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Monday, October 31, 2005

Socialismo é Liberdade

Venezuela: presidente quer banir Halloween

O Presidente da Venezuela, Hugo Chavez, exortou domingo os venezuelanos a deixarem de festejar o Halloween (Noite das Bruxas), que qualificou de "costume satânico gringo" (norte-americano).

Aceitar a realidade

Num artigo anterior referi que, na minha opinião, não havia que mudar mentalidades mas sim consciencializar as pessoas para a realidade que as rodeia.

O Bodalo comentou-me aqui que estas ideias apresentam uma aparente contradição porque a consciencialização da realidade implica uma mudança de mentalidades.

Quando eu digo que não há que mudar mentalidades estou a referir-me, por exemplo, àquilo que tantas vezes ouço de comunistas em referência aos regimes que foram implementados mundo fora. Nenhum deles resultou em criar um regime perfeito, coisa a que se propunham se considerarmos a sua propaganda facciosa. A verdade é que estes líderes se aperceberam da sua oportunidade para exercer regimes ditatoriais. Quem disser que era apenas um “erro ideológico” destes estadistas, estará, indirectamente, a pactuar com os crimes contra a humanidade (e seus direitos mais básicos) que foram cometidos por estes mesmos revolucionários. Infelizmente, muita gente em Portugal e no mundo, continua a idolatrar estes regimes, como se eles fossem algo de base teórica sustentável mas de experiência falhada.

Cada comunista terá a sua própria teoria de como o regime comunista deverá ser implementado. Uns dirão que o marxismo-leninismo é um caminho viável (possivelmente serão estes os que continuam a defender a ditadura cubana e a dizer que Estaline era um grande homem de Estado), outros, mais diplomáticos, argumentarão em favor do chamado socialismo democrático, que pretende alcançar a sociedade socialista através do poder parlamentar. O facto de que se proclame de democrático nada garante. Basta olharmos para a última Cimeira Ibero-Americana e a atitude dos líderes de Portugal e Espanha, relativamente a embargo americano a Cuba. Na verdade, o único político que vi afirmar abertamente que as pessoas se estavam a esquecer do que era o regime cubano foi Durão Barroso. No meio de tanta cegueira, apareceu alguém que disse uma coisa minimamente sensata.

Os socialistas costumam confiar-me, na mais sincera das suas opiniões, que a sociedade só pode atingir um patamar mais elevado (o socialismo, dizem eles) quando as pessoas mudarem as suas mentalidades. A princípio não concordava com eles porque não percebia o que queriam dizer com mudar as pessoas. A persuasão pode fazer muitas coisas mas apenas se uma pessoa tiver uma predisposição natural a ser persuadida. Com o tempo acabei por entender que, invariavelmente, eles têm a razão do lado deles mas não pelas razões que tanto apregoam. Para que o socialismo funcione é realmente vital que haja uma mudança de mentalidades. Ou melhor, da própria natureza humana.

Penso que foi Fidel Castro que disse, após a quebra de produtividade nas plantações nacionalizadas devido aos salários uniformizados, que as pessoas tinham de “aprender a ser socialistas” e que as coisas não resultavam porque estas “pensavam em si mesmas” e eram materialistas. O regime cubano pedia (e pede) então mais sacrifícios pessoais em nome da sociedade. Quem já ouviu isto em Portugal, que levante o braço. Soa familiar, não soa?

Ao longo de tantos anos, continua a ouvir-se aquela crítica constante e irritante relacionada com os regimes em si, tentando mascarar o evidente. Já não seria a primeira vez que um socialista me dizia que aquilo que se observa num país onde o socialismo foi implementado “não pode ser socialismo”. Para o socialista mais distraído (eufemismo), uma sociedade assumidamente socialista não pode, evidentemente, ser socialista porque não esta a funcionar como uma verdadeira sociedade socialista! Os socialistas prometem emprego, igualdade, condições de trabalho, educação, qualidade de vida. Os socialistas prometem quase tudo mas a realidade é muito diferente e eles recusam-se a aceitar que as consequências das suas políticas têm os efeitos que se registam. Na cabeça de um socialista, olhar para o mundo e ver um regime socialista em que haja fome, desemprego e miséria significa que aquilo não pode ser socialismo. Daqui se conclui que para um socialista, o “socialismo” significa qualquer coisa entre um mundo perfeito e um paradigma utópico em que ninguém tem problemas nem há dificuldades. Um socialista nunca estará contente com nenhum regime socialista quando confrontado com a verdade dos factos, porque dirá que nenhum deles o é e certamente nunca o foi.

Constata-se (de forma teórica e experimental) que nem o socialismo nem o capitalismo podem resolver esses problemas a 100% mas é também verdade que enquanto o capitalismo reduz esses dilemas sociais, o socialismo apenas incentiva o seu agravamento. Nem vou falar da servidão. Penso que esse tema dispensa comentários.

A questão da “mudança das mentalidades” é muito pertinente mas o mais interessante é que apenas o socialismo pode reclamar a necessidade de uma. Se todas as revoluções socialistas falharam (e os próprios Estados de bem-estar verdadeiramente colapsam a dado momento) é precisamente porque algo teria de mudar para que tudo funcionasse na perfeição. Os resultados empíricos confirmam precisamente que o socialismo não é aplicável.

Existe na literatura um exemplo exímio desta condição. Não pode existir uma verdadeira distopia social em que cada um actue individualmente porque isto simplesmente não faria sentido. À semelhança do argumento de Huxley, para que esta coesão social se mantenha, há que modificar o próprio ser humano. O mais assustador, ao ler o Admirável Mundo Novo, é notar a falta de reacção das pessoas e a passividade excessiva com que tudo acontece, ainda que se saiba que os acontecimentos se verificam devido ao condicionamento genético a que os seres humanos forem submetidos de forma a que cumpram correctamente as suas “funções sociais”, será dizer, a vontade da elite (alfas) que não foi genética e psicologicamente acomodada. Por outras palavras, deixaram de ser humanos para serem robôs. Qualquer outra distopia em que exista uma governação totalitária – e que pretenda retratar de forma realista a sociedade humana – deve necessariamente incluir uma força eficazmente repressiva ou impor uma condição extra que distorça a realidade o suficiente para que os eventos façam sentido.

Não concordo, então, com a lógica de “mudar de mentalidades” porque não acredito que haja nenhuma mudança a fazer, o que, aliás, seria impossível sem uma engenharia genética controlada não se sabe por quem. Já exprimia Ayn Rand que o interesse próprio (egoísmo racional) é o que rege a acção humana. Creio que é uma forma demasiado simplificada de ver a realidade (o objectivismo pretende ser uma filosofia de vida) porque, em temas que não estejam relacionados com a economia, este termo deixa de ter muito sentido a não ser que qualquer acção altruísta se considere por “interesse próprio”, o que é verdadeiramente arrepiante. Mises procurou analisar também esta questão, concluindo que o indivíduo consciente toma uma determinada decisão com o objectivo de aumentar a sua satisfação pessoal (ou reduzir uma fonte de descontentamento), a qual não é necessariamente semelhante para outros indivíduos.

Nenhuma destas análises fala de algo bizarro em termos económicos. Ninguém vai comprar um produto na loja X se ao lado tiver uma loja Y, com o mesmo produto e a um preço mais baixo, a menos que tenha uma boa razão lógica para o fazer. Seria prejudicar-se a si próprio. Nenhum investidor vai comprar acções de uma empresa sabendo que estas vão desvalorizar permanentemente a menos que tenha uma boa razão para perder dinheiro.

Em Portugal, a maioria das pessoas é socialista. Todavia, estas acções observam-se todos os dias, incluindo vindas das socialistas, obviamente. São eles que querem negar a natureza humana, mesmo quando eles próprios não lhe escapam. Estas pessoas vivem em completa hipocrisia porque são as mesmas que se revoltam contra os ordenados pagos aos políticos embora favoreçam o proteccionismo. Revoltam-se com a subida dos impostos mas acham que a segurança social privada é um atentado. Queixam-se de que a electricidade é muito cara mas dizem que não se deve permitir que os estrangeiros possuam quotas de mercado nestas empresas porque elas constituem “sectores estratégicos”.

São estas pessoas que se contradizem a toda a hora. Um comunista meu conhecido passou uma hora a percorrer todas as casas de gelados num centro comercial. Que procurava ele? O preço mais baixo. Acabou por decidir que o preço não lhe agradava e desistiu da ideia de comer o gelado…Só faltou dizer-me, no fim, que todas as empresas de gelados deviam ser nacionalizadas, claramente, porque ele não queria gastar dinheiro. Afinal, quem são os materialistas?

Ao defender o socialismo, toda esta gente está a defender coisas que não são os seus interesses. Parecem tomadas por uma doença qualquer que não faz sentido e que os faz perder toda a racionalidade. Pior ainda, todas elas crêem estar a defender os seus interesses, quando pensam de uma forma socialista, porque foram levadas a acreditar que o socialismo é a solução para os seus problemas. Veja-se o exemplo da pobreza. O socialismo diz que tira aos ricos para dar aos pobres. A maior parte da gente considera-se pobre, por isso acha bem. O teste que eu fiz foi perguntar a estas pessoas que se consideram pobres (e se dizem socialistas) o que fariam caso se tornassem ricos. Resposta? Tiravam o dinheiro do país para o colocar num paraíso fiscal. Após a contestação deste facto, perguntei se estas pessoas achavam bem que o Estado não lhes tirasse dinheiro para redistribuir entre os pobres (quero dizer, entre os políticos e a função pública, que são todos pobres e trabalhadores). Qual foi a resposta? “Claro que não, o dinheiro é meu!”. A isto retorqui que havia uma incoerência. Se quando a pessoa era pobre achava bem roubar aos ricos e quando era rico achava mal, algo estava errado em toda aquela ideologia. A resposta geral? “Eu não sou rico, os outros é que são!”. Como se pode observar, é uma lógica perfeitamente válida. Ainda dizem que os socialistas não têm sentido de direito de propriedade privada. Claro que têm. Mas têm sentido da sua propriedade privada., não da dos outros.


Esta é a coerência que os socialistas oferecem. Portanto, como eu dizia, não há que mudar mentalidades nenhumas – a defesa do interesse próprio sempre existiu, quer se interprete como ganância, ambição ou egoísmo. O que é temível é que, ao implementar medidas socialistas, tenhamos que presenciar situações em que estas características humanas são usadas para prejudicar os outros. Ordenados e reformas astronómicos em cargos públicos. Proteccionismo. Regulação. Opressão fiscal, etc.

Num sistema capitalista aquele que ganha mais dinheiro é aquele que melhor serve os outros, caso contrário nunca ganharia tanto dinheiro. Num socialista, aquele que mais dinheiro ganha é aquele que tem um cargo elevado na função pública, aquele que tem um negócio protegido pelo Estado (contra a “invasão estrangeira”) ou o dono de um determinado sector que é demasiado regulado e por isso ninguém mais pode concorrer em tempo útil.

Não existe capitalismo selvagem. A única coisa selvagem que os humanos inventaram foi o socialismo. Isso sim é a aplicação directa da lei do mais forte pois os dirigentes usam a sua astúcia para enganar as pessoas e mantê-las na pobreza enquanto continuam a viver às suas custas.

Friday, October 28, 2005

Genocide? So what? II

Para quê comentar? As notícias falam por si mesmas.

President refuses to be cowed by Israel speech backlash

President Mahmoud Ahmadinejad of Iran continued his inflammatory rhetoric against Israel today, in spite of the diplomatic storm over a speech that called for the destruction of the Jewish state.

As tens of thousands of Iranians took to the streets across the country for annual state-sponsored anti-Israel rallies, world leaders continued to condemn the President’s comments, which have heightened concerns over Iran's nuclear ambitions.

(...)

Across Iran, tens of thousands of men and women loyal to the regime paraded through the streets of towns and cities - their banners bearing slogans demanding the abolition of Israel.

"Death to Israel, death to America," was a popular motif, in what one correspondent described as a 'carnival of bloodthirsty rhetoric'. Israeli and American flags were burnt; militants were openly recruiting for suicide missions.

Young girls wearing head-to-toe black chadors with green headbands daubed in Islamic verse chanted anti-Israeli slogans.

Genocide? So what?

Blair 'revolted' by 'destroy Israel' call of Iranian president



Dá para ler o título da conferência na imagem - The World Without Zionism - o que explica que as seguintes declarações até foram bem premeditadas.

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"There is no doubt that the new wave [of attacks] in Palestine will soon wipe off this disgraceful blot [Israel] from the face of the Islamic world. As the Imam [Khomeini] said, Israel must be wiped off the map."

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A minha pergunta: Se Bush tivesse dito que a Síria devia ser varrida do mapa, qual seria a reacção das pessoas e dos meios de imprensa? Houve tanto destaque na comunicação social portuguesa que eu nem saberia disto se não o tivesse lido no Times.

Thursday, October 27, 2005

CDS e a crise

O LAS aponta aqui a sua avaliação da situação actual e do possível papel do CDS em tudo isto. É para muitos evidente que na verdade não existe grande diferença entre o PS e o PSD. Para dizer a verdade, com a campanha que Marques Mendes tem feito (e o consequente apoio do aparelho partidário embora este não gire muito em torna da sua figura) demonstra-se a ideologia crua da social-democracia. Qualquer coisa serve para reclamar "direitos" para os cidadãos quando estes nem sequer são justificáveis.


É óbvio que a grande maioria das críticas tem a intenção única de fazer oposição cerrada ao governo em quaisquer medidas tomadas mas, embora já nos devêssemos ter habituado, é sempre algo deprimente ver o PSD a defender constantemente a continuidade inviável do regime. E é deprimente ver que se dizem ser de direita. Mas se se dizem de direita, ao menos que digam que o capitalismo é um sistema que não consta do eixo “esquerda-direita” para que não confundam as pessoas e propiciem ainda mais distorções ideológicas.


O PS não foge a esta regra, exagerando ainda mais nas críticas quando se dá a situação contrária. Talvez essa seja a maior diferença até porque já pensei que, por uma razão de lógica, Sócrates deveria ser do PSD e Marques Mendes do PS. Por todas estas razões, chamar-lhes “bloco central”, na maior parte das vezes, não constitui um erro mas sim uma constatação dos factos. A única diferença para além disto é que o PS se diz de esquerda e é menos socialmente conservador. De resto, economicamente, um governo PS/PSD entender-se-ia quase na perfeição se não estivessem cegos pela competição entre os dois partidos. As críticas que estes lançam mutuamente não se devem geralmente a guerras ideológicas mas a conflitos de poder. Cada um tenta à sua maneira alcançar o troféu oferecido pelo regime democrático utilizando o welfare state e tácticas populistas como argumento.


Como diz o LAS de forma implícita, provavelmente o CDS teria aqui a sua oportunidade de ouro para sair como triunfador, vencendo o marasmo económico que cada vez mais se avizinha, não só em Portugal como na Europa, gerado pela implosão do Estado social. O Estado tem criado todas estas expectativas e continua a alimentá-las indefinidamente. Observámos o que aconteceu na Alemanha, que enfrenta uma situação de crise e, ainda assim, esta mostrou os eleitores a refugiar-se na crença do decadente Estado de bem-estar, apesar de que seja evidente que a situação apenas os arrasta para algo ainda mais negro.


A escolha é entre uma quebra rápida nos direitos adquiridos, subsídios estatais, etc. - para que se melhore a ritmo relativamente crescente e constante - e uma política de manutenção das condições actuais piorando, muito provavelmente, aquilo que já se sente de momento, sem perspectivas de uma melhoria futura e prolongando a crise.


Este último processo é o mais penoso e parece ser aquele que as pessoas preferem maioritariamente escolher, na minha opinião, por falta de informação. É necessário combater este problema e, neste ponto, concordo inteiramente com o André Abrantes Amaral.


Por essa mesma razão acredito que é preciso levar a informação às pessoas. Não se trata de uma mudança de mentalidades como alguns dizem erradamente mas sim uma consciencialização da realidade. Falar em mudança de mentalidades é quase sugerir uma engenharia social que “modifique” as pessoas e cair no mesmo erro dos marxistas quando estes afirmam que as revoluções comunistas não funcionaram porque as “mentalidades não estavam preparadas”. Não há que preparar mentalidades nenhumas. Há, sim, que fazer com que as pessoas entendam a insustentabilidade do sistema corrente e da violação dos direitos que este mesmo representa. Há que fazê-las entender que apenas os próprios indivíduos podem ser responsáveis pelas suas acções, de forma a que a generalidade recuse a necessidade de um estatismo que constantemente interfere na esfera privada e restringe os direitos mais básicos. Há que fazê-las compreender a necessidade, não de um governo liberal, mas de uma sociedade civil liberal em si mesma, uma sociedade em que as pessoas não coloquem os seus problemas nos ombros dos restantes. Não há fórmula mágica para a resolução dos problemas e o liberalismo não salva ninguém. O mundo não é perfeito, o liberalismo também não. Mas, certamente, é a forma mais justa e eficiente de uma sociedade se gerir a si mesma sem que seja a própria sociedade a gerir os indivíduos e sem que uma preponderância socialista persista no ideal dos cidadãos. Apelar ao socialismo para resolver os nossos problemas é como dar uma dose ainda mais letal de veneno a alguém que já está envenenado, para além de catalisar ainda mais a competência desleal entre os indivíduos, por mais estranho que isso pareça a um anti-capitalista.

Relativamente ao que diz o António Amaral, infelizmente, também concordo e até acredito que quanto mais tempo se tomar até que a desmontagem do Estado social se efectue, pior e mais doloroso será para todos (pelas razões que acima apresentei relativamente ao prolongamento do género de políticas em vigor) embora não concorde com a permanência das safety nets.

Durante a "queda aparatosa", honestamente, não sei se não seriam também um factor prejudicial já que é imperativo (atenção: *linguagem estatal*) mantê-las com o dinheiro dos contribuintes. Curiosamente, é a própria estrutura do regime social-democrata que condiciona o que aconteceria de forma natural numa sociedade mais liberal (social e economicamente) e faz com que talvez muitos de nós passem a acreditar precisamente que elas são necessárias durante a “queda do Estado social”, de forma a garantir uma certa estabilidade durante o período menos bom pelo qual passamos. O liberalismo não é a ideologia da desmontagem do Estado de bem-estar como todos sabemos mas, desafortunadamente, somos forçados a pensar qual será a melhor forma de recomeçar os pilares da sociedade utilizando medidas liberais. Os resultados actuais são frutos da social-democracia razão pela qual aquilo a que chamamos de “esforços dolorosos” deveria ter outro nome. Também há que fazer compreender as pessoas que estas consequências são resultados das suas escolhas políticas e não das medidas liberais que serão necessárias. É precisamente este argumento que ganham os socialistas quando reclamam os “direitos adquiridos”. Estes ditos direitos (que são crimes praticados graças à repressão económica) nunca deveriam ter existido em primeiro lugar, tendo sido eles os grandes causadores dos problemas. Há que apontar isso às pessoas para que elas não culpem os sistemas errados, como é da praxe.

Voltando ao assunto, concordo com o texto do LAS em geral, embora veja de forma alguma céptica a esperança no CDS, que se vai tornando um partido cada vez mais reduzido e dependente do PSD para se tornar visível. Temo que quando chegar a necessidade iminente de tomar medidas drásticas, já o CDS tenha perdido o comboio dos que as sugerem. Ironicamente, e ao contrário do que alguns dizem (porque certamente não sabem o que penso nem lêem o que escrevo, o que posteriormente os deixa sem resposta…) gostaria de ver o CDS nessa posição. O problema é que nos parágrafos

“Pelas razões expostas, depreende-se que o CDS é o único partido constitucional que poderia assumir a defesa da redução da despesa pública e a representação dos que não pertencem ao "Partido do Estado". O CDS, não tendo vocação maioritária nem um largo eleitorado sociologicamente consolidado, poderia arriscar a assunção de posições que não colhem o apoio desses 55% de portugueses dependentes do OGE. O CDS não teria ainda as dificuldades ideológicas que, para isso, impedem os partidos de orientação socialista de assumir essa dupla função política.

O CDS dever-se-ia assumir como o partido da sociedade civil (por oposição ao "partido do Estado"), da redução da despesa pública e da "safety net" (por oposição ao "welfare state"). O CDS dirigir-se-ia, assumidamente, aos 45% da sociedade portuguesa que não pertence ao "Partido do Estado" e que será a mais prejudicada pela crise nacional que se avizinha.

E o CDS encontraria assim a causa distintiva e identificadora capaz de o tornar indispensável à vida política do País e de fazer crescer substancialmente a sua base eleitoral de apoio.”

se denota precisamente um uso extensivo do tempo condicional. Ficamos todos à espera de que o CDS decida tornar, portanto, essa hipotética realidade em factos concretos. Decerto que todos nós a veríamos com muito agrado.

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P.S. -- O RAF diz hoje no Blasfémias que o liberalismo está subtilmente a virar mainstream. Eu recomendo ao RAF que deixe de ler tanto a blogosfera liberal e de ouvir debates políticos na tentativa de descortinar ideais liberais por ali escondidos. É que tanta expectativa, muitas vezes, faz-nos ouvir coisas que, infelizmente, eles não disseram....

P.P.S. -- Peço desculpa pelo tom pessimista mas temo não ver mudança alguma no quotidiano. É que para que haja uma mudança significativa, esta tem de começar na cabeça das pessoas, não na dos políticos.

Eu, um verdadeiro neonazi fascista

Ao vaguear pela blogosfera, por vezes encontro coisas interessantes. Ontem encontrei um blogue salazarista. Depois de ter sido tantas vezes chamado de fascista e de salazarista fiquei de certa forma contente pelo subtítulo deste dito blogue.

Blog Salazarista - Temos uma Doutrina e Somos uma Força: Tudo pela Pátria, Nada contra a Pátria! Blog Anti-moderno, Anti-liberal, Anti-democrata, Anti-comunista, Contra-revolucionário,Conservador, Tradicionalista, Reaccionário, Intolerante e Intransigente!!

Esta pessoa é bem clara. É anti-liberal. Os salazaristas são anti-liberais. Em Portugal, como 99,9% das pessoas, assim que ouvem "Direita", pensam logo em Salazar, é muito fácil sermos facilmente etiquetados de fascistas ou então de neonazis.

Recordo pelo menos três situações recentes relativamente a isto. Numa delas estava a falar do regime comunista soviético quando o meu interlocutor me interrompe para dizer algo como Heil Hitler. Fiquei a pensar se teria ouvido bem. Depois de perceber que tinha sido mesmo um Heil, apenas lhe disse que estava enganado. Eu não era socialista. Estalou a confusão e tive que explicar (talvez pela centésima vez a pessoas diferentes) as diferenças básicas entre os regimes políticos.

Outra das vezes foi quando critiquei o investimento estatal em obras públicas. Mal explico que não concordo com a monopolização nem com a participação estatal no sector energético, sou logo presenteado com um bela frase ao estilo Que horror, és mesmo nazi! Toca a explicar tudo outra vez.

A terceira vez foi quando apontei, relativamente ao famoso Arrastão da praia de Carcavelos, que estava do lado das pessoas roubadas e que, embora achasse que a polícia tinha exagerado nos relatos, também achava que a Diana Andringa tinha uma boa dose de militância (que ela própria afirmava) no documentário que realizou, relativizando, novamente, a questão racial com aquela tendência socialista tão típica de formar grupos sociais em vez de se preocupar com os indivíduos em si. Bem, isto bastou para que me fosse dito que eu de certeza tinha participado na manifestação organizada pelo PNR no Martim Moniz e que certamente amava George Bush. Bela demonstração de ignorância, pensei eu.

Tudo isto teria pouco sentido, não fossem as confusões (induzidas pela propaganda) que as pessoas fazem, acabando mesmo por insultar aquilo em que acreditamos. É preciso levá-las, passo a passo, a compreender que não defendemos este e aquele regime político. Na mente desta gente o liberalismo não existe como ideologia singular, passando a existir, depois dos esclarecimentos, como uma ideologia da negação das outras ideologias. A ignorância das pessoas faz com que várias me tenham perguntado, extremamente irritadas, "mas tu não és fascista, não és comunista, então és o quê?"

Tuesday, October 25, 2005

Notícia de última hora

Jerónimo de Sousa e mais alguns deputados do PCP anunciam mudança de partido

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Eles eram contra a democracia, certo?

Iraq says 'yes' to constitution

Overall, 78 per cent of Iraqis voted for and 21 per cent against the constitution, the Independent Electoral Commission of Iraq said.

Mr. Galloway, "this is for Iraq" ? *

US Senate 'finds Iraq oil cash in Galloway's wife's bank account'

The sub-committee claimed that, through intermediaries, Mr Galloway and the Mariam Appeal were granted eight allocations of Iraqi crude oil totalling 23 million barrels from 1999 to 2003.

(via Samizdata.net)

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* Shock win for Labour Iraq rebel

Monday, October 24, 2005

United só mesmo o Manchester

A novela Cristiano Ronaldo é muito representativa da típica mentalidade portuguesa. Quando se soube da acusação de violação, dezenas de portugueses anteciparam-se a inventar que ele tinha sido detido, coisa, aliás, tão grave que tinha sido até forçado a sair da cadeia só mesmo com o pagamento de uma elevada caução. Disseram também que "estes jovens de hoje em dia não têm cabeça" e que isto era "uma vergonha". Ouvi também que "ele foi burro porque não precisava de fazer isso com o dinheiro que tem" e tantas outras pérolas do saber lusitano.

É interessante que estas mesmas pessoas são as que seguem atentamente todos os passos de portugueses como Cristiano Ronaldo no estrangeiro e que até lhes chamam "os nossos que estão lá fora", numa evidente alusão à sua nacionalidade e ao local - porventura distante - onde estes vivem de momento. É uma idolatria completa que vai do futebol à ciência, passando por vários outros ramos. Qualquer seguidor de futebol sabe que o Pauleta está em França, que o Hugo Viana está no Newcastle e que o Zé-não-sei-das-quantas está no clube X do país Y. Qualquer seguidor da investigação científica saberá dizer, por exemplo, que o João Magueijo está no Imperial College e que o António Damásio está algures numa universidade americana. Até sabem que a Teresa Kerry, a Nelly Furtado, o Sam Mendes e o Tom Hanks são descendente de portugueses.


Por estas mesmas razões, nestes momentos, seria de esperar uma maior compaixão e até uma atitude algo paternalista por parte destas pessoas. O que se verifica, contudo, é precisamente o oposto.

Em Inglaterra, onde vive o Cristiano, todos os entrevistados de rua que pude ver, saíram em defesa dele e depositaram nele a sua confiança e o seu apoio para ultrapassar uma fase mais difícil. A Scotland Yard afirmou que Cristiano Ronaldo compareceu de livre vontade para prestar declarações, negando assim aquilo que muita da gente em Portugal tem andado a dizer. Ao serem confrontados com estes factos, muitos portugueses continuam a insistir que ele foi detido em grande aparato e que vai ser julgado pela violação, como se tivessem prazer em afirmá-lo e em denunciar o rapaz perante os olhos do mundo.

O Manchester United demonstrou toda a sua solidariedade para com o jogador. Os adeptos do Manchester United fizeram-lhe inclusive uma ovação ao entrar no Old Trafford, na última jornada, de forma a mostrar que o apoiam a 100%.

Na sua terra natal, Cristiano Ronaldo é enxovalhado pela comunicação social (que consegue ser praticamente pior do que os tablóides britânicos) e pelas próprias pessoas que embora ele seja português – coisa que nas "horas boas" é motivo de orgulho, satisfação pessoal e patriotismo injustificável e exacerbado – vê nele um criminoso antes sequer de saber o que se passou.

Quando vejo estas coisas questiono-me sobre que razão mesquinha fará com que os portugueses procurem sempre uma razão para criticar pessoalmente os outros. Pergunto-me como conseguem ser tão cínicos ao ponto de apoiar uma pessoa indiscutivelmente e depois, à primeira, sem saber pormenores adicionais, iniciar ataques desenfreados contra a integridade moral da figura em questão. É provável que caiam na sua própria armadilha de adoração. Os ídolos – os "nossos lá fora" – têm de ser perfeitos, sem falhas e logo, à mínima suspeita de comportamento fora do padrão, são motivo de escárnio e injúria pessoal.

Não acredito que os ingleses sejam especiais mas sim que os portugueses sejam especialmente maus. É muito triste partilhar a nacionalidade com toda esta gente.

O rico é mau, e o imigrante?

Pel'O Insurgente tenho conhecimento desta idiota imagem de campanha utilizada pelo BE (seria hilariante caso não houvesse tanta gente que verdadeiramente acredita nisto):




Não deixa de ser curioso que seja o mesmo BE a dizer num artigo da sua página on-line que Portugal ficou mais rico com a diversidade que os imigrantes trouxeram.

Fico, portanto, à espera da proposta de lei do Bloco de Esquerda quanto ao imposto sobre o capital do imigrante que servirá, obviamente, para aumentar as pequenas reformas e proteger os produtores nacionais. É o multiculturalismo da fiscalidade.

Leituras recomendadas

Super é bom. Mega ainda é melhor.

Sunday, October 23, 2005

Einstein? Quem é esse gajo?



Numa daquelas universidades portuguesas onde não há cursos de Física e onde se fala muito de Einstein embora este seja completamente desprezado, aparece mais uma vez uma determinada série de colóquios sobre esse dito Einstein, aquele tipo de pouco interesse que foi apenas a pessoa mais importante do século XX segundo a revista Time. Coisa completamente irrelevante e sem sentido, obviamente.

Numa daqueles universidades, dizia eu, aparecem colóquios organizados pelo Centro de Física e Interacções Fundamentais com cinco conferências dos seguintes temas:

- Física Clássica e Relatividade: continuidade e ruptura

- O fotão e a emissão estimulada: dois ingredientes para o laser

- Condensação de Bose-Einstein: sententa anos entre previsão e realização

- Do desassossego de Einstein até à criptografia quântica

- Movimento Browniano: átomos e flutuações

É de notar que apenas uma destas conferências se relaciona com o tema da Relatividade sendo, certamente, acerca de Relatividade Restrita. Todas as outras incidem sobre o movimento browniano, o efeito fotoeléctrico e a mecânica quântica.

O mais chocante (mas não por isso surpreendente) é a total hipocrisia que levou a mesma Academia Sueca a premiar Einstein com o Prémio Nobel pelo seu trabalho sobre o efeito fotoeléctrico, relegando para um canto menor todo o seu esforço no campo das forças gravitacionais. Não seria de esperar muito - os colóquios são organizados pelo Centro de Física e Interacções Fundamentais, o que está intimamente relacionado com a Física de partículas.

Contudo, pode ler-se o seguinte no estatuto do CFIF:

  • O CFIF tem a responsabilidade de conceber e realizar projectos de investigação de alta qualidade em Física Hadrónica e Física Nuclear, Física da Matéria Condensada Teórica, Geometria Diferencial e Relatividade, e áreas afins.
Ficamos esclarecidos. Até inclui Geometria Diferencial mas, pelos vistos, só no papel como já é tradição. No entanto, porquê esperar o contrário? Afinal, falamos de uma universidade que nem tem um curso de Física. Tudo seria coerente, se não fossem estas iniciativas que anunciam uma coisa mas escondem outra (o tema da série de colóquios é "O Legado de Einstein").

Comparações

O meu conselho para os que tanto temem o H5N1 e eventuais variantes é que virem as suas atenções para o vírus colectivista que já matou mais milhões de seres humanos do que provavelmente o Influenza e as suas mutações nas três grandes epidemias do último século.