estão a pensar numa rápida resolução da eleição presidencial, na eventualidade de uma segunda volta muito disputada ou no que podem com isso ganhar pessoalmente. Estão sim, a pensar que a forma de governação seleccionada para vigorar em Portugal apenas é válida enquanto existirem eleitores que tomem o trabalho de se dirigir às urnas (a descrição do eufemismo "dever cívico") para expressar a sua vontade política. Se a abstenção for de 90%, por exemplo, em eleições legislativas ou presidenciais, o sistema colapsa sobre si mesmo porque se levanta a questão da autoridade que um elemento do Estado detém perante uma vasta massa de população que não o elegeu directamente, minando-se assim o núcleo da crença numa democracia representativa, que deveria existir à partida como base que justifica o representante "eleito". Daí decorre que o apelo a uma abstenção reduzida exprime apenas a necessidade exigida pela classe política em autopreservar-se no seio do parlamentarismo republicano português.

Ao reservarem para si mesmos poderes previstos na Constituição, os governantes estabelecem um modelo político segundo o qual uma grande fracção da população acaba por votar em sinal de protesto ou sob ameaça da eleição de um candidato que não deseja ver à frente dos destinos do país.

A opinião geral vê com muitos maus olhos a ditadura (ou até mesmo a monarquia, ainda que constitucional) porque esta foi persistentemente associada com uma ideia de obsolescência e autoritarismo. No entanto, em que é diferente a democracia de uma ditadura? Por acaso todos nós conseguimos eleger o candidato que desejamos? Todos nós vamos às urnas para exercer um voto convicto, ou pensamos no que é mais útil para evitar males maiores? Se o regime democrático não definisse à partida que deve existir um vencedor a qual são concedidos certos poderes políticos, importar-nos-ia sequer votar? E se não quisermos ser governados por ninguém, porque continuamos sob a jurisdição do candidato que é escolhido pela maioria?

Thursday, January 19, 2006

Feliz acto eleitoral, senhor contribuinte *


Eleições presidenciais custam 12 milhões de euros

"Despesas dispararam 60 por cento em relação às eleições de 2001, que resultaram na reeleição de Sampaio. Maior fatia do orçamento vai para tempos de antena e pagamento a 60 mil colaboradores.

As eleições presidenciais do próximo dia 22 de Janeiro vão custar cerca de 12 milhões de euros aos contribuintes. As contas foram feitas pelo Correio da Manhã e divulgadas na sua edição de sábado.

Segundo o jornal, a estrutura que gere a máquina eleitoral aponta para um orçamento de despesas directas de 10,5 milhões de euros, mas nem todos os custos estão aqui incluídos."
Fazendo as contas em termos da população activa em Portugal, cada trabalhador contribuiu com aproximadamente 2,16€ para esta eleição. Se a abstenção nestas eleições for semelhante à da eleição de 2001, 50,29% do eleitorado nem sequer irá votar. Seja inteligente. Resolva este assunto à 1ª volta. A ameaça de ouvir Mário Soares durante mais duas semanas também deveria ajudar.

---

* Título descaradamente inspirado nestes dois artigos do Bz n'O Insurgente, ainda que não à altura das dimensões financeiras destes originais.

Demonstração de inteligência (saloia)

Recepção calorosa de Cavaco em Coimbra marcada por incidente

A «arruada» desta quarta-feira de Cavaco Silva em Coimbra, uma das melhores de toda a campanha, foi marcada por um incidente envolvendo jovens apoiantes e três manifestantes com uma faixa negra chamando «fascistas» aos «cavaquistas».

(...)

De repente, começaram a ouvir-se assobios quando três jovens tentaram erguer uma faixa negra onde se lia: «Todos os porcos capitalistas votam Cavaco porque são fascistas».
---

Nota: Segundo os critérios que delineei aqui, Cavaco poderia efectivamente ser considerado um "fascista" já que é, ele próprio, um socialista. No entanto, mais uma vez, os estatistas voltam ironicamente a criticar-se a si mesmos, demonstrando a sua ignorância ao tornar a confundir socialismo com capitalismo.

Apenas a 1500 anos-luz




[clicar na foto para saborear em tamanho ampliado]

Hubble Panoramic View of Orion Nebula Reveals Thousands of Stars

In one of the most detailed astronomical images ever produced, NASA's Hubble Space Telescope captured an unprecedented look at the Orion Nebula. This turbulent star formation region is one of astronomy's most dramatic and photogenic celestial objects. More than 3,000 stars of various sizes appear in this image. Some of them have never been seen in visible light. These stars reside in a dramatic dust-and-gas landscape of plateaus, mountains, and valleys that are reminiscent of the Grand Canyon. The Orion Nebula is a picture book of star formation, from the massive, young stars that are shaping the nebula to the pillars of dense gas that may be the homes of budding stars.

Wednesday, January 18, 2006

Progress(ism)o



(no Tau-Tau, via Blasfémias)

Questões a frases-comuns

O que é o bem comum?

Quem define o que é o bem comum?

Quem tem a autoridade para o definir?

Como determiná-lo e provar que é melhor do que todas as outras opções?

Que razões temos para acreditar que a tentativa de satisfazer um interesse colectivo será mais bem sucedida do que a soma da satisfação de milhões de interesses individuais?

Que métodos são permitidos para o alcançar e como testar a sua eficácia?

Em que é diferente uma ditadura de um regime em que uma pessoa ou um grupo de pessoas definem, independentemente da forma, o que é o "bem comum"?

Porque devemos acreditar que essa pessoa (ou grupo de pessoas) não está (ou não estão) a defender os seus próprios interesses com a tomada de directivas?

Nação, Estado, «Bem comum»

O dia dos dois patinhos de José Manuel Moreira

O que distingue o pequeno do grande político é que este sabe que a verdadeira realidade é a Nação e não o Estado.

(...)

A anunciada falência do sistema de segurança social é apenas o último contributo para o fim do mito do futuro garantido pelo Estado. O mito do Estado perfeito. Ora um Estado é perfeito quando, atribuindo a si mesmo o mínimo de vantagens imprescindíveis, contribui para que a Nação se aperfeiçoe, ao encontrar instituições que consigam favorecer o máximo rendimento vital (vital, não só civil) de cada cidadão.

Foi a substituição de um Estado favorável ao bem comum por um Estado comprometido e participante activo na concertação de interesses, que levou ao progressivo alheamento da vida política de quem tem espírito de árbitro e atraiu os especialistas em batota.

(...)

O bem comum não coincide com o interesse público, que é o interesse do Governo, o qual pode inclusive ser contrário àquele. Daí a tensão entre os interesses dos indivíduos e os interesses do Governo. O que justifica o velho costume inglês de considerar o Governo como representando um interesse oposto ao do indivíduo. Explica-se assim o previsível equilíbrio entre os dois lados – alegre e triste – da votação nos candidatos socialistas.

(...)

O que distingue o pequeno do grande político é que este sabe que a verdadeira realidade é a Nação e não o Estado (ou o Governo). Daí que a grande política seja sempre, em certo sentido, "conservadora". Visando preservar a saúde e vitalidade da sociedade civil, não os interesses de quem vive a partir do Estado.

Tuesday, January 17, 2006

Dúvida

Por que razão criticam tanto os comunistas os outros regimes ditatoriais? Será que, como bons seguidores da doutrina marxista, que vê o evidente perigo colocado pelo mercado, também desejam apenas para si o monopólio dos totalitarismos?

A é A, assim como Bush é Bush

Recentemente, recebi um e-mail de um colega meu que estuda Ciência Política e Relações Internacionais no qual este me alertava para que ao pesquisar no google por "failure", se podia ver, ao clicar em "Sinto-me com sorte", esta página da Casa Branca com a biografia de George W. Bush.

Muito gracioso, de facto. Confesso que de início toda esta panóplia de chalaças sobre o presidente americano poderia fazer o seu sentido, coisa típica da sátira política. Quem já viu programas como o Contra-Informação sabe do que estou a falar. Podem surgir sátiras com Bush como visado mas também é frequente que se goze com a ideologia marxista ou se critique o clientelismo dos restantes partidos políticos. Em geral, na sociedade, isto não acontece. Uma piadinha sobre Francisco Louçã é normalmente vista com desinteresse e frequentemente com incompreensão, quer da piada em si, quer pela razão da piada. É praticamente impossível fazer graçolas com comunistas uma vez que se é quase de imediato apontado como fascista e inimigo dos pobres. Já a mínima observação mordaz acerca de George W. Bush - por exemplo, dizer que se parece a um símio - causa risota pegada durante vários minutos. Não tem de ser uma ironia com lógica, basta que seja qualquer coisa entre o escatológico e o visceral, tem efeito quase instantâneo.

Como se pode ouvir/ler regularmente, o próprio Geroge W. Bush é apontado diversas vezes como fascista, tendo também merecido a comparação a Adolf Hitler, a forma mais fácil de fazer política. O mais irónico, embora, desta vez, sem qualquer objectivo directo de ironia, é que esta gente consegue acertar mais ou menos no alvo ainda que não seja a sua principal intenção. Ao criticarem George Bush, hiperbolizando as expressões utilizadas, acabam por se ridicularizar a si mesmos.

De um certo prisma, Bush pode realmente ser considerado um versão de fascista. Basta que nos lembremos de análises acerca do gasto público, que o comparemos a anteriores presidentes dos EUA ou que leiamos por aqui algumas coisas. Se não quisermos ir tão longe, podemos dar uma vista de olhos ao que diz o Andrew Sullivan no Sunday Times de há uns meses atrás. Com tantas credenciais, começa a parecer natural que alguém o chame de fascista. Mas porque haveriam os verdadeiros fascistas de chamar fascista a George Bush, como se isto, porventura, até fosse uma coisa insultuosa? É evidente. Eles não fazem a mínima ideia do que é o fascismo. É por essa razão que não percebem que se estão a denegrir a si próprios.

Esta pequena rábula faz lembrar as já tradicionais afirmações de Jerónimo de Sousa em referência às políticas de direita (hoje, mais uma vez) dos sucessivos governos do Partido $ocialista. Em Portugal, realmente, a direita dificilmente se distingue da esquerda em termos de política económica. Assim sendo, é natural que Portugal seja um país socialista, ou seja, de "políticas de direita", que apoiam e até estimulam a existência de um Estado interventivo e proteccionista.

À semelhança do caso de Bush, o autor das críticas aponta falaciosamente como defeito algo que ele próprio defende (mais) avidamente, ainda que mascarado por uma capa semântica de conceitos aparentemente distintos mas essencialmente iguais.

Monday, January 16, 2006

Fascistas!

Ainda ninguém ouviu outra pessoa a ter este reflexo ao ver aquela nova publicidade da Portugal Telecom?

Saturday, January 14, 2006

Presidenciais

Candidatos de esquerda (Sérgio Figueiredo)

"Quando falaram de privatizações e de sectores estratégicos. Como a água. Em que Alegre chegou a dizer que era caso para o Presidente derrubar um Governo. E Cavaco alertou, várias vezes, para «o perigo» de o Estado «perder o controlo» deste «bem essencial». Como se fossem parar às mãos de Osama bin Laden.
(...)
Os debates foram sonsos porque os candidatos não exibem diferenças de fundo, não questionam o sistema e escapam-se deliberadamente da questão essencial: basta mexer nas regras do sistema ou será preciso mudar o sistema por inteiro?

Todos estão, claramente, no primeiro registo. Incluindo Cavaco. Por isso também não espanta vê-lo, já esta semana, explicar neste jornal porque pensa que a legislação laboral não é obstáculo à competitividade nacional.

E, dois dias depois, ver Mário Soares concordar na defesa da Constituição tal como está. Fazendo ambos uma apropriação, porventura mais surpreendente, da bandeira do candidato comunista.

(...)

Está dito que se discutirão as vírgulas do Código de Trabalho, quando é preciso mudar o paradigma nas relações laborais. Está dito que se prefere discutir público-versus-privado, quando há que rebentar primeiro estas regras do jogo."


Cinco ou seis candidatos de esquerda (Luísa Bessa)

"Bem sei que a tradição diz que disputam estas eleições um candidato de direita e quatro (mais um) de esquerda. Mas não pode ser verdade. Quando acabei de ler a entrevista de Cavaco Silva ao Jornal de Negócios concluí: Este homem é de esquerda.

Logo, confirma-se a tendência saída das legislativas de Fevereiro de 2005. O país virou tanto à esquerda que agora só mesmo quem vem dessa área política tem coragem de se candidatar à Presidência da República.

Pois não é que Cavaco é de opinião que a legislação do trabalho não é um grande obstáculo à competitividade, com excepção, talvez das pequenas e médias empresas.

(...)

Veja-se por exemplo como entre Cavaco e Soares de novo as diferenças são mínimas na defesa da manutenção dos centros de decisão nacionais das empresas de sectores estratégicos, com a manutenção das «golden shares» até onde for possível segundo Cavaco, que não quer ser «ingénuo» como «alguns economistas»; contra «a estratégia externa para dominar certos sectores», em versão Soares."


O dever do próximo PR (Tiago Mendes)

«Hoje, o dever do próximo PR é simples: contribuir para a “autonomização” do cidadão perante o Estado. O português médio é uma criança que vive à sombra do pai-Estado. Depende e gosta de depender dele. Mais: não pondera que isso possa algum dia mudar. Fala – sempre confiante e em alta voz – nos “direitos adquiridos”. No que concerne à esfera económica, esta forma de pensar enferma de um erro básico: pensar na riqueza como um “dado garantido”. Sucede que a riqueza precisa de ser criada para poder ser redistribuída. Não cai do céu. É estranho que para muitos candidatos presidenciais isto seja tão incompreendido, passadas que estão quase duas décadas sobre 1989.

(...)

Por isto, o próximo PR deverá deixar uma mensagem simples a cada português: “não perguntes pelo que o país pode fazer por ti, pergunta pelo que tu podes fazer por ti próprio”.»