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Wednesday, August 31, 2005

I beg your pardon, Sir?

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As frases políticas do dia:

"Mas, neste momento, a candidatura que melhor serve os portugueses e mais contribui para unir Portugal é a de Mário Soares"

-- José Sócrates

Ainda mais colectivismo?


"Aceito candidatar-me à Presidência da República"

-- Mário Soares

Aceita? Alguém lhe pediu alguma coisa?

Tuesday, August 30, 2005

Piromanias autárquicas

Como já havia referido anteriormente, recebi um panfleto da Câmara Municipal de Loures relativamente aos fogos florestais. Este documento, com justificações legislativas à mistura, possui um título deveras sugestivo.


DEFENDER A FLORESTA

Competência municipal e obrigação dos cidadãos


Tomei a liberdade de digitalizar o dito edital, cuja imagem se encontra disponível.

Este documento é no mínimo revoltante. Citarei as partes que julgo mais marcantes, de forma a poder comentá-las.

“A ainda recente ocorrência, por todo o pais, de incêndios catastróficos veio demonstrar, se duvidas houvera, por que é que a floresta é considerada uma prioridade nacional”

Além da coercibilidade presente no título – a de uma obrigação dos cidadãos (que acontece se um de nós não desejar proteger a floresta?) – nota-se uma excelente dose de divagação relativista. Considera-se que a floresta é uma prioridade nacional. O que é uma prioridade nacional? Estas palavras assemelham-se às de Sampaio que afirmava que era necessário um “desígnio nacional para as florestas portuguesas” – tudo isto prova que os políticos, com formação académica ou não, estudaram todos na mesma escola. O uso da palavra nacional implica sempre a vontade do Estado e não a vontade nacional. Que outra necessidade de ser pronunciada teria se assim não fosse? Se os portugueses desejam fazer alguma coisa (se é que desejam fazer algo em conjunto de tal forma que mereça a classificação de nacional) não precisam de uma entidade que lhes diga que actuem colectivamente para combater um flagelo, i.e., o uso da palavra nacional por parte do Estado acarreta sempre os seus desejos e ansiedades e apenas prova que as prioridades nacionais são um estatuto que os governantes desejam decretar e não uma situação que se verifique.


Qualquer pessoa pode falar em prioridades nacionais mas nenhuma delas pode forçar sobre os seus “compatriotas” (disfemismo) aquilo que gostaria que fossem as suas prioridades. Assim como não pode o Estado. Eu não considero que a floresta seja uma “prioridade nacional” e, no entanto, o Estado (e a CM de Loures) está a declarar que eu devo considerá-la como tal.


“Já em 1990 a Câmara Municipal de Loures iniciou e deu continuidade ao processo de florestação do concelho. De então para cá foram plantados 240 hectares de nova floresta e intensificou-se a prevenção, vigilância e defesa da floresta.”


Confissão. A CML assume que transferiu gastos para a florestação do concelho e para a sua defesa. A florestação (mais uma vez, feita pelo Estado) acarreta custos redobrados já que os fundos não são apenas direccionados para as fases de plantação mas também para a “prevenção, vigilância e defesa”, coisa que não foi a vontade directa dos residentes. O edital prossegue com a explicação, não dos deveres mas das obrigações dos proprietários, gestores e responsáveis, de acordo com o decreto-lei nº56/2004 que, escusado será dizer, não foi aprovado nem pedido directamente pelos cidadãos. O texto não é muito preocupante até que se chega à parte do aviso aos proprietários. Segundo o referido decreto-lei, a autarquia tem toda a autoridade para invadir a propriedade privada. O documento prova o que digo embora pareça uma graçola de mau gosto. Não só os proprietários devem permitir que isto suceda como devem também facultar os acessos necessários às entidades seleccionadas pela CML. O edital não esclarece o que acontece se o proprietário não permitir esta entrada (mesmo que já tenha efectuado uma limpeza por sua conta). Intrigante.


O desfile de violações em nome da segurança florestal continua. “Obrigações das entidades privadas e dos cidadãos”. Não basta que mais uma vez usem a palavra “obrigação”, referem-se igualmente aos cidadãos como se estes não fossem “entidades privadas”. Se um individuo não é uma entidade privada é o que? Uma entidade colectiva? É melhor nem pensar que conceitos foram utilizados na formulação destas frases até porque a palavra obrigação passa a aparecer a negrito. O mais curioso é que, embora seja claramente afirmado que “os proprietários e outros produtores florestais das faixas de terreno que obrigatoriamente deviam ser limpas são obrigados a facultar os necessários acessos às entidades responsáveis pelos trabalhos de limpeza”, como referira anteriormente, o edital diz também que segundo o decreto-lei supracitado proprietários, gestores ou responsáveis por terrenos ficam obrigados (…) a efectuar trabalhos de limpeza. Se os proprietários têm que efectuar “limpeza” das suas florestas para que existem empresas contratadas pela CML para realizar o mesmo serviço? É quase impossível ser mais incoerente. Se por um lado há que facilitar o acesso aos serviços da CML (“como a realização das limpezas atrás referidas é da competência da Câmara Municipal de Loures”) a própria CML diz que os proprietários são obrigados por lei a executar os mesmos trabalhos de limpeza! As frases utilizadas nas duas partes do documento são distintas mas significam exactamente o mesmo, revelando que o único objectivo da lei é permitir que a autarquia possa invadir a propriedade privada apoiada pela legislação sem que necessite de prestar justificações. Caso contrário, que necessidade teria o proprietário de ser obrigado a efectuar a dita limpeza por si próprio?


A parte seguinte declara (ou avisa, dependendo do ponto de vista) que o indivíduo está expressamente proibido de realizar qualquer género de queimada na sua própria propriedade – “Tal só é permitido após licenciamento da Câmara Municipal, que designa a data para a realização dos trabalhos” (!) – sob pena de caução que se situa entre 100 a 3700 para pessoas singulares e 200 e 44 500 para pessoas colectivas. Não é mencionada a unidade referente a estes algarismos – se cebolas, batatas, feijões ou ervilhas – mas suponho que sejam euros. De qualquer das formas isto significa que se eu decidir queimar a minha propriedade ou se existir algum acidente que leve à sua destruição sou obrigado, por lei, a pagar uma coima, o que é completamente absurdo. O Estado decide punir-me pelo meu acto sobre aquilo que é meu. Por este caminho, brevemente, seremos punidos por destruir as latas de coca-cola depois de as bebermos – um acto claro e evidente de vandalismo.


A parte final é outra extremamente interessante.


“Qualquer pessoa que detecte um incêndio florestal é obrigada a alertar as entidades competentes e a tentar a sua extinção”


Isto significa que eu sou obrigado por lei a avisar alguém e a tentar extinguir o incêndio. E se eu não conseguir ligar para o 117? Sou punido por não ter bateria no telemóvel? (ou por não ter um?). Talvez seja também punido por não ter um extintor ou andar a passear pela floresta com um – afinal de contas, um homem prevenido vale por dois. A questão, repare-se, nem é a de que não se queira avisar as autoridades mas de que a CML diz que é obrigatório fazê-lo. Já não se fala em cooperação, fala-se em obrigação. Relativamente à situação sugerida anteriormente – se eu deixar a minha propriedade arder – sou um criminoso porque aconteceu, porque não avisei ninguém e porque não tentei extinguir o incêndio? Afinal, de quem é a propriedade, já que temos de prestar contas acerca do que fazemos dentro daquilo que é nosso e que nem sequer afecta os outros?


Em resumo, a CML aposta forte e feio na base da obrigação em vez da informação. Já atingimos o ponto em que não se apela ao civismo mas sim à obrigação que cada um tem perante a lei, mesmo que estejamos a lidar com aquilo que, em teoria, é nossa propriedade. Não se fazem quaisquer apelos à cooperação por parte dos munícipes em nenhuma parte do edital, muito pelo contrário, o texto está recheado de utilizações em tom autoritário das palavras obrigação e obrigações. À CML não basta ter gasto o dinheiro dos contribuintes numa florestação que foi sua decisão, precisa também de gastar mais na sua preservação e para isso, interferir na floresta que possa estar a cargo de privados. Estes, já não são incentivados a cuidar da sua propriedade (como se isso fosse necessário) mas forçados a tomar medidas que são contraditórias como as de limpar a floresta e deixar que a CML a limpe também – mais uma forma de justificar os orçamentos autárquicos. Talvez mesmo o pior de tudo isto seja que a CML se tenha dado ao descaramento de enviar folhetos com ordens a todos os cidadãos do concelho, publicidade essa, paga, ainda por cima, com o nosso imposto autárquico. Podiam ter mandado também o número do nosso destacamento e da coluna militar a que pertencemos. Loures agradece.



P.S.- Queria agradecer também ao presidente da Câmara Municipal de Loures, Carlos Alberto Dias Teixeira, pela inclusão do mini-dicionário de definições no edital. Ainda bem, porque se somos tão ignorantes ao ponto de achar que tudo isto que diz por aqui tem alguma lógica, também devemos precisar de esclarecimentos quanto aos significados de “área florestal”, “espaço rural”, “limpeza”, “queimada”, etc.

Sunday, August 28, 2005

O bobo da corte

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Nem de propósito. Tendo em conta as últimas declarações públicas de João Jardim quase parece que os seus assessores andam a ler este blogue:

O mistério espanhol

A aleg(o)ria de Jardim

España, mi amor, mi miedo

Xenofobias económicas


Facetas psicológicas:

Jardim, o homem de direita anti-esquerda

-- a "compra (…) por um grupo (...) de esquerda" (…)

Jardim, o homem de esquerda estatista (pleonasmo)

-- O presidente do Governo Regional da Madeira acusou o Partido Socialista de proporcionar a venda (...) de sectores estratégicos como a energia, a água e a comunicação social.

Jardim, o Rei dos Populistas

-- Alberto João Jardim defendeu ontem à noite que "os espanhóis estão a tomar conta de Portugal"

Jardim, o Nacionalista Português, perdão, Madeirense

-- O presidente do PSD-Madeira (...) afirmou ainda que a Madeira não fará parte de "qualquer projecto ibérico", preferindo "seguir o seu caminho".

Jardim, a Padeira de Aljubarrota

-- “Recuso-me a ser espanhol, tenho muita honra em ser português (...)”

Jardim, o Rei dos Oximoros

-- “tenho muita honra em ser português”

-- “a Madeira (...) [prefere] seguir o seu caminho".

...

Conclusões do estudo psicológico:

1.AJJ tem problemas de comunicação verbal. Ainda não aprendeu a dizer Portugal (“Pertegal”) nem Lisboa (“Lesbâua”).

2.AJJ tem distúrbios de múltipla personalidade. Quando lhe convém diz que é português e que Portugal está a ser tomado pelos “spanhós”. Noutras ocasiões limita-se a atacar “Lesbâua” e o “Cóntnent” e a falar na superioridade do seu reino autónomo.

3.AJJ sofre de graves deficiências do foro intelectual. O seu Quociente de Inteligência aparenta ser mínimo. Quer a Madeira independente para se livrar dos espanhóis, para se livrar dos portugueses, dos chineses, dos indianos, dos ex-soviéticos, etc. Sabendo que a Madeira é uma ilha e que não é auto-suficiente, será uma estratégia inteligente falar mal de todos os estrangeiros? (incluindo, obviamente, os portugueses). Adeus, turismo. Até porque os ecos destes delírios nacional-socialistas já fazem eco do outro lado da fronteira.

4.AJJ padece de graves perturbações ideológicas. Crê-se um homem de direita mas defende o socialismo. Crê-se um homem de direita mas defende um nacionalismo (madeirense ou português?) claramente anti-liberal e xenófobo/racista. AJJ é, afinal, um homem de esquerda nacionalista ao estilo catalão. Será que AJJ também odeia os catalães? Afinal de contas são todos anti-Espanha. Ou talvez não. AJJ odeia todos os ibéricos.

5.AJJ é um bastardo insular. Digo bastardo para não ter que lhe chamar filho da puta que aproveita estes ensejos para desabafar os ódios que sente por nós (ibéricos, europeus, asiáticos, em resumo, não-madeirenses). Não lhe basta mentir sobre Portugal. Como bastardo que é, e tem o complexo de bastardo, também, à mínima coisa, desencadeia isso sobre os espanhóis, indianos, chineses e populações do leste. *

Ver a noticia original aqui:

Jardim acusa PS de vender sectores estratégicos

(via O Insurgente)

* Post Scriptum: Qualquer semelhança com declarações reais é pura coincidência.

Saturday, August 27, 2005

Xenofobias económicas

A quantidade de contradições ideológicas vigentes (e sobrepostas) na sociedade portuguesa continua a deixar-me confuso. Mais uma notícia interessante na SIC, acerca da queda de investimento estrangeiro em Portugal.

Portugal perde para o Leste

Portugal saiu da lista dos países mais atractivos para o investimento estrangeiro. Um estudo internacional coloca a Polónia como o mais aliciante da Europa.

(...)

São muitas as empresas com vontade de mudar os negócios para Leste. Para sobreviver, Portugal e vários países da Europa ocidental terão de apostar mais na qualidade do que se produz e em áreas, por exemplo, como as novas tecnologias e serviços.


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Parece que agora o investimento estrangeiro, afinal, já é bom e que Portugal terá que mudar para poder sobreviver. Para sobreviver! Não são estes senhores os mesmos que estão constantemente a queixar-se de que as empresas estrangeiras vêm roubar o lugar às portuguesas?

Há umas semanas via um profissional do ramo de hotelaria, indignado com o aumento do IVA. Ele não estava indignado com o imposto em si mas com a fuga de clientes para Espanha que esse mesmo aumento representava. Defendia ele que o Estado devia fazer mais por defender as empresas nacionais. Chamam a isto liberdade de mercado? Afinal quem são os proteccionistas? Já é tradição, por exemplo, ouvir a desculpa do proteccionismo espanhol que se pode ver neste artigo:

PME espanholas fogem do mercado nacional


As acusações de proteccionismo, negadas por Espanha, são antigas em Portugal. Ainda em Abril, o primeiro-ministro José Sócrates afirmava que «Portugal não tem nenhum complexo. Queremos é que o mercado espanhol se abra da mesma maneira». Nos dois países «persistem sentimentos retrógrados e proteccionistas que os Governos devem evitar», acusava Sócrates



Curioso que seja também o mesmo artigo a denunciar a queda do investimento espanhol em Portugal no ano de 2004.

A crise económica está a afastar de Portugal muitas empresas espanholas. Em dois anos, meio milhar de firmas oriundas de Espanha abandonaram o mercado nacional, sobretudo pequenas e médias.

Então não era Portugal um país de mercado aberto, contrariamente a Espanha? Em que ficamos? Se Portugal fosse mesmo um país de mercado livre não choveriam críticas cada vez que um estrangeiro compra uma empresa de grandes dimensões. Não existiriam comentários anti-espanhóis, anti-americanos ou anti-britânicos de cada vez que há um investimento importante (não fossem estes os principais investidores actuais) em Portugal. Nem sequer saltariam do banco os sindicatos tentando proteger os direitos dos trabalhadores faces aos "interesses dos capitalistas estrangeiros sem escrúpulos”. Se Espanha é um pais que se fecha assim tanto o que explica que o maior parceiro comercial português seja Espanha? Misterioso, não? Segundo os dados do CIA Factbook relativamente a Portugal, Espanha absorveu 24.8% das exportações portuguesas enquanto que 29.3% do que foi importado por Portugal veio de Espanha. Se Espanha protege o mercado como é que ¼ das exportações portuguesas vão parar a Espanha?! Isto sem contar com as empresas portugueses sedeadas em Espanha.

Outro exemplo flagrante é o do MIBEL – veja-se o seguinte artigo do Publico:

Atraso no Mibel "vai fazer bem a toda a gente"

"Ainda bem que as eleições espanholas baralharam os prazos do mercado ibério de electricidade [Mibel]." Esta não é uma frase frequentemente ouvida em Espanha, como seria de esperar, mas em Portugal.

Lurdes Ferreira esperava que o comentário viesse de Espanha mas – que surpresa (ou talvez não) – o comentário vem de Portugal. Um mercado ibérico é desejado, não surpreendentemente, por Espanha mas desdenhado por Portugal, que continua a encontrar mais razões para o proteccionismo económico. E ainda há coragem de referir Espanha?

Portugal atrai cada vez menos investimento estrangeiro devido ao seu intervencionismo estatal e à sua burocracia interna. Há umas semanas via uma outra notícia na televisão acerca de um grupo britânico que pretendia comprar uma empresa em Portugal (que até estava em processo de falência). Estes ingleses acabaram por desistir da compra devido à burocracia evidente do sistema português que só os fazia perder tempo e dinheiro. Lá se foi um potencial investimento, demonstrando, mais uma vez, que há aqui um problema de fundo extremamente grave.

E ainda há quem tenha coragem de dizer que, contrariamente a Espanha, Portugal não protege o seu mercado? Como se atrevem? O investimento cai porque as estruturas financeiras impedem as acções estrangeiras e, adicionalmente, existe uma resistência popular a tudo o que é estrangeiro. Depois admiram-se que aconteçam cenas tristes deste género.

Irlanda do Norte está a ser pesadelo para portugueses

Duas famílias de emigrantes foram atacadas em casa e tiveram de ser realojadas pela Polícia Agressões e crimes raciais na região têm vindo a crescer de dia para dia

Governo português contra «escalada de violência»

O Governo português protestou, esta sexta-feira, junto das autoridades inglesas sobre aquilo que considera ser a «escalada de violência» contra os emigrantes portugueses em Inglaterra.



Ou que a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas aconselhe os portugueses a ter cuidado quando se desloquem à Alemanha.

Condições de segurança
Propícias.
Ocorrência muito esporádica de agressões a estrangeiros, sobretudo na área da antiga República Democrática Alemã


Não é estranho ler outras situações em França, na Irlanda ou no Luxemburgo. Os exemplos são certamente condenáveis mas que autoridade moral podem ter os portugueses para se queixar do que fazem os estrangeiros se por territórios lusitanos se pensa da mesma forma?

Basta de socialismos baratos de carácter nacionalista. Queremos prosperidade e, acima de tudo, liberdade de escolha, coisa que é difícil com monopólios e cartéis a actuar sob a alçada da lei.

Friday, August 26, 2005

Saramago, Prémio Nobel soviético

Para os mais novos que ainda tenham dúvidas quanto ao carácter marxista-leninista deste grande herói da "Revolución" em Portugal, aqui fica uma ligação do DN de hoje. Para os mais velhos, apenas basta recordar estes tempos.

Quando Saramago exigia "violência revolucionária"

Silvas e Moreiras

O facciosismo de Vital Moreira é inacreditável. Descobri recentemente o Causa Nossa (deles?) e para minha surpresa constatei que o Vital Moreira era o Vital Moreira em que estava a pensar. Uma das últimas publicações no blogue foi este artigo:

Observe-se o facciosismo da análise, tão constante por aquelas bandas.

Recorde-se que a eleição à 1ª volta exige maioria absoluta, precisando o candidato vencedor de ter mais votos do que todos os outros candidatos somados. Nesse quadro, se for de prever que as três candidaturas à esquerda somarão, em conjunto, mais votos concorrendo separadas do que concentradas em Mário Soares logo à primeira volta -- hipótese verosímil --, então a divisão à esquerda não favorecerá Cavaco, antes pelo contrário.
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A verdade é que o artigo do DN tem precisamente o titulo OPOSTO! -- Divisão à esquerda ajuda Cavaco

É certo que Manuel Meirinho diz que esta divisão pode dificultar as coisas a Cavaco mas é curioso (e não um preciosismo) a forma como Vital Moreira distorce o teor do artigo pois a maioria do artigo fala precisamente do contrário. Típico.

Quanto ao artigo em si, concordo mais com a análise de Pedro Magalhães do que com a de Meirinho. É possível que haja uma necessidade de segunda volta mas, na minha opinião, isso não prejudica directamente Cavaco. Este encontra-se no partido que não está no governo (que vai perdendo o seu estado de graça) ao contrário de Mário Soares que é candidato pelo PS.

Enquanto que Alegre e Soares poderiam ser figuras que suscitariam apoios da extrema-esquerda, Jerónimo dificilmente conseguirá convencer o eleitorado socialista do qual parte irá já votar por Cavaco. Para reunir apoios à esquerda, como referi anteriormente, há que ser do PS, partido que não dispensa ter um candidato próprio. Lembremo-nos que Manuel Alegre não difere assim tanto da ala mais comunista do PS e que Mário Soares tem vindo a conquistar a simpatia do PCP e do BE com as suas críticas anti-americanas e o elogio ao programa do BE para as últimas legislativas.

Uma campanha com vários candidatos à esquerda lança a discórdia através de críticas e ataques ou então as campanhas têm que ser artificiais para que depois se possam unificar e reunir votos na segunda volta. Mesmo que os candidatos do PCP e do BE (soube agora que o BE também já definiu o seu próprio candidato o que me parece vir dar ainda mais razão) venham a desistir mais tarde de forma a favorecer o candidato da "esquerda" isso não apagará a memória das campanhas individuais de tais partidos.

Thursday, August 25, 2005

España, mi amor, mi miedo

Ainda com Sarsfield – era bom que ele se decidisse.

O investimento espanhol em Portugal caiu 61% em 2004, ano em que o investimento de Espanha no estrangeiro quase duplicou, como referiu Paulo Ferreira no Jornal de Negócios de 16. Nos últimos dois anos, meio milhar de empresas espanholas abandonou o nosso país. Eis a nova ameaça espanhola.
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Se presença espanhola é porque eles são invasores e conseguiram por via económica o que não conseguiram militarmente. Se não há presença espanhola é porque eles são uns egocêntricos traidores e arrogantes que nos tratam abaixo de cães.

Os espanhóis (essa entidade abstracta) ou são os maus da fita *ou* são os maus da fita. Em bom português popular – preso por ter cão, preso por não ter.

Não estará já na altura de acabar com as nostalgias integracionistas e abolir expressões xenófobas declaradamente nacionalistas referentes à “invasão espanhola”, “ameaça espanhola”, “perigo espanhol”? E que os indecisos se decidam de uma vez. Esta dicotomia de amor e ódio por Espanha é extremamente pueril.

Sorte têm os portugueses de que estas coisas não se saibam do outro lado da fronteira ou já nem aceitariam vender combustível a ninguém.

Bigger Brother is watching Big Brother

Quotas de Francisco Sarsfield Cabral

Ministros da Holanda, Suécia, Dinamarca e Finlândia publicaram há uma semana um artigo no Financial Times protestando contra os limites às importações têxteis chinesas na União Europeia. Limites negociados com a China, por causa do pânico gerado pelo fim das quotas no início de 2005. O Governo alemão enviou uma carta à Comissão insurgindo-se contra esses limites. No Reino Unido e até em França o comércio retalhista agita-se contra as restrições montanhas de peças de vestuário acumulam-se nas alfândegas da UE, prejudicando a próxima época de vendas.
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Uma coisa que a UE conseguiu fazer foi tornar-se o governo dos governos. Agora os povos já não têm que lutar única e exclusivamente contra os seus governos mas também contra o governo dos seus governos.

E pobres dos Estados europeus que têm de lutar também pelas suas "liberdades individuais" perante o seu governo. O esquema da pirâmide é cada vez mais claro e, caso as pessoas ainda não tenham percebido (ou não queiram perceber), o fitoplâncton desta cadeia alimentar somos nós.

A aleg(o)ria de Jardim

O DN publica hoje o escândalo geoeconómico do momento, a questão dos têxteis chineses. A UE, como boa entidade reguladora e proteccionista que é, nunca perderia uma oportunidade de estabelecer quotas (afinal, "há que proteger as economias nacionais!" ou qualquer coisa do género).

"Perto de 430 mil peças de vestuário e mais de 12,6 toneladas de material têxtil oriundo da China estão neste momento retidos nos portos portugueses. Os números, avançados pelo ministério das Finanças, representam uma pequena gota num oceano de muitos milhões de roupa e toneladas de têxteis que se encontram bloqueados nos portos europeus, devido às limitações decretadas pela União Europeia à entrada de alguns produtos da China."


A LD noticia também a situação em Espanha (que de acordo com o ministro francês do Comércio Exterior é o país mais prejudicado) e em França:

"Estas cifras no coinciden con las ofrecidas por el Ministerio francés de Comercio Exterior, que asegura que España es el país de la UE con más productos retenidos, con 15,9 millones de jerséis, 1,16 millones de pantalones y 16.860 camisas.

París calcula que en los puertos franceses hay retenidos 5,9 millones de jerséis, 1,2 millones de pantalones y 79.400 camisas, mientras que en el conjunto de la UE aguardan 58,6 millones de jerséis, 16,5 millones de pantalones y 272.200 camisas."


A culpada não é só a UE. São também o Estado português e os outros europeus por permitirem a situação. São os produtores nacionais que desejam manter as suas próprias quotas de mercado intocáveis e são os sindicatos que zelam (dizem eles) pelos trabalhadores.

Porque continua a existir um medo tão grande da liberdade?

Quem deve estar todo contente com as notícias é Alberto João Jardim que não queria mais chenêses no seu território. Como se pode chamar “Direita” ao PSD quando os seus elementos são contra as importações, a economia de mercado e a concorrência?

Wednesday, August 24, 2005

Inteligência canhota e debilitada


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Fui hoje surpreendido pela notícia de que Jerónimo de Sousa seria candidato às eleições presidenciais ou talvez eu continue a pensar que os comunistas, e a extrema-esquerda em geral, são compostos por gente astuta (porque honesta nunca é).

«Evitar que a direita tome conta do Palácio de Belém», é o principal objectivo da candidatura de Jerónimo de Sousa, anunciou o secretário-geral do PCP no final da reunião com o comité central do partido.


Nos últimos tempos não se tem falado de nenhum candidato do PSD ou do CDS além de Cavaco Silva, a quem agora toda a gente chama de “Professor” embora ele já o fosse e para com o qual mostram cada vez mais respeito embora seja keynesiano. É certo que no estado tão lamentável em que se encontram as actividades económicas até um kenesyiano podia pôr isto a funcionar – ou é isso em que a população quer acreditar. Tenho visto muita gente, votantes do agora chamado “Bloco Central”, falar de Cavaco Silva com um sentimento enorme de nostalgia. Aqueles longínquos anos em que tantas críticas surgiam – como, aliás, surgem sempre – parecem agora estar esquecidos e todos dizem que “se fosse o Professor Cavaco, eu até votava nele”. Curioso que tenha sido também um sentimento de desespero nacional a dar tanto apoio a Salazar, o salvador da Pátria. Já se deve ter reparado que esta Pátria precisa de Juntas de Salvação Nacional com certa regularidade – sejam elas D. Sebastião, Oliveira Salazar, o governo de José Sócrates, segundo as palavras de Mário Soares ao El Pais (jornal do Grupo PRISA), ou a própria.

Outro factor importante de que se esquece a maioria é de que Cavaco, caso tenha decidido concorrer verdadeiramente a eleições, se tornara Presidente da República. Ora, como se sabe, o Presidente da República, como figura política, é apenas um cargo de chefia passiva e controlo ligeiro sobre o poder executivo. O presidente não faz mais do que falar aos portugueses, vetar leis do parlamento quando acha que são inadmissíveis e representar Portugal no estrangeiro, quando convém. Além disso, o Presidente da República serve também para fazer figuras tristes como as de dar medalhas por condescendência ou simplesmente por interesse de divulgação. Como tal, o apoio e toda a conversação que se tem vindo a levantar acerca das eleições presidenciais é completamente irrelevante. Desviam-se as atenções dos problemas reais, preferindo entrar num debate completamente casual acerca de uma banalidade. Não é o Presidente da República que vai salvar o país. Ninguém vai salvar o país.

Eu compreendo que Cavaco Silva queira pensar porque na situação presente, ser Presidente da República é perigoso. Vejamos que o Presidente da República não desempenha cargo de grande importância embora seja o Chefe de Estado – um pouco o resquício republicano dos tempos monárquicos. Então porque se fala tanto no assunto? Não é certamente Cavaco nem o PSD quem monopoliza a questão. Se repararmos, tem sido o PS (e os seus candidatos) a dirigir completamente a questão e até a polémica. E agora surge a notícia, para mim surpreendente, da candidatura de Jerónimo de Sousa.

Analisemos a questão. Há vários meses que as atenções têm sido desviadas do mundo real para que se discutam, como se de uma questão central se tratasse, as eleições presidenciais. Nem sequer o referendo da Constituição Europeia, algo de importância muito superior, promoveu tanta discussão. Após a fuga de Durão Barroso para Bruxelas dizia-se que o PSD estava fragmentado e que tudo o que aconteceu de seguida era inevitável. Manuela Ferreira Leite, a número 2, não substituiu Barroso. Santana Lopes fê-lo sem apoio dos dinossauros sociais-democratas e Marques Mendes foi eleito com muita timidez pelos militantes, que lhe deram simplesmente 56.6% dos votos ao contrário de Sócrates que, no PS, ganhou esmagadoramente com 81,7%. Os comentadores assinalavam que os socialistas, ao contrário dos sociais-democratas, estavam unidos, coesos e tinham uma base coerente para avançar para eleições legislativas.

Ao aproximarem-se as presidenciais notou-se a dificuldade de candidatos da esquerda. Manuel Alegre, como bom revolucionário, está sempre disponível porque afinal “não há donos da república”. Falou-se também em Guterres porque, afinal, os portugueses também já devem ter esquecido os anos de guterrismo e o abandono de Guterres para evitar o pântano político de que falava. Obviamente, Gueterres, que ainda não está em fim de carreira prefere ficar a servir a ONU. O tacho é melhor e tem mais visibilidade. A seguir à Internacional Socialista, considerar ser Presidente da República Portuguesa é um cargo menor e de pouco prestígio – isso ficará para quando Guterres se tornam num dos que andam por aí. Logo surgiu Mário Soares que, obviamente, não perde uma oportunidade para aparecer nas luzes da ribalta. O “pai da democracia portuguesa” acha que os portugueses ainda podem sentir saudades suas o que é, se calhar, é uma grande verdade.

A grande polémica em torno de Soares e Alegre, que pareciam competir pela preferência dos apoios socialistas, dava lugar a uma estratégia de fundo que mostrava os cordelinhos que tentavam manipular nas mentes portuguesas. Soares dizia que a candidatura de Cavaco não podia ser um passeio na Avenida dos Aliados e por isso deu o passo em frente. Alegre indignou-se, mostrando o seu carácter revolucionário de que os comunistas e bloquistas tanto gostam. Se Soares desistisse (referindo a falta de apoios) Alegre seria o tal candidato providencial que uniria a esquerda contra a “direita” (ou aquilo a que a esquerda gosta de chamar de “direita”). Alegre, cujos apoios poderiam vir do Bloco e do PCP, seria igualmente candidato pelo PS, reunindo simultaneamente todos os votos destes partidos. Os candidatos restantes? Freitas do Amaral nunca teria o apoio do CDS depois de se ter juntado ao governo socialista. Resta apenas Cavaco, que reunirá os votos do PSD, do CDS e de muitos dos eleitores do PS que se encontram desiludidos com a actual governação (como se dela se tivesse devido esperar algo de diferente).

A candidatura de Jerónimo de Sousa surge em péssima altura. De Sousa é um candidato que não é um intelectual típico do comunismo e, por isso mesmo, tem o dom de mover multidões pela identificação que, infelizmente, o “proletariado” sente. Um líder simpático, populista, crítico q.b., e extremamente coerente no seio da sua incoerência. Fala de nacionalizações, fala do egoísmo do vil metal e das privatizações inaceitáveis que cedem o poder do povo aos interesses empresariais. Como dizia alguém durante as legislativas, de Sousa é o metalúrgico de camisa, parte do povo, que se engana ao falar, comete erros de apreciação e por isso mesmo demonstra ser falível no discurso. Isso geria simpatia generalizada. No entanto, as duas ideias dificilmente podem ser aceites por grande parte do eleitorado socialista – essa fase, por enquanto, já foi ultrapassada – e a maioria acredita numa versão social-democrata do paraíso social, o “Estado de bem-estar” e não nas revoluções comunistas de Cuba ou nos regimes coreanos, ao contrário do candidato do PCP que facilmente se classificaria como marxista-leninista.

Assim, a extrema-esquerda perde uma boa oportunidade para ficar em silêncio. O PS nunca desistiria de ter um candidato próprio – seja ele Alegre, Soares ou outro – mas o PCP poderia muito bem prescindir de um, coisa que não fez. Os apoios aos candidatos socialistas ficam comprometidos, dividindo os eleitorados do PCP e do BE que, à partida, poderiam apoiar um candidato apresentado por Sócrates.

Para quem dizia que é preciso combater a “direita”, a esquerda, da qual se tem dito muito unida, demonstra a sua fragmentação interna e falta de visão estratégica a longo prazo. O walk in the park de Cavaco Silva parece cada vez mais evidente já que o PSD e o CDS parecem não apresentar mais ninguém. Na verdade, se Cavaco Silva disser “não” será muito difícil arranjar um candidato à altura do colosso Soares.

Contudo, há que louvar a falta de perspicácia da extrema-esquerda portuguesa. Se há que escolher entre mau e pior, que vença Cavaco Silva. Ao menos ganha-se o direito de veto sobre as leis aprovadas pela maioria absoluta do PS, coisa que seria muito difícil tendo Soares nesse mesmo cargo. Felizmente, a esquerda não compreendeu isso e, a menos que haja alguma outra reviravolta (in)esperada, não me parece que a situação se venha a alterar. Isto, se Jerónimo de Sousa não desistir da candidatura como fez contra Jorge Sampaio. No entanto, numa altura tão crítica, qualquer movimento como o de Jerónimo de Sousa causa fracturas no seio da esquerda que a priori se esperava que juntasse forças para derrubar Cavaco.

Ignis Fatuus


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Há certas notícias que deviam ser uma surpresa mas, na verdade, não são. Muita gente dirá, como os jornalistas gostam de frisar, “é o país que temos”, contribuindo ainda mais para uma depressão generalizada que já por si é característica.

Noticias dos últimos dias acerca dos incêndios deixam de fazer sentido. Continuam a lavrar por todo o território. Mais preocupante do que tudo isto parece ser o contentamento dos meios de comunicação nacionais (e das pessoas) ao ver que os internacionais põem os olhos no que está a acontecer. Ainda hoje a minha família me dizia que “os estrangeiros mandaram jornalistas para cá”, com uma espécie de nostalgia nos olhos. É deprimente ver o complexo de inferioridade de toda esta gente. Até os incêndios servem como remédio para a baixa auto-estima, de certa forma. Veja-se o PortugalDiário:

A imprensa internacional tem estado a dar ampla cobertura aos incêndios em Portugal, que mereceram destaque de primeiras páginas em vários jornais e levaram o canal britânico BBC a enviar uma equipa para reportar o drama dos fogos florestais.

Na imprensa britânica, os incêndios que grassam em Portugal são hoje o destaque do dia, com as imagens das chamas a serem constantemente transmitidas pelos três canais de televisão nacionais.

(…)

Na imprensa, todos os títulos já fizeram referência aos fogos em Portugal, tendo o diário Times, um dos jornais de referência com mais audiência do país, suplantado a concorrência com uma reportagem de página inteira publicada segunda-feira com o título "Uma Nação em chamas pede por ajuda para combater as chamas".

(…)

À semelhança do que aconteceu nos últimos dias, o tema dos incêndios em Portugal merece hoje destaque de primeira página em vários jornais nacionais, incluindo o El Pais, que nota em título que "o fogo avança em Portugal", e que afirma, em editorial sobre o tema, que continua a haver muitos fogos em Portugal e Espanha porque "há muitos incendiários soltos".

(…)

O La Razon, por seu lado, marca os fogos com uma imagem de um homem com uma mangueira a combater as chamas, afirmando que Portugal está "preso dos incêndios", tendo sido "forçado a solicitar apoio europeu".

O drama dos fogos em Portugal tem estado a merecer também a atenção dos meios de comunicação social alemães. Os telejornais transmitem frequentemente imagens dos incêndios mais graves, e alguns jornais chamaram o assunto à primeira página.
É o caso do Tagesspiegel, matutino de Berlim, que na sua edição de hoje abre com uma foto de um helicóptero a tentar combater as chamas em Abrantes, sob o título "Portugal está a arder".
(…)

Os telejornais dos diversos canais públicos e privados alemães têm referido sempre a catástrofe dos fogos em Portugal, nos últimos dias, e só as graves inundações na Baviera fizeram o tema passar para um plano mais secundário, desde o fim-de-semana.
Os fogos que castigam Portugal têm sido destacados igualmente nos meios de comunicação social do Brasil, que estão a divulgar a luta travada pelos bombeiros e pela população contra as dezenas de incêndios.
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Que macabro orgulho subliminar é este, presente em todo o texto? É comum ver-se disto. Não é só o PortugalDiário, são os jornais em geral e os canais de televisão que já fazem o mesmo cada vez que Espanha refere assuntos políticos portugueses. De cada vez que Inglaterra fala da Casa Pia ou de cada vez que a Alemanha se digna (diriam eles) a comentar a economia portuguesa. Diziam-me há uns tempos que a NASA tinha publicado fotos de satélite sobre os incêndios em Portugal e depois, sublinhavam – “a NASA!”. Portugal arde de lés a lés mas o facto mais relevante (que serve de consolo para muitos) é o de que o nome de Portugal aparece nas manchetes internacionais. “Falam de nós no El País, hoje!”, “Hoje falaram de nós no Der Spiegel!”, “estava a ver a CNN, acreditas que falaram em nós? Eles disseram Portugal!”. A esta necessidade (e aparente surpresa) adiciona-se a outra necessidade de obter figuras ou ídolos sobre os quais projectar a heroicidade (inconscientemente inexistente) lusitana. Veja-se por exemplo o destaque que o PortugalDiário deu às fotos dos bombeiros que eram usadas pelos outros jornais. Veja-se ainda, como outro exemplo, a festa que se fez em torno de Tiago Monteiro que se transformou num autêntico herói nacional após ficar em 3º lugar numa corrida em que apenas participaram 6 carros. Este tema – da sociologia portuguesa no contexto internacional – é muito longo e ficará, também, para outra ocasião.

Com toda esta atitude surrealista perante os problemas, as notícias quase parecem ser produzidas para criar esse efeito. Os telejornais sensacionalistas da RTP, SIC e TVI que se têm visto desde 2003, o ano em que arderam quase 500 mil hectares, são de deixar uma pessoa revoltada, frustrada e impressionada. Contudo, parece que isto não é só um método de divulgação mas sim um sedativo para a crise (não económica mas) sociológica portuguesa. Em que mórbido país se observaria mais este comportamento? Costuma dizer-se dos franceses, que são chauvinistas e arrogantes mas sinceramente é de duvidar que o Le Monde Diplomatique e o Le Figaro dediquem as suas páginas a falar das referências internacionais que lhes são feitas. Isto é um pouco uma manifestação da síndrome Technorati dos blogues – quando as pessoas já não falam de assuntos que lhes interessam mas sim dos assuntos que comentam aqueles que lhe deram uma ligação – o que revela, na imprensa portuguesa, uma falta de capacidade para dar a conhecer os tópicos que realmente importam. As verdadeiras notícias do que acontece por aí fora nunca chegam a tornar-se bombas sensacionalistas porque já há uma outra síndrome – a de Mitrídates – que permite que as imagens dos incêndios se observem com relativa aceitação e indiferença. Definitivamente, não. O caso português não tem paralelo com o francês. Os franceses falam de si próprios o tempo inteiro porque se consideram os melhores. Se falam dos outros é para criticar (veja-se o caso do sentimento anglo-saxónico, anti-espanhol e, em muitos casos, anti-português) enquanto que os portugueses neste campo são mais paradoxais. Os portugueses falam de si mesmos, através das palavras dos outros, para se convencerem, com muita dificuldade, de que não são inferiores. No caso das referências jornalísticas, de que são dignos de ser mencionados por estrangeiros.

O grande resultado de tudo isto é que as coisas importantes ficam dentro da gaveta, sem se mexer, sem se tocar, dando lugar à continuidade do sistema. Esta incapacidade de mudar transforma-se na própria dinâmica que origina o aspecto kafkiano dos paraísos institucionais em Portugal. São estas incapacidades, aliadas ao tal efeito de Mitrídates, que explicam a continuidade das situações inaceitáveis.

Bombeiros à espera nos quartéis enquanto o país está a arder

Associação afirma que «há bombeiros disponíveis à espera de serem chamados». MAI responsabiliza as autarquias «que devem disponibilizar os efectivos». Bombeiros acusam Protecção Civil de «má coordenação» porque há corporações do Norte a combater fogos no Centro e vice-versa

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O responsável explica que «os sapadores e os bombeiros municipais são da responsabilidade das câmaras, e só podem sair dos quartéis quando chamados pela Protecção Civil e depois de terem autorização dos presidentes de câmara»

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Este domingo, em declarações aos jornalistas, António Costa, ministro da Administração interna afirmou que «a maior carência actualmente no combate aos fogos são os meios humanos», e disse que «o efectivo está esticado até ao limite».

Contactado pelo PortugalDiário, o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC) não quis comentar esta disparidade de posições, afirmou apenas que o ministro da Administração Interna já se tem pronunciado sobre a questão. Ao PortugalDiário, o Ministério da Administração Interna remeteu a responsabilidade para as autarquias, afirmando que «devem ser as câmaras a dizer se há bombeiros nos quartéis, e porquê, já que são elas as responsáveis por estas corporações».
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Outro comentário escandaloso é apontado pelo programa Nós por cá da SIC:

21 de Julho foi um dos piores dias de incêndios em Portugal. Sobretudo no centro do país. Esse foi também o dia escolhido pelo ministro da Administração Interna para sobrevoar os locais mais atingidos e reunir com os comandantes distritais envolvidos no combate aos fogos.
A meio da tarde, desceu em Ferreira do Zêzere, onde lavrava um grande incêndio.

Foi nessa altura que António Costa disse que os meios áereos [sic] não chegavam para as encomendas.
Acontece que o ministro viajou num dos dois helicópteros do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil. Um Bell 212, um dos dois únicos aparelhos que estão ao serviço dos Bombeiros 24 horas por dia, 365 dias por ano, com capacidade para combater fogos.

Ou seja, enquanto era anunciado que o Estado já iria ter de pagar horas extraordinárias para conseguir ter no ar mais meios áereos [sic], o helicóptero dos Serviço Nacional de Bombeiros andava às voltas com o ministro.

Mas tanto o gabinete do ministro como o Serviço Nacional de Bombeiros alegam que se assim foi é porque o helicóptero não fez falta.

É difícil entender que um helicóptero preparado para apagar fogos e que está sempre ao dispor dos bombeiros não tenha feito falta nesse dia. Nesse dia em que, só como exemplo, estava longe de ser controlado o incêndio que começou em Seia e durante seis dias se alastrou a cinco concelhos até ao Fundão.
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Mas entre reis e rainhas da comunicação social, tudo isto passa despercebido. Assim como todas as noticias importantes. Não só passam despercebidas aos meios mas também às pessoas. Aliás, que importa tudo isto se os britânicos, os franceses, os espanhóis, os alemães e até os americanos (!) falam de Portugal? Isso sim, obviamente, é a verdadeira notícia.

Tuesday, August 23, 2005

I, Chip © 1984


O Sistema de Identificação Electrónica de Veículos (SIEV) vai passar a ser obrigatório a partir de 2007, segundo adianta o Jornal de Negócios de terça-feira, citando o secretário de Estado das Obras Públicas e Comunicações.

Paulo Campos, o secretário de Estado, disse ao jornal que o novo sistema pelo qual se introduz a obrigatoridade [sic] do identificador electrónico de veículos vai revolucionar todo o sector, «incluindo a relação dos proprietários com o Estado», refere o artigo.

O SIEV vai permitir que o carro fique registado electronicamente numa base de dados do Estado, além de possibilitar outras aplicações como as que são proporcionadas, hoje, pela Via Verde.
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Confirmação da notícia já referida anteriormente.

“O SIEV vai permitir que o carro fique registado electronicamente numa base de dados do Estado”

Qual é a fixação do governo com bases de dados? (pergunta de retórica)

Entretanto, sem resposta organizada (ou sequer preocupação) dos proprietários, o Big Brother vai estendendo os seus tentáculos. O ano da obrigatoriedade só surge 23 atrasado.

Monday, August 22, 2005

Rebentaram-se-nos as águas

Um artigo publicado pelo Salvador da Biblioteca de Babel levou a minha total concordância. Já todos sabemos que a Península Ibérica atravessa uma "seca extrema". Desde o início do ano que andamos a ouvir esta lenga-lenga através da comunicação social. Digam-nos algo que não sabemos. Grande parte de Portugal situa-se numa zona que é atingida por climas secos e quentes.

Há uns dias recebi pelo correio uma carta da Câmara Municipal de Loures que apelava à redução do consumo da água por parte dos cidadãos. No verso dessa mesma folha encontrava-se um outro pedido relativamente às florestas (coisa que comentarei em breve). Mas que direito pensa ter o Estado (o que inclui as autarquias) sobre as reservas de água e os direitos dos cidadãos em consumi-la? Já todos ouvimos a história de que a água doce vai acabar em X anos (substituir X pelo número conveniente) e já todos sabemos que a água é um bem escasso, caso contrário não seria necessário comprá-lo. Há que relembrar que a economia existe porque os bens não são infinitos.

Surgem as seguintes perguntas inevitáveis:

- Por que razão insiste o Estado em incentivar o consumo da água não liberalizando a sua distribuição?

- Por que razão existe apenas uma companhia com direito a fazer a distribuição da água e por que razão insiste ela em cobrar-me vários impostos sobre o meu consumo?

- Porque tenho que pagar pelo aluguer dos contadores eternamente sem os poder comprar? (estilo “assinatura mensal”)

- Porque insiste o Estado, por apelo aos contribuintes (e gastando o dinheiro dos NOSSOS impostos nas SUAS campanhas publicitárias), em interferir nas nossas vidas ainda mais do que já interfere?

- Quem é o Estado para mandar na quantidade de água que usamos?

- Que autoridade moral tem o Estado para pedir aos cidadãos que reduzam o seu consumo de água quando a SIC tem noticiado vários exemplos de como os responsáveis das autarquias desperdiçam volumes astronómicos de água enquanto rogam aos cidadãos para que a poupem?

(a consultar nestas 3 ligações:

Água: testemunhos

Água: testemunhos (II)

Água: testemunhos (III))

A resposta, mais uma vez, é extremamente simples. Em resumo, o Estado não permite a abertura do mercado da água (algo semelhante ao que já faz com a electricidade e com as telecomunicações). Quando existe água em abundância, o Estado impede-nos de pegar menos devido à concorrência de mercado. Quando existe seca, o Estado impede que o mercado se regule a si mesmo na busca de outras soluções, incentivando o consumo já que os preços se mantêm. Ainda assim, usa o dinheiro que entra nos seus cofres para simultaneamente estimular o consumo, desperdiçar água (como pode ser visto em muitos casos nas fotos) e apelar aos contribuintes para que reduzam o seu consumo “inaceitável”!

Seremos apenas o Salvador e eu os únicos a reparar que aqui existe um culpado evidente que não é o cidadão “egoísta” e com “falta de civismo”?

P.S. - O cidadão "egoísta" e com "falta de civismo" está a pagar pela água que consome. O Estado limita-se a explorar os recursos naturais.

A queda do modelo escandinavo

Mais uma excelente recomendação de Jorge Valín, desta vez sobre o famoso modelo socialista (social-democrata) nórdico.

O modelo do Estado de bem-estar (algo em que Sócrates diz "ainda" acreditar) mostra-se incapaz e insuficiente de se manter. Em inúmeras conversas acerca de política e de socialismo aparece sempre algum pseudo-intelectual que lembra "ah, mas há uma melhor qualidade de vida nos países nórdicos". A verdade é que as receitas geradas costumam ser enormes, como por exemplo no caso da Noruega, devido às actividades piscatórias e à exploração de petróleo mas os preços mantêm-se extremamente elevados devido às limitações do mercado que se fecha sobre si próprio. Dos medicamentos aos alimentos, das bebidas aos serviços, a situação denota um carácter intervencionista e muito pouca liberdade. Os produtos costumavam ser de má qualidade (e caríssimos) havendo simultaneamente muito pouca liberdade de escolha e/ou opções alternativas.

Nos últimos anos, e como referem os textos aconselhados pelo Jorge, evidencia-se uma necessidade de conversão ao capitalismo. A vitória dos factos, mais uma vez, como havia referido anteriormente aqui.

Pero al final, y como bien dice Rojas, el socialismo cae por su propia ineficiencia. El dinosaurio socialista se está despedazando solo.

De facto, os países nórdicos, embora permaneçam com uma carga fiscal e um grande número de "empresas públicas", têm, nos últimos anos, caminhado no sentido da liberalização dos seus sectores. Para mais informação aqui fica a ligação para o pdf (em espanhol) sobre a situação sueca, em particular:



Sunday, August 21, 2005

Dualidade de critérios

Manifestação de extrema-direita dispersada pela polícia



A manifestação da Frente Nacional em Lisboa para homenagear Rudolf Hess - colaborador próximo de Adolf Hitler - foi hoje dispersa pela polícia, causando revolta nos cerca de 50 "cabeças rapadas", que reagiram gritando: "Repressão policial, terrorismo oficial".

Mal os manifestantes de extrema-direita desenrolaram uma faixa de homenagem ao oficial nazi, a polícia obrigou-os a guardá-la, alegando que a concentração não estava autorizada.


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Alguém se lembra de a polícia ter parado as concentrações no funeral do Álvaro Cunhal, um defensor do estalinismo que até se revoltou contra Gorbachev por este querer efectuar a Perestroika? Alguém disse alguma coisa quando se ouviu a Internacional Socialista? Pois, bem me parecia...