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Friday, January 06, 2006

The Woman in the Red Dress

Depois das interessantes declarações em que Jerónimo de Sousa confessava que não era em Louçã que pensava quando ia para a caminha e que a imagem de Cavaco Silva em Belém o impediria de dormir calmamente nas frias noites portuguesas, vem agora a público esta notícia bombástica em que J. de Sousa denuncia as mordidelas que tem sofrido por parte de Francisco Louçã.



Alguém tem sugestões acerca de como isto irá acabar?

¿Hablamos el mismo idioma, no?




«El presidente electo de Bolivia ha declarado respecto a la entrada del grupo Prisa en ciertos medios de comunicación bolivianos, que este grupo "parece el jefe de campaña del MAS" –Movimiento al Socialismo–, el partido del propio Morales.»

Thursday, January 05, 2006

Jerónimo no seu melhor

Reparem bem na habilidade com que Jerónimo de Sousa responde à entrevista no DN [os sublinhados e os comentários entre parêntesis rectos são evidentemente meus]:

[O Admirável Mundo Novo visto pelo PCP]

Preferia que Portugal tivesse permanecido à margem da Europa?

Preferia que fosse construída outra Europa, bem diferente. Uma União Europeia de povos e países iguais, que tenha como base de construção a coesão económica e social.

[Ele acha que não mas não pode dizer por isso foge à pergunta e não responde. Jerónimo de Sousa nega também que a China esteja a adoptar uma economia de mercado. Note-se que no fim ele não repudia o modelo chinês, apenas se apresenta convicto de que não será o ideal para Portugal...]

A China é um país que oprime os trabalhadores?

O PCP e a China estiveram de relações cortadas durante muitos anos. Houve entretanto um processo de aproximação, de estudo e avaliação. Eles insistem na ideia de que podem construir o socialismo. Mas tenho a profunda convicção de que o modelo de sociedade que desejo para Portugal nunca será igual ao modelo da China.
[Novamente, ele acha uma coisa mas não o pode dizer à imprensa. À semelhança da questão anterior, foge à pergunta. Mais uma vez, não denuncia a ditadura norte-coreana e apenas apazigua o/a jornalista relativamente à sua aplicação em Portugal.]

Há liberdade num Estado comunista como a Coreia do Norte?

Acompanho o que se está a passar na Coreia do Norte. Quanto à forma como o partido [comunista] coreano age, tenho as mesmas - ou até mais fundadas - ideias de que não transportaremos aquele modelo para cá.


Para uma crónica que é apelidada pelo DN de "directo ao assunto", esta entrevista deixa muito a desejar...



Que saudades do Grande Timoneiro!

Grunhidos na bruma III

(cont.)

7.

* O direito de propriedade é um direito natural. Se um desconhecido entrar em minha casa, certamente pensarei que é um ladrão porque ele estará em minha propriedade sem a minha permissão ou consentimento, não o conhecendo eu de lado nenhum. A menos que ele esclareça rapidamente a situação, não terei outras razões para não considerar que se trata de uma invasão de propriedade. Se eu lhe pedir a si que me adicione como administrador do seu blogue qual será a sua reacção? [Recorde que sendo administrador do blogue o poderia retirar da lista de colaboradores]


* Essa teoria do comunismo primitivo é muito interessante mas confunde colectivização com cooperação. O facto de que os bens fossem escassos, forçando as pessoas a colaborar com maior proximidade, não significa que a noção de propriedade privada não existisse. À semelhança de qualquer outra sociedade, estas tribos, provavelmente, funcionavam como uma família em que cada membro tenta fazer a sua parte para manter a sua subsistência e a do grupo, recebendo em troca o fruto do trabalho produzido pelos outros. Não passam de meros contratos. Todavia, dificilmente podemos esperar que se a tribo B tentasse roubar o stock de carne (assumindo que há um) da tribo A, esta não o defendesse com unhas e dentes. Extrapolar das difíceis condições de sobrevivência dos humanos primitivos que o direito de propriedade não existe é obra. Só que fazê-lo de uma forma tão simplista deixa que aspectos como a impossibilidade de ter um pensamento uniforme em todos os seres, a escassez de recursos, e a própria necessidade e vontade em estabelecer contratos de mútua cooperação com os restantes indivíduos não sejam tomados em devida conta.


* A maior prova de que a social-democracia não respeita o direito de propriedade é o facto de que o não-pagamento de impostos constitui um crime legal. Se eu decidir não pagar IRS, IRC ou me recusar a pagar a taxa de IVA que acresce ao valor de cada produto, arrisco-me a passar a ver o sol aos quadradinhos. Os impostos funcionam, sim. Mas com uma pistola apontada à cabeça.


* Quanto à minarquia, eu não disse que ela respeitava inteiramente os direitos de propriedade. A outra questão, relativa aos neoliberais, terá de lhes ser feita a eles. Ainda assim, não compreendo como é que conclui tão habilmente que forças policiais e militares não podem coexistir com um total respeito pela propriedade privada.


8.

* Sim, numa sociedade liberal está. Volta a confundir novamente liberalismo com autoritarismo. O liberalismo é precisamente acerca da ausência de controlo, nomeadamente dos meios de comunicação. Cada cidadão é perfeitamente livre de emitir a sua opinião. Cada cidadão ou grupo de cidadãos é perfeitamente livre para criar uma entidade de imprensa que divulgue as suas opiniões. Essa coisa de "tudo controlado por [inserir grupo social aqui]" apenas faz sentido em locais onde a liberdade de imprensa é restrita, ou seja, em países de tendências não-liberais. O mesmo se aplica à crítica relacionada com o monocromatismo e uniformidade da sociedade. Esse nunca pode existir. Incrivelmente, a igualdade (completamente aberta a interpretações) é uma das grandes bandeiras da esquerda por isso, acho que está a criticar as posições políticas erradas.

* O espírito economicista, que parece ser criticado com essa afirmação do "lucro e propriedade", é fruto daqueles que vêem o ser humano como um número. Ora, muitos liberais não vêem o ser humano como um número nem são eficientistas e/ou economicistas. Se o fossem, provavelmente defendiam a clonagem ilimitada de seres humanos para ter mão-de-obra apta para a escravatura a troco de pão e água. Não há forma mais fácil de aumentar a produtividade.

* Criticar a idealização de um hipotético regime liberal para depois falar em poder absoluto de forma a concluir que se trata de uma utopia muito arduamente pode constituir uma argumentação válida. Poder absoluto e liberal não quadram nada bem.

9.

* Trocar 90% por 98% a meio de uma piada é como começar a contar uma anedota de loiras, acabando por dizer a meio que ela era morena. E no fim que era ruiva.

* Essa teoria sua de que os media portugueses são liberais é interessante. Devo confessar que nunca vi liberais tão estatistas na minha vida.

* Não sei se o Rui é grunho mas ao menos o seu blogue é. O contexto da minha outra resposta foi precisamente esse. O Rui também não citou o meu nome ao longo da sua crítica mas sim o nome do meu blogue. De qualquer modo, se se assumir definitivamente como grunho, diga-me. Esta discussão revelar-se-á completamente inútil.

10.

* Se as multinacionais praticam métodos de dumping, isso não é benéfico para os consumidores que passam a dispor indirectamente de maior poder de compra, devido aos preços mais baixos? Tendo mais dinheiro disponível, há maior facilidade em adquirir outros bens (o que representa um investimento directo) provenientes de outras companhias. A concorrência destas multinacionais poderá sempre baixar os seus preços de forma a conseguir competir com as suas maiores rivais. A única razão para que este mecanismo não funcione é a existência, como eu dizia, por exemplo, de um salário mínimo ou de leis laborais rígidas. Num determinado local, mesmo que os custos empresariais necessitassem de ser reduzidos, o ordenado recebido por cada um dos trabalhadores da empresa apenas representaria quão valorizada é a sua actividade no mercado de trabalho. Um género de mecanismo que não tome isto por natural, acabará por dar origem à falência de diversas empresas, já que é impossível manter os custos quando há mais despesa do que lucro. O que a mim me parece é que o B. (adopto a mesma nomenclatura) não é um país nada liberal.

* A transferência destes serviços para a China/Índia/Cabo Verde/Inglaterra (interessante colocar a Inglaterra neste grupo) parece-me perfeitamente natural e aceitável. Fala-me de exemplos relativamente à IBM, Microsoft, BMW, PT, etc. Agora imagine os custos de tudo isto se estes componentes de hardware, software, etc. fossem produzidos em mercados europeus, por exemplo, com todo o custo socialista que isso acarreta. Os computadores e todos os outros produtos de tecnologia estariam acessíveis apenas a um grupo muito restrito. Não sei se já reparou mas todo este avanço tecnológico aumenta as possibilidades de emprego. A redução de todos estes custos de produção beneficia o consumidor que, a um preço extremamente baixo, pode actualmente fornecer-se com componentes electrónicos que há 5 anos atrás nem sequer existiam. As sociedades evoluem. Na sua teoria megalómana da redução do poder de compra, esquece-se de que há trabalhos que são sempre necessários localmente e que uma sociedade evolui no sentido da especialização da mão-de-obra à medida que os seus cidadãos possuem cada vez mais qualificações, o que gera muito mais oportunidades de emprego.

* A deslocalização das empresas para solo estrangeiro tem como efeito primário a redução dos custos produtivos e a diminuição dos níveis de pobreza do local onde a multinacional se decidiu instalar. Muita gente acha condenável que se ponham crianças a trabalhar nos países subdesenvolvidos. Isso pode facilmente ser resolvido. Retiramos todas estas companhias dos países que estão a ser "explorados" e passamos a ter produtos 100 vezes mais caros (a grade maioria de nós não poderia trabalhar sequer) e os empregados destas empresas passariam a sobreviver novamente da agricultura de subsistência, como nos bons tempos neolíticos. Fica resolvido o problema das deslocalizações, a custo de recessão económica e continuação da pobreza extrema. Que importa isso?

* Ainda assim, imaginando, como diz o Rui, que as pessoas deixavam de ter dinheiro para suportar tais produtos, a empresa passaria a não ter grande razão de existir porque a produção em massa tem precisamente como objectivo chegar a um maior número de gente. Observar-se-ia a uma queda brusca dos preços ou então, à extinção de uma empresa que se tinha tornado desnecessária e inapta a competir no mercado. No entanto, se nesses taís países onde agora só haveria desemprego (Europa e EUA, presumo), talvez as pessoas devessem reconsiderar o valor pelo qual estão dispostas a trabalhar. A grande falha do seu raciocínio é considerar que a deslocalização cria desemprego mas esquecer de colocar na equação o facto de que a importação de bens que valorizamos mais, a um custo menor, gera uma maior acumulação de capital e, a partir daí, novas e melhores possibilidades de investimento, o que, a seu tempo, se transformará em oferta de emprego.

* Se, na sua teoria, há cada vez mais desempregados na Europa e nos EUA, o que os impossibilita de comprar os produtos gerados pelas multinacionais, que razão o leva a dizer que as multinacionais ficarão cada vez mais prósperas?

11.

* Uma resposta satírica a uma crónica satírica teria ficado mal. Logo, optei, como é possível ver, por optar pela via do menor sarcasmo possível.

* Eu até acho que teve mais piada ter dito metros quadrados. Eu, ao menos, sorri ao imaginar uma área de gás. Se não queria ter usado unidade de capacidade, podia ter usado de volume. São igualmente válidas. 1 litro (l) = 1 decímetro cúbico (dm^3).

* Não se exceda com os orgulhos pessoais, eu sou apenas um leitor atento aos detalhes.

12.

* Isso significa que, por analogia, a minha resposta se encontra ao nível de uma tese de mestrado/doutoramento? Obrigado pelo elogio.

* Os blasfemos costumam usar argumentação lógica, que é coisa que normalmente escasseia bastante. Não sei onde é que o Rui a viu como insulto e reveladora de intolerância. Espero que o facto de que tenham uma "opinião" diferente da sua não o leve a dizer isso, como o fez comigo. Em particular, o João Miranda tem uma paciência infinita.

* Não entendi se a segunda parte era dirigida a mim ou aos blasfemos.

* Alguém lhe disse que não tinha o seu direito a expressar-se livremente? O facto de que o critique(mos) impede-o de escrever ou opinar? Tentei apoderar-me (ou tentaram apoderar-se) do seu blogue para impedir a possibilidade de liberdade de expressão que lhe é fornecida pelo Blogger? Porque se preocupa tanto como o seu direito de expressão se acha que o direito de propriedade não é natural?

Já agora, caro Rui. É liberal, mesmo, sem aspas. Não é "liberal".

Grunhidos na bruma II

oGrunho O [Dr.] Rui Martins parece ter gostado bastante da minha resposta, ao ponto de ter comentado extensamente aquilo que eu havia dito relativamente ao Blasfémias. Como já consegui sair da fase de pós-trauma psicológico em que entrei, após ter descoberto que, afinal, o Dr. Rui Martins não era presa fácil, deixo aqui a minha resposta, ainda abalado por tão recente choque. E eu que até já tinha preparado as minhas crias para comer esta semana. Raios.

1.

* Obviamente que o liberalismo não detém a exclusividade da defesa da liberdade. Aliás, essa monopolização seria contrária aos seus princípios. Como é evidente, todos defendem a liberdade. Os comunistas defendem a liberdade de se tornarem donos de todas as propriedades do país. Os fascistas defendem a liberdade de controlar a economia e os nazis, provavelmente, defendem a liberdade de mater judeus à descrição. Peço desculpa, quando disse defender a liberdade, referia-me mesmo à liberdade. Não nos deixemos enganar. Os socialistas clássicos, num regime que não lhes é favorável, aparecerão sempre como mártires, à semelhança dos comunistas durante o período salazarista. Com estas distorções a fazer lembrar newspeak, até podemos dizer que é natural que um nazi morresse na URSS por "defender a liberdade". Qualquer ideologia política, independentemente da veracidade dos seus postulados, defende sempre a liberdade de expressão relativa a si mesma. Isso não significa que defenda a das outras, coisa acerca da qual o liberalismo não faz distinção.


2.

* Uma chalaça que não tem coerência e sentido falha o seu objectivo mais evidente. Ou então, tem como público-alvo aqueles que não têm capacidade de detectar as suas contradições lógicas. É um pouco como ver um filme em que o som se propaga no espaço como se existisse matéria; estraga a sessão. Por outro lado, o objectivo pode ser puramente denegrir a imagem de qualquer coisa junto daqueles que não estão bem informados. Talvez seja esse o caso.


3.

* Os habitantes da Utopia de Thomas More dificilmente poderiam ser humanos. Por isso é que a obra tem o nome de Utopia.


4.

* O facto de um filósofo, ou qualquer outro ser racional, questionar algo não significa que esse aspecto seja ou não necessariamente verdadeiro. Os próprios filósofos são conhecidos não por dar respostas mas sim por fazer perguntas. Logo, dizer que há filósofos que questionam a existência de direitos naturais é completamente irrelevante. Também há filósofos que questionam a própria existência do Universo. Anaxímenes de Mileto dizia que o ar existia em tudo. Como a ciência viria a provar, Anaxímenes tinha era ar a mais no cérebro.

* Os seres humanos têm direitos assim como os outros animais têm. A possibilidade de discutir esta existência a um nível intelectual, caso dos humanos, não invalida que estes não possam existir com referência a espécies que não tenham capacidades para o fazer. Se os direitos naturais não fossem uma realidade, mas sim resultantes de uma eventual imposição artificial, poderíamos entrar livremente na toca de diversos animais sem esperar ser atacados. Ou tentar matá-los, o que deveria suceder com facilidade. Ora, como isso não acontece e não me parece que os lobos, ursos, etc. tenham filósofos entre eles como Locke para os "enganar", dizendo que eles têm direitos naturais (incluindo o de propriedade), a minha única conclusão possível é a de que os direitos naturais realmente existem, independentemente do seu reconhecimento por parte dos seres humanos.

* Não adianta comparar os direitos naturais dos humanos aos das formigas já que a constituição genética destas duas espécies é bastante distinta, o que origina diferentes comportamentos sociais. Isso não significa que as formigas, as abelhas e os chimpanzés não tenham os seus direitos naturais que, como é óbvio, podem ser ou não respeitados pelas outras espécies.


5.

* Não sou dono de nenhuma "Verdade" nem nenhuma pessoa o é. No entanto, quando se fala deste Universo é necessário entender que se fala deste Universo e não de outro ali ao lado (dispensam-se anotações sobre o oximoro). E, certamente, estas conclusões acerca da realidade partem de uma base sobre raciocínios lógicos, não de um "dogma". A "tese" de que a intervenção do Estado é sempre má é a conclusão, não a premissa. O Rui Martins ataca a existência de dogmas (que, de alguma forma, vê existirem na ideologia liberal) mas depois acaba por dizer que nem todos os dogmas são maus e que alguns até são essenciais. Nesse caso, qual é o critério geral usado para escolher os "bons dogmas"? Quem tem autoridade para escolher que dogmas devem ser aplicados? Porque é que o liberalismo, que não tem um manual de instruções com uma receita para a sociedade, constitui um dogma, quando para cada problema, não há uma solução central definida? Na sua análise dos factos, apenas vejo razão para criticar os dogmas socialistas do proteccionismo e da existência de impostos, já que estes evidenciam racismo/xenofobia e um agrado quase sádico pelo sofrimento alheio. Relativamente à questão do dogma em si, pela mesma ordem de ideias, podemos dizer que a existência de interacções electromagnéticas também constitui um dogma.

* Se eu não permitisse que o que eu digo fosse questionado não estaria a tentar explicar-lhe coisa alguma. Os dogmas não podem oferecer explicação, por isso mesmo é que são chamados de dogmas. A posição dogmática não é, por excelência, falar de uma constatação da realidade. Um dogma não tem base experimental. A constatação da realidade tem. Se, porventura, afirmarmos que a realidade é dogmática por si mesma, então tudo é um dogma e nada faz sentido na realidade. Nestes casos, um solipsista/idealista mais coerente tenderá a suicidar-se já que nem sequer encontra "indícios de provas" para a sua própria existência.


6.

* Não existem sociedades perfeitas porque o mundo não é perfeito nem nunca será. Dizer que um país deveria ser uma utopia porque teve (ou tem) um regime liberal pouco sentido faz porque o liberalismo, contrariamente a ideologias como o colectivismo ou o fascismo, não tem como objectivo propagandístico fazer algo em prol da "felicidade e bem-estar" da sociedade. Em termos práticos, é sempre em prol dos grupos que pertencem às instâncias governativas e aos beneficiados com as decisões destes mesmos. O que o liberalismo faz substancialmente é melhorar a qualidade de vida das pessoas pelo aumento da sua liberdade e pela possibilidade de produzir riqueza.

* O Rui Martins critica o nível de exploração que há, por exemplo, na China mas esquece-se que a China é um país que durante décadas esteve sobre jugo comunista, o que levou milhões de pessoas à morte e à pobreza extrema. Ora, isso pouco tem que ver com o capitalismo. Se começar a defender o irrealista "direito" dos chineses em não serem "explorados", estará a condená-los à manutenção de uma situação de pobreza contínua da qual não terão chances de sair. Eles certamente preferem trabalhar em condições horríveis e durante muitas horas para aliviar a sua condição praticamente insustentável. Com o passar do tempo, o nivel médio de vida destas populações e as suas qualificações aumentarão, o que conduzirá a uma redução dos números de trabalhadores a receber um salário quase insignificante em troco de extensivas horas de trabalho. Tendo em conta o enorme fluxo de gente proveniente do restante território chinês, o trabalho infantil que possa existir em Hong Kong não é muito surpreendente. Aquilo em que o Rui deveria pensar é a razão que levou e leva toda esta gente a fugir para Hong Kong (e de HK, quando a passagem para a administração chinesa se aproximava):

i) Legal immigrants from China

Since 1980, immigration from the Chinese mainland to Hong Kong was subject to tight control. A strict quota was set on the number of Chinese permitted to settle in the territory. The number was originally limited to 75 per day. It was gradually increased to 105 in 1994, and then 150 in 1995. Therefore at present, there is an annual inflow of about 55,000 legal immigrants from China, most of whom are actually dependents of Hong Kong residents living in the mainland and coming to the territory for family reunion.

(...)

v) Illegal immigrants

A total of 35,500 illegal immigrants from China were arrested and deported in 1994. The number had decreased as compared with a total of about 44,000 in 1993. When captured upon entry, they are immediately deported. If they are caught later when engaged in illegal employment, they are liable to 15 months in prison and fines of up to HK$5,000. Because of the stringent control, the size of the illegal immigrant population in Hong Kong is believed to be relatively small, probably not more than 20,000 at any one point in time.

* Políticas fixas quanto a salários baixos, trabalho infantil e horários laborais não fazem parte de um modelo liberal. Segundo a tal "doutrina liberal", devem ser as pessoas a determinar isso, não as administrações estatais. Para que não diga que isto se trata de um dogma, eu posso tentar explicar-lhe isso em pormenor se não entender porquê.

* Um monopólio não é necessariamente mau, se for atingido devido à aceitação que os consumidores têm pelos produtos ou serviços de uma dada empresa. Uma cartelização dos serviços numa sociedade liberal tenderia a entrar em ruptura já que, como a concorrência é livre, poderia sempre aparecer uma outra empresa que oferecesse uma melhor relação qualidade-preço aos seus clientes. Mesmo que esta empresa fosse incorporada nas corporações do cartel anterior, nada impediria que outra com o mesmo tipo de serviço reaparecesse. As empresas devem poder competir livremente pois quem mais ganha com isso é o consumidor.

(cont.)

Wednesday, January 04, 2006

Nasceu neste dia



Sir Isaac Newton, em 1643.


Lapsus linguae?

É como fugir aos impostos

[Referindo-se ao plágio académico]

"Temos, de facto, um ambiente permissivo e favorável à cópia. São as tais variantes de contexto que influenciam depois outros alunos. Isto é quase como fugir aos impostos."

É uma analogia interessante. Só é pena que seja completamente desprovida de sentido. Vejamos:

O estudante A copia o estudante B, sem o seu consentimento, roubando a propriedade de B (o produto do seu trabalho).

O contribuinte C foge aos impostos, evitando que roubem a sua propriedade. Voltando ao exemplo dos estudantes A e B, um caso paralelo seria:

O estudante B coloca o braço por cima da folha do seu exame para que A não possa copiar.

Eu dou uma pequena ajuda. Penso que o que Aurora Teixeira queria dizer era "Isto é quase como cobrar impostos". O ambiente é permissivo e favorável a isso.

Tuesday, January 03, 2006

Será do Guaraná?

Manuel Alegre disse em entrevista ao DN que se opunha a um monopólio privado da água em Portugal. Não disse, incrivelmente, nada acerca de um "eventual" monopólio da água por parte do Estado embora tenha feito questão de frisar que era contra a usurpação deste bem, quando feita por uma empresa! Pergunto eu, qual é a diferença que vê Manuel Alegre em tudo isto? Porque é mais temível um privado do que um estatal?

Temo que a resposta seja simples. Se a monopolização deste recurso for privada, o lucky bastard que estiver à frente da dita companhia precisa de pagar uma certa quantia ao Estado para que este garanta a sua subsistência como distribuidor único. Estas negociações estariam sujeitas a flutuações de interesses. Ao Estado interessaria obter uma bela maquia com este contrato e ao empresário seria conveniente que, através do cheque passado ao governo, a restrição do mercado fosse efectiva. No entanto, já que a empresa seria poderosa, a sua posição em futuras negociações seria cada vez mais influente e as quantias dispensadas poderiam vir a diminuir com alguma consideração, não garantindo qualquer fundo constante para os pobres políticos que se cansam demasiado durante o dia, entre papéis e acesas discussões acerca de qual será o imposto a ser introduzido que mais rentabilidade trará aos seus ordenados.

Claramente, uma gestão pública da água é uma autêntica via verde porque o Estado decide quanto cobrar. Que astuta forma de gerar rendimentos. Quero dizer, defender o bem-comum e os bens essenciais à vida.

"O Estaline era um gajo porreiro!"



Por incrível que possa parecer, um colega de universidade disse-me isto. Eu sabia que ele era comunista mas pensava que os próprios comunistas já tinham deixado de elogiar o regime soviético porque lhes dava má imagem. O muro de Berlim já caiu em 89 mas a geração que não o viu cair, ou era demasiado nova para se recordar das suas implicações, é completamente descomprometida da necessidade de justificar os dilemas das utopias do passado. Não com pouca frequência se vê algum jovem irreverente com um discurso político que, em termos ideológicos globais, só faria sentido nas décadas anteriores à Guerra Fria.

Deveria pensar-se que um comunista dos tempos actuais (devendo já ter seguido o processo tradicional dos seus camaradas, abandonando as ideias da sociedade sem classes para abraçar a social-democracia) que esboce com um ar nostálgico ao recordar os "grandes feitos" da URSS, transmitirá a ideia contrária daquela que pretende visto que o regime soviético foi um dos mais repressivos de que há memória. Estaline e seus colaboradores assassinaram, directa ou indirectamente, milhões e milhões de pessoas. Incrivelmente, não só há gente que nega todos estes factos como existem aqueles que continuam a idolatrar Estaline. Grande culpa possui a ignorância histórica (muita dela politizada) que reina em Portugal. O desconhecimento de diversos aspectos sobre a História Universal impede que estas declarações lunáticas sejam travadas de imediato. Pelo contrário, se alguém disser, que Estaline foi um grande estadista, é provável que ninguém reaja. A mesma situação, substituindo Estaline por Hitler, levantará, no mínimo, um reflexo de confirmação («O quê?») acompanhado de uma indignação, por muito leve que seja.

Não é, portanto, de estranhar que este meu colega defendesse Estaline, assim como Fidel Castro, tentando depois insinuar que George W. Bush era muito pior, para além de ser um fascista da pior espécie. Provavelmente nunca ninguém lhe havia dito que Estaline não caberia sequer na designação de serial killer mas sim de mass murderer. Quando se lhe falava de gulags, desviava o olhar e também o assunto. A única coisa em que não pude deixar de reparar foi que, ao longo de tantos anos, provavelmente, aquele discurso de idolatria ao líder do grande paraíso soviético não tinha sido questionado por ninguém com quem ele se houvesse cruzado.

A situação não é muito diferente a nível geral, no meio científico, devido a uma alergia incutida contra as humanidades. As estruturas e os conteúdos programáticos esquematizados à força pelo Ministério da Educação ditam que o curso de humanidades deve ser separado do científico-natural. Em países como Espanha ou Inglaterra, um aluno do ensino secundário pode ter disciplinas distintas como física e história, ou química e economia/gestão, a título de exemplo. Em Portugal, a divisão é forçada mal se acaba o 3º ciclo, tendo o aluno de escolher um agrupamento específico, excluindo a priori as disciplinas de todos os outros cursos de ensino secundário. Esta situação gera efemeridades interessantes como um colega meu que, ainda que tendo 20 a matemática, julgava que Viriato era alguém que tinha combatido os mouros nas Astúrias. Quando se falava de história ou literatura, todos começavam com expressões faciais de repúdio às humanidades (como se fosse possível generalizar) dizendo que, certamente, nos tínhamos enganado no agrupamento. Esta separação artificial, para além de considerar que um aluno que gosta de biologia gosta de física ou que um que gosta de sociologia prefere o latim à matemática, estimula um certo elitismo académico que acaba por degenerar em distanciamentos escolares e efectivos de matérias importantes para as quais até poderia existir um certo interesse natural. Quando se tem amigos do outro lado da "barricada" (neste caso, humanidades), torna-se por vezes difícil o contacto porque, em discussões de um teor mais filosófico acerca de áreas do conhecimento, nos olham de uma forma diferente. Mais de uma vez fui confrontado com o poderosíssimo argumento «vocês, gajos de ciências!...», em resposta a uma qualquer discordância no meio de um debate. É fácil imaginar o sentido que pode levar uma conversa assim. O facto que desejava frisar é o de que este tipo de separação abre alas para uma ignorância generalizada em diversos ramos do conhecimento que, só por si, já é grande. Assim, e com a ajuda do sistema educativo, é fácil encontrar um físico marxista (...), um economista que confunde astronomia com astrologia ou um linguista que não sabe o que foi o Big Bang. Em qualquer das situações, o caso é muito grave mas no caso da ignorância histórica/política/económica, abre-se um caminho que afecta não somente o indivíduo em questão mas também a sociedade, já que o destino político comum acaba por ser decidido pelo conjunto dos eleitores.

Tendo em conta todas estas razões, eu não deveria ficar absolutamente estupefacto quando leio coisas deste género, vindas de pessoas que reclamam usar a razão a título diário:

"It is tempting for historians of science to make generalizations, as the title of this book – Stalin's Great Science – suggests. But where this particular book works best is in describing the adventures of individual physicists who laboured under the Soviet regime. Through a series of biographical sketches and amusing anecdotes, Alexei Kojevnikov, a historian at the University of Athens in the US, has produced a colourful portrayal of physics in the former Soviet Union."

Movido em parte pela curiosidade, em parte pelo espanto relativo ao título - "Stalin's Great Science" - tentei procurar mais informação sobre o mencionado livro. Nas palavras da editora:

"In the process of making sense of the achievements of Soviet science, the book dismantles standard assumptions about the interaction between science, politics, and ideology, as well as many dominant stereotypes — mostly inherited from the Cold War — about Soviet history in general."

Acabei por encontrar a versão completa da crítica (Gennady Gorelik) que foi anunciada na PhysicsWeb. A certa altura, o texto confirma as minhas suspeitas:

«The key aim of the book is to challenge what the author calls “one of the main postulates of post-war liberalism”, namely that science can only function properly in a political democracy. Kojevnikov wants to show that this is not true, using Soviet physics as a counter-example. Moreover, he tries to prove that Soviet ideology helped to bring about some novel physical ideas. Indeed, Soviet ideology was somehow responsible for the most influential Russian contribution to the history of science: Boris Hessen’s 1931 paper “The social and economic roots of Newton’s Principia”, which revealed new – external – dimensions to science as a social being.»

(...)

«In Kojevnikov’s view, Friedmann’s proto Big Bang cosmology was inspired by the “big bang” of the 1917 Soviet revolution.

(...)

Where Kojevnikov is “sufficiently confident” is that the physics of collective phenomena – from phonons to superfluidity – is indebted to “Soviet and, more generally, socialist thought”.

(...)

One indisputable advantage of a Stalinist regime – such as we have in North Korea today – is that it can spend money on any high-priority issue (including physics) without any debate or cost–benefit analysis, regardless of the population’s needs. »

Este tipo de dialéctica e conclusões, quase em jeito de desresponsabilização do regime estalinista por todas as suas atrocidades, acaba mesmo por levar o leitor a pensar que este foi bom para a ciência e esta até se encontra em dívida para com o socialismo. Como se pode ver no primeiro parágrafo desta crítica, o autor do livro tenta destruir o mito (?) de que a ciência só pode ser feita em regimes democráticos. Isto, só por si, é gravíssimo. Ninguém pode assumir à partida que assim o é, porque o processo criativo nasce do indivíduo, não do regime. Quem faz a ciência são os cientistas, não os governantes, o que implica que descobertas científicas podem ser realizadas em qualquer tipo de regime, incluindo os totalitários. Quando alguém aparece a dizer, quase em jeito de desculpa, que a ciência *também* é possível fora de países democráticos dando como exemplo algo da estirpe da URSS, há algo que não está bem. Estas pessoas acreditam que a ciência é um processo colectivizado e totalmente dependente do Estado ou simplesmente nutrem um amor tão intenso pela ditadura do proletariado que chegam a defender aquilo que ultrapassou a barreira do que é defensável.

Por ignorância, influência da comunicação social e puro interesse pessoal a nível político, creio que estas duas condições se verificam em harmonia e simultâneo na maior parte dos casos. Casos que chamaria de clínicos. E perigosos.

Monday, January 02, 2006

¡viva la ROBOlución!

Ora bem, todos nós sabemos que Cuba tem o melhor sistema de saúde do mundo. É inquestionável, até porque há sempre aquele primo afastado da irmã da cunhada do sobrinho do vizinho da tia Joaquina que foi a Cuba para ser operado pois o sistema de saúde é dos melhores do mundo e não há medicos como os de Cuba. Como confirmação dessa evidência que, de tão óbvia que é, quase não necessita de ser demonstrada, sempre nos apontam os dados da percentagem do PIB que o grande governo cubano investe no seu sistema de saúde. (A par destas maravilhas, só mesmo o sistema educativo cubano, devido ao qual a taxa de analfabetismo é, obviamente, 0%).

Como prova da superioridade divinal deste sistema absolutamente estatizado, deixo aqui algumas fotos que certamente esses capitalistas ganaciosos que andam por aí terão de explicar. Sim, porque eles dizem que esta coisa do serviço ser excelente e grátis é mentira! Ora vejam:







Como é óbvio, se alguma vez tiver de ser hospitalizado de urgência, é aqui que quero estar!

Mas há mais! Estes capitalistas pró-americanos gostam sempre de inventar que Cuba mantém rotas e edifícios específicos para os turistas para que estes não possam ver o estado real em que Cuba se encontra. É tudo mentira! Observe-se bem, por exemplo, a semelhança incontestável entre as casas de banho de algumas localidades:



Hotel Nacional



Universidade de Havana (professores)



Hotel Havana Livre



Universidade de Havana (alunos)

American Beauty

Nos EUA, esse país da grande desigualdade onde a sociedade é dividida entre ricos e pobres e há mais sem-abrigo por metro quadrado de que em qualquer outra parte do mundo (tirando Hong Kong, o excelso cume do capitalismo selvagem onde as condições são tão horríveis e bárbaras que os bebés, quando nascem, começam a chorar), saíram recentemente umas estatísticas interessantes acerca do rendimento médio das famílias, comparativamente aos anos 70:

THE AMERICAN DREAM IS ALIVE AND WELL

Since the 1970s, most families have experienced a rapid growth in their income and wealth

(...)

* In 1967, only one in 25 families earned an income of $100,000 or more in real income; today, one in six do.

* The percentage of families with an income of more than $75,000 a year has tripled from 9 to 27 percent.

* The percentage of families with real incomes between $5,000 and $50,000 has been falling as more families move into higher income categories -- the figure has dropped by 19 percent since 1967.

This shows that upward mobility is the rule, not the exception, in America today, says Moore and Lincoln; therefore, the middle class is not shrinking, as previously thought, but is getting richer:

* In 1967, the middle-class income range was between $28,000 and $39,500 a year, now that range is between $38,000 and $59,000 a year.

* The upper-middle class is also richer; today, those falling within the 60th to 80th percentile in family income have an income range of between $55,000 and $88,000 a year, which is about $24,000 a year higher than 1967.

* In 2004, the total net worth of Americans rose to $50 trillion and the median household income was estimated at $105,000; that's nearly double the median family-wealth level of 1983 and triple the level in 1962.

The Gods Must Be Crazy

O My Guide to your Galaxy agradece o prémio atribuído pela Comissão Transatlântica do Grande Comando Insurgente presidida pelo Claudio Tellez. Se calhar não devia ter dito nada. É provável que o Claudio note que se enganou a passar os nomes dos blogues e ainda volte atrás para alterar o que escreveu.

Liberalismos ibéricos

Recomendada a leitura total de ambos os artigos. O primeiro é altamente recomendável a todos os que desejem entender melhor a dinâmica de uma sociedade liberal. O segundo, aos que pretendam conhecer um pouco melhor as origens do pensamento liberal. Por estranho que possa parecer aos mais atingidos pelos complexos de inferioridade portugueses, esses primeiros passos foram dados não muito longe daqui, entre Coimbra e Salamanca.

Sobre fumar y otras cosas. Respuestas a un lector (Jorge Valín)

"El mercado lo componen personas, no es una entidad superior al hombre ni una deidad. El liberalismo no es como el marxismo u otras formas de pensamiento colectivistas enfocados a fines teleológicos y superiores como dogma. El liberalismo estudia las actividades terrenales del hombre, no pretende doblegar su moral, su comportamiento ni voluntad."


juan de mariana: um «libertarian» na igreja romana (Rui)

"Juan de Mariana (1536-1624), padre jesuíta espanhol, foi um percursor do liberalismo clássico e, até mesmo, do pensamento «libertarian» norte-americano.

(...)

Juan de Mariana foi um liberal e um percursor dos clássicos e é, também, entre outros, um excelente exemplo para contrariar os fanatismos obscurantistas que pretendem reduzir a instituição que é a Igreja Católica, a sua História e os homens que a fizeram, nas perseguições da Inquisição."

Grunhidos na bruma

O oGrunho (de pseudónimo Rui Martins)* lançou recentemente uma série de artigos que visam satirizar as políticas (não) defendidas pelo Blasfémias e a ideologia dos seus colaboradores. De certa forma, devo dizer que isto tem o seu lado positivo e o seu lado negativo. É bom porque há uns 2 anos atrás, não se viam críticas abertas ao liberalismo e aos liberais. Ainda que este debate se desenrole quase, na sua exclusividade, em terrenos blogosféricos, é importante que comece por algum lado. Há 5 anos atrás, provavelmente, o Blasfémias seria visto por muitos como um blogue de cariz humorístico porque blasfemar, no sentido adquirido da palavra, era coisa feita por muito poucos. Defender a liberdade deixaria (e ainda deixa) as pessoas absolutamente incrédulas.

A parte negativa das críticas lançadas reside no facto de que, na tentativa de encontrar defeitos numa sociedade liberal, se constroem mundos hipotéticos sem coerência alguma. Como é evidente, todas as sociedades têm defeitos porque o próprio mundo tem "defeitos". Acreditar que assim não é ou que estes defeitos são corrigíveis é puramente utópico pois é impossível conseguir controlar todas as varíaveis físicas relacionadas com o ser humano e com o meio (ambiental, cultural, social, etc.) que o rodeia. Efectivamente, nos seres humanos em si, é fácil apagar os defeitos. Basta que se destrua a noção de defeito na mente humana e que se façam modificações genéticas de forma a que os processos de tomada de consciência simplesmente não existam e o pensamento livre seja uma "má memória" do passado.

Temas eugénicos aparte, oGrunho afirma que num país carinhosamente apelidado de Blasfemistão, "pequena utopia liberal", "foram aplicados todos os sagrados dogmas da doutrina liberal". A falha do raciocínio d'oGrunho começa logo aqui. Primeira, caracteriza mal um país com um regime liberal, dando-lhe o nome de utopia. Este tipo de crítica que é lançada, tentando denegrir à partida a imagem de algo não-definido, não faz sentido. Se o Blasfémias fosse um blogue que defendesse a aplicação dos princípios marxistas-leninistas, isso sim, seria utópico, já que estes estão ideologicamente fabricados numa posição totalmente contrária aos direitos naturais. A verificação experimental deste facto, ao longo do séc. XX, não pode ser mais conclusiva. Afirmar que um país considerado liberal é uma utopia deixa muito pouca manobra de debate porque se assume, a priori, algo que não foi justificado com uma argumentação lógica. Muita gente aceita este facto sem o questionar. Diz-se que é uma utopia. Muito bem. Então, porquê?

De seguida, oGrunho afirma que são postos em prática todos os dogmas sagrados da doutrina liberal. Isto, de igual forma, também não faz sentido. Primeiro, não deveríamos chamar-lhes dogmas porque a constatação da realidade não constitui dogma algum. Em segundo, não há unanimidade (por natureza e por definição) nos ideais liberais, o que torna a "doutrina liberal" algo difícil de generalizar. Numa sociedade liberal, não existem soluções mágicas saídas da cartola. O que se sabe é que a sociedade em si (as pessoas, o mercado por ela gerada), devido à sua natureza auto-correctora, encontrará uma solução de forma mais eficiente do que um apelo à intervenção de uma presumível autoridade central(izadora). Se alguma generalização deve ser feita, esta terá de ir no sentido dos princípios que são vulgarmente aceites como valores liberais, e não sobre os conflitos epistemológicos por eles levantados entre os diversos estudos académicos sobre o liberalismo. Estas premissas baseiam-se essencialmente no conceito de laissez-faire, que, em termos linguísticos, não deve ter uma aplicação meramente restrita à economia mas também às comummente designadas liberdades individuais. Esta premissa dificilmente pode constituir um dogma já que se baseia, como referi anteriormente, nos princípios mais básicos dados pela natureza humana. Se os contrariarmos, estaremos a negar o nosso próprio comportamento como espécie.

Muito pelo contrário, ideologias como o socialismo são baseadas em dogmas (que, por tal facto, dificilmente apresentam estrutura lógica) injustificáveis à luz do funcionamento e evolução do ser humano nas suas vertentes pessoais e sociais. Que outra razão podemos apresentar para que as sociais-democracias não respeitem o direito de propriedade ainda que, para que tal seja bem sucedido, seja necessária a implementação de leis que proíbem a fuga fiscal? Estas leis tornam um direito natural num crime, sem qualquer justificação. Os esboços de argumento apresentados para estes crimes praticados pelo Estado são os mais diversos. "O mercado tem falhas", logo é preciso instaurar uma entidade para o regular. "Há desigualdade", logo é prioritário ter uma instituição omnipresente que redistribua a riqueza e os recursos. "Os salários são baixos" logo, é necessário forçar todos os empregadores a pagar salários elevados, etc.

É este o paradigma do socialismo. Tanto os reivindicadores do welfare state, como os socialistas mais clássicos ou os defensores do fascismo (na verdade, tudo manifestações da mesma causa) apresentam dogmas muito comuns que passam pelo controlo exercido pelo Estado dos diversos sectores da sociedade. Os liberais questionam essas "verdades" assumidas a priori, defendendo os ideais acima expressos, com argumentação lógica. No entanto, nas afirmações d'oGrunho, questionar esta ditadura de opinião (unânime) parece ser dogmático. O que dizer, então, da impossibilidade de fazer essa mesma questão? Porque não deve ser permitido pensar que argumento lógico existe para as intervenções estatais? Não será essa posição, por si própria, dogmática? Se a "doutrina liberal" é dogmática por valorizar a liberdade, não deverão sê-lo igualmente, e ainda mais, as outras teorias políticas por não o fazer? E que dizer da incapacidade de provar, teórica ou experimentalmente, a superioridade de um regime socialista?

Outra questão importante é a de que uma sociedade liberal não apresenta, de forma alguma, uma agregação unitária de pensamento. O sentido do liberalismo passa precisamente por isso. Não há, nem deve haver, uma homogeneidade de opiniões. As decisões e opções são totalmente descentralizadas e tomadas de acordo com a consciência individual, desde que não violem os direitos de terceiros. Por estas mesmas óbvias razões, numa sociedade liberal (como existe liberdade de associação), um grupo de socialistas pode reunir-se para formar uma confraria ou até mesmo uma cidade, onde podem cobrar os seus impostos e redistribuir a riqueza como lhes convier. Pelo contrário, numa sociedade socialista, um liberal está completamente aprisionado ao sistema. Isto deixa muito a desejar, especialmente quando se afirma que os princípios da "doutrina liberal" são sagrados dogmas.

oGrunho aplica depois uma lógica que eu já havia questionado na própria caixa de comentários referente ao artigo em questão.

«O pequeno país foi reduzido na actualidade à sua capital, Mirandopolis, porque na estrita aplicação do dogma liberal de redução drástica das despesas do Estado, a Defesa foi entregue em outsourcing à empresa que ofereceu a proposta mais barata, neste caso, à "Bing Bong Chopa Xique, Inc." uma empresa de mercenários burkina fasiana que substitui as forças armadas do Blasfemistão por duas cabras vestidas com caqui verde e uma batata doce. Em consequência desta "desmilitarização liberal", os países vizinhos aproveitaram e ocuparam todas as provincias do Blasfemistão com excepção da capital.»

Inicialmente, oGrunho revela um desconhecimento muito grande acerca dos possíveis regimes liberais. Não lhe passou pela cabeça que o "dogma liberal" fosse uma minarquia, por exemplo, onde a manutenção de forças militares e de segurança interna é uma função básica. Quando lhe perguntei a razão pela qual as pessoas não podiam contratar empresas de segurança (policial, militar), especialmente porque o Estado, com forças ridículas e reduzidas, dificilmente poderia deter um monopólio da aplicação da força, oGrunho respondeu-me o seguinte:

"Porque 9/10 dos cidadãos estão no desemprego e têm como principal ocupação... Viver do lixo produzido pelo 1/10 restantes..."

Embora não tenha entendido a razão pela qual uma pessoa que não trabalhe não pode ter dinheiro para contratar empresas de segurança, porque existe 90% de desemprego ou sequer porque não contratam os ditos meios os restantes 10%, decidi aguardar por novas crónicas sobre o Blafemistão, como prometido.

A segunda crónica rezou assim:

"No Blasfemistão existem apenas quatro empresas multinacionais. Todas as empresas locais faliram à muito tempo, deixando 98% da população no desemprego."

Não é explicado o motivo devido ao qual existem apenas 4 empresas multinacionais. Se existe um desemprego tão elevado (agora já é de 98%, presumo que durante este tempo aumentou em 8%) e o país é liberal - o que significa que o Estado, se existir, impõe poucas restrições à presença de empresas estrangeiras - o Blafemistão seria um local ideal para investir, tendo em conta que tanta gente estaria necessitada de um emprego. oGrunho não explica, igualmente, a razão pela qual todas as empresas locais foram à falência. Com tanta mão-de-obra disponível, a única razão que consigo imaginar para que as empresas locais tenham ido à falência é a imposição de um salário mínimo ou a existência de rígidas leis laborais. Como se assume que a "doutrina liberal" foi aplicada, volto a não entender a razão de depressão económica tão profunda que não permite que sejam criados novos empreendimentos ou que tenha levado os anteriores à ruína total.

"Agora as empresas e os edificios públicos têm webcams que são visualizadas por uma empresa indiana de Bangalore e que quando detectam um assalto em curso chamam a Polícia Privada de Segurança Pública (PPSP)"

Se o país é liberal, como é possível que sejam instaladas webcams de vigilância em locais públicos?

O Blasfemistão é o único país signatário do Protocolo de AntiQuioto (...) Segundo este protocolo o país é obrigado a triplicar as emissões de gases poluentes todos os anos, feito que tem cumprido religiosamente através das importações massivas de gases em contentores vindos da Europa e dos EUA e da obrigação de cada blasfemo emitir oito metros quadrados de metano por dia. [sublinhados meus]

Contrastando com isto:

"foram aplicados todos os sagrados dogmas da doutrina liberal"

Evidencia-se aqui uma óbvia contradição lógica. Ou então, uma confusão total entre liberalismo e autoritarismo. Tendo em consideração o contexto da afirmação (toda a crónica), sou levado a pensar que se trata realmente de uma confusão, especialmente quando alguém define um volume de um gás bidimensionalmente. Também, se as pessoas não tinham dinheiro (porque estavam desempregadas) para contratar melhores forças de segurança - o que até contradiz a razão de ser da tal PPSP - como têm dinheiro para importar gases massivamente? Porque valorizam mais os gases do que os outros bens?

«Classificado orgulhosamente como o "país liberal mais poluido do mundo", o Blasfemistão tem uma atmosfera tão densa que os transeuntes têm que andar na rua com uma catana e os 8 ricos do país só andam de metropolitano.»

Se é difícil respirar, porque há orgulho nesse facto? Que país se orgulha da má qualidade dos seus serviços médicos ou da deterioração das suas vias de comunicação? Se apenas existem 4 empresas a actuar em territórios do Blafemistão (i.e., Mirandopolis), como é possível que produzam tanta poluição, sabendo até que estas se distribuem, respectivamente, nos sectores de segurança policial ou militar, controlo da recolha do lixo e gestão do metropolitano?

oGrunho afima num dos comentários que espera que os blasfemos não levem a mal. Certamente que os blasfemos não levarão a mal. Toda esta imaginação fértil não produz qualquer ofensa por parte de alguém que pensa com uma réstia de lógica que seja. No máximo, podem soltar um suspiro revelador de falta de paciência perante uma jocosidade absolutamente desconexa.

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* Não quis ficar atrás. Também fiz uma parte da minha crónica a falar seriamente.

Saturday, December 31, 2005

Desmontagem política (reloaded)




Quando uma pessoa recebe elogios, é porque alguém vê nela algum valor. Quando começa a receber insultos baratos, isso deve significar que está definitivamente no bom caminho e começa a ter alguma notoriedade. I must be doing something right.*


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"Espero que empregues tanta ou mais energia a tentar viver em consonância com a perspectiva particular que expões exaustivamente neste... enfim... Não há nada mais sagrado que a coerência."

Sempre, chama-se praxeologia. Ou, por acaso, usaste o cérebro de outra pessoa para escrever o que pensas? (assumindo que não usaste a alma penada do ABC). Escolheste o teu ISP porque era o mais caro e de menor qualidade? Escolheste o teu sistema operativo porque, na tua opinião, era o pior?

"Ao contrário do Tiago, não me vou dignar a participar neste circo em que és a estrela principal e este comentário frugal , embora excessivo, será único."

Argumentum ad hominem? Isso é muito conhecido. Ao menos o Tiago foi mais original e andou ali às voltas para não o aplicar directamente. Já agora, avisa-o de que estou à espera de uma(s) resposta(s) dele. Ele que defenda as coisas que disse (ou admita que errou) e não chame mais gente que também não tem argumentos.

"Ficarias surpreendido com o sucesso que fazes no mundo da comédia em vários espectros sociais, políticos e económicos. "

Finalmente! Alguém que percebeu a minha piada do Louçã! Estava a ver que não! [opcionalmente, sempre se pode ver a coreografia do camarada mestre, e depois eu é que faço comédia...]

"Espero que nos continues a entreter... a nós, vasta massa de pessoas diminuidas intelectualmente sedentas do néctar divino que é o produto da actividade da tua mente superior."

Isso é tudo complexo de inferioridade, orgulho exacerbado para não reconhecer a falta de argumentos lógicos ou simplesmente uma espécie de deus ex machina? De qualquer das formas, obrigado pelo elogio. O estaminé continua aberto para que possam beber o meu delicioso néctar. De vez em quando também sirvo ambrósia. Mas isso, só mesmo para convidados especiais.

Já agora, e para finalizar, só uma coisa. Eu consigo ver os comentários que são feitos no Haloscan por ordem de entrada. Logo, essa técnica de responder a um post quando já uns 10 foram publicados posteriormente, não me parece muito eficiente, se o objectivo for brincar ao hit and run.




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*A série Desmontagem Política foi, até agora, constituída pelos artigos I, II, III, IV, V, VI (comentário de M. De la Torriente), VII, VIII e IX.