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Friday, August 26, 2005

Silvas e Moreiras

O facciosismo de Vital Moreira é inacreditável. Descobri recentemente o Causa Nossa (deles?) e para minha surpresa constatei que o Vital Moreira era o Vital Moreira em que estava a pensar. Uma das últimas publicações no blogue foi este artigo:

Observe-se o facciosismo da análise, tão constante por aquelas bandas.

Recorde-se que a eleição à 1ª volta exige maioria absoluta, precisando o candidato vencedor de ter mais votos do que todos os outros candidatos somados. Nesse quadro, se for de prever que as três candidaturas à esquerda somarão, em conjunto, mais votos concorrendo separadas do que concentradas em Mário Soares logo à primeira volta -- hipótese verosímil --, então a divisão à esquerda não favorecerá Cavaco, antes pelo contrário.
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A verdade é que o artigo do DN tem precisamente o titulo OPOSTO! -- Divisão à esquerda ajuda Cavaco

É certo que Manuel Meirinho diz que esta divisão pode dificultar as coisas a Cavaco mas é curioso (e não um preciosismo) a forma como Vital Moreira distorce o teor do artigo pois a maioria do artigo fala precisamente do contrário. Típico.

Quanto ao artigo em si, concordo mais com a análise de Pedro Magalhães do que com a de Meirinho. É possível que haja uma necessidade de segunda volta mas, na minha opinião, isso não prejudica directamente Cavaco. Este encontra-se no partido que não está no governo (que vai perdendo o seu estado de graça) ao contrário de Mário Soares que é candidato pelo PS.

Enquanto que Alegre e Soares poderiam ser figuras que suscitariam apoios da extrema-esquerda, Jerónimo dificilmente conseguirá convencer o eleitorado socialista do qual parte irá já votar por Cavaco. Para reunir apoios à esquerda, como referi anteriormente, há que ser do PS, partido que não dispensa ter um candidato próprio. Lembremo-nos que Manuel Alegre não difere assim tanto da ala mais comunista do PS e que Mário Soares tem vindo a conquistar a simpatia do PCP e do BE com as suas críticas anti-americanas e o elogio ao programa do BE para as últimas legislativas.

Uma campanha com vários candidatos à esquerda lança a discórdia através de críticas e ataques ou então as campanhas têm que ser artificiais para que depois se possam unificar e reunir votos na segunda volta. Mesmo que os candidatos do PCP e do BE (soube agora que o BE também já definiu o seu próprio candidato o que me parece vir dar ainda mais razão) venham a desistir mais tarde de forma a favorecer o candidato da "esquerda" isso não apagará a memória das campanhas individuais de tais partidos.

Thursday, August 25, 2005

España, mi amor, mi miedo

Ainda com Sarsfield – era bom que ele se decidisse.

O investimento espanhol em Portugal caiu 61% em 2004, ano em que o investimento de Espanha no estrangeiro quase duplicou, como referiu Paulo Ferreira no Jornal de Negócios de 16. Nos últimos dois anos, meio milhar de empresas espanholas abandonou o nosso país. Eis a nova ameaça espanhola.
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Se presença espanhola é porque eles são invasores e conseguiram por via económica o que não conseguiram militarmente. Se não há presença espanhola é porque eles são uns egocêntricos traidores e arrogantes que nos tratam abaixo de cães.

Os espanhóis (essa entidade abstracta) ou são os maus da fita *ou* são os maus da fita. Em bom português popular – preso por ter cão, preso por não ter.

Não estará já na altura de acabar com as nostalgias integracionistas e abolir expressões xenófobas declaradamente nacionalistas referentes à “invasão espanhola”, “ameaça espanhola”, “perigo espanhol”? E que os indecisos se decidam de uma vez. Esta dicotomia de amor e ódio por Espanha é extremamente pueril.

Sorte têm os portugueses de que estas coisas não se saibam do outro lado da fronteira ou já nem aceitariam vender combustível a ninguém.

Bigger Brother is watching Big Brother

Quotas de Francisco Sarsfield Cabral

Ministros da Holanda, Suécia, Dinamarca e Finlândia publicaram há uma semana um artigo no Financial Times protestando contra os limites às importações têxteis chinesas na União Europeia. Limites negociados com a China, por causa do pânico gerado pelo fim das quotas no início de 2005. O Governo alemão enviou uma carta à Comissão insurgindo-se contra esses limites. No Reino Unido e até em França o comércio retalhista agita-se contra as restrições montanhas de peças de vestuário acumulam-se nas alfândegas da UE, prejudicando a próxima época de vendas.
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Uma coisa que a UE conseguiu fazer foi tornar-se o governo dos governos. Agora os povos já não têm que lutar única e exclusivamente contra os seus governos mas também contra o governo dos seus governos.

E pobres dos Estados europeus que têm de lutar também pelas suas "liberdades individuais" perante o seu governo. O esquema da pirâmide é cada vez mais claro e, caso as pessoas ainda não tenham percebido (ou não queiram perceber), o fitoplâncton desta cadeia alimentar somos nós.

A aleg(o)ria de Jardim

O DN publica hoje o escândalo geoeconómico do momento, a questão dos têxteis chineses. A UE, como boa entidade reguladora e proteccionista que é, nunca perderia uma oportunidade de estabelecer quotas (afinal, "há que proteger as economias nacionais!" ou qualquer coisa do género).

"Perto de 430 mil peças de vestuário e mais de 12,6 toneladas de material têxtil oriundo da China estão neste momento retidos nos portos portugueses. Os números, avançados pelo ministério das Finanças, representam uma pequena gota num oceano de muitos milhões de roupa e toneladas de têxteis que se encontram bloqueados nos portos europeus, devido às limitações decretadas pela União Europeia à entrada de alguns produtos da China."


A LD noticia também a situação em Espanha (que de acordo com o ministro francês do Comércio Exterior é o país mais prejudicado) e em França:

"Estas cifras no coinciden con las ofrecidas por el Ministerio francés de Comercio Exterior, que asegura que España es el país de la UE con más productos retenidos, con 15,9 millones de jerséis, 1,16 millones de pantalones y 16.860 camisas.

París calcula que en los puertos franceses hay retenidos 5,9 millones de jerséis, 1,2 millones de pantalones y 79.400 camisas, mientras que en el conjunto de la UE aguardan 58,6 millones de jerséis, 16,5 millones de pantalones y 272.200 camisas."


A culpada não é só a UE. São também o Estado português e os outros europeus por permitirem a situação. São os produtores nacionais que desejam manter as suas próprias quotas de mercado intocáveis e são os sindicatos que zelam (dizem eles) pelos trabalhadores.

Porque continua a existir um medo tão grande da liberdade?

Quem deve estar todo contente com as notícias é Alberto João Jardim que não queria mais chenêses no seu território. Como se pode chamar “Direita” ao PSD quando os seus elementos são contra as importações, a economia de mercado e a concorrência?

Wednesday, August 24, 2005

Inteligência canhota e debilitada


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Fui hoje surpreendido pela notícia de que Jerónimo de Sousa seria candidato às eleições presidenciais ou talvez eu continue a pensar que os comunistas, e a extrema-esquerda em geral, são compostos por gente astuta (porque honesta nunca é).

«Evitar que a direita tome conta do Palácio de Belém», é o principal objectivo da candidatura de Jerónimo de Sousa, anunciou o secretário-geral do PCP no final da reunião com o comité central do partido.


Nos últimos tempos não se tem falado de nenhum candidato do PSD ou do CDS além de Cavaco Silva, a quem agora toda a gente chama de “Professor” embora ele já o fosse e para com o qual mostram cada vez mais respeito embora seja keynesiano. É certo que no estado tão lamentável em que se encontram as actividades económicas até um kenesyiano podia pôr isto a funcionar – ou é isso em que a população quer acreditar. Tenho visto muita gente, votantes do agora chamado “Bloco Central”, falar de Cavaco Silva com um sentimento enorme de nostalgia. Aqueles longínquos anos em que tantas críticas surgiam – como, aliás, surgem sempre – parecem agora estar esquecidos e todos dizem que “se fosse o Professor Cavaco, eu até votava nele”. Curioso que tenha sido também um sentimento de desespero nacional a dar tanto apoio a Salazar, o salvador da Pátria. Já se deve ter reparado que esta Pátria precisa de Juntas de Salvação Nacional com certa regularidade – sejam elas D. Sebastião, Oliveira Salazar, o governo de José Sócrates, segundo as palavras de Mário Soares ao El Pais (jornal do Grupo PRISA), ou a própria.

Outro factor importante de que se esquece a maioria é de que Cavaco, caso tenha decidido concorrer verdadeiramente a eleições, se tornara Presidente da República. Ora, como se sabe, o Presidente da República, como figura política, é apenas um cargo de chefia passiva e controlo ligeiro sobre o poder executivo. O presidente não faz mais do que falar aos portugueses, vetar leis do parlamento quando acha que são inadmissíveis e representar Portugal no estrangeiro, quando convém. Além disso, o Presidente da República serve também para fazer figuras tristes como as de dar medalhas por condescendência ou simplesmente por interesse de divulgação. Como tal, o apoio e toda a conversação que se tem vindo a levantar acerca das eleições presidenciais é completamente irrelevante. Desviam-se as atenções dos problemas reais, preferindo entrar num debate completamente casual acerca de uma banalidade. Não é o Presidente da República que vai salvar o país. Ninguém vai salvar o país.

Eu compreendo que Cavaco Silva queira pensar porque na situação presente, ser Presidente da República é perigoso. Vejamos que o Presidente da República não desempenha cargo de grande importância embora seja o Chefe de Estado – um pouco o resquício republicano dos tempos monárquicos. Então porque se fala tanto no assunto? Não é certamente Cavaco nem o PSD quem monopoliza a questão. Se repararmos, tem sido o PS (e os seus candidatos) a dirigir completamente a questão e até a polémica. E agora surge a notícia, para mim surpreendente, da candidatura de Jerónimo de Sousa.

Analisemos a questão. Há vários meses que as atenções têm sido desviadas do mundo real para que se discutam, como se de uma questão central se tratasse, as eleições presidenciais. Nem sequer o referendo da Constituição Europeia, algo de importância muito superior, promoveu tanta discussão. Após a fuga de Durão Barroso para Bruxelas dizia-se que o PSD estava fragmentado e que tudo o que aconteceu de seguida era inevitável. Manuela Ferreira Leite, a número 2, não substituiu Barroso. Santana Lopes fê-lo sem apoio dos dinossauros sociais-democratas e Marques Mendes foi eleito com muita timidez pelos militantes, que lhe deram simplesmente 56.6% dos votos ao contrário de Sócrates que, no PS, ganhou esmagadoramente com 81,7%. Os comentadores assinalavam que os socialistas, ao contrário dos sociais-democratas, estavam unidos, coesos e tinham uma base coerente para avançar para eleições legislativas.

Ao aproximarem-se as presidenciais notou-se a dificuldade de candidatos da esquerda. Manuel Alegre, como bom revolucionário, está sempre disponível porque afinal “não há donos da república”. Falou-se também em Guterres porque, afinal, os portugueses também já devem ter esquecido os anos de guterrismo e o abandono de Guterres para evitar o pântano político de que falava. Obviamente, Gueterres, que ainda não está em fim de carreira prefere ficar a servir a ONU. O tacho é melhor e tem mais visibilidade. A seguir à Internacional Socialista, considerar ser Presidente da República Portuguesa é um cargo menor e de pouco prestígio – isso ficará para quando Guterres se tornam num dos que andam por aí. Logo surgiu Mário Soares que, obviamente, não perde uma oportunidade para aparecer nas luzes da ribalta. O “pai da democracia portuguesa” acha que os portugueses ainda podem sentir saudades suas o que é, se calhar, é uma grande verdade.

A grande polémica em torno de Soares e Alegre, que pareciam competir pela preferência dos apoios socialistas, dava lugar a uma estratégia de fundo que mostrava os cordelinhos que tentavam manipular nas mentes portuguesas. Soares dizia que a candidatura de Cavaco não podia ser um passeio na Avenida dos Aliados e por isso deu o passo em frente. Alegre indignou-se, mostrando o seu carácter revolucionário de que os comunistas e bloquistas tanto gostam. Se Soares desistisse (referindo a falta de apoios) Alegre seria o tal candidato providencial que uniria a esquerda contra a “direita” (ou aquilo a que a esquerda gosta de chamar de “direita”). Alegre, cujos apoios poderiam vir do Bloco e do PCP, seria igualmente candidato pelo PS, reunindo simultaneamente todos os votos destes partidos. Os candidatos restantes? Freitas do Amaral nunca teria o apoio do CDS depois de se ter juntado ao governo socialista. Resta apenas Cavaco, que reunirá os votos do PSD, do CDS e de muitos dos eleitores do PS que se encontram desiludidos com a actual governação (como se dela se tivesse devido esperar algo de diferente).

A candidatura de Jerónimo de Sousa surge em péssima altura. De Sousa é um candidato que não é um intelectual típico do comunismo e, por isso mesmo, tem o dom de mover multidões pela identificação que, infelizmente, o “proletariado” sente. Um líder simpático, populista, crítico q.b., e extremamente coerente no seio da sua incoerência. Fala de nacionalizações, fala do egoísmo do vil metal e das privatizações inaceitáveis que cedem o poder do povo aos interesses empresariais. Como dizia alguém durante as legislativas, de Sousa é o metalúrgico de camisa, parte do povo, que se engana ao falar, comete erros de apreciação e por isso mesmo demonstra ser falível no discurso. Isso geria simpatia generalizada. No entanto, as duas ideias dificilmente podem ser aceites por grande parte do eleitorado socialista – essa fase, por enquanto, já foi ultrapassada – e a maioria acredita numa versão social-democrata do paraíso social, o “Estado de bem-estar” e não nas revoluções comunistas de Cuba ou nos regimes coreanos, ao contrário do candidato do PCP que facilmente se classificaria como marxista-leninista.

Assim, a extrema-esquerda perde uma boa oportunidade para ficar em silêncio. O PS nunca desistiria de ter um candidato próprio – seja ele Alegre, Soares ou outro – mas o PCP poderia muito bem prescindir de um, coisa que não fez. Os apoios aos candidatos socialistas ficam comprometidos, dividindo os eleitorados do PCP e do BE que, à partida, poderiam apoiar um candidato apresentado por Sócrates.

Para quem dizia que é preciso combater a “direita”, a esquerda, da qual se tem dito muito unida, demonstra a sua fragmentação interna e falta de visão estratégica a longo prazo. O walk in the park de Cavaco Silva parece cada vez mais evidente já que o PSD e o CDS parecem não apresentar mais ninguém. Na verdade, se Cavaco Silva disser “não” será muito difícil arranjar um candidato à altura do colosso Soares.

Contudo, há que louvar a falta de perspicácia da extrema-esquerda portuguesa. Se há que escolher entre mau e pior, que vença Cavaco Silva. Ao menos ganha-se o direito de veto sobre as leis aprovadas pela maioria absoluta do PS, coisa que seria muito difícil tendo Soares nesse mesmo cargo. Felizmente, a esquerda não compreendeu isso e, a menos que haja alguma outra reviravolta (in)esperada, não me parece que a situação se venha a alterar. Isto, se Jerónimo de Sousa não desistir da candidatura como fez contra Jorge Sampaio. No entanto, numa altura tão crítica, qualquer movimento como o de Jerónimo de Sousa causa fracturas no seio da esquerda que a priori se esperava que juntasse forças para derrubar Cavaco.

Ignis Fatuus


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Há certas notícias que deviam ser uma surpresa mas, na verdade, não são. Muita gente dirá, como os jornalistas gostam de frisar, “é o país que temos”, contribuindo ainda mais para uma depressão generalizada que já por si é característica.

Noticias dos últimos dias acerca dos incêndios deixam de fazer sentido. Continuam a lavrar por todo o território. Mais preocupante do que tudo isto parece ser o contentamento dos meios de comunicação nacionais (e das pessoas) ao ver que os internacionais põem os olhos no que está a acontecer. Ainda hoje a minha família me dizia que “os estrangeiros mandaram jornalistas para cá”, com uma espécie de nostalgia nos olhos. É deprimente ver o complexo de inferioridade de toda esta gente. Até os incêndios servem como remédio para a baixa auto-estima, de certa forma. Veja-se o PortugalDiário:

A imprensa internacional tem estado a dar ampla cobertura aos incêndios em Portugal, que mereceram destaque de primeiras páginas em vários jornais e levaram o canal britânico BBC a enviar uma equipa para reportar o drama dos fogos florestais.

Na imprensa britânica, os incêndios que grassam em Portugal são hoje o destaque do dia, com as imagens das chamas a serem constantemente transmitidas pelos três canais de televisão nacionais.

(…)

Na imprensa, todos os títulos já fizeram referência aos fogos em Portugal, tendo o diário Times, um dos jornais de referência com mais audiência do país, suplantado a concorrência com uma reportagem de página inteira publicada segunda-feira com o título "Uma Nação em chamas pede por ajuda para combater as chamas".

(…)

À semelhança do que aconteceu nos últimos dias, o tema dos incêndios em Portugal merece hoje destaque de primeira página em vários jornais nacionais, incluindo o El Pais, que nota em título que "o fogo avança em Portugal", e que afirma, em editorial sobre o tema, que continua a haver muitos fogos em Portugal e Espanha porque "há muitos incendiários soltos".

(…)

O La Razon, por seu lado, marca os fogos com uma imagem de um homem com uma mangueira a combater as chamas, afirmando que Portugal está "preso dos incêndios", tendo sido "forçado a solicitar apoio europeu".

O drama dos fogos em Portugal tem estado a merecer também a atenção dos meios de comunicação social alemães. Os telejornais transmitem frequentemente imagens dos incêndios mais graves, e alguns jornais chamaram o assunto à primeira página.
É o caso do Tagesspiegel, matutino de Berlim, que na sua edição de hoje abre com uma foto de um helicóptero a tentar combater as chamas em Abrantes, sob o título "Portugal está a arder".
(…)

Os telejornais dos diversos canais públicos e privados alemães têm referido sempre a catástrofe dos fogos em Portugal, nos últimos dias, e só as graves inundações na Baviera fizeram o tema passar para um plano mais secundário, desde o fim-de-semana.
Os fogos que castigam Portugal têm sido destacados igualmente nos meios de comunicação social do Brasil, que estão a divulgar a luta travada pelos bombeiros e pela população contra as dezenas de incêndios.
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Que macabro orgulho subliminar é este, presente em todo o texto? É comum ver-se disto. Não é só o PortugalDiário, são os jornais em geral e os canais de televisão que já fazem o mesmo cada vez que Espanha refere assuntos políticos portugueses. De cada vez que Inglaterra fala da Casa Pia ou de cada vez que a Alemanha se digna (diriam eles) a comentar a economia portuguesa. Diziam-me há uns tempos que a NASA tinha publicado fotos de satélite sobre os incêndios em Portugal e depois, sublinhavam – “a NASA!”. Portugal arde de lés a lés mas o facto mais relevante (que serve de consolo para muitos) é o de que o nome de Portugal aparece nas manchetes internacionais. “Falam de nós no El País, hoje!”, “Hoje falaram de nós no Der Spiegel!”, “estava a ver a CNN, acreditas que falaram em nós? Eles disseram Portugal!”. A esta necessidade (e aparente surpresa) adiciona-se a outra necessidade de obter figuras ou ídolos sobre os quais projectar a heroicidade (inconscientemente inexistente) lusitana. Veja-se por exemplo o destaque que o PortugalDiário deu às fotos dos bombeiros que eram usadas pelos outros jornais. Veja-se ainda, como outro exemplo, a festa que se fez em torno de Tiago Monteiro que se transformou num autêntico herói nacional após ficar em 3º lugar numa corrida em que apenas participaram 6 carros. Este tema – da sociologia portuguesa no contexto internacional – é muito longo e ficará, também, para outra ocasião.

Com toda esta atitude surrealista perante os problemas, as notícias quase parecem ser produzidas para criar esse efeito. Os telejornais sensacionalistas da RTP, SIC e TVI que se têm visto desde 2003, o ano em que arderam quase 500 mil hectares, são de deixar uma pessoa revoltada, frustrada e impressionada. Contudo, parece que isto não é só um método de divulgação mas sim um sedativo para a crise (não económica mas) sociológica portuguesa. Em que mórbido país se observaria mais este comportamento? Costuma dizer-se dos franceses, que são chauvinistas e arrogantes mas sinceramente é de duvidar que o Le Monde Diplomatique e o Le Figaro dediquem as suas páginas a falar das referências internacionais que lhes são feitas. Isto é um pouco uma manifestação da síndrome Technorati dos blogues – quando as pessoas já não falam de assuntos que lhes interessam mas sim dos assuntos que comentam aqueles que lhe deram uma ligação – o que revela, na imprensa portuguesa, uma falta de capacidade para dar a conhecer os tópicos que realmente importam. As verdadeiras notícias do que acontece por aí fora nunca chegam a tornar-se bombas sensacionalistas porque já há uma outra síndrome – a de Mitrídates – que permite que as imagens dos incêndios se observem com relativa aceitação e indiferença. Definitivamente, não. O caso português não tem paralelo com o francês. Os franceses falam de si próprios o tempo inteiro porque se consideram os melhores. Se falam dos outros é para criticar (veja-se o caso do sentimento anglo-saxónico, anti-espanhol e, em muitos casos, anti-português) enquanto que os portugueses neste campo são mais paradoxais. Os portugueses falam de si mesmos, através das palavras dos outros, para se convencerem, com muita dificuldade, de que não são inferiores. No caso das referências jornalísticas, de que são dignos de ser mencionados por estrangeiros.

O grande resultado de tudo isto é que as coisas importantes ficam dentro da gaveta, sem se mexer, sem se tocar, dando lugar à continuidade do sistema. Esta incapacidade de mudar transforma-se na própria dinâmica que origina o aspecto kafkiano dos paraísos institucionais em Portugal. São estas incapacidades, aliadas ao tal efeito de Mitrídates, que explicam a continuidade das situações inaceitáveis.

Bombeiros à espera nos quartéis enquanto o país está a arder

Associação afirma que «há bombeiros disponíveis à espera de serem chamados». MAI responsabiliza as autarquias «que devem disponibilizar os efectivos». Bombeiros acusam Protecção Civil de «má coordenação» porque há corporações do Norte a combater fogos no Centro e vice-versa

(…)

O responsável explica que «os sapadores e os bombeiros municipais são da responsabilidade das câmaras, e só podem sair dos quartéis quando chamados pela Protecção Civil e depois de terem autorização dos presidentes de câmara»

(…)

Este domingo, em declarações aos jornalistas, António Costa, ministro da Administração interna afirmou que «a maior carência actualmente no combate aos fogos são os meios humanos», e disse que «o efectivo está esticado até ao limite».

Contactado pelo PortugalDiário, o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC) não quis comentar esta disparidade de posições, afirmou apenas que o ministro da Administração Interna já se tem pronunciado sobre a questão. Ao PortugalDiário, o Ministério da Administração Interna remeteu a responsabilidade para as autarquias, afirmando que «devem ser as câmaras a dizer se há bombeiros nos quartéis, e porquê, já que são elas as responsáveis por estas corporações».
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Outro comentário escandaloso é apontado pelo programa Nós por cá da SIC:

21 de Julho foi um dos piores dias de incêndios em Portugal. Sobretudo no centro do país. Esse foi também o dia escolhido pelo ministro da Administração Interna para sobrevoar os locais mais atingidos e reunir com os comandantes distritais envolvidos no combate aos fogos.
A meio da tarde, desceu em Ferreira do Zêzere, onde lavrava um grande incêndio.

Foi nessa altura que António Costa disse que os meios áereos [sic] não chegavam para as encomendas.
Acontece que o ministro viajou num dos dois helicópteros do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil. Um Bell 212, um dos dois únicos aparelhos que estão ao serviço dos Bombeiros 24 horas por dia, 365 dias por ano, com capacidade para combater fogos.

Ou seja, enquanto era anunciado que o Estado já iria ter de pagar horas extraordinárias para conseguir ter no ar mais meios áereos [sic], o helicóptero dos Serviço Nacional de Bombeiros andava às voltas com o ministro.

Mas tanto o gabinete do ministro como o Serviço Nacional de Bombeiros alegam que se assim foi é porque o helicóptero não fez falta.

É difícil entender que um helicóptero preparado para apagar fogos e que está sempre ao dispor dos bombeiros não tenha feito falta nesse dia. Nesse dia em que, só como exemplo, estava longe de ser controlado o incêndio que começou em Seia e durante seis dias se alastrou a cinco concelhos até ao Fundão.
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Mas entre reis e rainhas da comunicação social, tudo isto passa despercebido. Assim como todas as noticias importantes. Não só passam despercebidas aos meios mas também às pessoas. Aliás, que importa tudo isto se os britânicos, os franceses, os espanhóis, os alemães e até os americanos (!) falam de Portugal? Isso sim, obviamente, é a verdadeira notícia.

Tuesday, August 23, 2005

I, Chip © 1984


O Sistema de Identificação Electrónica de Veículos (SIEV) vai passar a ser obrigatório a partir de 2007, segundo adianta o Jornal de Negócios de terça-feira, citando o secretário de Estado das Obras Públicas e Comunicações.

Paulo Campos, o secretário de Estado, disse ao jornal que o novo sistema pelo qual se introduz a obrigatoridade [sic] do identificador electrónico de veículos vai revolucionar todo o sector, «incluindo a relação dos proprietários com o Estado», refere o artigo.

O SIEV vai permitir que o carro fique registado electronicamente numa base de dados do Estado, além de possibilitar outras aplicações como as que são proporcionadas, hoje, pela Via Verde.
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Confirmação da notícia já referida anteriormente.

“O SIEV vai permitir que o carro fique registado electronicamente numa base de dados do Estado”

Qual é a fixação do governo com bases de dados? (pergunta de retórica)

Entretanto, sem resposta organizada (ou sequer preocupação) dos proprietários, o Big Brother vai estendendo os seus tentáculos. O ano da obrigatoriedade só surge 23 atrasado.

Monday, August 22, 2005

Rebentaram-se-nos as águas

Um artigo publicado pelo Salvador da Biblioteca de Babel levou a minha total concordância. Já todos sabemos que a Península Ibérica atravessa uma "seca extrema". Desde o início do ano que andamos a ouvir esta lenga-lenga através da comunicação social. Digam-nos algo que não sabemos. Grande parte de Portugal situa-se numa zona que é atingida por climas secos e quentes.

Há uns dias recebi pelo correio uma carta da Câmara Municipal de Loures que apelava à redução do consumo da água por parte dos cidadãos. No verso dessa mesma folha encontrava-se um outro pedido relativamente às florestas (coisa que comentarei em breve). Mas que direito pensa ter o Estado (o que inclui as autarquias) sobre as reservas de água e os direitos dos cidadãos em consumi-la? Já todos ouvimos a história de que a água doce vai acabar em X anos (substituir X pelo número conveniente) e já todos sabemos que a água é um bem escasso, caso contrário não seria necessário comprá-lo. Há que relembrar que a economia existe porque os bens não são infinitos.

Surgem as seguintes perguntas inevitáveis:

- Por que razão insiste o Estado em incentivar o consumo da água não liberalizando a sua distribuição?

- Por que razão existe apenas uma companhia com direito a fazer a distribuição da água e por que razão insiste ela em cobrar-me vários impostos sobre o meu consumo?

- Porque tenho que pagar pelo aluguer dos contadores eternamente sem os poder comprar? (estilo “assinatura mensal”)

- Porque insiste o Estado, por apelo aos contribuintes (e gastando o dinheiro dos NOSSOS impostos nas SUAS campanhas publicitárias), em interferir nas nossas vidas ainda mais do que já interfere?

- Quem é o Estado para mandar na quantidade de água que usamos?

- Que autoridade moral tem o Estado para pedir aos cidadãos que reduzam o seu consumo de água quando a SIC tem noticiado vários exemplos de como os responsáveis das autarquias desperdiçam volumes astronómicos de água enquanto rogam aos cidadãos para que a poupem?

(a consultar nestas 3 ligações:

Água: testemunhos

Água: testemunhos (II)

Água: testemunhos (III))

A resposta, mais uma vez, é extremamente simples. Em resumo, o Estado não permite a abertura do mercado da água (algo semelhante ao que já faz com a electricidade e com as telecomunicações). Quando existe água em abundância, o Estado impede-nos de pegar menos devido à concorrência de mercado. Quando existe seca, o Estado impede que o mercado se regule a si mesmo na busca de outras soluções, incentivando o consumo já que os preços se mantêm. Ainda assim, usa o dinheiro que entra nos seus cofres para simultaneamente estimular o consumo, desperdiçar água (como pode ser visto em muitos casos nas fotos) e apelar aos contribuintes para que reduzam o seu consumo “inaceitável”!

Seremos apenas o Salvador e eu os únicos a reparar que aqui existe um culpado evidente que não é o cidadão “egoísta” e com “falta de civismo”?

P.S. - O cidadão "egoísta" e com "falta de civismo" está a pagar pela água que consome. O Estado limita-se a explorar os recursos naturais.

A queda do modelo escandinavo

Mais uma excelente recomendação de Jorge Valín, desta vez sobre o famoso modelo socialista (social-democrata) nórdico.

O modelo do Estado de bem-estar (algo em que Sócrates diz "ainda" acreditar) mostra-se incapaz e insuficiente de se manter. Em inúmeras conversas acerca de política e de socialismo aparece sempre algum pseudo-intelectual que lembra "ah, mas há uma melhor qualidade de vida nos países nórdicos". A verdade é que as receitas geradas costumam ser enormes, como por exemplo no caso da Noruega, devido às actividades piscatórias e à exploração de petróleo mas os preços mantêm-se extremamente elevados devido às limitações do mercado que se fecha sobre si próprio. Dos medicamentos aos alimentos, das bebidas aos serviços, a situação denota um carácter intervencionista e muito pouca liberdade. Os produtos costumavam ser de má qualidade (e caríssimos) havendo simultaneamente muito pouca liberdade de escolha e/ou opções alternativas.

Nos últimos anos, e como referem os textos aconselhados pelo Jorge, evidencia-se uma necessidade de conversão ao capitalismo. A vitória dos factos, mais uma vez, como havia referido anteriormente aqui.

Pero al final, y como bien dice Rojas, el socialismo cae por su propia ineficiencia. El dinosaurio socialista se está despedazando solo.

De facto, os países nórdicos, embora permaneçam com uma carga fiscal e um grande número de "empresas públicas", têm, nos últimos anos, caminhado no sentido da liberalização dos seus sectores. Para mais informação aqui fica a ligação para o pdf (em espanhol) sobre a situação sueca, em particular:



Sunday, August 21, 2005

Dualidade de critérios

Manifestação de extrema-direita dispersada pela polícia



A manifestação da Frente Nacional em Lisboa para homenagear Rudolf Hess - colaborador próximo de Adolf Hitler - foi hoje dispersa pela polícia, causando revolta nos cerca de 50 "cabeças rapadas", que reagiram gritando: "Repressão policial, terrorismo oficial".

Mal os manifestantes de extrema-direita desenrolaram uma faixa de homenagem ao oficial nazi, a polícia obrigou-os a guardá-la, alegando que a concentração não estava autorizada.


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Alguém se lembra de a polícia ter parado as concentrações no funeral do Álvaro Cunhal, um defensor do estalinismo que até se revoltou contra Gorbachev por este querer efectuar a Perestroika? Alguém disse alguma coisa quando se ouviu a Internacional Socialista? Pois, bem me parecia...

Saturday, August 20, 2005

Du iu spique inglixe?

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Recebi ontem esta "coisa" pelo correio. Eu sei que a frase não é minha mas, quem é que este senhor pensa que engana, fingindo que arregaça as mangas para trabalhar?

É preciso ter cá uma lata...

P.S. - Não entendi se estou em Portugal ou Inglaterra. O nome do sítio de Carmona Rodrigues é lisboaparatodos.net mas o postal refere aqui que a Sede de Candidatura se chama Lisboa 4 all. Deve ser a isto que chamam protecção cultural da cidade de Lisboa?

Friday, August 19, 2005

Agarra que é bombeiro!

Menores no combate às chamas

"O Ministério da Administração Interna vai pedir com "urgência" ao Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil uma listagem dos bombeiros que combatem os incêndios. O Governo pretende confirmar se há menores envolvidos, como revela hoje o Jornal de Notícias.

(...)

O Ministério da Administração Interna desconhece a existência de menores em missões de combate a incêndios, segundo o assessor, mas quer agora saber se há violações à lei."
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Perguntas pertinentes:

- Quem é o Estado para decidir quem é menor e quem não é?

- Quem é o Estado para decidir se uma pessoa (menor ou não) não deve combater as chamas? *

- Quem é o Estado para julgar aqueles que o desejam fazer?

- Porque se pode ser preso aos 16 anos mas não se pode apagar um fogo se se for cadete dos bombeiros mesmo que se tenha 17?

- Porque usam os governantes tantas falácias, nomeadamente a de que foi ferida uma rapariga de 15 para justificar as suas acções?

- Hoje morreu um bombeiro de 34 anos. Porque não considera o Estado que os menores de 35 também são menores?

- Porque é um cadete menor considerado um criminoso caso combata as chamas?

- Se um polícia vir um incendiário (que foge) e um bombeiro menor a combater a asneira do pirómano, qual deles deve apanhar? (recordar que o incendiário corre e o bombeiro não – para o polícia mais vale um bombeiro na mão do que dois “criminosos” a voar)

- A pergunta mais pertinente de todas. Por que raio insiste o governo em continuar a desviar as atenções dos verdadeiros problemas? Em plena época de fogos florestais estamos a discutir as ilegalidades burocráticas e surrealistas dos bombeiros menores que combatem as chamas?

Resposta pertinente a todas estas perguntas:

- O Estado é um empecilho. Um entrave ao desenvolvimento e um desrespeitador dos direitos básicos dos cidadãos. Deve ser eliminado.

*que fique bem claro que eu não estou a fazer nenhuma apologia de colocar crianças na frente de fogo. Mas há muita gente com menos de 18 anos que tem mais consciência e sentido de responsabilidade de do que outros com o dobro da idade deles. O Estado apenas contribui para etiquetar toda a gente, tratando-os como se fossem ovelhas e não como indivíduos. A responsabilidade destes assuntos pertence aos próprios menores, aos seus pais e às entidades contratadoras, não ao Estado.

Thursday, August 18, 2005

O mistério espanhol

É com uma espécie de espanto que continuo a ver comentários deste estilo por parte de pessoas que deviam saber, na melhor das hipóteses, as razões que justificam o que dizem. Veja-se um dos últimos artigos de opinião de Sérgio Figueiredo, director do Jornal de Negócios.

Espanha está a funcionar

Que fique claro que concordo com a maior parte do artigo e o próprio Sérgio Figueiredo aponta várias coisas que destroem alguns “mitos” na sociedade portuguesa. Veja-se por exemplo o de que Espanha fecha os seus mercados.

Enfim, não é por acaso que a Espanha está como está e Portugal fica para trás. Os espanhóis estão a construir o futuro da energia e os portugueses olham para trás. A dinâmica espanhola capta investimentos estrangeiros, enquanto a demência lusitana os está a afastar.

Afinal quem é que fecha os mercados? Aconselho essas pessoas a observar melhor o que se passa no mercado espanhol. E, se certos empresários portugueses continuam a crer que foram colocados de fora do mercado espanhol, que entendam que o mercado espanhol é uma coisa competitiva ao contrário do português, que por sua vez se assemelha mais a uma coisa monopolizada (veja-se a energia, as telecomunicações e outros serviços). Logo, os seus serviços de qualidade inferior, que impingem aos portugueses sem que eles reclamem, (esta questão discutirei mais tarde) simplesmente não servem do outro lado da fronteira. É claro como água. Os espanhóis são mais exigentes. Por isso é que vivem melhor. Mas voltemos ao texto e àquilo que me deixou surpreso.

No referido artigo, Sérgio Figueiredo afirma o seguinte:

Este jornal foi o primeiro a criar uma secção fixa e diária sobre Espanha. A intenção era a mesma de todas as secções, de todas as notícias, de todas as linhas publicadas: informar. Colocar os portugueses mais a par dos factos mais relevantes que acontecem aqui ao lado. A secção existe. Mas com outro resultado indesejado. Deprime. Zapatero não é melhor que Sócrates. Mas Espanha está a funcionar.

Sérgio Figueiredo não faz, obviamente, um proselitismo do socialismo mas, no entanto, atreve-se a falar em personalidades socialistas e a compará-las. Implícito poderá estar o facto de que Zapatero é um liberal, ou seja, de que deseja manter uma economia de mercado. Zapatero, como todos os socialistas da época moderna (e também muitos governantes do passado) sabem os resultados das políticas económicas e o que é melhor para as pessoas. No entanto, defendem algo completamente oposto apenas com o intuito de aumentar o seu poder a custo dos outros. Zapatero ameaça com uma reforma fiscal que em Espanha faz tremer. Só Deus sabe (e talvez nem Ele, se existir) o que poderá vir a seguir. No entanto – e é neste ponto que falha Sérgio Figueiredo por omissão – Espanha funciona. E porque funciona Espanha? As razões são simples e explicadas apenas numa citação do antigo presidente do governo, José María Aznar.

“Cuando los gobiernos son austeros, las sociedades son prósperas.”

E aqui ficam algumas razões, explicadas pelos próprios economistas espanhóis na Libertad Digital, desse funcionamento da economia espanhola. Dessas razões destaco as que considero mais importantes:



“3º. El actual gobierno ha tenido la prudencia de no cambiar los fundamentos del éxito económico del PP: ha conservado los mismos impuestos, el mismo gasto público en relación al PIB, la misma legislación fiscal, mercantil y laboral, e incluso el mismo tamaño del sector público empresarial.


4º. Los tipos de interés tampoco se han modificado en este periodo. Los consumidores y empresas españolas disfrutan de los menores tipos de interés del área euro; son también menores que los de los países europeos que han conseguido librarse del euro –excepto Suecia–, como el Reino Unido y, por supuesto, son más bajos que en Estados Unidos y el resto del norte y sur de América. Sólo el estancado y deflacionado Japón nos supera, pero allí los bajos intereses son fruto de la depresión colectiva que atenaza a la población.


(…)


6º. Las empresas españolas establecidas siguen teniendo altos beneficios, como resultado de una serie de factores: la fortísima demanda interna, los años de crecimiento acumulados, los bajos costes financieros y la modernización que han llevado a cabo, que no se refleja en el aumento de la productividad, quizá porque la demanda interna se concentra en bienes y servicios no sofisticados, como viviendas y su amueblamiento, automóviles y todo tipo de bienes y servicios relacionados con el turismo. Y lo más avanzado se importa. Pero las empresas españolas establecidas consiguen altos márgenes de beneficios por la distribución y comercialización de todo tipo de bienes y servicios, nacionales e importados, de alta, baja y media tecnología.


7º. La globalización: que nos ha permitido disfrutar del crecimiento de la economía mundial desde hace años, pero especialmente a partir de 2002 y, en concreto en 2004, un año en el que el PIB mundial creció el 5%, sin el filtro tradicional de los países con los que más comerciamos. Es verdad que los países de la Unión Europea siguen significando el 70% de nuestro comercio exterior, pero también lo es que en un mundo globalizado todos los países se relacionan entre sí, además de a través de las uniones económicas regionales, como la Unión Europea. Vendemos a todo el mundo a través de nuestros principales socios comerciales e importamos de todo el mundo también por su intermediación. Por eso nos afecta poco el estancamiento de las principales economías europeas.”


Sérgio Figueiredo devia saber coisas como estas melhor do que ninguém – afinal foi ele quem teve o privilégio de entrevistar Aznar há poucos meses. Na altura pespegou-lhe com a pergunta típica, de mau gosto, relativamente à EDP e à Hidrocantábrico que ainda hoje fere as susceptibilidades portuguesas. O que as pessoas não compreendem é que Aznar estava a tentar proteger a liberdade do mercado e que, sendo assim, apenas há que respeitá-lo pela sua preocupação.


Contudo, algumas mentes portuguesas (nacional-)socialistas não se cansam de fazer observações julgando que tudo isto é uma questão de soberania autoritária e de hipocrisia daqueles que defendem a economia de mercado e depois o fecham, segundo esses mesmos críticos, quando lhes é apropriado. Apenas deixam transparecer que não compreendem a essência do que é o liberalismo já que defendem a existência de monopólios no seio da economia. A adicionar a estes que defendem o estatismo e a existência de monopólios (nem que sejam privados) juntam-se aqueles que não querem o MIBEL porque os concorrentes serão espanhóis. Ainda se queixam os portugueses de que são discriminados no estrangeiro. Há muita gente que devia olhar-se primeiro ao espelho antes de criticar os outros por actos de xenofobia.

Wednesday, August 17, 2005

Rendição aos factos

Já é sabido que a China criou "zonas especiais" para o investimento estrangeiro – impostos reduzidos e outros eventuais benefícios fiscais. Já se sabe também que a China decidiu não tocar em Hong Kong nem em Macau. Na verdade, Hong Kong, é citado muitas vezes como o país onde existe maior liberdade económica no mundo. Isto não é apenas do interesse de Hong Kong (que fez questão em manter a sua liberdade económica aquando da mudança da soberania) como da própria China comunista que sabe muito bem quais os diversos resultados das receitas financeiras. Agora, uma notícia do Público vem dar conta de mais uma vitória do capitalismo (pela evidência) sobre as ideologias que continuam a reinar.

Banco central da China permite acesso de empresas a mercados cambiais

"O banco central da China anunciou hoje que as maiores empresas do país podem negociar directamente nos mercados cambiais e revelou algumas das moedas estrangeiras do cabaz a que a moeda chinesa (yuan) se encontra indexada

(...)

O novo sistema acabou com o câmbio fixo entre o yuan e o dólar, que vigorava desde 1997, instituindo um regime cambial mais flexível, mais baseado na oferta e na procura do mercado, passando a haver uma referência em relação a um cabaz de moedas.

(...)

Segundo os analistas, estas decisões constituem pequenos passos da China no sentido de um sistema de economia de mercado, no seguimento do que tem sido feito nas últimas duas décadas."

---

Já Milton Friedman referia esta vitória dos factos, sobre as ideologias em que as pessoas ainda querem acreditar, no seu famoso artigo publicado no Wall Street Journal em 2004. Um artigo importante.

The Battle's Half Won

"At the end of the war, opinion was predominantly collectivist. Socialism—defined as government ownership and operation of the means of production—was seen as both feasible and desirable. Those few of us who favored free markets and limited government were a beleaguered minority.

In subsequent decades opinion moved away from collectivism and toward a belief in free markets and limited government. By 1980 opinion had moved enough to enable Ronald Reagan to win the presidency on a quasi-libertarian agenda.

(...)

To summarize: After World War II, opinion was socialist and practice was free market; currently, opinion is free market and practice is heavily socialist. We have largely won the battle of ideas (though no such battle is ever won permanently); we have succeeded in stalling the progress of socialism, but we have not succeeded in reversing its course. We are still far from bringing practice into conformity with opinion.

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Se preferirem (ou vos der mais facilidade), o artigo encontra-se também publicado em castelhano na Ilustración Liberal.

Tuesday, August 16, 2005

Militares nos colonatos

Dois terços dos colonos permanecem em Gaza


Dois terços das famílias de colonos residentes na Faixa de Gaza continuam nas suas casas quando faltam menos de dez horas para as forças israelitas começarem a desalojá-las à força, a partir das 00:01 locais (22:00 em Lisboa).


(...)


A evacuação dos colonatos da Faixa de Gaza começou oficialmente às 00:01 de segunda-feira, com todos os que recusaram partir voluntariamente até então a receberem ordem do exército para sair, sob pena de serem retirados à força a partir de quarta-feira.

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Fica a "leve" sensação de que "talvez" o exército e os meios policiais do Estado não sirvam para proteger os cidadãos? Apesar de serem financiados pelos habitantes de Israel (ou aquilo que ainda é Israel) o exército está a efectuar uma protecção das directivas tomadas pelo Estado o que, neste momento, confronta os interesses pessoais daqueles que viveram toda a sua vida na faixa de Gaza, onde têm igualmente as suas propriedades.

Porque confiam sempre as pessoas nos militares? Já se reparou que, de acordo com os seus estatutos, obedecem sempre ao Estado e não às pessoas. Chamam a isto "serviço à Pátria"?